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Full text of "Dicionário dos animais do Brasil"

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dioionArio * 

DOS 

AIMIMAIS DO BRASI 



RODOLPHO VON IHERING 



* : .....%••••• •.■•...: t 



SÃO PAULO 

19 4 0 



,SciELa 



10 11 12 



ERRATA 



Na pg. 31, leia-se: Platy helmintos 



Na pg. 52, leia-se: 



Synphylos 




Paurópodes 

Na pg. 54, leia-se: 

Isópodes 

Baratinha da praia 

Amphípodes 



Saltão 




o 



IIODOLPHO VON IHERIIVG 



Um grande golpe para a Directoria de Publicidade 
Agrícola — o súbito desapparecimento de Rodolpho 
von Ihcring! 

Scientista, escriptor, discípulo fiel da Natureza, elle 
foi, em vida, digno herdeiro de um nome illustre. 

Em 1927, encontrando-o em vacância, fóra do ser- 
viço publico, a Directoria de Publicidade Agrícola teve a 
ventura de promover e conseguir a sua volta. E assim 
poude elle reencetar, no posto de Redactor Technico, a 
auíi util e brilhante actividade de scientista e divulgador 
emérito. Dentre os seus primeiros trabalhos muito se 
destacaram os que versavam sobre piscicultura, matéria 
que era entiío quasi uma novidade para o nosso meio. Po- 
deríamos mesmo dizer, sem nenhum exagero, que Rodolpho 
von Ihering foi, cm São Paulo, o verdadeiro precursor da 
moderna piscicultura — a que nos ensina os meios práticos 
e racionaes de obter a multiplicação artificial e scientí- 
fica na criação dos peixes. Nomeado, annos depois, para 
o Instituto Biológico e, em seguida, para outros impor- 
tantes cargos e commissões, von Ihering, até o dia do seu 
passamento, fazia ainda parte do quadro dos collabora- 
dores technicos da Directoria de Publicidade Agrícola. 

O illustre extincto allíava á sua solida cultura, adqui- 
rida em famosas Universidades européas, — um talento 
didáctico sui genertH, a que um cstylo, agil e elegante, em- 
prestava singular realce. Tinha personalidade e effi- 
ciencia. 

Não será jamais esquecido, porque serviu e amou o 
Brasil, exemplarmente, como scientista e como patriota. 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 : 



2 - 

Editaníio e lançando agora o seu apreciado "Diccio- 
nario dos Animaes do Brasil", que durante longos annos 
abrilhantou o nosso Boletim de Agricultura, a Directoria 
de Publicidade Agrícola se sente devéras commovida ao 
contemplar a sua ausência neste dia que para elle e para 
todos nós seria um dia de festa e alegria ! 

Mas não importa. Rodolpho von Ihering era um des- 
ses espíritos que sobrevivem. As sementes que lançou, a 
mãos cheias, vão dar fructos e estes vão reverdecer inde- 
finidamente, pelos annos afóra. 

Si assim é, na realidade, porque consideral-o ausente 
e inanimado, si aqui mesmo, dentro destas paginas, elle 
ainda falia e ensina como outrora, si ainda vibra e vive 
com a mesma alma e com o mesmo fulgor? 



MÁRIO de: SAMPAIO PERRAZ 

Pela Directoria de Publicidade Agrícola 



São Paulo, Véspera do Natal, 1940, 




INTRODUÇÃO 



Euso bastante generalizado ser o autor de um livro 
o primeiro a desfazer-lhe os méritos — e deve ha- 
ver pelo menos alguns que o façam por verdadeira 
modéstia. Nós, faremos justamente o contrário. 

Demonstrada a necessidade da elaboração de um Vo- 
cabulário zoológico, mais facilmente encontraremos ex- 
cusa para nosso arrojo, dando à publicidade o que está 
longe de ser o que o título adotado deveria abranger. 
Já em 1914 havíamos permitido a impressão de uma edi- 
ção preliminar, do que considerávamos apenas o esque- 
leto da obra planejada. Com todas as suas deficiências 
foi aquele esboço, ainda assim, bem recebido pelos in- 
teressados, tais como médicos, higienistas, professo- 
res e agricultores, aos quais convinha semelhante 
arranjo prático para consultas; também aos caçadores 
e amigos da natureza em geral, parece que agradou a 
explicação zoológica ou teórica do que já sabiam pela 
observação da no.ssa fauna ou do que procuravam conhe- 
cer mais detalhadamente a respeito da nossa "bicharada". 
Certos, pois, de que faríamos trabalho útil a uns, agradá- 
vel a outros, tencionávamos prosseguir na elaboração final 
do manuscrito, quando a grande guerra, em uma das suas 
mais curiosas consequências, sob forma de guerrilha de 
intrigas e mentiras, nos obrigou a dar por finda nossa 
dedicação ao Museu Paulista. 

Daí por diante só nas horas de lazer e a título de re- 
creação intelectual pudemos, lentamente, avolumar e reto- 
car o Dicionário. No entanto vai uma diferença sensível 
entre a edição preliminar e a que hoje apresentamos. Du- 
plicámos o número de vocábulos coligidos e extendemos o 
texto, de forma a conter cada definição pelo menos o es- 
sencial, referente à biologia de cada espécie mais conheci- 
da ou mais interessante. 

Esta última afirmação requer desde logo uma explica- 
ção, que corresponderia ao enunciado da norma adotada 
para a elaboração do livro. A essas normas nos referire- 



mos mais adiante, porque, antes de tudo mais, queremos 
desobrigar-nos de um dever de gratidão, o qual ao mesmo 
tempo nos proporciona o vivo prazer de saudar os muitos 
amigos que coadjuvaram, de vários modos, na elaboração 
do presente trabalho. Revendo o manuscrito, apontando 
lacunas e falhas, fornecendo-nos dados valiosos e fran- 
queando-nos suas bibliotecas, auxiliaram-nos eficazmente 
os Snrs. dr. Arthur Neiva, Prof. Lauro Travassos, drs. 
Cesar Pinto, Jesuino Maciel, Prof. Franco da Rocha f, 
J. Carlos Macedo Soares, Alarico Silveira, Amadeu Ama- 
ral t. Benedicto Calixto f (S. Vicente), Francisco Dias 
da Rocha (Ceará), Diógenes Caldas (Baía), Wilson da 
Costa t (Maranhão), Cleômenes Campos, Aroaldo Aze- 
vedo. 

Aos professores E. Marcus e P. Sawaya, da Faculda- 
de de Ciências da Universidade de S. Paulo, somos gratos 
pela prestimosa cooperação.. 

Ao eminente embaixador Macedo Soares devemos re- 
novar os agradecimentos pela generosa oferta dos dese- 
nhos, os quais, tendo ilustrado nosso "Atlas da Fauna do 
Brasil" (1916), agora figuram novamente no presente 
trabalho. 

Ao prezado colega dr. Arthur Neiva, especialmente, 
devemos não só valioso auxílio material, como ainda pa- 
ciente colaboração, que muito aumentou nossos conheci- 
mentos a respeito da fauna e da nomenclatura baiana e do 
Nordeste. Nos "Boletins de Agricultura" de 1931 a 38, edi- 
tados pela Diretoria de Publicidade Agrícola da Secretaria 
da Agricultura, o respectivo chefe, Dr. Mário de Sampaio 
Ferraz, nos deu acolhida, imprimindo parceladamente nos- 
so trabalho e agora é ao mesmo amigo que devemos a reu- 
nião dêsses 8 fascículos em um só volume. Ao Dr. Paiva 
Castro, a princípio como funcionário da mesma Direto- 
ria e ultimamente como diretor Geral e Secretário de Es- 
tado, interino, êste livro deve também bons serviços e 
assim a ambos, bem como a vários outros funcionários 
da mesma Secretaria exprimimos nossos melhores agra- 
decimentos. E, mais do que tudo isto, nos foi precioso o 
constante interêsse com que todos êsses amigos acompa- 
nharam nosso trabalho, encorajando-nos a ponto de nos 
fazer crêr na utilidade do mesmo, quer como serviço 
aproveitável para quem se ocupa de brasileirismos, quer 
como elemento de propaganda entre os nossos patrícios, 
em prol da difusão do amor aos estudos biológicos. 

Ao nosso assistente Alcides Lourenço Gomes, deve- 
mos não só a revisão do manuscrito com relação à orto- 



— 5 — 



4 

grafia oficial, como a leitura das provas e a organização 
dos índices. 

À dedicada colaboradora, Srta. Dora Azevedo yon 
Ihering, que durante longos anos nos prestou seu auxílio, 
nossos agradecimentos pela trabalhosa assistência. 



Ficámos por longo tempo indecisos quanto à feição 
que deveríamos dar ao texto explicativo deste Vocabulá- 
rio, cuja utilidade, no entanto, se nos afigurava evidente, 
dada a escassez de melhores fontes literárias para o es- 
tudo da nossa zoologia por parte do leigo interessado. 

Não nos propúnhamos fazer trabalho zoológico que 
encerrasse todos os dados até hoje colhidos pelos cientis- 
tas, com relação a cada espécie descrita da nossa fauna. 
Nem queríamos ir ao outro extremo, que seria a transfor- 
mação do livro em um simples manancial de informações 
curiosas, ainda assim interessantes para o amigo das coi- 
sas de biologia. Pareceu-nos mais útil escolhermos um 
meio têrmo, com o qual não deixaríamos de abranger as 
informações científicas essenciais, referentes à classifica- 
ção e que, ao mesmo tempo, proporcionaria ao leitor, ape- 
nas curioso, um' quadro bastante claro, para lhe permitir 
a identificação da espécie, já sua conhecida pela denomina- 
,ção vulgar. 

Esta última, em todo caso, sempre deverá servir de 
ponto de partida para a consulta, pois que não é possível 
levar o leigo à identificação da espécie, nem pelo caminho 
das extensas monografias, nem obrigá-lo à consulta de ta- 
belas ou chaves analíticas, áridas e sempre de uso difícil. 
Mas é justamente êsse o ponto mais fraco da nos.sa orien- 
tação seguida: o valor taxonômico da denominação vulgar 
das nossas espécies zoológicas. 

Quem nunca saiu das cidades, quasi não conhece aque- 
le vocabulário e assim, em se ti-atando de nomes menos 
correntes, dificilmente acertará com a espécie, a respeito 
da qual procura elucidação. O homem da roça em geral 
familiarizou-se com os nomes das plantas e dos animais 
que o cercam e nos casos não muito especializados, quasi 
sempi*e sabe aplicá-los bem; mas, em última análise, é 
êste sempre um vocabulário regional, isto é, certo quando 
aplicado à sua região, mas deficiente ou mesmo errado 
quando usado em outros Estados do nosso vastíssi- 
mo país. Expliquemo-lo à mão de alguns exemplos. 



— 6 



Tanto no Rio Grande do Sul como em São Paulo usa- 
se o mesmo vocábulo para designar certo passarinho; po- 
rém o zoólogo verifica que se trata, de fato, de duas espé- 
cies distintas do mesmo género e que diferem apenas por 
ligeiras nuances de colorido. Para o povo, efeti vãmente, 
trata-se da mesma ave e, portanto, é justo que também o 
nome seja o mesmo; mas o nome científico difere na de- 
signação específica. Claro está que neste vocabulário 
não é possível salientar sempre tais diferenças de some- 
nos importância, pois assim nem mesmo uma série de vo- 
lumes abrangeria a matéria tôda. 

Mas, na Baía, outra espécie do mesmo género, tam- 
bém muito semelhante, e que ])ortanto poderia ter o mes- 
mo nome _ vulgar, é conhecida por nome muito diverso. 
Não vai nisto grande inconveniente, pois uma nota expli- 
cativa nos dois vocábulos põe o consulente ao par dessa di- 
versidade de nomenclatura vulgar. 

Acontece, porém, que na Amazónia o mesmo nome 
usado no Sul, é aplicado a um passarinho muito diverso e 
que não compartilha com aquele nem mesmo afinidades 
genéricas. Tais casos, aliás, são frequentes, e o peor é 
que para êles não há solução, porque o nome dado pelo 
povo não muda ; no entanto, são êles a causa de muitos en- 
ganos e a origem de controvérsias pseudo-científicas, 
como já as registrámos repetidas vezes em nossa litera- 
tura zoológica e botânica. 

Acresce, ainda, que certas espécies têm um elevado 
número de nomes locais, tornando-se difícil reconhecer 
qual dêles deve ser preferido como o mais generalizado; 
ou então, a pronúncia local deturpa de tal modo a forma 
original, que a muito custo se consegue estabelecer a iden- 
tidade e, si a etimologia não fôr clara, também nestes ca- 
sos é difícil optar por esta ou aquela pronúncia (Jaritata- 
ca - Maritataca), (Marandová - Mandorová). 



Valor descritivo do nome vulgar 

Qual é o valor descritivo do nome vulgar, ou \mv ou- 
ti-a, até que ponto coincide esta determinação vulgar com 
a sistemática científica? 

Pondo de parte o erro a que se está sujeito, ao cônsul- • 
tar um caipira ou tabaréu, ora bom observador e inclinado 
à caça, ora bronco e indiferente a tudo, pode-se dizer que 
o verdadeiro matuto, digno descendente do índio, conhece 
bem a fauna e a flora de sua região, no que diz resjjeito 



— 7 — 



às espécies que o intei"essam mais de perto. Assim, a 
boa caça, de pêlo ou de plumas, êle a distingue, espécie, 
por espécie, perfeitamente; mas os ratos do mato ou os 
morcejíos, dos quais há uma grande vai'iedade, êle reúne 
todos sob uma denominação genérica, por uma razão mui- 
to simples: trata-se de "bicho atôa". Os passarinhos, da 
mesma forma, só têm cada um o seu nome, quando são ti- 
pos característicos ou bons cantores, que mereçam ser en- 
gaiolados; os numerosos Forviicariideos do mato, tão 
úteis como catadores de insetos, são englobados, às deze- 
nas, como "Pichororés", simplesmente. As serpentes pe- 
rigosas e as cobras maiores têm cada uma seu nome; mas 
sob "Cobra cipó" ficam reunidas todas as cobras tímidas, 
inofensivas, mais ou menos esverdeadas, entre as quais no 
entanto, o zoólogo reconheceu pelo menos uma dúzia de 
espécies. Os quelônios comestíveis são bem diferenciados 
na nomenclatura usada na Amazónia, onde êstes répteis fa- 
zem parte da boa caça. Entre os batráquios só a desco- 
munal "Untanha" logrou nome especial; os demais, uma 
centena de espécies, mereceram apenas os coletivos "sapo" 
e "rã" (ou "cururú", "gia" e "perereca", que são puros 
sinónimos, de origem tupi). A nomenclatura ictiológica 
é assaz curiosa. Como o zoólogo, o pescador vc-se aturdido 
com a grande, imensa variedade de pescado e é aqui mais 
do que em qualquer outro grupo da nossa fauna, que obser- 
vámos a diversidade de nomes empregados com relação à 
fauna fluvial na Amazónia (inclusive boa parte de Goiaz 
e Mato Grosso), no chamado Nordeste (Maranhão até a 
Baía) e no Sid ou Brasil meridional. Com menos rigor, a 
nomenclatura dos peixes do mar difei-e apenas entre o 
Norte e o Sul. Por outro lado não deixa de ser curioso 
que sob os três nomes: "Bagre", "Mandí" e "Jundiá", 
aliás confluentes na acepção, sem limites certos entre si, 
o pescador reúna seguramente mais de 50 espécies. Da 
mesma forma "Cará" (ou "Acará") é uma verdadeira 
"gaveta de sapateiro", pois o mesmo vocábulo, unido a 
qualquer outro qualificativo, quasi sempre referente à 
côr, ao tamanho ou ao feitio, designa um sem número de 
peixes do mar ou da água doce, pertencentes às mais va- 
riadas e heterogéneas famílias; assim, cada vez mais ge- 
neralizado, tornou-se quasi sinónimo de pirá (peixe). 

Tudo isto revela que o pescador é muito menos obser- 
vador que o caçador, o que aliás coincide com os seus ardis 
no trabalho. O prolóquio: "Tudo que cai na rêde é 
peixe", define a pescaria; ao contrário, o verdadeiro ca- 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



çador mata o cão que se desvia do rasto, que lhe foi indi- 
cado, para ir levantar caça diferente. 

Passando aos Evertebrados, os quais, numericamente, 
contribuem talvez com o décuplo para a lista das espé- 
cies da nossa fauna, verificámos, a i)onto de parecer incrí- 
vel, uma pobreza extrema do vocabulário usado pelo povo. 
Borboleta, besouro, gafanhoto^, são denominações equi- 
valentes aos nomes de ordens zoológicas e apenas uma ou 
outra espécie, pela sua nocividade ou extravagância, lo- 
grou fama tal, que o povo se viu na contingência de lhe 
aplicar nome especial. Abrem exceções apenas as formi- 
gas, abelhas e poucas outras ordens, cuja diferenciação es- 
pecífica se impoz. Com relação às abelhas, cumpre salien- 
tar a meticulosa classificação a que procederam os selva- 
gens, de modo que pudemos enumerar cêrca de 70 vocábu- 
los referentes aos Meliponídeos; isto devido ao fato de se- 
rem os nossos selvícolas, tanto o aborígene como o cabo- 
clo, seu descendente, grandes apaixonados pelo mel, aliás 
tão fácil de extorquir às nossa.s abelhas inermes. 

Origem dos vocábulos 

Como se verifica facilmente, pela simples inspeção 
da lista dos nossos vocábulos zoológicos, parte destes é 
de origem tupi. Nem podia deixar de ser assim. O por- 
tuguês, entrando em contato com a nossa fauna, serviu-se 
do indígena para indagar da nocividade, da utilidade e dos 
hábitos em geral dos animais que aqui ia encontrando, 
quasi todos de aspeto extranho; e o índio, juntamente com 
a biologia, ensinava-lhe os nomes pelos quais diferenciava 
as espécies. 

Úm ou outro animal, pela sua tal qual semelhança 
com a espécie congénere europeia, recebeu nome igual ao 
do seu representante transatlântico. Mas nestes casos, 
muitas vezes, a zoologia do povo armou ciladas ao cien- 
tista, dificultando-lhe a tarefa com homónimos, hoje aliás 
tão arraigados, que será inútil qualquer esforço para re- 
tificar, no vocabulário brasileiro, o êrro zoológico (Cor- 
vo = Urubú; Raposa = Gambá; Tigre = Onça, etc). 

Outra parte do nosso vocabulário é de origem cabo- 
cla, e não raro o mestiço utilizou-se, conjuntamente, dos 
dois idiomas de seus antepassados, jjara formar a denomi- 
nação adequada (Iruçú-mineiro; Guaiuimbí da mata vir- 
gem; Anú branco, etc). 

Em muito menor número são os vocábulos de origem 
africana (Camondongo, Marimbondo, etc). 



9 — 



E' frequente terem cabido dois nomes à mesma espé- 
cie, um de origem portuguesa, outro tupi, mas muitas ve- 
zes um dêles caiu em desuso. Assim ninguém mais conhece 
o "dourado" pelo seu nome indígena, "pirajú", que aliás 
se vê mencionado em escritos antigos. 

Na Amazónia só os letrados empregam o termo por- 
tuguês "vespa"; lá o povo conhece êsse inseto pelo nome 
indígena "caba", enquanto que no Sul êste radical sobre- 
viveu somente nas palavras compostas: "cassununga" 
(caba cininga) ou "beijú-caba". 

O estudo mais detido desta questão mostra que tais 
preferências evidenciam a diferenciação de zonas geográ- 
ficas e neste sentido podemos reconhecer três grandes re- 
giões: a Amazónia, o Nordeate, às vezes com extensão, ao 
sul, até o Est. do Espírito Santo incluindo às vezes também 
parte do litoral fluminense e o liraail meridional a partir 
do Est. de São Paulo e incluindo Minas Gerais. Desde já 
devemos assinalar que a Baía poderia quasi figurar como 
uma subregião distinta, que ora apresenta peculiaridades, 
ora se liga ao Nordeste, ora ao Sul. Bem típica é neste 
sentido a nomenclatura do grande marsupial que o portu- 
guês apelidou erroneamente "raposa" e que é conhecido 
por: "mucui*a" (na Amazónia), "timbú" e "cassaco" (no 
Nordeste) "sariguê" (na Baía) e "gambá" (no Sul). 
Míis o baiano conhece por "curimã" (como o nordestino) 
o peixe que no Sul é "tainha" e também são "tainhas" na 
Baía, como no Nordeste, os mesmos Mwjil não listrados, 
para os quais o Sul manteve o nome indígena "parati". 
Confirmam ainda essa ligação da Baía ao Nordeste os no- 
mes "camorim" (robalo do Sul), "cururú" (.sapo no Sul) 
"carriça" (corruíra) e outros. 

O estudo dos sinónimos de "zorrilho", "piolho de co- 
bra", "camondongo" e os complicados grupos "jabiru" e 
"chopim" talvez esclareça ainda melhor essaj distinção de 
regiões e as afinidades das subregiõcs, assunto êste que 
ultrapassa de longe as finalidades desta breve introdu- 
ção (*). 

Não nos animámos a incluir também, em no.ssa tare- 
fa, a exiDlicação etimológica de todos os vocábulos; é tra- 
balho a parte, que antes compete ao filólogo. Contudo 
advertimos a quem o fizer, que é perigoso explicar o nome, 
sem conhecer bem as peculiaridades da respectiva espécie, 
pois, guiado apenas pelo som da sílaba, o etimólogo, :io 
decompor a palavra, facilmente interpretará o sentido 

(•) K. V. IhoriiiR, Ensaio Ko{.|?rfiri«>. ctc. "Rbv. Braa. de Gcogr." Ano I-N. 3. 



10 



como i*eferente a qualificativos contrários à ecologia, ao 
aspeto ou à côr da espécie em questão, quando o índio tim- 
brava em salientar, na denominação, os traços caracterís- 
ticos do animal designado. Neste sentido lembraremos 
que Barbosa Rodrigues, em sua análise dos nomes indíge- 
nas das plantas, recrimina ao seu "finado amigo Baptista 
Caetano" (Vocabulário guarani, An. Bibi. Nac. Vol. VII, 
1880), ter o mesmo interpi-etado o nome da "herva tos- 
tão", tangarâcaá como "herva de pêlos ásperos", quando 
êsse vegetal absolutamente não tem pêlos. . . (a boa etimo- 
logia seria: herva fresca para o figado). E nós, abrindo 
a mesma obra de Baptista Caetano, duas páginas adiante 
(pag. 480) secundámos a queixa, do ponto de vista zooló- 
gico, quando o nome da "formiga correição": "taóca", é 
explicado como: "to-og — a que tira folhas?" quando 
essa formiga absolutamente não corta folhas, por ser ex- 
clusivamente carnívora, o que sem dúvida era do conhe- 
cimento dos índios. Martins assinalou o rumo a seguir 
nestas investigações e seu digno sucessor, dr. Theodoro 
Sampaio, estabeleceu de vez o paradigma com seu pre- 
cioso livro, "O Tupy na Geographia Nacional". 

Como diz o próprio nome dado ao livro, preocupava 
o falecido mestre em especial á elucidação dos nomes geo- 
gráficos ; ainda assim, porém, ou por isto mesmo são abun- 
dantes os nomes referentes à nossa fauna. E êstes, como 
acabámos de dizer, requerem a colaboração do zoólogo. 

Repassando neste sentido a obra de Th. Sampaio, ti- 
vemos a corrigir numerosos erros e sugerir que fosse 
procurada outra etimologia pai-a tais i)alavras em que a 
interpretação dada não concorda com o significado (*), 
Como então o assinalámos, pudemos verificar que Rodol- 
pho Garcia em "Nomes de Aves em língua Tupi" fôra 
mais criterioso na análise de etimologias dúbias, pois que 
em seu trabalho não encontrámos contradições como as 
que acima assinalámos. 

Grafia dos nomes vulgares 

E' tão variável a pronúncia de boa parte dos vocábu- 
los aqui registrados, que muitas vezes nos vimos embara- 
çados na escolha da grafia sob a qual deveríamos dar a 
descrição da respectiva espécie. 

Guiámo-nos, o ((uanto possível, pela etimologia do 
vocábulo e assim, entre "Arapuá" (Brasil sept.) e "Ira- 



(•) U. V. Ihinnií — U"l- Mu». Noe. vol. XI, Nos. 3 c 4. 



11 



puã" (Brasil merid.) demos preferência à última forma, 
que é exatamente a reprodução da pronúncia guarani: 
Ira (abelha ou ninho de abelha) puan (redondo, esféri- 
co) ; trata-se, de fato, da mais comum das poucas espé- 
cies de abelhas sociais que constroem ninhos não abriga- 
dos em cavidades, porém livres, em forma de grande bola. 
Entre "Aribú" e "Urubú", do mesmo modo, devíamos 
preferir a forma mais etimológica (uni — ave e bíi — 
pi'eta) . 

Às vezes, porém, é mais coi-rentía uma pronúncia vi- 
sivelmente deturpada, ouvindo-se muito mais raramente a 
pronúncia original. Assim, prevalece "Grachaim" em 
vez de "Guarachaim (isto é Guará — Canídeo, chaim — 
crespo) ; ou ainda se diz unicamente Tatorana, quando a 
etimologia não pode ser outra sinão: tata — fogo, rana 
— -parecido, imitante (isto é, certas lagartas de mariposas 
que provocam ardor semelhante à queimadura de fogo). 
Montoya escreve, porém, tataúra, o que se intepreta como 
tata-ura, isto é "verme de fogo", si não fôr tataurã(nn). 
Frequentes são também as transposições de sílabas. 

O maior inconveniente, porém, para quem busca a ex- 
plicação de um determinado vocábulo, são as múltiplas 
variantes de pronúncia dadas à primeira sílaba. Em vez 
de "Inambú ouve-se também "Nhambú" e "Nambú". 
"Araçaripoca" diz-se também "Saripoca". "Içabitú" pro- 
núncia-se ainda "Sabitú" ou mais geralmente diz-se apenas 
"Bitú" ou "Vítú". 

Assinalamos a seguir mais uns tantos exemplos, afim 
de orientar os menos experientes nesta ginástica de pro- 
sódia. Diz-se Nimbúia ou Gimbúia; Miruim ou Maruim; 
Irussú ou Guirussú; Emboá ou Amboá; Enchú ou Inchú; 
Jurupoca ou Gerupoca; Jacundá ou Nhancundá; Guira- 
purú ou Uirapuru; Guirapassú, Uirapassú òu Arapassú; 
Guandira ou Andirá; Mamamgaba ou Mangangá; Me- 
ruanha, Muruanha e Murinhanha; Moriçoca, Moroçoca, 
Mariçoca e Muriçoca, etc, etc. 

Procurámos registrar também tôdas estas variantes, 
mais para facilitar a consulta, do que pelo interêsse lin- 
guístico que possa ter a coletânea de tôdas as deturpações, 
a que o povo costuma sujeitar os vocábulos menos cor- 
rentios. 

E' sempre difícil dizer quais dessas modalidades cons- 
tituem efetivamente formas dialetais e só sob êste aspeto 



12 — 



elas merecem reparo — mas o que dizer de "Corriipião", 
nome de um bicho terrível, que desconhecíamos e que só 
lentamente, pela descrição, se transformou em Escorpião ! 
Da mesma forma o nome do peixe "Armação" nada mais 
é do que uma deturpação da conhecida denominação indí- 
gena "Arantnçá". 

E' portanto impossível organizar o vocabulário desta 
parte de nossa linguagem, de forma a permitir em todos 
os casos a consulta rápida e segura. 

Si o leitor não encontrar desde logo o vocábulo sob 
a grafia correspondente, torna-se necessária a aplicação 
de tôda a sorte de substituições de letras ou sílabas, ou o 
acréscimo ou truncamento destas ou daquelas. 

Mesmo a grafia de certas palavras, das mais usuais, 
como Coatí ou (Quatí), Cutia (ou Cotia) ainda é flutuan- 
te, assim como o emprego do .s.s ou ç (como em "guas- 
sú", "Sanhaço", "Jaçanã") ou outros vocábulos semelhan- 
tes, de origem indígena. Tivemos de optar por uma das 
modalidades, porém não compete a nós resolver tais 
questões. 

Palavras que podem ser grafadas tanto com A' como 
Ch inicial (Chechéu, Xerelete, etc.) devem ser procurados 
sob as duas rubricas. 

Com relação à ortografia simiilificada, que aqui pre- 
tendemos seguir estritamente de acordo com as regras ofi- 
ciais, devemos chamar atenção para um caso não 
bem esclarecido nas "Bases do acordo ortográfico". 

Referimo-nos à grafia dos nomes ai)ortuguesados da 
nomenclatura sistemática. 

Con.servámos a grafia original, latina ou latinizada 
das palavras que designam famílias, ordens ou outras ca- 
tegorias superiores ao género, ainda que tenhamos dado 
desinência portuguesa às mesmas. A tanto nos autoriza 
a "Nota" ao art. XV do Formulário, que manda conservar 
a gi-afia original dos nomes que não se prestam à adapta- 
ção portuguesa. 

Os nomes de famílias zoológicas ou botânicas não de- 
vem ter sua ortografia alterada, |)ois ao contrário muitos 
dêles se tornariam homógraros de outros, que só diferem 
daqueles pela grafia mais simples. Assim continuamos 
a obedecer às i-egras da nomenclatura zoológica neste e 
em outros escritos em que se torna necessária a clareza 
da sistemática, aportuguesando. i)orém, tôda a grafia em 
escritos de pura vulgarização. 



— 13 



Pobreza do nosso vocabulário zoológico 

O presente vocabulário da nossa fauna inclua cêrca 
de 2.000 termos (contra 1090 da nossa primeira edição 
provisória). E' pouco, pouquíssimos, si tomarmos em con- 
sideração os limites da área imensa abrangida e a riqueza 
proverbial da nossa fauna. Bastará dizer que unicamen- 
te o número de espécies de aves atinge, no Brasil, um total 
superior a 1.567, afora 213 subespécies. Êstes algaris- 
mos constam do Catálogo das Aves do Brasil, publicado 
em 1917 por II. c R. von Ihering. No entanto, neste gru- 
po, por todos os motivos tão digno da atenção dos caçado- 
res e do povo em geral, só registrámos 568 nomes vulgares. 
Confrontem-se tais algarismos com os do Catálogo das 
Aves de Portugal, publicado por A. F. Seabra em 1911. 
Para as 312 espécies da avifauna portuguesa, pôde aque- 
le naturalista registrar 648 nomes vulgares — incluídas 
muitas variantes apenas locais, mas bem poucas aves fi- 
guram ali desacompanhadas de apelido, dado pelo povo. 
Da mesma forma as 400 espécies de aves da Alemanha 
tôdas elas são conhecidas do povo, que as crismou. 

É muito cêdo, ainda, para aventurar qualquer zoó- 
logo a dizer, em números aproximados, o total das espé- 
cies da nossa fauna. No entanto, é natural que tenhamos 
todos nós certa curiosidade. . . comparável quasi ao 
"Quantos somos?" do Recenseamento Nacional. 

Tentamos, pela seguinte forma, um cálculo : A fauna 
mundial foi orçada em 840.000 espécies (sendo calculado 
em 675.000 o número total de insetos descritos). Várias 
vezes temos tirado a itrova, em pequenos conjuntos de fa- 
mílias ou ordens restritas, de que a fauna brasileira cor- 
responde a mais ou menos 1/10 ou 1, 11 da fauna mundial. 
Obteríamos assim uma cifra aproximada para nosso cálcu- 
lo: 63.600, fazendo abstração de 1/6, correspondentes cer- 
tamente a microorganismos, que aqui não vem ao caso in- 
cluir. E, dando ainda de barato que metade dessas 60.000 
espécies correspondam a subtilezas zoológicas, quasi subes- 
pécies, que o povo nem sempre distingue, mesmo assim res- 
tam 30.000 espécies a confrontar com os 2.000 vocábulos 
que aqui coligimos. Por mais intenso que seja o trabalho 
subsequente a esta edição, duvidamos muito que êsse total 
possa ser elevado a 3.000 (excluídas, naturalmente as sim- 
ples variações de pronúncia) ; muito lentamente, nos últi- 
mos tempos da elaboração dêste trabalho, um a um apen- 
nas, temos inscrito os omissos e por êsse estalão imagina- 



mos que o máximo atingível será de 2.500 nomes vulgares 
para tôda a nossa fauna — portanto 87' de nomes vulgares 
(de fato, aliás, apenas 4 'je, si aplicássemos todo o rigor 
zoológico). Quer isto dizer que uma apenas, entre cada 
12 espécies que examinássemos, seria portadora de um 
nome que lhe fôra dado pelo povo, o qual com isto lhe tes- 
temunhara sua atenção. 

Muito mais fácil se torna obter a proporção corres- 
pondente com relação à fauna da Alemanha. Baseámo-nos, 
para tal fim, num pequeno Manual (Fauna von Deutsch- 
land, 1920, organizada pelo Prof. Brohmer) de 446 pá- 
ginas, onde OH amadores encontram todo o material anali- 
zado sob forma de "chaves de classificação", e com tais 
minúcias, que tanto os vertebrados como os insetos ou ver- 
mes ou protozoários livres do país podem ser classificados 
com auxílio dêsse precioso compêndio. Pois nas 25 pági- 
nas do índice dêsse livro, verifica-se que aos 5.000 nomes 
científicos correspondem 1.500 nomes vulgares, ou seja, na 
proporção de 30 ^ . 



Sobrepuzemos o critério da boa escolha à ância de au- 
mentar rapidamente e a todo transe, o número de vocábu- 
los. Não foi nunca nosso escopo apresentar listas com- 
pletas de regionalismos, mormente quando, neste caso par- 
ticular da zoologia popular, facilmente se está sujeito a 
registrar expressões individuais (de pescadoi-es e caçado- 
res) e portanto sem interesse geral. 

As fontes literárias encarámos igualmente com muito 
cepticismo. Às vezes reconhecíamos que o colecionador 
de nomes havia registrado palavras puramente indígenas, 
não usadas pelo povo; outras vezes foi em Marcgravc ou 
Gabriel Soares que o literato buscou o têrmo, sem averi- 
guar si hoje em dia êsse vocábulo ainda "vive". Citemos 
aqui também o caso especial do "Albura das Aves Amazõ- 
nicas", do dr. A. E. Goeldi, no qual, além dos nomes vulga- 
res, correntios, o autor, incidentemente, também registrou, 
às vezes, a denominação correspondente dos dialetos de al- 
gumas tribus indígenas. Pois, apezar de ter o autor sem- 
pre assinalado tal restrição, alguns compiladores de brasi- 
leirismos ainda assim incluíram essas vozes bárbaras em 
suas listas. 

Sistematicamente deixámos de registrar a classifica- 
ção sugerida por alguns escritores, quando víamos clara- 
mente, através do nome científico exótico ou arcaico, (juo 



15 — 



a fonte não fòra pura ou das melhores. Outras vezes a 
localidade indicada não combina com a distribuição geo- 
gráfica conhecida da espécie mencionada. Ou então o vo- 
cábulo, em sua formação, não condiz com a espécie sugeri- 
da. Assim, "Pato-pataca" fôra registrado como sinónimo 
de "Alma de gato", também conhecido por "Meia-pataca" 
— naturalmente puzemos "Pato" em quarentena. Da 
mesma forma, "Paquinha", designando "coleóptero", 
quando conhecemos o termo aplicado a certos ortópteros. 
Perigosas são as revistas agrícolas e pseudo-científi- 
cas, em que colaboram esti'angeiros ; êstes, inocentemente, 
traduzem mais ou menos fielmente os nomes vulgares da 
sua língua e assim no-los impingem, sem documentar tais 
neologismos. Dos autores, em cujos escritos pudemos 
verificar vários erros de classificação, dificilmente aceitá- 
mos vocábulos de.sconhecidos. Preferimos certa pobreza à 
promiscuidade, onde os entendidos possam lobrigar erros 
de zoologia (e êstes, apezar de toda a cautela, nos terão 
escapado ainda assim!). Em geral não registrámos, pi-opo- 
sitalmente, nomes para os quais obtivemos apenas as se- 
guintes informações: "X — nome de um passarinho". — 
"Y — nome de um peixe"; as exceções que abrimos, ba- 
seiam-se em pequenas indicações contidas na etimologia 
ou no contexto, e que nos pareceram oferecer alguma ga- 
rantia quanto à legitimidade do brasilcirismo em que.stão. 

Neste sentido esforçámo-nos por eliminar uns tantos 
vocábulos que, apezar de "mortos" — isto é fora de uso — 
ou que nunca existiram, vem sendo mantidos nos registros. 
Assim por exemplo "Pirajú" (doui'ado-peixe) ou "Beijuí" 
(andorinha), da língua indígena e ainda usado pela po- 
pulação brasileira nos tempos coloniais, hoje em dia não 
podem mais figurar no presente vocabulário, porque fo- 
ram esquecidos, tendo sido substituídos por vocábulos 
equivalente, de origem portuguesa. 

Natimortos poderíamos chamar os nomes que ainda 
hoje são i-egistrados por quem copia textos antigos mal- 
grafados e aos quais se procura emprestar vitalidade. Tais 
são: "Japuruca", copiado de Marcgrave, quando de fato 
o vocábulo na língua tupi era pronunciado "japuruçá"; 
mas, em tòda a obra de Marcgrave, o "ç" foi impresso 
simplesmente como "c" e nas mesmas condições: "Gua- 
racapema" por "Guarassapema". Copiado da obra de A. 
Mii-anda Ribeiro (Peixes, Vol. XVII, Arq. Mus. Nac.) 
tornou-se conhecido "Guarambá", como nome de um 
l>eixe da família do Charéu. Mas no rótulo original. 



— 16 



como o arirma o autor, lia-se, "indistintamente" Gua- 
ra/íiba, quando de fato, em vez de m provavelmente fôra es- 
crito iii, isto é pela grafia de R. Rathbun: "Guaráiuba" ou 
seja "Guarájuba" como o índio pronunciava a palavra. 
Quer-nos parecer que "Zunga", sempre recopiado, com a 
significação de "bicho de pé", nada mais representa do que 
um erro tipográfico inicial, por "Tunga", que é a única 
forma que se encontra nos bons vocabulários tupis. 

Dificuldades e causas de erros 

Para os fins que aqui tínhamos em vista, a nossa lite- 
ratura zoológica, propriamente nacional, isto é, escrita 
em português por zoólogos brasileiros ou perfeitamente 
identificados com o nosso meio, reduz-se às ))ublicações de 
pouco mais de uma dúzia de autores. Só nestes trabalhos 
encontrámos os nomes vulgares registrados com relativa 
precisão. Os cientistas estrangeiros, que coligiram o ma- 
terial durante sua e.stadia mais ou menos breve em nosso 
país, raramente se deram o trabalho de anotar os nomes 
vulgares das espécies que mais tarde crismaram com no- 
mes científicos; e, si o fizeram, em geral grafaram os vo- 
cábulos do tal modo deturpados, que dificilmente se esta- 
belece sua identidade, em se tratando de nomes conheci- 
dos. Em se tratando de nomes desconhecidos, seria, por- 
tanto, contraproducente introduzi-los, certamente estro- 
|)iados, em nossa lista. A contribuição nacional, que se 
encontra nos escritos de autores leigos em zoologia, apre- 
senta dificuldades de outro género. José Veríssimo, com 
a sua inigualada "Pesca na Amazónia", constitue exce- 
ção, diremos quasi única. Os demais literatos registram 
o nome desacomi)anhado de exjilicações precisas, que pos- 
sibilitem a determinação da espécie, ou então o fazem 
acompanhar de um nome científico que, si não é pura- 
mente o de uma espécie européía, em todo caso não ins- 
pira confiança, por ser mais que duvidosa a classificação, 
baseada sabe Deus em (jue alfarrábio ou dicionário enci- 
clopédico. 

Não foi apenas pelo prazer de corrigir ou de dizer 
mal, que temos citado (*) alguns exemplos de definições 
zoológicas de todo erradas, contidas em obras de certo 
renome. 

Quizemos, apenas, chamar para o caso a atenção dos 
que são responsáveis pelo aperfeiçoamento de nossos ma- 



(•) K. vim IhcriiiK — "Contos... cli- um Nnlurnlista". pait. 1215. 



— 17 — 



nuais da língua brasileira. A paciência e a erudição de 
Amadeu Amaral deram-nos a prova, em "O Dialeto Cai- 
pira", de que, apezar das muitas dificuldades dêsse estudo, 
é possível realizar obra, si não completa, ao menos muito 
próxima da perfeita representação gráfica da evolução do 
nosso falar. 

Já por outra ocasião (*) glosámos os "nomes zoológi- 
cos contidos nos Dicionários da língua portuguesa". Las- 
timável é que o "Novo Dicionário" de Candido Figueiredo 
não tenha sido expurgado neste sentido na terceira edi- 
ção, de 1922, aumentando êle, pelo contrário, a lista dos 
erros aos quais então nos referimos. 

A própria Academia Brasileira de Letras, em seus 
Anais, ao coligir os brasileirismos, não soube precaver- 
se contra deslizes, que não são apenas palmares do 
ponto de vista zoológico, mas sobremodo prejudiciais, pois 
que todo brasileiro vê nas publicações desse Instituto Na- 
cional, o expoente do nosso puritanismo linguístico. 

Um dicionário enciclopédico nacional, publicado anos 
atrás e por vários motivos digno dos maiores encómios, 
como empi-eendimento e como elaboração, infelizmente uti- 
lizou-se do nosso primeiro esboço do presente trabalho, co- 
piando ipsis verbis o que nós mesmos reconhecíamos ser 
imperfeitíssimo como elaboração e que a composição tipo- 
gráfica se incumbiu de tornar ainda mais errado; — o re- 
sultado dessa transcrição foi ainda um descalabro para as 
letras de vulgarização zoológica. Outra fonte de erros 
proporcionam aos estudiosos quasi todos os "Vocabulá- 
rios de Brasileirismos", de autores antigos e modernos. 

Copiando-lhes as informações e os nomes científicos, 
inçados de inverdades, disparates ou falsas explicações, 
os revisores da matéria, geralmente leigos em questões 
de ciências naturais, perpetuam, infelizmente, tais cin- 
cadas. 

Os detalhes ecológicos mais facilmente se corrigem. 
Bastará afirmar, por exemplo, que a jequitiranaboia não 
é venenosa (o que se demonstra por a menos if>: o inseto 
em questão não possue veneno) ou que o bôto e a iái-a 
não são peixes (porque seus filhotes se criam do mesmo 
modo como os de todos os mamíferos), para que, de vez, 
desapareçam tais disparates dos escritos modernos. 

Bem mais difícil é obrigar os escritores a acatar a 
boa nomenclatura científica; para isto seria preciso: 



(•) K. von Iheriiig — "Rcviatn do Urasil", N.» 5, Maio de 1916. PaK. 76 B 



— 18 — 



— o autor enfronhar-se na índole dessa escrita latina, 
imaginada por Lineu e codificada pelas "Regras interna- 
cionais de nomenclatura", que permite definir em duas 
palavras (género e espécie) tôda e qualquer forma ani- 
mal ou vegetal ; 

— ou, si a tanto não bastar a paciência dêsse escritor, 
deverá o mesmo submeter-se incondicionalmente à função 
de mero copista, transcrevendo, ipsÍK literis, a fórmula al- 
gébrica cujas partes componentes lhe são incógnitas. As- 
sim como ao matemático dói a substituição descuidosa de 
um sinal da sua equação, assim ao zoólogo fere, como uma 
heresia, semelhante afirmação, escrita com a máxima se- 
renidade por um literato "curioso" em biologia: "Tal espé- 
cie (nome de um aninuil europeu) também ocorre neste 
Estado, ainda que pertencente, talvez, a outra família"! 
"A espécie é a mesma, podendo, contudo tratar-se de ou- 
tro género". Infelizmente não são raros tais disparates. 
Para facilitar a boa compreensão das regras da nomen- 
clatura zoológica, daremos mais adiante um resumo das 
principais normas, cuja estrita observação se impõe a 
todos os escritores, que honestamente queiram utilizar-se 
dessa nomenclatura científica. 

Dessa forma procurámos acrescer ao nosso trabalho, 
ao valor que possa ter como exposição zoológica, êste outro 
encargo de servir como subsídio ao trabalho dos diciona- 
ristas da língua brasileira. Chegou a hora de ser em- 
preendida a revisão final do grande livro básico da nossa 
língua, com o que se completará o esforço inicial de 
A. J. Macedo Soares (Dicionário brasileiro da língua 
portuguesa, 1889). 

Somos os primeiros a reconhecer que não se pode 
chegar à conclusão de um trabalho enciclopédico, sem que 
destemidos precursores tenham desbravado o caminho, 
muito embora imperfeitamente. 

Neste grande Dicionário da língua brasileira, que é 
de há longo tempo uma aspiração nacional, a parte do vo- 
cabulário referente à nossa fauna e flora (esta última 
ainda mais rica e também mais difícil ainda, quanto à sua 
complicada sinonímia vulgar) deverá ser confiada a espe- 
cialistas, todavia sujeitos à crítica dos filólogos. Êstes 
evitarão os deslizes linguísticos, mas aqueles, por sua vez, 
garantirão que a obra saia escoimada de definições como 
a que dizem estar contida na l.'*^ edição do grande Dicio- 
nário da Academia Francesa e na qual o literato, mais 
gastrônomo que zoólogo, definiu o carangueijo como sendo : 



— 19 — 



"un petit poisson roitge, qni marche à reculons". Talvez 
a maledicência dos detratores tenha aumentado, em parte, 
essa carga de erros zoológicos, com que foi cumulado o pe- 
queno animal . . . Aleivosia apenas. Pessoalmente, po- 
rém, pudemos verificar que na 5.'^ edição dêsse mesmo Di- 
cionário (1814) ainda se lê: "Ecrevisse - s. f. Poisson 
qui, selon Topinion vulgaire va presque toujours à recu- 
lons et qui est du genre des crustacées". Verifica-se as- 
sim, por êsse documento histórico, quanto é difícil desen- 
tranhar erros, quando êstes conseguiram deitar raiz na 
primeira edição de um dicionário. 

Estamos certos, infelizmente, que também êste nosso 
trabalho contém seus "poissons rouges" ainda não assina- 
lados. Nossa índole, porém, é diversa da de alguns dicio- 
naristas e consideraremos gi-ande favor e auxílio a comu- 
nicação de corrigendas, bem como lacunas ou omissões. 

Quizéramos, porém, recomendar, a êsses nossos amá- 
veis colaboradores, o máximo cuidado quanto à classifica- 
ção zoológica da espécie, cujo nome fôr assinalado como 
novo. 

Em se tratando de representantes dos mais caracte- 
rísticos da nossa fauna, bastará uma descrição minuciosa 
ou um confronto com espécies aliadas. Mas para os ani- 
mais de pequeno porte e principalmente de peixes, molus- 
cos ou insetos, é pi'eciso que espécimens autênticos te- 
nham passado pelas mãos de zoólogos experimentados. 

Isto com relação aos nomes colhidos da bôca do povo. 

Quanto aos têrmos encontrados em escritos de auto- 
res antigos ou modernos, desejámos manter a norma até 
aqui adotada. Sempre sujeitámos êsses trabalhos a um 
exame que nos habilite a discernir si os vocábulos que nos 
são novos, têm ou não o cunho de verdadeiramente vulga- 
res (triviais, no sentido de serem conhecidos do povo de 
uma região mais ou menos ampla) e si a indicação zoológi- 
ca que os acompanha merece fé. 

Assim, os nomes de tal origem devem ser acompanha- 
dos de citações precisas quanto à fonte ou da transcrição 
do respectivo trecho, em se tratando de obras menos vul- 
garizadas. 

Nomenclatura e classificação 

Qual é a classificação zoológica que V. adota? — per- 
guntam-nos, não raro, pessôas de bela cultura geral e com 
alguma leitura de Buffon ou Darwin. — V. segue o siste- 
ma de Lamarck ou de Cuvier? 



Si tantas vezes, por gentileza ou respeito social, tive- 
mos de calar a nossa indignação, aqui podemos nos desa- 
bafar e responder : — V. não tem obrigação de saber que 
essa pergunta revela a mais completa ignorância do 
assunto. 

Vejamos, pois, uma após outra, as várias idéias a que, 
vagamente, aludiu o interlocutor. 

* 

« * 

Estudando zoologia, nosso espírito procura aprofun- 
dar várias observações, que naturalmente se impõem à 
nossa curiosidade. Confrontando diversos animais, nota- 
mos facilmente que muitos dêles guardam entre si certa 
semelhança, que desde logo interpretamos como oriunda 
do parentesco mais ou menos próximo dos seus ancestrais. 
Ninguém duvida do parentesco do "cão policial" com o 
lobo .selvagem. O gato doméstico indubitavelmente é apa- 
rentado com os felinos; dizemos então, sem que para isto 
seja preciso proceder a investigações zoológicas, que a 
espécie doméstica se originou da espécie selvagem e que, 
com o tempo, lentamente, se criaram, se formaram as vá- 
rias raças de gatos, que hoje tanto diferem entre si, guar- 
dando, porém, sempre, boa soma de caracteres em comum. 

Igual raciocínio aplicamos constantemente a todos os 
animais domésticos. 

Quando, porém, o zoólogo externa idênticas reflexões 
acerca de qualquer outro animal não domesticado, já 
não faltarão, por parte do leigo, objeções de toda a sorte. 

No entanto, quais são os fatores com que intervém 
o homem para conseguir a formação de raças, às vezes 
tão diversas do tipo ancestral? 

Única e exclusivamente os mesmos que a natureza 
também pode utilizar: cruzamentos, repetições destes, ali- 
mentação, afastamento do tipo ancestral, etc. 

Por isso, não reconhecendo ao homem nenhuma supe- 
rioridade neste particular, o cientista atribue à natureza 
igual competência criadora de raças. 

E assim, em zoologia, fala-se com toda naturalidade 
no parentesco dos diversos animais entre si e, para pôr, 
desde logo, em evidência o grau dêsse parentesco, estabele- 
ceram-se categorias, cuja amplitude dá a entender a maior 
ou menor soma de caracteres idênticos que revelam: Es- 
pécies do mesmo género; Géneros diversos, pertencen- 
tes, porém, à mesma Ordem ou a Ordens diferentes. 



— 21 — 



Há, portanto, esta preocupação do naturalista, de ve- 
rificar as afinidades naturais existentes entre as espé- 
cies, ora consanguíneas, por assim dizer, ora muito afas- 
tadas umas das outras, pela sua origem. 

Para se poder discutir tais assuntos, para evitar mal 
entendidos (como os provocam os nomes vulgares), os na- 
turalistas procuram catalogar todas as espécies e para tal 
fim adotaram um sistema, pelo qual se dá um nome a 
cada espécie. Preenche tal fim a nomenclatura binária, 
imaginada por Lineu e definitivamente aplicada por êste 
cientista sueco em 1758, na IO.'* edição de seu "Sistema 
Natural". 

Da codificação a que foi sujeita essa "Nomenclatura 
binária", em virtude de resoluções tomadas em congres- 
sos internacionais de zoologia (1889, Paris; 1892, Mos- 
cou; 1913, Mónaco) resultaram as Regras internacionais 
de nomenclatura zoológica, e é de acordo com tais regras, 
respeitadas estritamente em todas as suas minúcias, que 
hoje os zoólogos adotam, usam ou criam os nomes cientí- 
ficos dos animais e rejeitam os que não condizem com as 
Regras. 

E' lastimável que não tenha sido possível, até hoje, 
dar a necessária estabilidade à nomenclatura zoológica. 
O próprio respeito às regras internacionais exige que cer- 
tos nomes, por mais difundidos que estejam, tenham de 
ser substituídos, desde que se verifique haver na literatura 
zoológica anterior outro nome ao qual caiba a prioridade. 
Exemplifiquemos, fazendo o histórico do nome de uma 
espécie. 

Os higienistas de 40 anos atrás referiam-se ao mos- 
quito transmissor da febre amarela, dando-lhe o nome 
Culex fasciatus Fabr., 1805. 

Verificando Theobald, em 1901, que esta espécie de- 
veria ser colocada em género separado de Ciãex, foi preci- 
so que se adotasse a denominação Stegomyia fasciata 
(Fabr.). 

Já estava êste nome em uso por longos anos, quando 
se verificou, que, em 1818, Meigen havia descrito o géne- 
ro Aedes, no qual se enquadra Stegomyia como subgêne- 
ro; portanto adotou-se o nome Aedes (Stegomyia) fas- 
ciatus. Mais recentemente ainda, verificou-se que Lineu 
havia descrito a espécie em questão sob o nome Culex 
Xfjypti e portanto devemos denominá-la hoje Aêdes (Ste- 
gomyia) asgypti (L.) 



— 22 — 



Como se vê, é obi-igatória a adoção do nome ao qual 
cabe a prioridade, mas às vezes é difícil reconhecer ao 
certo como melhor obedecer ao código. Justamente por 
isto, conquanto sejamos obedientes às decisões justas, não 
nos apressámos neste trabalho em adotar todas as modifi- 
cações propostas, enquanto não as vemos generalizadas 
nos trabalhos monográficos sobre nossa fauna. 

Tal critério, no presente caso, oferece a vantagem 
de não desorientar quem, após a consulta a êste Dicioná- 
rio, vá procurar informações suplementares em publica- 
ções nacionais de caráter geral. Assim mantivemos a no- 
menclatura ornitológica empregada cm 1907 no "Catálo- 
go das Aves do Brasil" por Ihering e Ihering (*) ; com 
relação aos Ofídios, Afrânio do Amaral publicou um catá- 
logo com nomenclatura mais moderna, que aqui adotámos ; 
vários grupos de insetos foram revistos modernamente e às 
respectivas modificações aos nomes científicos aqui obe- 
decemos. 

Para a maior parte da nossa fauna faltam-nos tais re- 
visões e no presente caso impunha-se, por isto, conservar 
os nomes de uso generalizado, pelo que nem sempre acom- 
panhámos as alterações recentemente notificadas (**). 

— Portanto, ao interlocutor, ao qual aludimos há 
pouco, devemos dar a seguinte resposta: "Si V. se refere 
à Nomenclatura da Classificação, está claro que respeito 
as "Regras internacionais". 

— "Já sei, já sei", diz êle (De fato, nunca ouvira falar 
nisso). Referia-me, porém, ao agrupamento total da 
fauna, ao encadeiamento que os zoólogos imaginam exis- 
tir entre todos os seres animais, à vista das respectivas 
afinidades". 

Devemos voltar atrás, num ligeiro retrospecto histó- 
rico, para explicar como se originou a hodierna Clai^sifica- 
ção do reino animal. 



(•) o CatAIngo du Olivoiru finto, publtcndo om 1938, não abrange nlndu 
tiidn-s na famílias dp avt'.^ t- alím di^to utiiizn uh numerosos nomes Bcnéricos de 
Utisí.on, apezar di- terem HÍd<> o;* nKjsnios rejeitados pelo XI Congresso Intcrn. de 
Zooloffia (vide píiirina anterior). Finalmente esperamos q\ie em suplemento ao novo 
catálopo do Museu Paulista sejam dadas as necessárias facilidades remissivas, para 
(iue se possa utilizar a literatíira brasileira anterior, afim de consultar sua parto 
mais útil. descritiva. 

(••) No que di» respeito noa Myriapodt», informa-nos recentemente o Dr. 
Otto Scliubnrt. ejue. pelo conceito atual que »o fai de Buos familiaa, o» Jutideoã, 
asaim como os PolydmmiiUof, não existem na América do Sul. Nío Querendo 
neste caso. como em outros, alterar em nada o oríKinal do Autor, damos aqui 
ertta nota e. no texto, onde se encontra Jiditíeos, deveriam êstes «erem nubsti- 
tuidos por SjnrolioHdfoa e Spirotttrcptiitf.oH, os Volydettmideofi por Leptodettmideos 
e SlronuvtoHomideo», principais famílias brasileiras e as mais ricas em espícles 
dfstes antigos itnipos. A. L. G. 



— 23 — 



Antes de Lineu, já houve quem quizesse agrupar os 
animais, de modo a pôr em evidência as afinidades reve- 
ladas pelas suas formas e pelos seus hábitos. Tais tenta- 
tivas hoje nos apresentam apenas ligeiro interêsse histó- 
rico; da mesma forma os escritos de Lineu, quando esbo- 
çam essas suas ideias, não raro nos parecem agora de 
uma infantilidade que faz sorrir . . . Foram, porém, êsses 
primeiros passos que encaminharam os prosseguidoi-es. 

A classificação de Aristóteles teve de ceder ao me- 
lhor arranjo sistemático proposto por Lineu, cuja tare- 
fa, graças aos estudos de muitos investigadores, como 
Plinius, Gesner, Swammerdam, Harvey e tantos outros, já 
fora bem mais fácil. John Ray, em 1693, soube aproveitar 
de tal modo os trabalhos de seus precursores, que depois 
Lineu, por assim dizer, já encontrou feito o que adotou em 
seu livro; o mérito deste último está, porém, em ter apli- 
cado, com todo o rigor, os melhores subsídios para uma 
classificação sistemática. Buffon quiz rejeitar essa clas- 
sificação, que lhe parecia coisa artificial, imposta a um 
todo essencialmente natural. Lamarck sustentou o tra- 
balho de Lineu, modifica ndo-lhe porém o agrupamento 
dos Evertebrados e a respectiva subdivisão. Cuvier ten- 
tou a remodelação do sistema e estabeleceu quatro "em- 
branchements", com um padrão típico para cada um. Dis- 
cutia-se, pois, o sistema, modificaram-se detalhes; faltava 
porém uma interpretação básica, que permitisse encarar o 
problema de um ponto de vista geral e único. Apezar dos 
esforços de E. Geof. St. Ililaire (que reafirmava as idéias 
de Buffon) e de Goethe, Oken e Schelling, que por assim 
dizer entreviam a unidade da oi*ganização do reino animal, 
prevaleciam as teorias de Cuvier. Aos esforços de toda 
uma falange de investigadores seguiram-se as modifica- 
ções do sistema: C. Th. von Siebold firmou o subdivisão 
dos Radiados de Cuvier e modificou a compreensão dos 
Articulados, pela definição do conjunto que denomi- 
nou Artrópodes; Leuckart, por sua vez estabeleceu no- 
vos limites, pelos quais agrupou os Equinodermas e os Ce- 
lenterados e definiu os Protozoários, aos quais mais tarde 
Haeckel contrapoz o têrmo Metazoários. Ray Lankester 
verificou que os metazoários abrangem dois tipos distin- 
tos: os Celenterados e os Celomados. Novos elementos 
para discussões trouxe a idéia defendida por Darwin e, 
estudando a filogenia e tendo esta de então por diante 
como guia, todos os investigadores dos últimos tempos 



procuram adaptar o sistema à função de espelho das rela- 
ções naturais de parentesco zoológico. 

Quem é, à vista disso, o autor da classificação do 
reino animal, tal como hoje a adotamos? 

Aristóteles, que primeiro a esboçou, já não a reconhe- 
ceria e aos sucessivos aperfeiçoadores não se pode, sem in- 
justiça, atribuir individualmente, o trabalho realizado len- 
tamente, no decorrer de séculos, por inúmeros colabora- 
dores. 

Adotamos pois o Sistema natural, esboçado por Lineu 
e aperfeiçoado continuamente, de 1758 para cá e moderni- 
zado em sua nomenclatura, de acordo com as "Regras In- 
ternacionais". 

Baseámo-nos em particular na exposição do nosso 
mestre, Prof. K. Grobben, autor do compêndio de Zoolo- 
gia-Claus-Grobben e, enquanto não surgirem modifica- 
ções seguramente comprovadas, cingimo-nos à coordena- 
ção a que já subordinámos nosso texto do Atlas da Fauna 
do Brasil (1916). 

• • 

Não cabe em poucas linhas a apresentação das idéias, 
pelas quais procurámos, pessoalmente, guiar nossa apre- 
ciação dos fatos biológicos em que seja necessária a in- 
terpretação do ou dos agentes que determinam a inegável 
transformação dos seres. 

Como e em consequência de que fatores se realiza a 
creação das espécies novas, semelhantes às preexistentes, 
mas diferenciáveis por caracteres que permitem distin- 
guir uma das outras? 

Não faremos aqui a enumeração das muitas escolas, 
defendidas pelos mais eminentes filósofos naturalistas. A 
mais conhecida delas, a de Darwin, invoca a "luta pela 
existência" e a "sobrevivência do mais apto". Hoje ainda 
se considera "moderna" a escola pela qual tôdas as modi- 
ficações apresentadas pelo ser adulto são consequências 
das combinações realizadas pelos cromosomas, no momen- 
to da conjugação das duas células iniciais. 

Na adoção de uma escola filosófica intervém também 
a propensão natural e assim, por ecletismo inato, sentimo- 
nos alistados naquela da qual Flenry Fairf ield Osborn é, si 
não creador, pelo menos o mais claro expositor. 

Tetraplasia denominou Osborn a concepção filosófica 
que atribue a evolução dos seres vivos à ação conjugada 
dos quatro fatores inseparáveis: Hereditariedade, onto- 



25 — 



genia, influência do ambiente e seleção. A interdependên- 
cia destes fatores é contínua, ainda que de um dêles possa 
depender a iniciativa, sem impedir a ação colateral dos 
outros. 

A nós, pessoalmente, essa influência de fatores diver- 
sos para a obtenção de um resultado harmónico afigura- 
se semelhante ao que ensina a mecânica, quando nos leva 
a construir o paralelogramo das forças, para conhecermos 
a resultante da ação conjugada de vários fatores. 

Poliplasia denominaríamos o conjunto de fatores, uns 
endógenos, outros exógenos; subdivisões, é difícil estabe- 
lecer, pois se a interdependência de todos êles se nos afi- 
gura como ídéia predominante, não podemos imaginar si- 
multaneamente limites nítidos entre os mesmos. 

E como os mestres das escolas mais antigas não cogi- 
tavarn nem de raios ultravioletas nem de vitaminas, assim 
também para o futuro a ciência deverá tomar conheci- 
mento de novos fatores, cuja colaboração na evolução dos 
seres pode ter feitio a não se enquadrar nas quatro dire- 
trizes principais até agora averiguadas. O próprio ecle- 
tismo impede-nos de sermos intransigentes e com isto a 
Poliplasia se nos impõe. 



QUADROS SlIVOTICOS 
DA FAUNA BRASILEIRA 



Estava o "Dicionário dos Animais do Brasil" come- 
çando a ser impresso, quando, a 15 de Setembro, viu-se 
a Zoologia Brasileira privada da atividade do grande cien- 
tista e infatigável trabalhador que foi Rodolpho von 
Ihering. 

Seguindo a orientação segura que lhe dera o largo con- 
vívio com Hermann von Ihering, na dupla qualidade de fi- 
lho e de Assistente por longos anos no Museu Paulista, 
publicou o Dr. R. von Ihering uma centena de trabalhos, 
não só de sistemática como de biologia dos maia variados 
grupos de animais, especialmente sobre Peixes, a cujo 
estudo e criação racional se tinha dedicado por completo 
nestes últimos 10 anos. 

Ao lado de sua grande obra científica, que não nos ca- 
be aqui examinar, depois de publicar o "Atlas da Fauna", 
"Contos... de um naturalista", "Da Vida dos Peixes" e 
"Da Vida de Nossos Animais", culminava agora, com es- 
te dicionário, sua grande obra de divulgação. 

O "Dicionário dos AnÍ77iais do Brasil", que vinha sen- 
do publicado por fascículos nos Boletins da Secretaria de 
Agricultura de São Paulo, desde 1931, representa 16 anos 
de trabalho penoso, sendo de lamentar que seu Autor não 
lhe pudesse dar sua preciosa assistência até os últimos 
momentos e ter o prazer de vê-lo publicado. ■ 

Reunidos os 7 fascículos publicados nos Boletins de 
Agricultura (1931-1937) e os manuscritos da última par- 
te agora publicada (Boi. Agric. 1938), procedeu o Autor 
a meticulo.sa revisão, verificando dúvidas, corrigindo lap- 
sos, ampliando o texto e preenchendo lacunas, trabalho que 
só recentemente terminara, com a colaboração de sua fi- 
lha, Sta. Dora de Azevedo von Ihering e a nossa própria. 
Para maior ilustração do texto, além dos clichés já pu- 
blicados nos Boletins de Agricultura, orientava, quando 
a morte o colheu, a confecção de estampas coloridas e or- 
ganizava quadros sinóticos de nossa fauna. 

Êstes quadros teriam a finalidade de orientar o lei- 
tor mais leigo, entretanto curioso em coisas de zoologia, 
sobre a distribuição sistemática dos grandes grupos de ani- 



— 27 — 



mais, classes e ordens, da fauna brasileira, tratados es- 
parsos neste Dicionário de acordo com a ordem alfabéti- 
ca dos nomes vulgares correspondentes. 

Por estarmos perfeitamente ao par dos planos do Dr. 
R. von Ihering, que também nos incumbira da revisão de 
provas tipográficas e da organização dos índices, e a pe- 
dido de Dora von Ihering, tomámos o encargo de fazer 
com que esta obra saisse o mais possível de acordo com 
os desejos do Autor. 

Assim dirigimos o trabalho do desenhista nos qua- 
dros de Mamíferos, Aves e Peixes, feitos de acordo com 
a orientação geral deixada em rascunho pelo Autor e fi- 
nalmente organizámos e dirigimos os demais quadros 
assim como as estampas coloridas de peixes e insetos. 

O quadro do Reino Animal foi organizado segundo o 
sistema do Prof. E. Marcus, feito ainda a pedido do Dr. 
R. von Ihering. 

Era ainda intenção do Autor "em anexo, no fim dêste 
dicionário, arrolar os nomes vulgares que possivelmente 
deverão ser incorporados ao vocabulário, em ulterior edi- 
ção, desde que venha a ser provada a legitimidade de seu 
uso", trabalho que deverá ser elaborado para o futuro. 

Os grupos em geral pouco conhecidos vulgarmente e 
aos quais não correspondem nomes vulgares, assim como 
os grupos restritos que não compreendem mais de poucas 
ordens, foram omitidos nos quadros sinóticos, apenas fi- 
gurando na chave geral. Estão neste caso os Espongiários, 
Rotíferos, Acantocéfalos, Nemertinos, Onicóforos, Tardí- 
grados, Briozoários, Braquiópodes e Protocordados. 

Entre parêntesis são encontrados os nomes corres- 
pondentes a grupos ou espécies entranhos à nossa fauna, 
da mesma forma que nos índices e no texto do Dicionário ; 
neste, também entre parêntesis, estão os vocábulos dos 
quais não há certeza do emprêgo vulgar. 

Aò Dr. Clemente Pereira, com quem sempre nos acon- 
selhámos sobre êste trabalho, deixamos registados aqui 
nossos sincei*os agradecimentos. 

S. Paulo, Novembro de 1939 

A. Lourenço Gomes 



Ilustrações de Paulo C. Florençano 




cm 



10 11 12 



SciELO 



16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 



30 



O REINCVNIMAL 

Annelidos 



31 

(Continuação) 




2 3 4 



9 10 1 



1 ^2 SciELO 



16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 



35 



34 



A V E S - 



PASSERIFORMES 



Passerifo7-'nic8 




— 3 _ A V E S - CORACIIFORMES 



Coraoiifovmes 





Gruifonne8 
Siriema 



Ardeiformes 
Garça . 




^arreca-irerê 



'odicepidiformcs 

Mergulhão 




38 



AVES 



CS 

.S 
'S. 
a 
W 

0) 
■O 



Ca ta rtidiforines 
Urubú . 



Striffiformes 
Mocho 



Accipitriformes 
Carancho 



Columhiformes 
Rolinha . 



Galliformes 
Inambú 



i?3 

O 



Tinaviiformes 
Mutum 



Rhciforwes 
Ema . 



RAPACES, COLUMBIFORMES 
GALINÁCEOS, RHEIPORMES 



J 



39 



r 



6 ~ 

— RÉPTEIS 



RÉPTEIS E AMPHÍBIOS 




Ophídios 

Jararaca 



Lacei'tílios 

Lagartixa 



Cobra de 2 cabeças 



Emydosánríos 

Jacaré . 



Chelonios 
Cágado 

- AmpiiIbios 

Anuros 

Perereca 



Gymnophionoa 
Cobra cega 




cm 



3 4 



10 11 12 SCÍEL0-L6 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 



40 



■ — Teleósteos — Peixes propriamente ditos 
Acanthopterygios 

Diabo marinho 




Baúna 



Acará — veja "Peixes de Água Doce" 



Peixe-pedra . 



P X E S 



Anacanthinog 
Brótea . 

(Bacalhau) 



Peixe-morcego 



Linguado 



Aracanguira 



Peixe-galo 



Bom-nome 



Rêmora 





Peixe-lua 





«wc/iít/os — Synhranchídeos 
veja "Peixes de Agua Doce" 




^^lóatomos 

Trombeta 



3^ 



^^Phohrmichios 

Cavalo-marinho 




{Continuai 



8 



PEIXES 



(Co)itÍiin'!i; 



— Telkósteos — (cont.) 

Síincnthognathos 

Peixe-agulha 

Cyprínodontes — Cyprinodontídeos 
veja "Peixes de Água Doce" 

(IJaplomoa) 

(Traíra européia - "brochet") 

Iniomos 

Peixe-lagarto 



Apodes 
Moreia 



Nematognathos 
( Cyprinídeoís) 
Gynmotídeos 
Charaeídeos 



veja "Peixes de Água Doce" 




ÚHteoijioHsoides — Arapaimldeos e Osteoglossldeos 

veja "Peixes de Água Doce" 
(Salmonoides) 

(Salmão) 

Clupeoides 

Sardinha 



Camurupim .... 

— (Ganoides) 
(Esturjão) 

— rjii-NEos — Leptnsirenídeos 
veja "Peixes de Água Doce" 

— HOLOCKPHALOS 

Chymaera ■ ^- '^ ^S^ l 

— Selàchios: ^^^io 
EuKcláchios 

Tubarão 

Batoideos 

Raia 



(Cyclóstomos) 
(Lampreia) 




44 



Nematognathos 

I Ariídeos 

Bagre do mar 



p<n<'tni em átruji doce 
paru a desova 



Pimelodídeos 
Mandí 



Doradídeos 
Cuiú-cuiú 

Aucheniptcrldeos 
Cambeva 



Hypophtalmídeos 
Mapará . . , 



Ageneiosídeos 
Mandubé . 



Cetopsídeos 
Candirú 

Pygidldcos 
Anduiá . 



Bunocephalídeos 
Rabeca . . 



— 10 — P E I X E S 




Jgua doce 

f^ematoonathos — (cont.) 



Callichthytdeos 
Tamboatús . 



45 

(Continuação) 



Loricariídeos 
Cascudo . 



'^Itpsirenideos 
^^irambóia . 



^^^Paimídeos 
^ ifarucú 



^'iyiossldeos 



Adnptnram-Be k ásTun doce diversas espíclc» de Ilaias, Pescada». Sardinha.. Aeu- 
JnaH, Liníuadofi e Uaincúía. 









*fmporariami'ntc, para n (U-sovn, penctruni hoh rios vários Acanihoptcryuioa, Ito- 
baloH, Tnlnhnn e outros. 



12 — M o L L U S 



47 

COS 




'^'"^Phineuros 



2 
J 



50 



Corrodêncios 



Zoràpteros 



Isópteros 

Cupim 



Mantoides 

Louva-Deus 



Blattários 

Barata 



Derni dptcros 

Lacrainh 



Phasmidos 

Bicho-pau 



14 — I IC T o S 




Grillídeos 
Grilo 



Proscopídeos 
Mané-magro 



A.cridiídeos 
Gafanhoto 



tnos 



'"tórios 



^^vandeira 



\^eridos 

^'^emérida 



Tos 




6- 




51 

(Continuação) 






í5 




23456789 



g 12 SciELO 



16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 



52 



— Myriàpodes 
Chilópodcs 
Centopeia 



Diplópodes 
Gongolo 



Paurójiodes 



Synphylos 



— Arachnoides 
Pantópodes . . 



Linguatulidos 



Acarinos 

Carrapato 



liicinúlens 



15 



M Y R I Á P O D I 






ARACHNOIDES 



53 



^Pilionidos 
Opilião 






^^^doscorpionidos 



lugos 



•■"«eidos 

Aranha 



Palp, 



'OS 









cm 



23456789 



g 12 SciELO 



16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 




S5 



17 



VERMES 



Gephyrianos 



Hirudineos 

Sangue-suga 



Oligochaetos 

Minhoca 

Polychaetos 



Gordianos 

Cobra de cabelo 




Eunematoidea 
Lombriga 



ovo e larva 



CestoideB 
Solitária 



Treviatoides 



Turbellários 







formas larvaU 




10 



II 12 SciELO 



16 17 lí 



19 20 21 22 23 24 25 26 27 



56 



r 



18 



COELENTEREOS 



j 



Ctenóphoros 



o 



s 



Zoantliacliniários 
Corais 



AlcyonárioB 
Anémona 



Scyphozoários 

Água-viva 



Siphonophoros 
Caravela 



Hydroidea 




19 



08 



PROTOZOÁRIOS -1. 

(Seres Microscópicos) I 



Sporozoários 



-I- 



Jtadiolários 



Heliozoários 



F oraminíferoa 



Amehianos 



"■OeliadoH 








A 



Abelha — No sentido amplo, esta denominação 
abrange todos os insetos Hymenopteros da superfamília 
Apoidea. E' difícil caracterizar exatamente êste vasto 
grupo de espécies, que abrange numerosas famílias, 13 
das quais se acham representadas em nossa fauna. Na 
maior parte dos casos verifica-se, porém, que as patas 
traseiras das fêmeas e obreiras são providas de um apa- 
relho destinado à coleta do pólen (sob forma de pubes- 
cência muito densa ou dilatação do metatarso), disposi- 
tivo êste que não se encontra nos outros himenóteros mais 
ou menos semelhantes, como sejam as vespas. 

Subordinam-se as numerosas espécies a dois grupos: 
"Abelhas solitárias" e "Abelhas sociais", conforme seu 
modo de nidificar. 

As abelhas sociais serão estudadas parceladamente, 
sob os vários títulos abaixo mencionados. Vejamos, aqui, 
por alto, quais as espécies mais interessantes entre as 11 
famílias de "Abelhas solitárias", representadas 
em nossa fauna, seguramente, por 700 espécies. 

Pelo tamanho, destacam-se as da família Xylocopi- 
deos algumas das quais alcançam 35 mms. de compri- 
mento e que o povo, em geral, confunde com as verdadei- 
ras "mamangabas", que aliás são abelhas sociais. Quasi 
à semelhança destas, aquelas abelhas solitárias simulam 
uma certa convivência, no tempo da procreação. Os ca- 
sais de Xylocopa preferem em geral troncos de madeira 
já um tanto apodrecida, para ali excavarem longos canais 
sinuosos, nos quais preparam as células; estas são re- 
cheiadas com pólen e, quando do ovo aí depositado nasce 
a larva, esta assim se encontra rodeada do alimento ne- 
cessário para seu desenvolvimento. As abelhas-mães ha- 
bitam ainda durante algum tempo o mesmo ninho, a 
princípio em companhia dos machos ; mas a êstes espera a 
mesma sorte dos zangões das abelhas sociais, pois em de- 
terminada época do ano, as fêmeas eliminam, a ferroa- 
das, seus companheiros inermes, que, feridos de morte, são 
atirados para fora do ninho, agonizantes. Ao biólogo, ês- 
te proceder, como que copiado das abelhas sociais, obriga a 
um confronto com estas e, realmente, revela um paralelis- 
mo difícil de explicar sem a ideia de parentesco próximo. 



— 60 — 

Outras abelhas solitárias de grande porte são as do 
género Centrifí, ainda estas de feitio comparável ao das 
mamangabas verdadeiras, porém de colorido muito mais 
rico e variegado; seu corpo em geral é revestido de es- 
pesso veludo. 

As espécies do género Englossa são um pouco meno- 
res e predomina entre elas o lipo que diríamos dc cava- 
leiro revestido de armadura brilhante; os próprios nomes 
científicos dizem quanto são belas as côres resplandes- 
centes destas abelhas: Evrjloum purimratu, violácea, sma- 
racjdina, coeiíilesccns, if/nita, pulchra, degans, etc. Lem- 
braremos, ainda, que são estas as abelhas que se encarre- 
gam da polinização de várias orquídeas (como Catasetum, 
Stanhopea ) : introduzindo a cabeça na flor, esbarram nas 
políneas, cujo pedúnculo pegajoso adere logo ao inseto, 
sendo assim o pólen transportado para outra flor, na qual, 
depositado logo em seguida, exerce sua ação fecundante. 

Mencionaremos ainda o género Mcgochilc, que abran- 
ge numerosíssimas espécies, médias e pequenas; pouca 
gente as conhece de vista, mas basta dizer qual o seu ofí- 
cio, para que sejam logo identificadas: são estas as abe- 
lhas que recortam as folhas das roseiras, tirando-lhes do 
bordo um ou vários pedaços em forma de meia lua. Tais 
pedacinhos a abelha leva para um esconderijo, que lhe 
pareça adequado (lá fora no campo, ela se acomoda entre 
frestas ou em galhos ôcos; muitas vezes, porém, entra 
em casa e então se engraça por um buraco de fechadura, 
cano de espingarda ou tubo de flauta) e ali, enrolando tal- 
vez uma centena desses recortes de folhas, constróe mi- 
mo.sas células tubulares. 

Claro está que não nos podemos deter na enumeração 
das muitas outras espécies que abundam sobre as flores, 
onde procuram o pólen, seu único alimento. Há entre 

elas pigmeus, que não atingem 
meio centímetro de compri- 
mento. Várias delas são parasi- 
tas dos ninhos de outras abe- 
lhas, também solitárias. E' fá- 
cil reconhecer tais espécies 
parasitas, pois nenhuma de- 
Abeiha socki - ManianE.b. líis tem aparelho adequado 

para a coleta do pólen, nem 
de tais dispositivos necessitam, pois é sempre em meio 
do alimento já armazenado por outras espécies, que 
o parasita põe seus ovos. 




61 — 



As Abelhas sociais constituem sociedades, ha- 
vendo nestas, além dos machos e das fêmeas, ainda as 
obreiras, que são fêmeas com aparelho genital atrofiado. 
São abelhas sociais: as mamangabas, a abelha do i'eino e os 
Meliponideos. (Veja sob "A b e 1 h a s sociais indí- 
genas"). Só estas últimas (e as abelhas solitárias, 
quando parasitas de outras abelhas) não têm ferrão; todas 
as outras defendem-se com ferroadas dolorosas; os ma- 
chos, porém nunca têm essa arma e são sempre inermes. 

Lista das principais abelhas indígenas; os nomes 
das espécies mais interessantes estão grifados. Abelha 
mulata, Abreu, Amarela, Aramá, Arapuá (= Irapuã), 
Bôca de barro ou de sapo, Borá (=Vorá), Borá boi 
(= Aramá), Cabeça branca (= Rajada), Car/a-foyo, Ca- 
muengo, Canudo, Cupiara, (= Bôca de sapo ou Cú de 
vaca), Curupira, Frecheira, Quaiquiquira, Gimrnpâ, G, 
do miúdo (=:: mandurim), Guirussú (= Irussú mineiro), 
Irapuã, Iraxim, Irussú, I. mineiro, Jandira, Jatí, Jataí, 
J. mosquito, J. da terra. Lambe olhos Frecheira) , Li- 
mão (= Iraxim), Mandassaia, Mandassaia do chão, Man- 
duri, Mandaguarí, Mel de anta. Mel de cachorro, Mirim, 
M. preguiçosa, M. rendeira (= Tujuvinha), Moça bran- 
ca. Mosquito, Mumbuca, Papa terra, Pé de pau, Pimenta, 
Rajada, Sanharó, Sete portas (=Tubuna), Tapieira 
(rrMandurí), Tapissuá, Tataíra Caga-fogo), Tubi, 
Tubiba, Tubuna, Tujuba, Tujumirim, Tujuvinha, Urussú, 
Vorá. 

Abelha de cachorro — Veja sob "Mel de ca- 
chorro" e "Cu pira". 

Abelha mirim — Como o nome indígena, que signifi- 
ca: "pequena", também seu nome científico, Trigona vii- 
nima indica as pequenas dimensões desta abelha, que 
mede apenas 2\''-> mms. de comprimento. (Não é, contu- 
do, a menor ; veja-se "Lambe-olhos"). Assemelha- 
.se bastante à "Abelha mosquito" e à "Mi- 
rim p r e g u i ç a"; o modo do nidificar é, porém, muito 
característico: o ninho, abrigado em postes ou pequenas 
cavidades de árvores, não tem invólucro e as células de 
incubação não formam favos, porém cachos. 

O tubo do entrada é pequeno, fino e feito de cera 
amarela; de noite as pequenas abelhas, tímidas, fecham- 
no com um delicado rendilhado de cera, que de manhã é 
removido, para que as abelhas obreiras tenham passa- 
gem livre. 



— 62 — 



Abelha mosquito — Abelha da fam. Melijwnideo.t, 
Trigona mosquito. Espécie pequena como um mosquiti- 
iiho e daí seu nome; mede apenas 3,75 mms. de compri- 
mento. A côr é escura, com algum desenho amarelo. Ni- 
difica em árvores ocas ou em buracos das rochas ou mu- 
ros, com entrada pequena, mas sem porta saliente. O 
mel é saboroso, um tanto ácido, porém a quantidade sem- 
pre é pouca. A mesma espécie é também conhecida por 
"Jataí mosquito" ou simplesmente " J a t í", no 
Ceará. 

Abelha mulata — Espécie idêntica à que mais geral- 
mente recebe o nome "I r u s s ú m i n e i r o" ou "G u i - 
russú" (Tr. qimdripimctata) . 

Abelha do reino — Abelha da fam. Apideos, Apis 
mellificu, espécie importada da Europa (e por isto cha- 
mada "do reino", de Portugal). Aclimou-se perfeitamen- 
te aqui; entretanto, as colmeias só prosperam quando su- 
jeitas ao tratamento racional, que lhes dá o apicultor. 
Acidentalmente algum enxame foge e vai se estabelecer 
no mato; mas não consta que assim esta espécie se tenha 
difundido e tomado hábitos de abelha silvestre. 

A apicultura é um ramo todo especial da agricultura, 
e no Brasil, conquanto haja atualmente apenas pequenos 
núcleos de apicultores, alemães e italianos, principalmente 
no Sul do país, esperamos que, em breve, esta fonte de 
renda atinja um grande desenvolvimento, dadas as ótimas 
condições naturais do clima e da flora. 

Quando os ajiicultores falam em "abelha escu- 
ra", "abelha italiana", "da Carnia" etc, re- 
ferem-se êles às variedades de Apis mellifica, preferidas 
por estas ou aquelas vantagens que oferecem. A varie- 
dade mais geralmente cultivada é a escura, do Norte; a 
italiana tem roupagem mais amarela, avermelhada e os 
três últimos anéis são amarelos. Aquela enxameia mais; 
esta, porém é mais dócil e mansa. 

Abelhas sociais indígenas — ("Mel de pau" ou 
apenas "M e 1"). Pertencem à família dos Meliponíãcos, 
que se distinguem dos Apideos (a que pertence a "abe- 
lha do reino", importada) pela falta do ferrão e 
pelo modo como se realiza a secreção da cera: esta é pro- 
duzida por células que se encontram na parte dorsal dos 
segmentos abdominais nos Mcliponidcos, ao passo que nos 
Apideos essa mesma secreção se faz no lado ventral des- 
ses segmentos. 



— 63 — 



Alguns autores reúnem tôdas essas abelhas sociais 
em um único género: Melipona; outros sustentam u sub- 
divisão em Melipona e Trigona. O primeiro género en- 
cerra em geral as espécies maiores, cujas azas não exce- 
dem o compi-imento do abdómen; são de belas côres e 
produzem excelente mel, em quantidade apreciável. 

As espécies de Trigona, ao contrário, tém as azas 
mais compridas que o corpo e são, no máximo, do tama- 
nho de uma mosca, porém algumas espécies são minúscu- 
las, como os menores mosquitos ou quasi microscópicas, 
como a "Lambe-olhos"; pela maior parte são man- 
sas e tímidas, ao passo que só algumas, denominadas 
"T o r c e - c a b e 1 o s", são bravas e atacam o homem, 
entrando-lhe pelos cabelos, na vista, etc. e mordem. Uma 
espécie, a Trigona cagafogo segrega um líquido cáustico, 
que arde como fogo. Parece que a natureza 
reconheceu ter cometido um erro, deixando 
atrofiar-se o ferrão, pelo que, mais tarde, 
se viu obrigada a munir a abelha de novos 
meios de defeza. 

Os ninhos destas abelhas, ou cortiços, 
acham-se em geral bem 
abrigados, especialmente 
em árvores ôcas e fendas 
de pedras; mas há algu- 
mas abelhas que cons- 
troem ninhos subterrâ- 
neos e outras os erigem 
livres, apensos aos galhos 
de árvores ou arbustos, à 
semelhança dos cupins da 
mata. 

Tomando por tipo o ninho feito num ôco de pau, po- 
demos dar a seguinte descrição geral. Uma chapa hori- 
zontal, de barro nas Meliponas, de cera e i'esina nas Tri- 
gonas, separa o ninho, tanto em cima como cm baixo, da 
cavidade restante da árvore; essas paredes divisórias são 
chamadas "batume", pelos caipiras. A entrada do ni- 
nho é em geral um buraco pequeno, no meio de uma chapa 
do cora ou de argila. Em várias espécies de Trigona, a 
entrada prolonga-se num tubo de cei'a, que de noite é 
fechado na extremidade, isto é, as obreiras ajuntam cera 
nos bordos até êstes se unirem e tal membrana é sem- 
])re crivada de pequenos orifícios, que permitem a venti- 
lação também de noite. Isto se verifica na jataí e outras 





Abelha social: Mandassaia e seu ninho 



SciELO 



10 11 12 1 



— 64 — 



espécies mansas, ao passo que os tubos largos das valen- 
tes "torce-cabelos" se conservam sempre abertos . O 
centro do ninho é ocupado pela cria, acondicionada nas 
células doa favos que se superpõem horizontalmente (e 
não verticalmente juxtapostos como em Apis) e que por 
fora são circundados por delicadas membranas de cera, 
que formam o invólucro. 

O resto da cavidade é ocupado pelos potes de cera, 
de forma irregular e que contêm mel e também samóra, 
isto é, o pólen armazenado para servir de alimento à cria. 
As células de que se compõem os favos são providas de 
pólen, misturado com um pouco de mel e, depois que a 
rainha nelas depositou um ovo, são fechadas por meio de 
tampinha de cera. Assim, a larva ao nascer do ovo, en- 
contra-se presa na célula, juntamente com todo o alimen- 
to de que necessita para atingir o estado adulto; só de- 
pois de completar a metamorfose, abre ela a tampa de 
seu cubículo e entra em contato com a comunidade. Em 
cada cortiço há só uma abelha mestra ou rainha, que é 
uma fêmea fecundada, ao passo que as obreiras são fê- 
meas abortivas, não fecundáveis. A rainha madura tem 
o abdómen muito entumecido, cheio de ovos, de modo que 
não pode mais voar e assim fica presa no cortiço, do qual 
é a mãe até morrer. Os machos se criam só em certa 
época do ano, especialmente no verão; não trabalham, 
não recolhem mel nem pólen, vivendo unicamente para 
realizar a fecundação das rainhas novas, as quais, depois, 
levam consigo parte da população, indo constituir novo 
cortiço. Como por con.seguinte os machos i-epresentam 
um elemento inútil, depois da partida dos enxames, são 
êles enxotados do cortiço em fins do verão; apenas os 
mais renitentes, que não querem obedecer à oi*dem de ex- 
pulsão, são mortos a picadas. 

Si, com relação a abelha do reino, a denominação 
"r a i n h a" se aplica em tôda extensão da palavra, à fê- 
mea fecundada dos Meliponideos cabe apenas o título de 
"abelha mestra". De fato, os hábitos das nossas 
abelhas indígenas .são muito democráticos. E' fácil com- 
prová-lo por alguns exemplos. Onde quer que esteja a 
rainha de Apis, rodeiam-na várias obreiras, sempre solí- 
citas e atenciosas, a espreitarem as oportunidades em 
que possam .ser úteis à soberana. Nossa "abelha 
mestra", ao contrário, perambula solitária pelos favos 
da cria e em geral ninguém com ela se incomoda; um fato 
bem significativo, entre os poucos que até agora foram 



- 65 



cuidadosamente verii"icadoa com relação à vida intima 
das nossas abelhas, é relatado pelo dr. H. von Ihering-, 
cientista que melhor estudou os hábitos destas abelhas 
indígenas: "A obesa e desageitada abelha mestra queria 
transpor um corredor, porém não pôde prosseguir, pois 
algumas obreiras, que lá se achavam, não lhe davam pas- 
sagem; a muito custo, conseguiu então seu intentOj^^esco- 
Ihendo outro caminho. Nunca uma tal grosseria e tama- 
nha falta de respeito se verificam entre "Apin"] 

Consideremos outro fato: a começar pela própria cé- 
lula, em que se desenvolve uma jovem rainha de Apis, 
nota-se a diferenciação em castas; essa célula real é am- 
pla, espaçosa, e portanto destaca-se desde logo dos berços 
comuns, em que nascem plebeus. Muito ao contrário, 
uma futura abelha-mestra de mandas.saia ou guarupú é 
de origem humilde e sua célula em nada difere das que 
servem às pobres obreiras. Tal confronto só é verdadei- 
ro com relação às espécies do género Mclipnna, pois as do 
género Trigojia constroem células reais, um pouco mais 
amplas. 

(Juando está para nascer a princesa real de Apis, a 
soberana da colmeia demonstra incontida agitação: é o 
ciúme, a rivalidade, o medo de perder o trono. Por fim, 
formam-se no cortiço dois partidos: os conservadores dis- 
põein-se a aconii)anhar a rainha velha e com ela iniciarão 
algures nova familia; os outros são adeptos da jovem so- 
berana, que usurpará o poder. Em casa de nossos Meli- 
ponideos não há êsse ciúme, nem motivos para briga: a 
abelha mestra sabe que "quem casa quer casa" e que, sem 
a mínima discussão, a recém-casada irá, a seu tempo, ten- 
tar fortuna e dar começo a novas instalações. 

Não cabe nos moldes dêste ligeiro capítulo um con- 
fronto comi)ieto da ecologia destas duas famílias de abe- 
lhas sociais — estudo interessantíssimo, a tentar lim 
Maetterlink brasileiro! Mencionaremos apenas ainda a 
diferença notável que a química revela, analisando o mel 
dos dois tipos de aljelhas. 

Como é natural, as várias espécies de Meliponideos 
fabricam cada uma seu tipo especial de mel, porém êste 
nunca encerra sacarose, como o de Apis, que sempre con- 
tém até 10';; dêsse açúcar, semelhante ao da cana. Nas 
abelhas indigoiias o mel compõe-.se essencialmente de levu- 
lose, substância mais doce que a .sacarose (30 a 70, em 
média 45 %) ; dextrose, menos doce que a sacarose (20 a 
50, em média 25 'v ); pequena percentagem de outras 



6õ — 



substâncias e muita água, ao contrário do mel maduro de 
Apin, que contém menos de 25 % de água. Por ser assim 
muito fluido, o mel de ])au cristaliza muito mais lenta- 
mente e mesmo para conservá-lo em garrafa é preciso fer- 
vê-lo, dando-lhe o ponto conveniente 

Até agora punha-se em dúvida a possibilidade de 
obtei- das abelhas indígenas mais do que um pouco de 
mel de pau, a título de curiosidade. 

Porém, depois do que vimos em Pernambuco, temos 
certeza de que êste ramo da apicultura terá grande de- 
senvolvimento. Basta dizer que um simples matuto pôde 
organizar um colmeal de 250 caixas, das quais tirava 
anualmente em média 10 garrafas por caixa, com dis- 
pêndio quasi nulo e outro tanto de trabalho rotineiro. Os 
Meliponideos recomendam-se, pois, grandemente, à api- 
cultura dos não especializados. 

Abiquara — Em Pernambuco é esta a pronúncia por 
"B i q u a r a". 

Abotoado ou "B o t o a d o" — Em Goiaz e Mato Gros- 
so é o mesmo que "Cuiú-Cuiú" (peixe). A espécie 
Pterodoras granulosus atinge mais de 1 metro de compri- 
mento (Mir. Ribeiro). 

Abreu — No Ceará, (ou "Manuel de Abreu" 
no Maranhão) é, segundo Ducke. a mesma abelha so- 
cial MeHpona (Trigona) varia, conhecida em Pernambu- 
co por "M oça branc a". 

Abrote ou "Brota" — E' no Sul do Brasil o nome 
de um peixe do mar, pertencente à família Gadidcos (e de 
fato alguns pescadores, como o afirma o Capitão Boitaux, 
denominam êsse nosso peixe "B a c a 1 h a u", levados a 
essa comparação pela relativa semelhança de aspeto, for- 
ma e sabor). Pertence porém o "Abróte" a uma sub-fa- 
mília distinta, género Urophycis, alcança apenas 80 cms. 
de comprimento e no litoral catarinense aparece em pe- 
quenos cardumes nos meses de Maio a Julho. Caracteriza-o 
o feitio alongado; dorsal composta de duas porções, a 
primeira com 11 raios, e a segunda com mais de 50 e um 
tanto mais longa que a anal. 

No mento há um pequeno barbilhão. As escamas são 
miúdas, cicloides. Há várias espécies em todo o litoral 
brasileiro. 

A denominação "Abrótea" ou "A brota" em 
Portugal é aplicada a duas espécies de peixes do género 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 ] 



— 67 

Phijc.is, igualmente da família Gadideos, a que pertence 
o bacalhau legítimo. 

(Abuti-e) — Nome de aves de rapina em Portugal 
(VuUiir e 'Gyps), que correspondem em seus hábitos, 
mais ou menos ao nosso "U r u b ú"; erroneamente às ve- 
zes designam esta nossa ave com aquele nome. 

Acaé — Denominação indígena das "gralhas". 
Em certas regiões os caboclos ainda a empregam de pre- 
ferência ao nome português. 

Açanã — O mesmo que "Jaçanã" na Amazónia; 
lá, porém, designa as espécies do género Crecisms, que no 
Sul são conhecidas por "Frango d'água". 

(Acanatic) — Esta denominação, mencionada por 
Goeldi (Álbum Aves Amaz.), como sinónimo de "T a i a s- 
sú uira", tem sido copiada dêsse original por vários 
outros autores. Não cremos, porém, ser êsse vocábulo 
usado pelo povo, pois foi evidentemente colhido de alguma 
tribu indígena. A grafia original, "Acanatic", ape- 
sar de repetida por Goeldi três vezes da mesma forma em 
páginas diferentes, talvez não exclua erro tipográfico 
(Acauãtié). Em todo caso a palavra não pode por ora 
figurar no léxicon brasileiro. 

(Acapitan) — Na Revi.sta da Academia Bras. de Le- 
tras (Xiil, de 22) foi registrado como brasileirismo e 
como documentação foi citado o estudo de Rod. Garcia: 
"Nomes de aves em língua tupi". 

Êste autor, menciona, corretamente, "Missões e Pa- 
raguai" como área de distribuição dêsse pássaro (Paroa- 
ria capitata), geralmente conhecido, no Brasil, por "C a r- 
deal"; ocorre também em Mato Grosso, porém não nos 
consta que ali o povo lhe dê aquele nome tupi, que portan- 
to não pode figurar entre os brasileirismos, enquanto não 
houver documentação segura. 

Acará ou "Acara tinga" — é denominação 
dada à "Garça real" (Herodias egrettuj, ao que pa- 
rece só na Amazónia. 

Acará — também "C a r á" ou "P a p a t e r r a". Pei- 
xes da fam. Cichlideos, dos géneros Geophugua, Acara, 
Astronotus, Cichlasonui, etc. A espécie mais comum no 
Brasil meridional, G. brasiliensis, atinge um palmo de 
comprimento, e como o corpo é alto e grosso, alguns pes- 
cadores o levam para casa; mas a carne não presta, pois 



5SCÍELO 9 10 11 12 1 



68 



como o diz um dos seus nomes, êstes peixes vivem do ali- 
mento que encontram no lodo. Os exemplares grandes per- 
dem quusi todo o colorido que os caracteriza enquanto pe- 
quenos, lindo desenho de faixas claras e escuras, que pas- 
sam pelo corpo de alto a baixo u como o azul é metálico, iri- 
sado, esta espécie de há muito atraiu a atenção dos ama- 
dores de aquários. Além disto é peixe que facilmente 
procria, mesmo em pequenos recipientes, e assim qual- 
quer negociante europeu, que tenha os "peixinhos 
vermelhos", originários da China, também tem esses 
nossos patriciozinhos à venda. 

Os três géneros acima citados compreendem cêrca 
de 25 espécies, pela maior parte amazônicas e mato-gros- 
senses. Seus parentes mais ])róximos são as "Joani- 
nha s", "G u e n s a s" e " J a c u n d á s". 

Acará(u)assú — "A c a r á" ou "C a r á g r a n d e" 
é denominação que em várias regiões do país designa es- 
pécies diversas de peixes da fam. Cichíideos (género Gen- 
pharjiiR, Eqiddctiíf e outros). Na Amazónia aplica-se a Ati- 
trovotiifi (icrAlntus, da mesma família; cabe-lhe especifi- 
camente o nome "A p a i a r í", sob o qual o descrevemos. 

Acará bandeira — E' uma das formas maia notáveis 
da fam. Cichlhlena. Única espécie do género, Pterophiilum 
scalarc, de corpo ovalado como o "Morerê", tem a nada- 
deira Dorsal muito alta e a Anal e as Ventrais têm os 
primeiros raios prolongados em filamentos mais longos 
que o comprimento de todo o corpo. Afora êsle ornamen- 
to, que lhe valeu o nome vulgar, ornam êste lindo peixe 
várias faixas verticais, 3 mais escuras, alteriiadas com 
outras menos sombrias, além do desenho das nadadeiras, 
também em linhas paralelas. Nada calmamente, poder- 
se-ia dizer consciente de sua beleza, sem utilizar outras 
nadadeiras a não ser as Peitorais e como estas são incolo- 
res, transparentes, tem-se a impressão de que o peixe se 
locomove .sem o menor esforço. Entre os amadores de 
aquários, que em sua gíria adotaram o nome específico 
"Scalare" para êste peixe, c êle o mais famoso entre os 
favoritos. 

Atinge no máximo 15 cm. de comprimento. 

Acará-peva ou "A c a r á - 1 i n g a" e "Acará- 
u na" — Compreende várias espécies de peixes do mesmo 
género dos precedentes. Como o dizem os nomes tupis, 
são mais chatos (péva), brancos (titiua) ou pretos (una) 
que a espécie típica ; mas zoologicamente, ê.stes nomes não 



~ 69 



distinguem suficientemente as espécies, pois há diversas 
com os mesmos característicos. Aliás a palavra A c a r á 
ou C a r á não se aplica unicamente a êste grupo de peixes, 
parecendo ter acepção ampla, extensiva também a várias 
espécies marinhas. (Veja-se sob "Cará"). 

Acai-á-topete — E' o macho do acará comum (Geo- 
j>h(igi(s brítsiliensis) , no qual se desenvolve uma protube- 
rância na cabeça; esta parece que só lhe brota na época 
da reprodução, à guiza de gala nupcial. 

Acari — O mesmo que "G u a c a r i". (Não confun- 
dir, porém, com "C a r í") . 

Ácaro — Termo de origem científica (nome de um 
género) e que, na linguagem culta, em acepção mais am- 
pla, designa a todos os Arachnoidcft da ordem Acarinos 
(caracterizados por terem cabeça confluente com o resto do 
corpo, sem segmentação). Zoologicamente aqui também 
fica compreendida a fam. I.rodideos; a êstes porém, 
coube a denominação vulgar "Carrapato s". Todos os 
outros ácaros são menores, em boa parte quasi microscó- 
picos. Convém notar «pie as formas larvais desta ordem 
são hexápodes, como os insetos, e só na fase adulta pas- 
sam a ter 4 pares de patas, como todos os Aracnoides. 
As espécies que têm nomes vulgares são "S a r n a", "M i - 
c u i m", alguns dos chamados "Piolhos de gali- 
n h a" c os ácaros da fam. Tinofjliiphiihos. Èstes últimos 
medem apenas alguns milímetros e cada espécie tem seu 
habitat predileto, como sejam o queijo, a farinha embolo- 
rada, frutas sêcas. Um outro grupo de ácaros, de corpo 
alongado c in'ovido apenas de 2 pares de pernas, vive nos 
vegetais, sobre cujas folhas as muitas espécies determi- 
nam galhas (Eriophndeos) e que pouco diferem do para- 
sita do homem (gên. Dcmodcx) , que jíroduz o "Cravo" 
(veja êste) . 

Acauã — também "C a u a n", "U a c a u à" e "M a- 
ca g u á". Ave de rapina da fam. Falcon ideos, Tíerpetothc- 
re.H cdchhiiKDi.s. Belo gavião, que ocorre em todo o Brasil 
interior e na Amazónia. O costado é bruno-escuro, inclusi- 
ve azas e cauda; esta tem algumas faixas transversais, 
claras. O lado inferior é branco-amarelado e de igual côr 
são o alto da cabeça e uma faixa ao redor do pescoço. O 
sr. João L. Lima informa que o grito forte e compassado 
diz: "maca-u-ã". Nas noites de luar êle grita até altas 
horas. Na Amazónia é tido como ave agoureira, cujo 
canto ou grito, parecido com uma gargalhada estrepitosa, 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



- 70 



pressagia desgraça. Em outras localidades amazônicas di- 
zem que esta ave é o terror das mulheres, porque o 
acauã se apossa do espírito delas e as obriga a cantar, 
com êle, as três silabas do seu nome. 

Claro está que é tudo pura superstição e a ave, 
muito i)elo contrário, só merece elogios e efetiva proteção, 
pois as cobras venenosas constituem seu alimento de 
pi'edileção, como aliás o indica o nome genérico. 

Também nas lendas dos índios o Acauã figura 
como comedor de cobras. Durante as múltiplas peripé- 
cias da fuga de um moço índio, perseguido peia velha 
gulosa, sucede o seguinte: "O moço estava para ser mo- 
queado por dois surucucús: ouvindo cantar o macauan, 
pediu o auxílio dêste que logo comeu os dois surucucús e o 
moço pôde fugir...". (Barb. Rodrigues). 

Acuráua — O mesmo que "B a c u r a u", na Amazónia. 

Acutimhóia — Veja-se sob "C u t i m b ó i a". 

Acutipurú — Veja "Agutipurú" — Denomina- 
ção amazônica do "Serelep e". 

Agachada — O mesmo que "N a r c e j a". Em Per- 
nambuco diz-se "A g a c h a d e i r a". 

Agarrador — O mesmo que "P e i x e - p i o 1 h o". 

Agua-fria — Peixe do mar. 

Agua-viva — Celenterados marinhos, da classe dos 
Sci/phozoarios, também chamados "Ponon", "Cho- 
ra- Vinagre", "Mãe Joana", "Alforrecas" 
ou "Cansanção" na linguagem vulgar (ve- 
ja-se também sob "Caravelas" e "Medusas", sen- 
do êste último nome de origem erudita). O corpo mole, ge- 
latinoso e transparente não tem consistência e só quando 
mergulhado na água toma seu feitio natural, que lembra 
a forma dos cogumelos ou de um guarda-chuva aberto. A 
espécie mais comum do nosso litoral é do género lihizníi- 
tonia e alcança mais de um palmo ile diâmetro; mas há 
muitas outras espécies bem maiores e muito mais lindas, 
tanto pelo feitio delicado, como pelo colorido. As espécies 
desta classe são urticantes, isto é, têm um aparelho de de- 
fesa, com o (piai dão alfinetadas ardidas; porém só 
em algumas (Caravelas c h o r a - v i n a g r e " e 
outras) êsse meio de defesa chega a ser tão violen- 
to, que seu contato com a pele humana provoca quei- 
madura (dôr aguda e eritema). Seu alimento con- 



— 71 



siste em pequenos peixes, como sejam sardinhas e 
também camarões e, devido à transparência do corpo ge- 
latinoso, pode ser observado como se realiza a digestão. 

As medusas do feitio normal, como acima o descre- 
vemos, locomovem-se contraindo a campânula; êste mes- 
mo movimento também de- 
termina a circulação da água, 
que promove a respiração. 
Em outros celenterados, o 
naturalista observa uma 
complexa divisão de traba- 
lho, a ponto de se poder en- 
carar o conjunto como sendo 
uma reunião de muitos indi- 
víduos, cada um de feitio es- 
pecial, adequado à função 
que lhe compete; assim, um 
certo grupo de indivíduos 
promove a flutuação, outros 
funcionam como órgãos de 
sentido, que tateiam, outros 
seguram a presa e outros a 
digerem.- São êstes Siphouophnros certamente os mais lin- 
dos seres do mar, tanto pela estrutura como pelo colorido 
maravilhoso; algumas espécies são fosforescentes, como 
aliás o são também algumas medusas dos Scyphozoarios. 

(Águias) — As verdadeiras águias, do gên. Áquila, 
não ocorrem em nossa região faunística e os gênex*03 
afins da mesma sub-família Aquilineox da América do 
Sul abrangem apenas espécies menores. Si, porém, to- 
marmos a denominação "Águia" na acepção lata, de- 
signando possantes aves de rapina, podemos ufanar-nos 
de ser principalmente brasileiro o belíssimo "G avião 
real" ou "Hari)ia" (veja êstes). 

Águia pescadora — Ave de rapina, da fam. Falconi- 
ricos (Panãion haliuetiis caroUnevsis) e que é apenas uma 
subespécie da forma européia. As aves americanas pas- 
sam o verão aqui no Sul, mas, em chegando o inverno, 
emigram para o outro hemisfério. São aves atléticas, 
muito bem talhadas para o seu mistér, que é a grande 
pesca no mar. As azas são longas e, no repouso, suas 
pontas alcançam a cauda. O colorido é escuro em cima, 
branco no lado ventral ; a cabeça em boa parte também 
é branca. A plumagem é compacta e oleosa. Como o 




72 — 



diz seu nome, esta águia vive da pesca e, tendo espreita- 
do alííum peixe que lhe convenha, atira-se à água e chega 
a desaparecer por alguns momentos. Às vezes reaparece 
com uma carga que equivale a um terço do seu próprio 
peso; vôa então para alguma árvore copada, afim de sabo- 
rear o peixe, socegadameiite. Seu ninho é um amontoado 
de paus e gravetos, de mais de um metro de diâmetro e, 
voltando anualmente a ocui)á-lo, aumenta-lhe ainda as di- 
mensões. 

Agulha — Peixes do mar, da fam. Belonideos, gé- 
neros Belona e Tylosurtis, de corpo alongado e maxilai-es 
tranformados em longo bico, provido do grande número 
de dentes; os espécimens maiores, que alcançam mais de 
um metro de comprimento, tornam-se perigosos aos pes- 
cadores. Igual nome têm ainda outros peixes semelhan- 
tes, da fam. Exocoetideoa (Hewirh(im])huK braHilievfiis), 
que, porém, .são herbívoros, com dentes muito menores; 
de acordo com ê.ste género de alimentação, a carne destas 
últimas espécies não é tão saborosa como a das "Agu- 
lhas" carnívoras. (Veja estampa da pg. 182). 

O pescador de Pernambuco, quando vai às "agu- 
lhas", leva consigo na prôa da jangada um "bote", que 
aliás é apenas uma pequena balsa, de pouco mais de um 
metro quadrado, feita de toletes de pau de jangada. A 
rede mede 25 braças de comprimento e 4)/4 de alto; as 
malhas são de 2cms. ; no copo, de fio gros.so, a malha é 
de 1 cm. apenas. A melhor pescaria faz-se na "ponta 
d'água", na divisa entre a água suja do litoral, e a limpa, 
do mar aberto; aí há quantidade de agulhas, o ano todo. 

O bote é i)osto a flutuar com um tripulante e mais 
100 braças de corda e a jangada, com os dois outros iies- 
cadores, segue, soltando a rêde; depois, tomando rumo 
peri)endicular a esta, solta 90 braças de corda. Por fim 
encontram-se as duas embarcações e a rêde é puxada i)ara 
a jangada. As agulhas pequenas fogem pela malha maior 
e no copo ficam os exemplares de mais de um i)alnu> de 
comprimento. Em cada uma dessas pe-scarias são apa- 
nhadas às vezes algumas centenas dê.stes peixes, que em 
média pesam 5 quilos o cento, e rendem assim fiÇOOO ao 
jíescador. No mercado é considerado peixe de 5." classe, 
ao preço de l.?800 por quilo. Os pescadores distinguem 
3 espécies: agulha branca, preta e torta. 

No Recôncavo da Baía as "agulhas" são pesca- 
das por meio de um aparelho denominado "r u p i c h e 1". 
Compõe-se, segundo o Contra-AIm. Camara, de uma vara 



— 73 



tendo na extremidade um arco de ferro com um saco 
feito de rêde de malha miúda, nele cosida; é, portanto, um 
aparelho semelhante à conhecida rêde de apanhar borbo- 
leta. Em noites escuras, saem os pescadores em pequenas 
embarcações com um facho ou uma lanterna, para clarear 
a água e encandear o peixe, que nada à tona. A embar- 
cação segue em direção contrária à maré e quando o pes- 
cador, colocado na prôa, avista as agulhas, bate com o 
rupichel na água em frente à direção em que vêm os pei- 
xes e, como êstes sempre saltam para a frente, assim en- 
tram no bolso da rêde. 

Agulhão — Designa-se assim em especial a maior 
das quatro espécies do género Tj/losio-Ks, T. raphidoma e 
(lue se distingue anatomicamente das demais, por ter 22 




Agulhão 



a 23 raios dorsais e 20 a 21 anais, ao passo que as outras 
espécies têm respectivamente 13 a 15 dorsais e 14 a 18 
anais. 

Além da espécie acima citada, os pescadores abran- 
gem outras sob os nomes de agulhão tum, lambáio, trom- 
beta e roliço. 

Agulhão bandeira — E' um peixe marinho muito sin- 
gular — Isdoiihoni.^; (I Dtcricdinití, pertencente à mesma fa- 
mília do "Espadarte", dos Xiphiideos. Caracteriza-o 
o longo bico, verdadeira espada, acuminada; a nadadeira 
dorsal extende-se iior grande parte do tlorso, é nuiito alta, 
azul escura com máculas negras. Atinge mais de 2 metros 
de comi)rimento. Já Marcgrave, em seu compêndio de 
ltí'18, dá um desenho deste "Giicbuçã" e, conquanto con- 
fundido às vezes com o espadarte verdadeiro, tem sido 
mencionado como i)eixo feroz, que chega a encravar seu 
rostro no madeiramento das embarcações. 

Agulhão trombeta — Veja sob "Trombeta". 



74 



Aííulhão de vela — Peixe do nuir, registrado na liata 
oficial (Voz do Mar N. 47) como concorrendo com regu- 
lar quantidade para o mercado do Rio Grande do Norte. 
Sendo porém o Istiophorus (Veja "Agulha o ban- 




AguIbSo de vela 



d eira") sempre raro, aquele fornecimento em maior 
quantidade parece indicar que o peixe "de vela" pode ser 
referido ao género Tylomnis (veja "Agulhão"). 

Agutí — O mesmo que "C u t i a". 

Agutipurú — Vários autores assim grafam a deno- 
minação amazónica dos "C a x i n g u e I ê s" ou "Sere- 
lepes" (veja êste) ; também Barbosa Rodrigues empre- 
ga só esta grafia, cuja etimologia êle explica como "cutia 
piirú", emprestada, isto é: que emprestou o feitio. Con- 
tudo a pronúncia mais generalizada é "Coatipurú" 
ou "Q u a t i p u r ú". 

Aquela forma lembraria parentesco com a Cutia (ou 
Agutí, na pronúncia indígena), ao jjas.so que, por serem 
ambos arborícolas e providos de longa cuida, a compa- 
ração com o "Coatí" tem mais razão de ser. Também na 
geografia amazônica, a forma (Juatipurú está consagrada. 

(Aí) — Nome indígena da "P r e g u i ç a". "A i g" é 
grafia que imita melhor a pi-onúncia original; só entre a 
população tapuia do Amazonas essa ilenominação pode 
ainda estar em uso. 

Aiassá ou "Aiussá" — E' termo amazônico, que 
parece abranger várias espécies de tartarugas da água 
doce, do gên. Podocnemís, aplicado, porém, (unicamente 



75 



ou de preferência?) aos espécimens novos. Contudo 
Goeldi, em sua monografia, o restringe a Pndooiemis se.v- 
tuberculata e também o Museu Paulista obteve, sob o 
nome "Pitiú aiassá", um exemplar dessa espécie, de 17 cm. 
de comprimento, colhido no alto Juruá. Os espécimens 
adultos desta última espécie parece que não ultrapassam 
30 cm. de comprimento. Aliás, a significação original, 
tupi, deve ser genérica. Veja também "Arapussá". 

Aiereba — Raia da fam. Dasijatideos, Dasijatis orbi- 
cnlaris, de corpo um tanto oval e de cauda longa, provida 
de um acúleo. a pouca distância da ba.se. Mais conhecida 
é a espécie congénere "Raia lixa". 

(Aig) — Denominação indígena e onomatopaica da 
"Preguiça"; é usado, talvez raramente, pelos .serta- 
nejos amazònicos. 

Aimoré — Pronúncia pernambucana e talvez de todo 
litoral nordestino, por "emboré" ou também "amboré". A 
tribu de indíos aimorés nunca esteve no litoral sul (San- 
tos) e assim não se pode dar a "mboré", que é a pronún- 
cia original, aquela etimologia, que aliás também na re- 
gião septentrional nordestina não tem cabimento. Os 
peixes conhecidos pelos dois nomes são idênticos generi- 
camente e por tanto se lhes deve procurar uma etimologia 
comum. Veja sob "E m b o r é" e também sob "M u s s u- 
r u n g o". 

Aiu.ssá — Veja "A i a s s á" e também "Tartaru- 
ga da A m a z ô n i a". 

Ajurú — Na Amazónia, é denominação genérica de 
várias espécies de papagaios do gên. Amazona, ao qual 
pertence o "Papagaio verdadeiro". Veja também "M,o- 
1 e i r o". 

Albacora — Veja "A 1 v a c o r a". 

Albatroz ou "Gaivotão" — Ave oceânica da 
fam. Diomcdeideos, Diomedea mcjanophrys. Bela ave bran- 
ca, com dorso e azas escuras; a cauda é cinzenta, os pés 
e o bico são amarelos, êste com ponta mais escura. Mede 
75 cm. de comprimento total e a envergadura é de mais de 
um metro. No litoral de S. Paulo já é raro, pois prefere 
as regiões frias do Sul. Lembraremos que o nome, nesta 
forma mais usada pelos ingleses, tem a mesma origem 
que "A 1 c a t r a z". 



Alcaide — Espécie de "Gaturamo", Eaphonia 
pectonãis, que .se (listinpue das espécies congéneres por 
ter barriga de cór castanha, quando os outros gaturamos 
têm o lado ventral amarelo. E' do Brasil meridional, do 
Kio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. 

Alcatraz — ou "Tesoura" ou "Gr a pira", ou, 
no Rio de Janeiro, " J o ã o Grand e". Ave oceânica da 
fam. FrcuotideoK, Frcfiata aiiuild. O macho tem i)lumagem 
inteiramente preta; só as partes nuas da garganta e dos 
pés são vermelhos; a fêmea tem pescoço e peito brancos. 
Coube-lhe o nome "tesoura" por ser a cauda muito compri- 
da e bifurcada, como uma tesoura. E' ave marítima, que se 
extende do Paraná às regiões tempei-adas da América do 
Norte e gosta de frequentar os portos. E' um tirano das 
outras aves pescadoras, às quais obriga a regorgitar a 

preza já ingerida, apanhan- 
do no vôo o ])eixe vomitado, 
' antes deste atingir . a água. 
Acompanha os navios em alto 
mar, a grande distância da cos- 
I ta e, assim, é uma das primei- 
ras aves que indicam aos nave- 
gantes a proximidade de terra. 

O nome é de origem ára- 
be ; veja " A 1 b a t r o z". 

Alecrim — Ouvimos de- 
signar assim algum seláquio. 
Talvez seja, porém, apenas cor- 
ruptela de "A n e q u i m". 

Alegrinho — Passarinho 
(la fam. Ttirannideos, Svrpo- 
])h(t(in Niihcrintata. O colorido 
é cinzento-azeitonado em cima, 
branco-amarelo um baixo; o 
vértice cinzento tem uma man- 
cha branca e de igual côr são 
duas faixas onduladas sobre a 
aza. Habita todo o sul do país, 
até S. Paulo e Minas. Seus parentes mais próximos são 
as "G u a r a c a v a s". 

Aleluia — São as formas aladas dos "Cupins" 
(Veja êste). Às centenas saem elas dos ninhos, quasi sem- 
pre u tardinha, após a chuva, nos mêses de Outubro e No- 




77 



vembro. Nesta ocasião, escolhem lugar apropriado para 
o início do novo cupim. E' geralmente conhecida a fa- 
cilidade com que se desfa- 
zem das azas (mitotomia), 
logo que não as necessitem 
mais para o vôo. O povo às 
vezes confunde a denomina- 
ção "aleluia" com a "S a r á- 
sará" (formigas) e tam- 
bém com as "Siriruias" 
(Efeméridas) . Desconfia o dr. Neiva que "aleluia", 
neste sentido, seja apenas corruptela de "s i r i r u i a". 

Alfaiate — O mesmo que "T i s i o". 

Alforreca — Em Portugal e também entre nós al- 
guns praieiros conhecem por êste nome as medusas ou 
"Água- viva". 

Alincorne — Má pronúncia de "Uni corne"; na 
Amazónia designam assim a "Anhuma". 

Alma de caboclo — ou "A Ima de g a t o", 
ou "Rabo de e s c r i v ã o", "R a b i 1 o n g a", ou 
" T i n g u a s s ú " ou " C h i n c o ã " na Amazónia, 
ou "M eia-patac a". (Porém, em certas zonas 
do Rio Grande do Sul, onde esta espécie não ocor- 
re, o nome "Alma de gato" coube à ave co- 
nhecida em São Paulo por "A n ú branco"). Ave 
da fam. Cucididcof^, Puiiin caiicDia, cujo compri- 
mento atinge 50 cms., cabendo dois tei'ços à cauda. A 
côr do lado superior é castanho-parda, o lado inferior é 
cinzento-ardó.sia na barriga, mas o pescoço e o peito são 
vermelho-cinzontos. As penas caudais, gradativamente 
mais curtas, do meio para os lados, têm ponta branca. 
Pela variedade dos nomes com que foi crismada, vê-se 
que gosa de popularidade, devido em jfiarte ao desemba- 
raço com (lue se mostra ao redor das casas da roça; sua 
presença, aliás, é útil, pois sua faina diária consiste em 
dar caça aos carra])atos do gado e aos gafanhotos. Diz 
Cotíldi que o "A Ima de g a t o" é um compilador das 
obras musicais de seus companheiros, mas devemos 
acrescentar que é com bem pouca arte que êle o faz. Veja- 
se o (lue dizem os amazonenses dêste "Chincoã". 

Alma de mestre — Ave oceânica da fam. Procelari- 
ideon, Ocr<nn'tcs oceânica. Mede 17 cm. do comprimento; 
o colorido é escuro, um pouco mais claro no lado ventral ; as 
coberteiras das azas são cinzentas, as da cauda são brancas. 




Aleluia do cupim 



— 78 — 



Alvacora ou "A 1 b a c o r a branca" — Peixe do 
mar da fam. Scombruleos, Germo alalonga, um tanto se- 
melhante à Cavala, Sororoca ou Bonito, da mesma famí- 
lia. (O "atum", que é do mesmo género, porém muito 
maior, não ocorre em nossas águas). A alvacora atinge 
mais de um metro de comprimento e, como o corpo é vo- 
lumo-so, chega a pesar mais de 20 quilos. Caracterizam- 
na as 3 carenas no extremo posterior do pedúnculo da 
nadadeira ; esta é perfeitamente semilunar. O colorido 
do lado superior é azul de aço, escuro; a parte inferior é 
branca. No mei"cado alcança cotação superior à da ca- 
vala, por ser a carne mais tenra e solta. Procura de 
preferência as águas perfeitamente límpidas e no extremo 
Norte é pescada em grande quantidade nos mêses de es- 
tiagem (Outubro a Janeii'0). Transcrevemos da "Voz 
do Mar", N." 23, a seguinte descrição do processo da pes- 
ca "de corso", usado na Paraíba e no Rio Grande do Nor- 
te, onde aliás êsse sistema de pesca é conhecido pela de- 
nominação "de corrico". 

"Da pôpa da embarcação, que não cessa de velejar 
em todos os sentidos, são lançadas duas linhas ("linhas 
de corso") munidas de anzóis especiais, com iscas de sar- 
dinhas ou pirá. Cerca de 60 braças de cada linha são 
arrastadas pela embarcação, ficando disponíveis a bordo 
40 ou 50 braças. Cada uma dessas linhas c manobrada 
por um pescador, que a prende à cintura com um laço fal- 
so, de modo a desfazer-se quando o peixe se ferra no 
anzol. Nesse momento o mestre faz panejar a embarca- 
ção, desenrolando-se durante a manobra a linha disi)oni- 
vel no barco, isto para não forçar o peixe. Colhida a al- 
bacora, continua a faina enquanto há luz solar, sendo pos- 
sível uma só embarcação colhêr de 50 a 80 peixes por dia". 

Alvacora lageira — Peixe semelhante ou idêntico ao 
precedente, porém .um tanto maior. 

Amanas.saia — O mesmo que "M a n d a s s a i a". 

Amassa-harro — E', segundo o Sr. João L. Lima, o 
nome dado em Mato Grosso ao "J o ã o de b a r r o". 

Ambira — Na região de Iguapé (Estado de São 
Paulo) denominam assim, segundo A. Neiva, as lagartas 
urticantes. É, pois, sinónimo, ao que parece puramente 
local, de "T a t o r a n a". 

Amboá — Em Mato Grosso é o mesmo que 
"E m b o á". 

Amboré — Veja sob "Amor é". 



— 7g 

Amêija — ou "A m ê i j o a" (sendo esta a forma ver- 
nácula poi-tuguesa) . Desiíjna no Brasil meridional as 
conchas bivalvas, da fam. Lucmideos, Phacoiães pectina- 
tus (antigamente: Lucina jamaicensis) e Lncina crijp- 
tella (antes L. brasiliensis) , e provavelmente outras do 
mesmo grupo, que compreende, além destas, uma dezena de 
espécies mais ou menos semelhantes, inclusive os géneros 
Codakiu e DivuriceUa. As espécies primeiro menciona- 
das são comestíveis e muito apreciadas pelos praieiros; 
há ocasiões em que são colhidas em grande quantidade no 
lagamar. 

Amêijoa branca — Concha bivalva comparável à 
precedente, mas de outro género. Dosinia concêntrica: o 
nome vulgar foi registrado por H. v. Ihering em St.'^ Ca- 
tarina e talvez "S e r n a m b i t i n g a" seja seu sinó- 
nimo. 

Amêjua — Na Amazónia designa vários laccrtílios 
e parece que seu nome genérico latino, Ameiva, não é si- 
não corruptéla dêsse nome vulgar. 

Amor de mulato — Peixe do mar em Pernambuco. 

Amoré ou "A m b o r é" ou "A m o r e i a" — E' co- 
mo se pronuncia no Nordeste, provavelmente de acordo 
com a dicção original, tupi, designando os pequenos pei- 
xes, que no Sul do país são conhecidos por "E mb o ré" 
(veja êste). 

Anacã — Ave da fam. Psittacídeos, Deroptyus accipi- 
trínus, sem dúvida o mais in- 
teressante dos nossos papa- 
gaios, mas que só ocorre na 
Amazónia. Tem uma gola de 
penas longas, bordadas de azul, 
ao redor do pescoço e, quando 
excitada, a ave levanta êste 
lindo ornato em forma de leque. 
A cabeça é bruna, o dorso c as 
azas são verdes; o ventre azul 
tem manchas vermelhas e ver- 
des; a cauda é longa. Vive em 
bandos; também o grito dessa /Slif^L^^^^^^J^W''-''^ 
ave interessante difere do dos ir^ * 
demais PNitacideos: é um vigo- Amct 
roso "kiá-kiá-kiá-gui-gui-gui". 

No Sul do país dão o mesmo nome ao "M a r a c a n ã- 
g u a s s ú ". 




80 



Anajá — É, no Maranhão, um pequeno curangucijo 
escarlate, que vive trepado nos mangues. Provavelmen- 
te são espécimens novos de Goniopsis cmentatu. (Veja-ae 
sob "A r a t ú") . 

Anambé ou "G u a i n a m b é" — Na Amazónia 
é êste o nome genérico dos pássaros da fam. Cotingideos 
(géneros Cotinpu, Xipholeva, Tityro, Jorln pleura, etc; 
veja-se também sob "C o t i n g a") aos quais no Sul corres- 
pondem os "C o r o c o c h ó s". São em geral espécies de 
tamanho meão, como a "Araponga", seu representan- 
te mais conhecido no Brasil meridional. Há "Anam- 
bés" de várias côres: "A. azul", que é dessa côr no 
dorso; o lado inferior é vermelho purpúreo e as azas 
e a cauda são pretas — gên. Catinga (nome genérico 
êste derivado de igual denominação indígena). "Anam- 
bé preto" (Quervla pnrpnrata) é pássaro preto, po- 
rém o macho tem garganta purpúrea. "A n a m b é 
branco" (gên. Titara) tem plumagem em parte bran- 
ca, em parte preta (azas e cauda). Veja-se ainda "1! a- 
c a c ú" e "C r i c r i ó". 

Anambé-pitiú ou " A n a m b é - a s s ú" ou "Pom- 
b o - a n a m b é" — E' pássaro que pertence de fato à fam. 
CotingiãcoH, a qual compreende os verdadeiros Anambés. 
A presente espécie, porém ((riimnodcntft foctiditt^) difere 
sensivelmente daquelas e assim admira o tino zoológico 
demonstrado pelo indígena cm sua terminologia. O !)orte 
é relativamente grande, a côr geral negra, com azas bem 
mais claras; caracteriza-o, principalmente o curioso cola- 
rinho de pele núa, rugada, de côr azul escura, ao redor do 
pescoço e também o bico é azul. Tanto o nome específico 
como o "pitiú", designam a ave como mal cheirosa. 
Vive só na Amazónia e no Mato Grosso. 

Ananaí — Ave da fam. Aiiai idcns, Ncttion l>rasi- 
licnnia. E' a marreca mais comum <lo Brasil, da Ama- 
zónia ao Rio Grande do Sul. O colorido geral é pardo-cin- 
zento, mais claro no lado inferior; a cabeça em cima e o 
pescoço superior são mais escuros; a face é castanha e a 
garganta alvacenta ; no peito e na barriga notam-se l'aixas 
transversais; as azas têm colorido negro, verde e azul me- 
tálico e pontas brancas. A fêmea distingue-se pelas man- 
chas brancas na região dos olhos. 

Anato — O mesmo que "P i r a r u c ú". 

Anchova — O mesmo que "E n c h o v a"; esta é a 
pronúncia brasileira, aquela a portuguesa. 



— 81 — 



Andirá ou "Gu and ir a" — Equivale em tupi a 
"morcego" em geral (Couto de Magalhães escreve a7idi- 
rá). Têrmo obsoleto ou em via de ser esquecido, mesmo 
pela população sertaneja. 

Andira-guassú — Nome indígena que designa as es- 
pécies maiores de morcegos, tais como PhylloHtoma spec- 
tnim, com 72 cnis. de envergadura, e Ph. hastatnm, com 
pouco menos. No Sul do Brasil as espécies maiores atin- 
gem apenas 50 cms. de envergadura. 

Andorinhas — Pássaros da fam. Hirundinidcos, ao 
todo 14 espécies brasileiras, de feitio muito característico, 
talhado pai-a o vôo rápido e elegante. O colorido do 
lado superior é ou 
azul metálico ou par- 
dacento ; a parte 
ventral de muitas es- 
pécies é branca e al- 
gumas têm ornatos 
avermelhados. Há al- 
gumas espécies de 
andorinhas que nidi- 
ficam na América do 
Norte e vêm passar o 
inverno aqui; mas a 
maior parte procria 
no Brasil, fazendo 
ainda assim as suas 
migrações. Muitas 
espécies excavam ca- 
nais nos barrancos ou aproveitam os que encontram já 
feitos por outros animais; outras nidificam em troncos 
ôcos, ou então fazem ninhos, como os outros pássai'os se- 
mi-domésticos, por baixo das tolhas das casas. Nenhuma' 
das nossas andorinhas constróe ninho de barro, como o fa- 
zem as espécies correspondentes europeias. 

Na lista dos pássaros úteis, as andorinhas figuram 
em primeiro plano e esta utilidade ressalta ainda melhor, 
tornando-se patente, mesmo a quem não costuma pi'es- 
tar atenção às coisas de biologia, quando se observa um 
centro de reunião destes pássaros, como o é a já célebre 
"Casa das andorinhas" de Campinas. 

Repetidas vezes literatos de estilo brilhante procura- 
ram descrever o belíssimo espetáculo que oferece essa 
casa, onde à noite se recolhem nuvens de milhares de an- 
dorinhas e lembraremos em especial o formoso quadro, de- 




Aiidorinha 



SciELO 



10 11 12 1 



-—82 — 



pintado por Ruy Barbosa, em uma de suas famosas 
orações. 

No amplo barracão situado no centro da cidade de 
Campinas funcionava outrora um mercado; invadido pelas 
andorinhas, foi êle cedido a estas pela municipalidade. 
Demonstrando assim elevada compreensão dêsse curioso 
e utilíssimo fenómeno, Campinas encorporou a "Casa 
das Andorinhas" às suas mais atraentes curiosidades 
naturais. 

Dedicámos certa noite à observação dêsse interessan- 
tissimo albergue. Passámos a noite tôda em claro e, hora 
por hora, voltávamos a vigiar as andorinhas. Acomoda- 
das nas ripas do telhado o, pousadas corpo a corpo, en- 
chiam elas literalmente todo o espaço disponível, forran- 
do assim completamente as duas abas do telhado. 

As primeiras horas da noite, algumas ainda voavam 
de um ponto para outro, rente com o telhado, porém 
poucas, pois dificilmente encontravam algures espaço su- 
ficiente entre as companheiras, para de novo se acomoda- 
rem. Chilreavam continuamente, ora um pouco me- 
nos, ora numa gritaria excitada ou raivosa, em que 
todas tomavam parte. Houve quem comparasse, com certa 
propriedade, todo aquele barulho a um remexer contínuo 
de uma grande montoeira de cacos de vidro e de louça. 
As horas passavam, mas o chilrear continuava incessante, 
sempre o mesmo. 

Hora por hora voltávamos a certificar-nos de que, 
como nós, as andorinhas não dormiam. Até a madrugada 
o rumor confuso continuou ; positivamente tivemos a quasi 
certeza de que nenhuma das andorinhas conseguira dormir 
um momento siquer. E afirmaram-nos os moradores visi- 
nhos que tôdas as noites aquela mesma algazarra se repete. 

Ainda no horizonte não se distinguiam os primeiros 
albores e um pequeno grupo de uiulurinhas, de algumas 
dezenas apenas, voou para fora, a dar ligeira volta pelo 
espaço. Em breve recolheram-se ao telheiro. Momentos 
depois novo bando, já acrescido de mais algumas dezenas 
de companheiras, descreveu o mesmo giro, talvez mais 
amplo e mais demorado. Recolheram-se também estas, 
novamente, ao pouso. Assim numerosas vezes se repeti- 
ram os ensaios e, sempre que o bando tornava a sair, no- 
vas companheiras se lhe agregavam. Poi- fim, (juando o 
horizonte já clareava sensivelmente e as nuvens tomavam 
as lindas cores da aurora, quasi todas as andorinhas ha- 
viam renunciado ao repouso. Formando nuvens, milha- 



^ 83 — 



res de pássaros volteavam no ar, mais ou menos aglome- 
rados, de modo a constituirem enormes, extensas faixas, 
ora isoladas, ora reunidas em um único véu estirado, 
imenso, sinuoso, vivo. Gosando as delícias do vôo e como 
que correspondendo ao desejo do espectador maravilhado, 
prolongaram as andorinhas a encantadora visão, até re- 
solverem partir, todas juntas, para o trabalho... E 
assim, após uma última evolução mais ampla, a coluna 
seguiu para o campo; até o horizonte pudemos acompa- 
nhar com a vista a faixa viva que, não sabemos a que 
distância, se desagregaria em milhares de auxiliares dos 
agricultores. 

Fizemos um cálculo, aliás bastante simples, para 
avaliar o número dêsses hospedes do albergue campineiro. 
Medimos a extensão do telhado e contámos o número de 
ripas, multiplicando depois a metragem obtida pelo nú- 
mero de passarinhos que, bem unidos uns aos outros, se 
acomodavam em um metro de ripa. Por tal cálculo não 
podíamos errar sinão por pequena fração, porque não 
havia meio palmo de ripa sem locador. Obtivemos esta 
cifra: 30.000 andorinhas, todas da mesma espécie, 
Pfufiue chahjbca domestica, conhecida por "andorinha 
grande" ou também por "T a p e r á". Imagine-se agora 
a enorme quantidade de alimento reparador de que neces- 
sita cada um dêsses organismos, que por assim dizer não 
descansam o dia inteiro, sempre a voltijar rapidamente. 

As andorinhas são única e exclusivamente entomófa- 
gas e como cada uma delas necessita no mínimo de 60 a 
80 insetos para sua refeição diária, vemos que o benfa- 
zejo bando campineiro, todos os dias extermina para mais 
de 2 milhões de insetos. Pouca gente avalia ao certo o 
grande benefício que daí advém às condições da lavoura 
e da higiene de uma região. Iniciando sua ação justa-' 
mente nos niêses em que os insetos cuidara de sua mul- 
tiplicação, as andorinhas, desde logo, fazem baixar o nú- 
mei'o de fêmeas dispostas a desovai', evitando assim os 
males e as depredações que acarretaria a eclosão de uma 
infinidade de larvas e lagartas v(n-azes. 

São confundidas com "Andorinhas" certas espé- 
cies menores da fam. Cypi^elideos, com mais propriedade 
conhecidas por "T a p e r u s s ú s". Apesar de terem, de 
facto, o aspeto de andorinhas grandes, pertencem a uma 
ordem diversa, (Cnracnforincs), e são antes aparentadas 
com os curiangos e beija-flores. Veja-se sob "A n d o- 
r i n h õ e s". 



84 — 



Andorinha do mar — Ave da fam. Larideos, Phae- 
tum magnirostris. Espécie de gaivota do litoral e dos 
grandes rios. A cauda é curta; a côr geral, cinzenta; a 
cabeça em cima e a nuca são pretas, bem como as rêmi- 
ges; o lado inferior e as coberteiras das azas são brancas; 
bico e pés amarelos. 

Andorinha do mato — O povo teima em comparar 
com as andorinhas um passarinho pertencente à fam. 
Bucconideos, ChcUdoptcm tenebrosa, e portanto, zoologi- 
camente aparentado com o "J o ã o B ô b o". Dão-lhe tam- 
bém o nome "Taperá", igualmente alusivo às andori- 
nhas. No entanto, êsse pássaro tem corpo grosso, bem 
do feitio do "Dormia o", e a côr da plumagem é preta, 
apenas com uropígio e crisso brancos e i)arte posterior da 
barriga avermelhada, castanha. Pelo colorido assenta-lhe 
melhor a denominação amazônica "U r u b u z i n h o". 

Andorinhões ou "T a p e r u s s ú s" — Aves da fam. 
Cypselideos, ao todo 14 espécies brasileiras (géneros 
principais: Chactura, Cypseloidcs). Amadeu Amaral re- 
gistrou "C h a b ó" como sinónimo caipira. Veja-se tam- 
bém a espécie um tanto diferente conhecida pelo nome 
"P o r u t í". Impropriamente também lhes dão o nome 
de "Gaivotas". Mas há espécies que ao leigo é di- 
fícil distinguir das andorinhas. Nestas a cauda tem 12 
retrizes, e apenas 10 nos Cypselideos; diferem ainda pelo 
comprimento das coberteiras exteriores das azas, cobrin- 
do elas mais da metade das rêmiges do braço; além disto 
o tarso é muito curto. Nas espécies do género Chactura, 
as pontas das penas caudais sobresáem como espinhos. O 
ninho é muito curioso: representa um canudo de feltro, 
às vezes de um metro de comprimento, grudado a um 
tronco de árvore; a entrada está na abertura inferior e 
no terço superior há uma divisão interna, espécie de bolsa, 
onde se acham guai-dados os ovos. O feltro com o qual o 
andorinhão constróe seu ninho, é prepai*ado da seguinte 
forma : catando as sementes aladas de uma planta (Trixis 
divaricata), o andorinhão molha essa paina com sua saliva 
glutinosa, imitando mais ou menos o trabalho de um seu 
parente asiático, cujos ninhos são feitos de algas mari- 
nhas e também abundantemente ensalivadas. Constituem 
assim a passagem para um tipo mais curioso ainda, que 
é o ninho da Salangana, feito unicamente de saliva endu- 
recida. Êsses são os famosos "ninhos de andorinhas", 



85 — 



que no mercado asiático são comprados por alto preço, 
pois constituem um petisco, mais saboroso, talvez, que os 
célebres ratinhos recém-nascidos, passados no mel, que 
dizem ser a delícia dos chineses... 

Na Amazónia o povo atribue propriedades mágicas 
a pedacinhos que sejam, de ninhos de Puuiiptila, pelo que 
são vendidos por bom preço, mas com o nome de "ninho 
de cauré", quando lá êsse nome designa o pequeno gavião 
"T e n t e n z i n h o" (Veja êste e também Goeldi, Boi. 
Mus. Pará, Vol. II, pg. 430). 

Algumas espécies de Andorinhões vivem em bandos 
numerosos, reunindo-se às vezes às centenas no interior 
de grandes árvores òcas e também junto às grandes ca- 
choeiras; conhecido é seu pouso no Salto de Itú, ao redor 
do qual revoam constantemente. (Veja-se também "T a- 
perá"). 

Andubé — O mesmo que "M a n d u bé"; veja-se tam- 
bém sob "P a 1 m i t o". 

Anduiá — Em S. Paulo designa peixes de couro de 
pequeno porte, dos géneros Glunidium, Pygidium e ou- 
ti-os; pode ser simples variante de "A nu já". 

Anémona — O mesmo que "Flor das p e d r a s". 
(Veja esta). Aquele têrmo é erudito e deriva do nome ge- 
nérico Anemonia. E' 
usado apenas pelos au- 
tores de compêndios 
zoológicos; o nosso povo 
emprega só a denomi- 
nação mais descritiva, 
que cabe perfeitamente 
aos belos Celenterados. 

Anequim — Tuba- 
rão da fam. Ldinnii- 
(íeos, Carcharodon car- 
chm ias, uma das maio- 
res espécies e certa- 
mente a mais voraz. 
Atinge a 12 metros de 
comprimento e seu pe- 
so pode ser comparado ao de três bois. E' extre- 
mamente veloz e qualquer preza lhe serve; não raro en- 
gole também panos, ferramentas e semelhantes coisas, 
que qualquer outro animal não tentaria digerir! Natu- 




Denti(âo do Aneqiilm 



SciELO 



10 11 12 1 



— 86- — 

ralmente, é o maior perigo a que estão expostos os náu- 
fragos ou banhistas imprudentes; para acalmar os mais 
medrosos do entre êstos últimos, devemos acrescentar que 
os tubarões evitam as águas mais razas, porque temem 
ser arrastados pelas ondas para a praia. O nome corres- 
ponde à denominação francesa "r e q u i n", da qual os eti- 
mólogos derivam a palavra portuguesa. Por sua vez, Re- 
quin seria o Requieni latino, o i'epouso. . . final, que o se- 
láquio proporciona a quem lhe chegar ao alcance dos 
dentes. 

Ânhá — Peixes cascudos da água doce, fam. Lorica- 
riídeos, compreendendo várias espécies do género Plccos- 
tomiis, em geral conhecidos por "Cascudos" ou 
"G u a c a r í s". 

Anhinga — O mesmo que "B i g u á - 1 i n g a". 

Anhuma ou "I n h u m a" e ainda "Inhaúma" — 
Ave da fam. Palamedelãeos, Palamedea comuta, que na 




Aniiuriia 



Amazónia é conhecida ])or "C a u i n t a u" ou "Ca m e- 
t a u" e "U n i c ó r n e o". E' ave grande, de 85 cms. de 
comprimento comparável ao perú, mas caracterizada por 



— 87 — 



várias singularidades. Os pés têm dedos enormes, o que 
lhe facilita a locomoção nos banhados, sobre as plantas 
aquáticas. Na cabeça um "chifre", ou antes um espinho 
recurvado, córneo, de 12 cms. de comprimento, está im- 
plantado sobre a pele; o bordo anterior da aza é provido 
de 2 esporões, dos quais a ave se utiliza como arma peri- 
gosa. O colorido geral ó bruno denegrido e preto, exceto 
o ventre, que é branco. A parte anterior e a cabeça são 
chamaloteados. 

Já o velho Marcgrave, ao descrever meticulosamente 
esta ave, procurou reproduzir-lhe a voz, grafando vyhú- 
vyhú, o que de fato dá uma idéia do seu grito retumbante. 
E' ave herbívora, ao que parece, pois vários naturalistas, 
ao lhe examinarem o conteúdo estomacal, aí só encontra- 
ram folhas de gi^imíneas, de plantas palustres e de aze- 
dinha. Vive sempre à beira dos rios e depois de passeiar 
pelas praias ou mesmo pela água, vai pousar na copa 
das árvores; seu vôo é fácil, lembrando o dos urubus. 

O exquisito chifre frontal de tal modo impressionou 
os naturais, que há muito tempo lhe são atribuídas vir- 
tudes curativas; o historiador Baena registrou ser êle 
"especioso antídoto contra ataques de estupor e também 
preservativo". 

Anhuma-poca ou " A n h u p o c a" — Em Mato Grosso 
é o mesmo que "T a c h ã". E' evidente, pela etimologia, a 
comparação que o índio estabeleceu entre esta espécie e a 
"Anhuma", que de fato com aquela se parece pelo 
vulto. 

Anicauera — Goeldi registra êsse nome amazônico 
para um "Peixe cachorro" (Xiphorluunphus falci- 
rostris) . 

(Anicavara) — Sinónimo, provavelmente local, (Pi- 
racicaba) do pássaro Cissopis major, mais conhecido por 
"Tiétinga" ou "Prebixim". Convém aguardar 
confirmação. 

Aniquim — O mesmo que "N i q u i m". 

Anjo — O mesmo que "Cação anjo". 

Anojado — Peixe de couro (Nematognathos) dos rios 
do Norte (Maranhão) ; provavelmente apenas corruptela 
de "Anu já". 

Anta ou "T a p i r" — Mamífero ungulado, perisso- 
dáctilo da fam. Tapirideos, Tapirns americantis. E' uma 



^ 88 



das nossas maiores caças, pois mede até 2 metros de com- 
primento e 1 m. de altura; tem 4 dedos na mão e 3 nos 
pés. Um exemplar de l'",82 de comprimento, examina- 
do pelo dr. A. Neiva, pesava mais ou menos 170 quilos. 

O pêlo é uniforme, bruno pai-do, mas os filhotes são 
malhados, isto é, ornados com 4 ou 5 linhas longitudinais, 
paralelas, um pouco tremidas, além de vários traços inter- 
mediários e manchinhas irregulares níis pernas e na ca- 
beça. Só depois do sexto mês, quando a anta nova já tem 
mais de um metro de comprimento, o colorido se torna 
uniforme; no entanto essa roupagem, como também a 
dos veadinhos malhados, é muito útil ao animal, quando 
êle busca escondcr-se no lusco-fusco da mata. Caracte- 
rístico é o focinho, que termina em uma espécie de tromba 
móvel. A cauda é curta; as orelhas são móveis como as 
do cavalo. Habita as matas cerradas, nas proximidades 
dos rios, nada e mergulha perfeitamente e 6 sempre em 
direção à água que foge, quando acossada. E' animal de 
força extraordinária, podendo, na corrida, atravessar o 
mato mais trançado. Pasta e come frutas do mato; tam- 
bém invade as roças. E' caça das mais apreciadas, mas 
aos poucos vai sendo exterminada. 

Anta "g a m e 1 1 e i r a", anta "x u r é", "b a t u p e - 
va" e "batuvira" são nomes que os caçadores dão 
ao que supõem ser variedades ; mas a nossa espécie é uma 
só, da Argentina à Venezuela. Mais para o norte, até o 
México, há duas espécies diferentes e na índia e Sul da 
China também existe uma espécie bastante semelhante 
à nossa, mas cujo colorido é bem diverso, por ter como 
que uma manta branca nas costas. 

A palavi-a anta parece ser de origem árabe (desig- 
nando um Cervídeo sem galhada). Tapir é seu nome 
tupi e Mhorebi em guarani; mborepimpe é a vereda aber- 
ta pela anta na mata e assim também denominavam os 
índios a Via Láctea. 

Transcrevemos, abreviadamente, a descrição de uma 
caçada de anta por Varnhagem (Manual do Caçador). 
"A existência das antas, que de ordinário andam juntas, 
acasaladas, é manifesta pelas picadas que abre o animal 
pelo mato e principalmente pela enorme pista que deixam 
suas patas. Bem estudados os rastos, por um bom bate- 
dor de mato, passam os caçadores de manhã cedo ao local 
e se distribuem pelas tocaias ou esperas, isto é, pelas pa- 
ragens de suas picadas costumadas, que ela terá instinti- 
vamente de tomar quando acossada pelos cães. Logo são 



— 89 — 



êstes, ainda em trelas, levados pelos batedores, ao sítio 
donde deve começar a batida, e os metem no rasto, de- 
sajoujados. 

Sendo o terreno de morro, a batida faz-se do cimo 
para os vales ; os caçadores devem ter todo o cuidado de se 
desviar de diante do caminho da anta, pois vai com tal 
força, que com a tromba derriba árvores e roinpe grossos 
taquarassús, com o que vai fazendo grande ruido. 

A anta prefere, como o veado, refugiar-se na água, 
da perseguição dos cachorros. Querendo-se a anta 
viva, nada mais fácil do que laçá-la, quando ela se acha 
empoçada e prendê-la depois pelos pés e pelas mãos. 




AnU 



Si há poucos cachorros seguindo a anta, ou si elá 
não encontra saida, às vezes scnta-se ou acua, fazendo- 
Ihes frente e não poucas vezes os destroça. O nosso mon- 
teiro havia desatrelado os cães na bocaina de uma peque- 
na serra visinha. no rasto de um casal de antas. Acossa- 
das pelos cães, separou-se uma da outra e os batedores 
preferiram encaminhar os cães contra a que devia ir 
parar no poço; era a fêmea. Montámos a cavalo e nos 
lançámos a correr para o sítio onde se nos chamava. 

Chegámos perto do poço em que se achava o animal 
nadando na água. Era uma anta das grandes, mas afi- 
gurava ser muito maior, como sempre sucede quando estão 
n'água. Os cabelos pareciam retesados e eriçados. A 



— 90 — 



fera, ao ver-nos com as nossas espingardas, fixou os olhos 
sobre nós e como que se horrorisou : franziu a tromba, 
mostrou os dentes e resfolgou. A impressão que me fez 
esta cena me ficará i)ara sempre presente. Do tempo 
que levaram os cumprimentos, para que se decidisse a 
quem tocariam as honras do primeiro tiro, se aproveitou 
a anta para seguir peio córrego acima, a procurar outro 
poço. Alcançámos a margem do poço superior, onde a 
anta estava mergulhada. O susto que havíamos passado de 
a haver perdido, fez pôr de parte as cerimónias. O dr. J. 
apenas viu a anta com a cabeça de fora, descarregou nela 
os dois canos de sua espingarda, entrando a carga dois 
dedos por detrás da orelha (que é o melhor tiro de morte) 
com que a rês curvou a cabeça e foi morrendo, exalando 
uma catinga enjoativa. 

Logo se começou a operação do esfolamento. Cor- 
taram-se as quatro patas ou mocotós, que .se distribuíram 
pelos caçadores como troféu da caçada. As patas diantei- 
ras são preferidas por terem quatro unhas, quando as 
trazeiras só têm três. O cacho, cuja gordura dizem ser 
mui própria para fomentações em dores reumáticas, e 
o lombo, cuja carne é menos áspera, seriam talvez depois 
aproveitados pelos batedores; e provavelmente toda a car- 
ne seria também comida, depois de haver estado de mo- 
lho no córrego vinte e quatro horas, com o que, dizem, 
fica branca e .sem catinga, e não dá lepra a quem a come 
(falsa suposição, que o povo também atribue a várias 
outras caças, ditas "de carne quente")". 

Anú ou "A n u m" — Ave da fam. Cuculideos, Cro- 
tophaga ani. E' bem conhecida esta ave, que se caracte- 
riza pela crista mediana do bico; o colorido é uniforme, 
preto, com brilho metálico. Habita toda a América do 
Sul, do Norte da Argentina até a América Central e mes- 
mo a Flórida. 

Para diferenciar esta espécie das congéneres, cha- 
mam-na "Anú preto" ou, na Amazónia, "Anual". 

E' ave essencialmente gregária; nos pa.stos ou nos 
carrascais sempre que vôa um anú, logo o resto do ban- 
dinho de 10 ou 20 aves o segue, repetindo o grito aflau- 
tado. Ainda durante a procreação a ave manifesta bem 
o seu instinto social. O ninho, gros.seiramente construído 
de talos e gravetos, acha-se sempre a certa altura entre 
a folhagem de arbustos e parece estar averiguado que 
várias fêmeas põem seus ovos no mesmo ninho; con- 
siste assim a ninhada em 10, 15 ou mesmo 20 ovos, de 



côr verde azul, cuja casca é coberta por uma camada 
branca, calcárea. Não pôde ainda ser verificado si as 
fêmeas se revesam no chòco, mas são muitas as que con- 
tribuem para catar os inúmeros insetos, necessários para 
cevar os pintainhos. 

E' ave dos campos, que gosta de pousar sobre o gado. 
para lhe catar os carrapatos, e não é pequeno o serviço 
que presta, pois houve quem contasse nada menos de 74 
carrapatos, que formavam o conteúdo do estômago de 




Anú 



uma só ave. Mais geralmente seu alimento consiste em 
toda sorte de insetos, gafanhotos principalmente; para os 
encontrar, em vez de procurá-los no capim, êle acompa- 
nha a rês que está pastando, porque esta faz com que 
apareçam os insetos escondidos. 

Anú branco ou "do campo" — Ave da mes- 
ma família do Anú, mas de outro género, Guira guira. 

Na Amazónia também é conhecido por "Quirirú" 
e "P i r i r i g u á". 

O colorido predominante ó l)ranco, mas nas costas, 
principalmente, há abundante desenho preto, ao passo 
que êste no pescoço e no peito só aparece como linhas ao 
longo das hastes das penas; as azas e boa parte das pe- 
nas caudais são bruno-escuras. O alto da cabeça é ruivo 
e as penas formam uma sorte de crista. 

Tom como a espécie precedente, vasta distribuição 
na América. 

Nas zonas rio-graiulenses, em que não ocorre a 
Piaya cctijunu, a êste anú cabe o nome de "Alma de 
gato". 



— 92 — 



Anú coroca — No Pará é o mesmo que "A n ú - 
g u a s s ú". 

Anú-guassií ou "A n u m - p e i x e" — Espécie de anú, 
Crotophuga viajor, mede 45 cms. de comprimento; é por- 
tanto uns 12 cms. maior que a precedente. E' espécie bem 
mais rara que aquela, que de resto em tudo se lhe asse- 
melha. Quando os peixes sobem o rio, nas vésperas da pi- 
racema, o anú-peixe, como também é chamado, acompa- 
nha esta migração, porque assim se alimenta pescando. 

Na Amazónia é conhecido por "Anú coroe a" e 
mais para o sul por "Anú galego" ou "d a s e r r a". 
E' considerado ave agoureira. 

Anu.já — também chamado "C u m b a c a", "Pei- 
xe c a c h o r r o" ou "C a b e ç a de ferro" na Ama- 
zónia. Talvez "A n d u i á" (Brasil mei-idional) e "A n o - 
j a d o" (Maranhão) sejam apenas corruptelas. E' pei- 
xe de couro da fam. Trachiicory.^lideo.s, conhecido do rio 
S. Francisco, Amazónia e Mato Grosso, Trachycorystes 
(jaleatuN, um tanto semelhante à "Buréva", porém 
com nadadeira caudal redonda e não furcada. A cabeça, 
na parte superior, não é revestida de pele, mas tem placas 
ósseas granulosas ; daí o nome "Cabeça de ferro". 
Geralmente, o corpo quasi todo mostra desenho branco 
sobre fundo escuro e manchas irregulai-es. Atinge 20 cms. 
de comprimento (os espécimens menores são chamados 
"Cachorrinho s"). 

Pertence ao mesmo género o "C a n g a t i" do Nor- 
deste. 

Apacanim — Aves de rapina da fam. Falconideos, 
Spiza('tíií< ornatns e tyranmis. 

São belas águias com pequeno penacho (veja sob 
"Harpia"), de colorido bruno-escuro, com abundante 
enfeite de faixas Iranversais brancas, na cauda e nas 
azas (nestas mais nitidamente no lado interno), nas per- 
nas e também na base do penacho. 

Como o registrou Barbosa Rodrigues (Poranduba 
pg. 287), o "Y apacanim" pelo verão sempre vóa 
muito alto, subindo às nuvens verticalmente e descendo da 
mesma forma; seu grito pronuncia o nome pelo qual é 
conhecido. 

Uma cantiga dos índios do rio Solimões, colhida pelo 
mesmo cientista, diz: "Quando eu morrer, me ponham 
no meio do mato, que ali está o tatú-canastra para meu 
coveiro, o urubutinga para padre e o yapucunim para 



— 93 — 



guia de minha alma". O belo gavião é, pois, o "correio 
das almas", ao qual se referiu S. Rita Durão, no poema 
Caramuru, estr. 36. 

Apaiarí — Peixe dYigua doce da fam. Cichlideos, As- 
tronotus ocellatus; também chamado "A cará a s s ú" 
porque, de fato é dos maiores de entre os acarás. E' da 
Amazónia e distingue-se das formas semelhantes por ter 
muitas escamas nas nadadeiras. Seu colorido geral, ver- 
de escuro, é ornado com orlas de côr rubra na região oper- 
cular e de igual côr são as manchas esparsas no flanco; na 
cauda há um grande ocelo escuro, com orla clara, amplia- 
da por outra sanguínea. 

Na fase juvenil a roupagem destes peixes é ainda 
mais interessante, por haver várias faixas escuras, ver- 
ticais. 

Êste belo peixe atinge 30 cms. de comprimento e sua 
carne é bastante apreciada. Eventualmente poderá o 
apaiarí prestar-se à criação artificial em grande escala, 
sem contudo ser das espécies mais recomendáveis. 

Diz J. Veríssimo que os tapuios crêem poder atrair 
o acará-assú para a superfície, dando à flor d'água, es- 
talidos com a língua no céu da bôca, como fazemos insti- 
gando um cavalo; avistando o peixe, varam-no com a fle- 
cha, certeiramente disparada. 

Apapá — Denominação amazônica de várias sardi- 
nhas d'água doce e que diferem das do mar só pelo núme- 
ro mais elevado de raios da nadadeira anal ; nas espé- 
cies marinhas estes são sempre menos de 25. O maior 
dos "A p a p á s", também conhecido por "S a r d a", Ilisha 
custelneana, é do Amazonas inferior e cresce até 40 cms.; 
a espécie congénere, /. altamazônica é um tanto menor e 
mais amarela. Ambas têm até 40 raios na nadadeira 
anal. Êstes raios são em número de 50 no género Pris- 
tigaster, cuja espécie, P. martii, caracterizada pela ausên- 
cia de nadadeiras ventrais e que não ultrapassa de 
14 cms. de comprimento, também vive nas embocaduras 
dos grandes rios da Africa ocidental; chega a for- 
mar grandes cardumes no ambiente em que se dá 
bem. 

Com relação à pesca do "Apapá" informa José Ve- 
ríssimo, que o índio usa anzóis cobertos com plumas en- 
carnadas, ])ortanto do tipo das "moscas" dos pescadores 
europeus. O manejo dê.sse "pindá-siririca" é aqui des- 
crito sob "T u c u n a r é". 



— 94 — 



E' possível que, do ponto de vista sistemáticío haja 
certa confusão no emprego deste nome e do que designa 
as espécies ainda menores, conhecidas por "Aravarí" 
ou "A V a r í" (Tetragonopierineos) . 

Apeguava — O mesmo que "P e g u a b a". 

Aperema — Veja sob "Jabotí a per ema". 

Apiacá — Maribondo, isto é, vespa social do Norte 
do Mato Grosso, muito temida pelas suas ferroadas. Não 
conhecemos a espécie, nem o feitio da "caixa" ou ninho, 
da qual, pelo que dizem os viajantes, ninguém se apro- 
xima impunemente. 

Apiarí — Veja-se "A p a i a r í". 

(Apitan) — Goeldi registrou essa denominação, dada 
pelos índios Tembés, ao urubii comum; outros autores o 
têm copiado, omitindo, porém, a restrição, quanto à ori- 
gem. De fato, nunca vimos êsse nome em outros escri- 
tos, baseados em observação direta. 

Arabaiana — Peixe do mar assim chamado no Nor- 
deste, de Pernambuco ao Rio Grande do Norte. E' idên- 
tico ao "O 1 h o de b o i" do Sul, Seriola lalandi, da fa- 




mília Carangideos. Como qualidade de carne equivale ao 
"Charéu". Examinámos na Paraíba exemplares de 1,10 a 
1,25 metros, pesando até 30 quilos. Tinha um dêles, no 
estômago, uma alvacora de 2 palmos de comprimento. 
Em março os exemplares fêmeas estavam com ovas ainda 
mal desenvolvidas, mas os pe.scadores informaram que 
já se encontravam ovas grandes, atingindo 2 palmos de 
comprimento. Diz o povo que "quem come o fígado da 
arabaiana pintaída fica careca"! Veja-se também sob 
"O 1 h e t e", a outra espécie do mesmo género, que tam- 
bém é uma "A r a b a i a n a" no Nordeste. 



— Q5 



Arabebéu ou "Pampo arabebéu" — Veja-se 
sob "P a m p o". 

Aracambé — Pronúncia paulista (caipira), por " J a- 
guaracamb é". 

Em tamanho rivaliza com o "Peixe galo" (30 
cms.) com o qual se parece nas linhas gerais e, como nessa 
espécie, os exemplares juvenis de 5 cms. têm as nadadeiras 
dorsal e anal prolongadas em fios três ou quatro vezes 
mais compridos que o corpo e as 5 faixas ainda são bem 
visíveis. 

Aracanguira — Designa na Baía um peixe do mar 
da fam. Carangideos, Alectris crinitus do grupo do "Pei- 
xe galo". Suas nadadeiras ventrais, anal e dorsal pos- 
terior, têm os raios anteriores muito compridos, maiores 
que o próprio corpo e denegridos. O coloi'ido é azulado em 
cima, prateado inferiormente. Veja-se também sob 
"Pampo". 

Araçarí — E' a denominação das aves da fam. Rham- 
phastideos, menores que os "T u c a n o s" e com pluma- 
gem geralmente verde no lado dorsal e amarelada e bruno- 
avermelhada no lado ventral e com várias outras combi- 
nações (ao passo que nos "T u c a n os" a côr fundamen- 
tal é preta). A nomenclatura popular distingue apenas 
mais duas formas adiante mencionadas, que aliás corres- 
pondem a dois géneros distintos (Sclenidera e Andigena) ; 
o género Pfcruglossiis compreende os "Araçaris" co- 
muns (10 espécies). Não deixaremos de salientar uma es- 
pécie muito curiosa (Pt. beauJiarnaisi) , da Amazónia, 
cujas penas da cabeça são transformadas em curiosas lâ- 
minas córneas, finas e em parte enroladas ou encrespadas. 

Araçarí-banana ou "Tucaninho" — Andigena 
bailloni, é do Sul do Brasil. O colorido do dorso é bruno- 
azeitona, a rabadilha vermelha e o lado anterior amarelo- 
ouro; o bico tem ponta verde, a parte alta é azulada e 
uma malha côr de sangue guarnece sua parte posterior. 

Araçarí-poca — Compreendo as 5 espécies do gcn. 
Sclenidera; o bico, ornado de linhas pretas, tem entalhes 
na margem, formando cinco dentes de serra. A nuca é 
enfeitada por uma fita amarela. Frequentemente o i)ovo 
pronuncia: "S a r í - p o c a", esquecido, às vezes, da for- 
ma original da palavra. 

Aracaroba — Peixe do mar da Baía; é um Carangi- 
dco. (Veja-se sob "G u a r a c e m a") . 



— 9Õ — 



Aracimbora — Veja-se sob "G u a r a c i m b o r a". 
Arací-uíra — - Sinónimo de "Uiratatá". 

Aracorana — Em Pernambuco é o nome de um 
peixe do grupo do "C h a r é u", fam. Carangídeos. A 
forma "G u a v a c o r a n a", que deverá ser a mais etimoló- 
gica, nunca ouvimos. 

Aracú — Na Amazónia são peixes d'água doce da 
fam. CharacWoos, principalmente do género Lc.porinus 
e outros, que correspondem às "Piavas" do Sul. 

Há um maior número de espécies da subfamília Anoís- 
tomatineos, às quais cabe êste nome. São em geral peixes 
de tamanho médio, de um palmo de comprimento ou pouco 
mais, pesando três um kilo; a carne não é das melhores, 
mas como sua pesca é muito rendosa, o aracú contribue 
bastante para o abastecimento do mercado de Belém. E' 
principalmente dos lagos da ilha de Marajó que provém 
os grandes carregamentos deste peixe, juntamente com 
a pequena "Pe.scada". O aracú alimenta-.se unicamente 
das raizes adventícias da canarana, e como esta é muito 
abundante naqueles lagos, a quantidade de aracús aí che- 
ga a ser fantástica. Em poucas horas as grandes redes 
pegam milhares desses peixes. (Schizodon fasciatus). 

Aracuã — Aves da fam. Cracidcos, género Ortalis. 
Há várias espécies na Amazónia, mas no Sul apenas 
O. sqiiamata. Semelhantes aos "J a c ú s", diferem dêles 
por terem uma linha de penas na garganta, a qual nos 
jacús é inteiramente núa. 

Araguaí — ou "A r a g u a r í" ou "A r u a í" (cor- 
ruptela, registrada por Goeldi). Ave da iam. Psittaci- 
deos, Conurus leiícophthalmus do mesmo género da 
"Jandaia"; a plumagem é verde uniforme, só os 
encontros das azas são vermelhos e as coberteiras inter- 
nas amarelas. O bico e a zona núa ao redor dos olhos 
são cór de carne. Ocorre em todo o Brasil. 

Aramá — E' uma das abelhas sociais mais comuns 
em toda a Amazónia: Trigovn heidcri; no noroeste de 
Mato Grosso é conhecida pelo nome ''Vorá boi" ou 
"Vorá cavalo". Mais para o Sul não ocorre, e a 
denominação sulista "Vorá" ou "Borá" corresponde a 
outra espécie, efetivamente correlata, T. clavipes. A 
"Aramá" nidifica em ócos de árvores grandes; o tubo 
de entrada é largo e às vezes bem comprido, feito de resina 
escura. A disposição interna é a normal. As abelhas 
são muito agressivas c têm um forte odor i-esinoso, desa- 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



— 97 — 



gradável. O mel é azêdo e enjoativo. O abdómen é com- 
primido, o ápice das tíbias posteriores alarga-se brusca- 
mente; comprimento do corpo 7 a 10 mm. A côr é 
preta, às vezes passando ao ferrugíneo; azas amare- 
ladas, enfumaçadas no ápice. 

Aramaçá ou " A r a m a ç ã " — Peixes da fam. So- 
leideos; são em tudo semelhantes aos "Lingua- 
dos" do mar, mas vivem na água doce — ou apenas 
temporariamente, como o género Achirus na Amazónia, 
ou adaptados definitivamente à vida fluvial, como Achi- 
ropsis do rio Negro e dos rios de Goiaz. Mas o 
mesmo nome cabe também aos linguados do mar, como 




Aramaçi 



o demonsti-a a seguinte lenda: Diz o povo que Nossa 
Senhora perguntara certa vez ao peixe si a maré subia 
ou descia; o peixe arremedou grotescamente e com voz 
fanhosa, essa pergunta: "Aramaçá, a maré sobe ou 
desce?", "pelo que foi castigado, ficando com a bóca 
torta." 

Aramandaia — E' em Pernambuco e na Paraíba a 
denominação do grande besouro da fam. Curculionideos, 
Rhynchophorus palmanim, que atinge 45 mm. de com- 
primento; o colorido é inteiramente negro e os elitros 
são estriados longitudinalmente. E' um dos vários coleó- 
ptex'os que danificam as palmeiras e assim causam sérios 
prejuízos nos coqueiros do Nordeste. A planta sofre não 
só os estragos causados pelas larvas, como ainda os que 
determina a água das chuvas, que penetra pelos canais 
abertos,, e em volta dos quais o tronco apodrece. 

Veja também "Moleque". 



— 98 — 

Arancuã — Parece ser, em Mato Grosso, a pronún- 
cia mais corrente, em vez de "A r a c u ã" (Severiano 
da Fonseca, Viagem). 

Aranha — Compreende, como denominação genéri- 
ca, os artrópodes Araneidas da classe dos Arachnoides (e 




Diversas aranhas 



portanto as aranhas não são insetos, como muitas vezes 
diz o povo). A essa mesma classe pertencem também os 
escorpiões, carrapatos, etc. que todos têm 4 pares de 
pernas e cabeça não destacada por pescoço. As aranhas 
(ordem Araneidas) di.stinguem-se pelas 4 ou 6 verrugas 
abdominais ou "fiandeii'as", das quais brotam outros 



tantos fios, que a aranha reúne em um só. Existe em 
nossa fauna, certamente, ainda muito maior número de 
espécies do que as 3.000 que até hoje foram assinaladas 
nas 35 famílias. Pelo modo como elas realizam suas ca- 
çadas distinguem-se dois grandes grupos de aranhas: as 
"sedentária s" e as "v a g a b u n d a s". As pri- 
meiras, que têm por tipo a aranha comum das casas (fam. 
Phlocideos, gên. Blechroscelis — fig. 4) constroem teias; 
cada espécie adota um padrão típico e assim, só pelo 
aspeto da teia, muitas vezes é possível classificar a aranha. 

As aranhas "vagabundas" (fig. 3) servem-se 
das fiandeiras apenas para envolver os ovos em sacos ou 
bolas, que em geral a fêmea carrega consigo: não cons- 
troem teias e, ao envés de esperarem a caça na armadilha, 
apanham-na de surpreza, aos pulos; tais são as grandes 
"caranguejeiras" e os pequenos "m e i r i n h o s". 

Muitas são as espécies de aranhas venenosas, algu- 
mas notoriamente perigosas; assim, de todas convém des- 
confiar. 

Devemos desde logo acrescentar que a opinião popu- 
lar, de que as nossas aranhas mais temíveis sejam as 
gi'andes "Caranguejeiras", é errónea, pois entre os 30 
acidentes devidos a aranhas, observados pelos autores 
abaixo citados, nem um só foi atribuído à caranguejeira 
e quasi todas às duas espécies que descrevemos a seguir. 

Graças aos estudos meticulosos dos drs. Vital Brasil 
e J. Vellard, sabemos que no Est. de S. Paulo, pelo menos, 
as duas espécies, que mais frequentemente determinam 
acidentes, são Lijcom raptoria e Ctenus nigriventer (veja- 
se Memorias Inst. Fiutantan, Vol. II, 1925 e Vol. III, 1926). 

Lycosa raptoria (fig. 2) mede 30 mm. de corpo ou 
70 mm. de ponta a ponta das extremidades; o macho é 
um pouco menor. O colorido é pardacento e às vezes o 
desenho do cefalotórax e do abdómen é bastante nítido. 
A fórmula ocular é: 4x2x2. Habita as casas velhas e 
jardins, ocultando-se debaixo de pedras, paus podres, etc. 
A fêmea carrega o casulo de ovos colado às fiandeiras. 

Os acidentes determinados por esta espécie caracte- 
rizam-se pela ação necrosante do veneno, de efeito apenas 
local e cutâneo, sem alteração notável da pulsação e da 
temperatui-a. Num acidente muito grave determinado 
por esta espécie, um menino sofreu larga ulceração na 
barriga e que pôs a nú os músculos subventrais, deixando 
temer uma eventração. Depois de duas aplicações de 
sôro, a ferida cicatrizou. 



— 100 — 



Ctenus nigriventer mede 35 mm. de comprimento 
(110 mm. de ponta a ponta das extremidades) ; a fórmu- 
la ocular é: 2 X 4 X 2, as patas mostram séries de espi- 
nhos, implantados em pontos brancos. Quando é atacada, 
assume atitude ameaçadora, levantando as patas anterio- 
res, pronta para pular. E' bastante frequente em S. Paulo 
e vários outros Estados. O veneno desta espécie possue 
uma ação muito enérgica sobre o sistema nervoso, carac- 
terizada por dores intoleráveis com paroxismos, caim- 
bras, tremores, suores, pulsação rápida e iri'egular. Não 
há medicamento eficaz a não ser o sôro específico. 

Impossível é dizer qualquer cousa, em resumo, sobre 
as inúmeras espécies de aranhas da nossa fauna. Cita- 
remos, apenas, ao acaso, alguns exemplos, dos mais 
típicos. 

Heteropoda venatoria é grande, chata, e gosta de 
morar nas casas, aparecendo à noite para caçar insétos; 
mas não faz teia; é espécie cosmopolita. Sujam os ân- 
gulos das paredes com suas teias os Phloeiãeos do gên. 
Blechroscelis (fig. 4), de pernas longas; pernas não tão 
compridas têm as do gén. Theridium, cuja teia é armada 
horizontalmente. No jardim vê-se frequentemente a 
teia muito característica da Argiope argentata; no meio 
da tela pousa a aranha, que junta os pés de tal forma (o 
l.** com o 2.°, o 3." com o 4.") que parece ter ela apenas 
4 extremidades ao todo; e em continuação a estas prosse- 
gue na teia um enfeite de fios prateados, em zig-zag, que 
caracterizam a tela (fig. 1). Ao género Nephila perten- 
cem outras espécies conhecidas, de abdómen grosso e 
ornado de cores vivas; suas grandes teias aglomeram-se 
às vezes nos beirais das casas e caracterizam-se por se- 
rem pi"ovidas, na parte superior, de um grande tubo se- 
doso, onde em geral a aranha (NephUa cruentata) per- 
manece, à espera da caça. 

Mas nenhuma outra aranha enfeia tanto as casas 
como as pequenas espécies de Dictyra, tão frequentes no 
interior do Estado de S. Paulo, onde borram as paredes 
fazendo teias do tamanho de uma moeda e na qual se 
junta a poeira, de modo a parecer que a parede fora bor- 
rifada com pequenos pelotes de barro. Lindo colorido 
têm algumas aranhas do grupo dos Laterigrados (fig. 5) 
(andam para o lado e para trás, como os caranguejos) ; 
não fazem teias e caçam pulando; vivem de preferência 
junto às flores e assim se explica terem colorido adapta- 
do a estas. 



- 101 — 



Aranha do mar — Crustáceo marinho, Decapode 
hrachyuro da fam. Inachideos (Leptopodia sagittaria), 
de longas pernas e carapaça angulosa, triangular, alon- 
gada na frente em forma de rostro pontudo. 

Arapapá — ou "Arataiá", "Tamatiá", "So- 
co de bico largo" (ou "S a v a c ú" no Araguaia) 
ou impropriamente "Colhereiro" (nome êste pelo 
qual todos conhecem a outiva ave, de bico realmente alarga- 
do em forma de colhér) da 
fam. Ardeídcos, Cavcroma 
cochleuria. O bico é gran- 
de, largo, convexo em ci- 
ma, plano em baixo, com- 
parável talvez, a uma ca- 
noa virada. A côr é cin- 
zenta, com barriga casta- 
nha no meio, preta nos la- 
dos; o vértice é preto, a 
fronte, a face, garganta e 
pescoço anterior são bran- 
cos; o peito é bruno ama- 
relado. 

Arapassií — ou "U i- 
rapassú" e "Pica- 
p á u v e r m e 1 h o" na Amazónia, 
são passarinhos da fam. Dendro- 
colaptideos, tais como as espécies 
compreendidas nos géneros Xi- 
phocolaptcs e Picolaptcs. 

Caracterizam êsses géneros 
as penas caudais muito duras, que 
auxiliam o corpo a se manter pou- 
sado nos troncos verticais, como 
o faz o verdadeiro pica-pau. 

Tal qual como essas aves, o 
"arapassú" trabalha de "ca- 
ra p i n a", martelando com o 
bico duro nas cascas das árvores, 
em procura de insétos. 

Na Amazónia, segundo J. Coutinho de Oliveira (Len- 
das Amazônicas), conta-se o seguinte da famosa "raiz 
do Ui rapas sú": O pássaro conhece uma raiz, que 
abre todas as coisas; quem quizer possuí-la tapa o ninho 
da ave e o uirapassú vai logo buscar a tal raiz para sal- 
var os filhotes; então espanta-se a ave, que deixa cair a 




Arapassú 



— 102 — 



raiz mágica. Com auxílio desta pode-se sair da cadeia, ou 
apoderar-se de tesouros, sem ser percebido. 

Como se vê, o pássaro, por ser "quasi" pica-pau, 
entra no ciclo das aves que atráem a felicidade. Com- 
tudo não foi feliz a quasi associação destas aves com a 
lenda do "U i r a p u r ú" como a expôs João Ribeiro 
(Lingua Nacional, pag. 154) ; esta última é lenda genui- 
namente amazônica, ao passo que a do pica-pau, na pró- 
pria opinião do douto filólogo patricio, é certamente de 
origem europeia. 

Talvez, porém, o ca.so se explique com uma simples 
retificação: leia-se "u i r a p a s s ú" em vez de "uira- 
puru"; desta forma não há necessidade de associar len- 
das tão heterogéneas. 

Arapassú de bico curvo — Pássaros da mesma famí- 
lia que os precedentes e semelhantes a êles, mas de bico 
muito longo e curvo (gên. Xiphorhynchus). 

Araponga ou "Ferreiro" — Pássaros da fam. 
Cotingideos, Chmmorhynchus mídicolis no Brasil meri- 
dional, e Ch. niveits na Amazónia. O macho tem pluma- 
gem inteiramente branca e só a zona núa da cabeça, i.sto 
é, fronte, face e garganta, são de côr verde. A fêmea é 
verde azeitonada em cima e amarelada com manchas es- 
curas no lado ventral; o vértice e a garganta são pretos. 

Quem conhece o no.sso sertão, dirá conosco que é a 
araponga que completa o quadro dos dias de canícula, 
quando tudo repousa; só do alto da perobeira ressoam as 
notas metálicas que tão bem imitam o trabalho do ferrei- 
ro na bigorna: a princípio ouvem-se as pancadas espa- 
çadas, bem claras, e por fim algumas mais apressadas e 
arrastadas correspondem ao ranger da lima sobre ferro. 
E' tal a poesia que nos evocam estas notas, que ao ouvir 
o "ferreiro", logo nos sentimos transportados às paragens 
longínquas da roça. Mas, com franqueza, é de arrepiar 
os nervos, quando o vizinho, na cidade, teima cm manter 
na gaiola uma araponga, que neste caso só aumenta o 
barulho, que nos cança os ouvidos e nos torna neuras- 
ténicos. 

Interessante é o seguinte conto, muito conhecido, 
graças à vulgarização que lhe deu o Vise. Taunay (Silvio 
Dinarte, 1879) e, ao que parece, baseado em nosso folc- 
lore: "Certa vez, por uma dúvida qualquer, a araponga 
desafiou a onça para um duelo singular: venceria quem 
gritasse mais forte e assim assustasse o outro. A onça 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



começou e, com urros retumbantes e medonhos, fez tre- 
mer as arvores e afugentou tôda a bicharada — só a ara- 
ponga, fingindo valentia, nem piscou. Por sua vez o 
pássaro teve de se exibir. Mas começou êle muito calma- 
mente a fazer soar notas plangentes, semelhantes à do 
aço tangido de leve pelo martelo e tão suaves pareceram 
à onça aqueles sons harmoniosos, que ela baixou a ca- 
beça, fechou os olhos e cochilou. Era o que a araponga 
queria — bruscamente sua voz mudou e um guincho es- 
tridente fez a onça acordar, sobressaltada. Foi assim que 
a araponga venceu". 

Âraponguinha — Pássaro da fam. Oxyrhamphideos, 
Oxyrhamphus flammiceps; verde com topete escarlate, 
em baixo amarelo com manchas pretas. Têm igual nome 
ainda várias outras espécies de pássaros da fam. Cotin- 
gideos, e com mais propriedade, porque se assemelham 
muito à verdadeira "Araponga"; tais são as espécies 
do gên. Tityra, também chamados "Cangica" ou 
"A r a p o n g u i r a", cujo macho é branco cinzento, com 
cabeça, azas e cauda pretas. 

Arapuá — O mesmo que "Irapuã". 

Arapurú — O mesmo que "U i r a p u r ú". 

Arapussá — Registramos o termo com certa dúvida, 
temendo haver confusão com "Aiassá". Como "Ara- 
pussá" nos foi designada a tartaruga Podocnemys 
leivyana, do mesmo género que a "Traça já", porém 
menor; talvez a denominação se aplique às várias espé- 
cies de Podocnemys enquanto pequenas. Insistimos, po- 
rém, na possibilidade de se tratar apenas de má grafia 
por "A i u s s á". Veja também "P i t i ú". 

Arara — Aves da fam. Psittacideos, género Avodo- 
rhynchvs e as espécies maiores do gên. Am (as espécies 
menores dêsse último género são " M a r a c a n ã s ") ; 
veja-se também "C a n i n d é". 

Si os papagaios em geral, em todo o mundo, atraem 
a atenção de todos — mesmo daqueles que não costumam 
"perder tempo" com bichos de nenhuma utilidade — com 
razão os maiores representantes desta família previlegia- 
da têm renome especial. São notáveis as dimensões do 
corpo e em especial do bico, bem como o comprimento da 
cauda, cujas penas mais longas medem pouco mais de 
meio metro, perfazendo assim mais da metade do com- 
[irimento total dos espécimens maiores; distingue-os tam- 



— 104 — 



bém o colorido, em que só prevalecem as cores mais vivas 
e estridentes: vermelho, amarelo e azul, e, aliando a tudo 
isto uma vivacidade estrepitosa, estas aves desde os pri- 
meiros dias da vinda dos europeus ao nosso continente, fo- 
ram assinaladas como particularmente características do 
país. Já antes disso os índios lhe testemunhavam sua ad- 
miração, arran- 
cando - lhes as 
enormes penas, 
para usá - las 
como supremo 
adorno, entre as 
variadas plumas de 
sua indumentária, 
ainda essas penas 
vistosas — como le- 
vá-lo a mal ao pa- 
triarca recém-estabe- 
lecido? — vieram a 
substituir, nos tem- 
pos coloniais, as pe- 
nas de ganso, incolo- 
res, sem realce; pois 
com a rutilante pena da arara assinava- 
se então... de cruz, às vezes, e o próprio 
principe Wied, que viajou pelo Brasil 
em fins do período colonial, ainda viu 
êsses lindos instrumentos de escrita em 
uso comum. 

Fora do tempo da procreação, as 
araras vivem cm grandes bandos, en- 
feitando magnificamente as extensas 
florestas; várias são as fruteiras que 
visitam, dando preferência, em geral 
às de frutos com casca dura, que seu 
bico, rijo como uma tenaz, estala e móe. 
Só a essas horas de banquete cessa a 
algazarra estridente e ensurdecedora que, durante o vôo 
e o repouso, de longe, trai o bando. Hoje em dia, porém, 
já não é espectáculo que qualquér viajante possa presen- 
ciar, pois é preciso buscar o sertão bravo, as longínquas 
florestas, distantes dos povoados e das estradas de ferro. 
Em quasi toda a Serra do Mar já agora não há mais 
araras — quando em 1818 Natterer ainda obteve "C a- 
n i n d é s" no próprio recôncavo do Rio de Janeiro. 




- 105 



Seus ninhos fazem-nos as araras, de prefei-ência, em 
ocos cavados no alto do tronco de palmeiras; como, po- 
rém, a ave só excava um espaço que dê abrigo ao corpo 
propriamente dito, a longa cauda fica pendendo para fora, 
como fita de côr a assinalar o ninho a quem o queira 
procurar. Os índios, por este indício, facilmente encon- 
tram a ninhada (e assim o vemos relatado na lenda que 
transcrevemos sob *'C u n a u a r ú") . A. Miranda Ribeiro 
figurou, porém, um ninho de arara Canindé, que mostra 
a ave no fundo de uma grande excavação vertical, feita no 
tronco de um buriti. Como a ave consegue sair, sem do- 
brar as penas caudais? 

Todas as espécies de ai'aras grandes aprendem a falar ; 
mas, em comparação com os papagaios legítimos (do 
gên. Amazônu), imitam com mais dificuldade a voz hu- 
mana; sua pronúncia é muito mais "carregada", menos 
clara e também raramente chegam a formar frases longas ; 
em compensação, faltando-lhes palavras nossas, recorrem 
logo ao estridente u-rá-ra, origem de seu nome onomato- 
páico, que, porém, nem todas as espécies pronunciam com 
igual clareza. 

Arara-azul ou "A r a r a - u n a — Anodorhynchus 
hyadntinus, distingue-se pela plumagem inteiramente 
azul-intenso ; só as regiões nuas da face são amarelas. E' 
o maior dos nossos Psittacideos, pois chega a medir l^.lõ 
de comprimento. Lembraremos que na nomenclatura 
científica a mesma palavra ararcnina foi empregada, er- 
radamente, para designar uma espécie muito diferente, 
conhecida por "C a n i n d é". 

Arara-canga, "A r a r a - p i r a n g a ou Arara- 
V e r m e 1 h a". — São as espécies de araras nas quais pre- 
domina a côr vermelha : Ara macau e A. chloropiera; está 
última tem, na parte núa da cara, vái'ias linhas de penas, 
enquanto que A. macau tem apenas cerdas esparsas. 

Ararambóla — Cobras da fam. Boiáeos, Boa canina 
(e provavelmente também B. hortulava, que pouco difere; 
veja sob "S a 1 a m a n t r a) . Convém notar que até há 
pouco estas espécies tinham o nome genérico Corallus, 
enquanto que a "Jibóia" (antigamente Boa) é hoje 
CoyisMctor. As ararambóias distinguem-se facilmente das 
outras cobras da mesma família (jibóia e sucurí), por 
terem sulcos labiais muito evidentes, tanto no maxilar su- 
perior como no inferior; o sulco começa um pouco antes 
da orbita e vai terminar no ângulo da bôca, passando por 



— 106 - 

sobre o meio das placas labiais. Atingem dois metros e 
meio de comprimento e parecem viver de preferência tre- 
padas nas árvores. São espécies do Norte do Brasil, con- 
quanto cheguem até o Est. de S. Paulo, no litoral. 

Araripirá — Peixe do Amazonas ("tem olhos muito 
abertos" — Alb. Rangel). 

Araruá — Peixe da Amazónia (citado por Alberto 
Rangel, sem classificação). Talvez má grafia de "A r a u- 
aná"? 

Arataia ou " A r a t a i a s s ú " — O mesmo que 
"A r a p a p á". 

Aratanha — E' em Sergipe, um camarão da água 
doce, que aparece em cardumes. Falta ainda comprovar 
zoologicamente essa informação, registrada na Rev. do 
Museu Paulista, Vol. II, pag. 427. 

Aratauá — O mesmo que "I r a t a u á". 

Araliiiga — Diz Goeldi que na Amazónia o povo dá 
êsse nome genérico aos periquitos "que apresentam pre- 
ponderância de cór verde para o amarelo". (Talvez os 
espécimens que os amadores designam como "contrafei- 
tos"; veja-se e.stas .sob "Papagaios"). 

Aratu — Compreende vários crustáceos marinhos, 
Dccupodes Bmchiiufos, da fam. Grapsideos (géneros Gmp- 

sus, Sesurma, Go- 
niaptíis - G. crncnta- 
ta). Mais geralmen- 
te é conhecido por 
êsse nome, ou por 
"M a r i n h e i r o" o 
Aratiií< pisinii peque- 
no, de carapaça qua- 
drada, trapezoidal de 
côr acinzentada. E' 
muito ágil e vive no 
mangue, onde trepa 
com facilidade até os 
últimos ramos das plantas. Em algumas regiões é pro- 
curado como alimento, segundo nô-lo informou também o 
dr. A. Neiva: "No recôncavo baiano o "aratu" é apa- 
nhado em grande quantidade para a alimentação. Pro- 
cede o pescador da seguinte forma: depois de ter juncado 
o solo com folhas de mangue, que são excelente chamariz, 




— 107 



de cima de um tronco do mangue, ai'mado de um barbante 
tendo na extremidade uma isca de carne, passa a pesca- 
los, lançando-os em seguida dentro de uma lata de quero- 
sene, a qual facilmente se enche". 

Aratubáia — Peixe do mar da Baía; em Itaparica 
alistam-uo como "Pampo", diverso do de espinha mole. 
O. Monte (Alm. Agr. Bras. 1926) registra-o como "peixe 
de costas cinzentas e barriga branca, não tem dentes e 
vive no fundo". 

Araú — E' o nome tupi da "T a r t a r u g a da 
A m a z ò n i a". 

Araúna — Pronúncia amazônica por "G r a ú n a". 
Etimologicamente também está certo (nra ave, una preta," 
mas o povo consagrou, em quasi todo o país, "G r a ú n a": 
guira (ave) una. 

Aravarí ou "Ar a u a ri" — Também conhecido por 
"Sardi n h a", do Amazonas. Veja-se "A v a r í". 

Ardentia — E' como no Rio Grande do Sul os praiei- 
i'os denominam a "fosforescência" do mar; veja esta. 

Areiacó — Pronúncia baiana por "Ariocó". Em 
Pernambuco : " A r e o c ó". 

(Arenque) — Nome dado impropriamente a várias 
sardinhas brasileiras (veja-se "S a r d i n h a s", quando 
de fato designa Cliipea harotgiís do Atlântico septentrio- 
nal. O "a r e n q u e" de Pernambuco é também chamado 
"M a n j u b ã o" (género Anchovia). 

Arerê — O mesmo que "I r e r ê". 
Ariassú — Veja "Bagre a r i a s s ú". 

Aribú — Deturpação, ou pronúncia dos negros, por 
"Urubú". 

Ariocó ou "Areocó" — Não podemos de momento 
classificar ao certo esta espécie, provavelmente da famí- 
lia Lutfanideos. Teimemos porém, em breve o exemplar, 
do qual só obtivemos a descrição do colorido: côr i-óseo- 
azulada; carmim no focinho e na cauda; sobre o corpo 
7 listas longitudinais amarelas; mancha preta no dorso 
posterior. O tamanho máximo é de 30 a 35 centímetros, 
pesando então 2 quilos. E' ari'olado entre os bons peixes 
de 2.'* classe em Recife. No suplemento daremos a clas- 
sificação exata. 

Ariramba — Na Amazónia é o nome das diversas 
espécies de "M a r t i m - p e s c a d o r". 



— 108 — 



Ariramba da mata virgem — Designa na Amazónia 
as diversas espécies de "Beija-flores da mata 
virgem", como são conhecidos no Sul, ou "Cuite- 
I â o". 

Ariranha — Carnívoro da fam. Ahístclideos, Ptcro- 
nura brasiUevsis, semelhante à "1 o n t r a", porém maior, 
alcançando alguns espécimens 2'",40 de comprimento 
total (a cauda mede quasi um metro). A côr é igual à 
da lontra, porém a barriga é menos clara e o focinho não 
é nú, mas coberto de pêlos e a cauda é achatada em tôda 
extensão, quando na lontra ela só o é na ponta. A aiura- 
nha habita os grandes rios de todo o país, inclusive a 
Amazónia, ao passo que a lontra vive no Brasil meridio- 
nal. Aquela difere também desta, por levar vida diurna, 
enquanto que a lontra é animal noturno. A pele da ari- 
ranha é, como a da lontra, muito apreciada como tapete 
ou agasalho, principalmente quando caçada no inverno, 
porque então lhe cresce um reforço de pêlos curtos e 
densos, que a torna macia, e, ao ser beneficiada, ainda se 
lhe arrancam os pêlos mais grossos. As ariranhas gos- 
tam de viver em bandos e nadam pelo rio, não raro fa- 
zendo uma grande barulheira, semelhante à dos gatos, 
cuja voz imitam. Nadam otimamente e, mergulhando, 
caçam peixes, que vão devorar em terra. Os peixes me- 
nores são devorados inteiros, ao passo que dos maiores 
rejeitam a cabeça e a espinha. 

E' preciso ser bom atirador, para poder com algum 
sucesso ir à caça das ariranhas. De longe aproxima-se, 
vindo rio abaixo, um ponto negro, que fende as águas 
como a quilha de um barco invisível. Bastaria êsse alvo 
ao caçador; mas, antes de poder êle disparar o tiro, a 
ai-iranha sumiu-se de todo nas profundezas e quando, 
algum tempo depois, reaparece, por um instante apenas, 
para respirar rapidamente, ainda uma vez o tiro resvala 
na água. Si ainda assim, por muita sorte do caçador, o 
animal é ferido, êste naturalmente afunda e quasi sem- 
pre se perde. 

Arlequim — Na literatura entomológica alguns auto- 
res usam esta denominação, copiada do francês, para de- 
signar o grande coleóptero da fam. Cerambycideos, Acro- 
cinus longimanus. Não sabemos se o nome também já 
é empregado pelo povo. 

Trata-se de uma das espécies de besouros mais ca- 
racterísticos da nossa fauna. Suas dimensões (da fêmea, 



sempre maior) alcançam 9 cms. de corpo e 30 cms. medin- 
do as grandes pernas anteriores, extendidas; as antenas 
são ainda um pouco mais longas. O colorido fundamen- 
tal é preto, entrecortado por um mosaico irregular, de 
faixas cinzento-prateadas e em parte recobertas por ver- 
melho-tijolo, quasi encarnado. A enorme larva cria-se 
em figueiras, jaqueiras, paineiras, etc. Há uma espécie 
um tanto semelhante, menor, Macrophora accentifer, 
cuja larva broca as laranjeiras. (Veja "S e r r a-p á u") . 

Arlequim — Os criadores de canários assim denomi- 
nam o híbrido obtido pelo cruzamento do "c a n á r i o da 
terra" com o "d o r e i n o" (Inf. Fausto Lex) . 

Arraia — O mesmo que "Raia". 

Arranca-milho — Veja sob "G r a ú n a". 

Arú — Segundo Teschauer (Novo Vocab. Nac.) de- 
signa uma espécie de sapo em Minas Gerais. Não temos 
confirmação zoológica. 

Aruá — No Brasil Central é este o nome do "Jaca- 
ré g r a n d e". Veja-se também "A r u r á". 

Aruá — ou "F u á" ou em Sergipe: "A r a uá". No 
Norte do Brasil é o nome de vários moluscos, caracóis da 
água doce. Assim Arthur Neiva (Viagem científica, 
pág. 15), cita a pe- 



quena Pahídina com 
esta designação vul- 
gar, mas em todo o 
Nordeste o povo co- 
nhece i)or aruá prin- 
cipalmente as espé- 
cies do gên. Ampula- 
ria, que chegam a 
atingir quasi o tama- 




nho de um punho. Vi- Aruá do brejo (Ampularía) e conglomerado de ovos 

ve na água, onde se 

alimenta de substâncias vegetais, mas pode viver longo 
tempo em sêco, retraindo-se então o animal para o in- 
terior da casca, cuja abertura é hermeticamente fe- 
chada pelo opérculo ligado à parte inferior do corpo. 
São conhecidas cerca de 30 espécies brasileiras deste gé- 
nero. 

Põoni pequenos ovos róseos ou vermelhos que, for- 
mando um aglomerado de contas, envolvem em forma de 
bola os caules das plantas aquáticas ou então são deposi- 



^ 110 



tados sobre pedras; de cada ovinho nasce um caramujinha 
já perfeito, que logo procura alimentação adequada. 

O aruá não desempenha papel de qualquer forma in- 
teressante no ambiente em que vive; poucos são os ani- 
mais que dêle se nutrem; êle próprio, porém, nos aquá- 
rios por exemplo, estraga a folhagem e os brotos das 
plantas aquáticas. Na Amazónia sua casca é às vezes 

aproveitada, como 
"caneca", para a co- 
leta do látex da bor- 
racha. 

V. Chermont de 
Miranda dá o nome 
de "U r u á" (aliás 
apenas uma variante 
fonética) a "um ca- 
racol abundante nos 
campos baixos do 
Mai'aj6". O gavião 
conhecido por "Caramujeiro" chama-se no Norte 
"Gavião de u r u á". Leonardo Motta (no elucidário 
dos "Cantadores" p. 367) registra: be.sta como aruá = 
muito tolo. O. Monte diz ser o Aruá "muito apreciado, no 
Norte, como excelente prato", o que aliás não vimos con- 
firmado no Nordeste. 

Aruá do mato — Veja sob "Caramujo do 
m a t o". 

Aruana ou "A r a u a n á" ou "C a r a p a n á" ( ?) em 
Goiaz, como escreveu Henrique Silva — Peixe de esca- 
ma da água doce, da fam. Osteof/lossideos, com a única es- 
pécie amazônica Osteoglossiim bicirrhosuni. E', sob vários 
aspetos, êmulo do "Pirarucu" — representantes úni- 
cos de famílias aberrantes e que, em meio da fauna ho- 
dierna, representam tipos remanescentes de outras éras. 

Contudo o "A r u a n á" não tem a importância eco- 
nómica do pirarucú. Caracterizam-no o feitio das exten- 
sas nadadeiras dorsal e ventral, que, começando no meio 
do dorso e da barriga, vão atingir a base da caudal. O 
colorido predominante é branco-prateado, com reflexos 
vermelhos e o disco das grandes escamas laterais é verde, 
margeado por tons dourados. E' notável a presença de 
barbilhões (pois não os tem nenhum outro peixe de es- 
cama, da água doce, em nossa fauna). Atinge mais de 1 
metro de comprimento e a carne é muito saborosa. Os 
ovos do aruaná, comparados aos dos demais peixes, são 




Aru<í do mato (Bulimus) 



— 111 



enormes, medindo 1 cm. de diâmetro ou seja 4 ou mesmo 
10 vezes maiores que os da generalidade dos outros pei- 
xes. As formas larvais, já com 30 mm. de comprimento, 
ainda têm saco vitelino grande e em caso de perigo re- 
fugiam-se na bôca dos pais como o fazem também os fi- 
lhotes do pirarucu e dos acarás. De acordo com tal prote- 
ção, o número de ovos anualmente produzidos é limitado 
(veja-se sob "Cascudo"); Miranda Ribeiro constatou 
ao todo 120 nos ovários de uma fêmea prestes a desovar. 

O aruaná, diz J. Veríssimo, é um peixe, por assim 
dizer, de superfície. Anda pelas primeiras camadas d'á- 
gua e em bandos aparece nas beiradas quasi à tona, ofere- 
cendo assim fácil presa à frecha, à fisga e até à espin- 
garda, pois que o matam também a tiro. De anzol, porém, 
para pegá-lo é preciso que o anzol não afunde. 

Isto conseguem os pescadores com o caramurí — 
uma boia cilíndrica de uns 10 cms. de comprimento por 
3 ou 4 de diâmetro feita da madeira leve "caramurí", que 
dá o nome ao instrumento; êste retém o anzol iscado em 
altura alcançável pelo peixe. Ou lançam toda a linha para 
o meio do sítio em que pescam ou a enrolam no caramurí 
e o atiram ao longe, esperando da canôa, já pronta, que o 
peixe "pegue", o que a boia mostra, sumindo-se do repen- 
te ou correndo pela superfície. 

Atiram-se então a ela com a canôa ligeiramente re- 
mada e, agarrando-a, colhem o peixe preso pelo anzol. 

Arumará — Em Alagoas e em Pernambuco é o mes- 
mo que "G r a ú n a". Diz-se também "Grumar á". 
Corresponde ao "Vira" do Sul. 

Arui'á — No sertão paulista também é usada esta 
denominação (como já assinalámos sob "Aruá" pai'a o 
Brasil central) aplicada ao "J a c a r é - a s s ú". 

Assanhasso — Veja-se sob "Sanhasso". 

Assobiadeira — Marreca, Nettion flavirostre, do Rio 
Grande do Sul, pertencente ao mesmo género da "Ana- 
nã í". E' bruno-cinzenta em cima, com faixas pretas 
transversais na cabeça, o lado inferior é esbranquiçado, 
com grandes manchas pretas no peito. Sobre a aza pas- 
sam duas faixas amarelas. 

Segundo informação do Sr. João Leonardo Lima, em 
Mato Grosso êste mesmo nome cabe à marreca Dendro- 
ojf/íia viduata, a "i r e r ê", que vive aos bandos em Mi- 
randa e cujo assobio forte se ouve de longe. 



112 

Assobiador — Gocldi conheceu por êste nome, na 
Serra dos Órgãos, o grande pássaro da fam. Cotingideos, 
Tijiica nigra, de 27 cms. de comprimento, cujo macho é 
todo preto, com excepção de uma mancha amarela nas 
azas e do bico alaranjado; a fêmea é uniformemente vex- 
de-escura. 

Seu assobio tem certa semelhança com o do "S a c í"; 
compõem-se, porém, de três sílabas em tons ascendentes. 
Vive nas matas da Serra do Mar. São da mesma família 
a "A r a p o n g a" e os "A n a m b é s". 

Assoprador — Em Mato Grosso é o mesmo que 
"B ôto da Amazónia". 

Atá — "Andar ao a t á" — Modismo brasileiro, 
que aqui registramos, unicamente para chamar a atenção 
do leitor à origem da expressão, que se refere, na acepção 
primitiva, a um hábito curioso dos caranguejos (veja sob 
êste vocábulo). "Atá", em guarani significa, aliás, sim- 
plesmente: andar, caminhar. 

Atangará — Na Amazónia, por "Tangar á". Apli- 
cam essa denominação a várias espécies de pássaros da 
fam. Piprideos, géneros Pipra, Manucus, etc, quando no 
sul "Tangará" designa apenas as espécies propria- 
mente dansarinas. 

Atapú ou "I t a p ú", "U a t a p ú" ou "G u a t a p í" 
— No Norte do Brasil é um grande caramujo marinho, 
do qual os jangadeiros se servem como buzina (Voluta). O 
nome primitivo em guarani é "g u a t a p í". No litoral 
nordestino: "bus o". 

Aterroadas — Nome dado na Amazónia aos montí- 
culos de argila, que certas minhocas acumulam ao redor 
doa buracos em que vivem, nas terras alagadas. Com a 
sêca esses montículos endurecem e não só incomodam e 
dificultam a marcha, como também estragam as pasta- 
gens. Em sentido mais amplo, o termo abrange também 
os montículos levantados por cupins ou por formigas. 

Atobá — O mesmo que " Me r g u 1 h ã o". 

(Atum) — Designa, na grande pesca marítima do he- 
misfério septentrional, o precioso peixe (Thnnmis thij- 
nus) conhecido entre nós só como conserva. 

Por ser semelhante às outras espécies da fam. Sconi- 
brídeos, (cavala, charéu), às vezes aquele nome familiar 
aos pescadores portugueses, se infiltra em nosso vocabu- 
lário, determinando confusão. 



Avarí ou "A u a r í" — Pequenos peixes do rio Ma- 
deira, da fam. Characideos, e ao que parece, pertencentes 
a vários géneros: Creagruttis, Aphiocharax, etc. 

Aves e Pássaros — Pouca gente costuma fazer dis- 
tinção, com valor classificativo, no emprego dêstes vocá- 
bulos, peculiares à nossa língua e à hespanhola. O fran- 
cês emprega indiferentemente oiseau, tanto ao designar 
o avestruz como o pardal e da mesma forma Vogel em ale- 
mão e bird em inglês, aplicam-se a qualquer vertebrado 
plumado. Ninguém, falando corretamente nossa língua, 
dirá que a ema, o gavião e o papagaio sejam pássaros. 
'"Pássaros são as aves pequenas", temos ouvido definir. 
Estará certa? O bentevi é um pássaro, mas a rôlinha, 
muito menor, pode ser designada assim? 

Certamente que não, pois a rôla é uma pomba e os 
representantes desta ordem não são pássaros, porém aves, 
como as galinhas. Verificamos, pois, que há, como acima 
dissemos, valor classificativo nestes dois vocábulos, ou, 
mais exatamente, em um destes vocábulos. Aves são to- 
dos os vertebrados plumados, inclusive os pássaros; ês- 
tes, porém, constituem um determinado grupo zoológico 
das aves, conhecido na nomenclatura científica como cons- 
tituindo a Ordem dos Passeriformes (e que o alemão co- 
nhece por "S c h r e i u. S i n g v õ g e 1" e o inglês por 
"P e r s h i n g - b i r d s"). 

Só por esta forma podemos regular o emprêgo exato 
dos dois vocábulos, devendo-se deixar de lado a noção 
do tamanho, pois que nos induzirá em muitos erros. 
Além do exemplo já citado, lembraremos ainda os pe- 
quenos "Tuins", do grupo dos papagáios e de dimen- 
sões bem menores do que muitos pássaros, como os sabiás, 
a araponga ou os grandes japús. 

Pelo mesmo critério também não são pássaros os 
minúsculos beija-flores, cujos caracteres zoológicos os 
fazem enquadrar na ordem dos Coraciformes, juntamente 
com o "M a r t i m - p e s c a d o r", as "Juruvas", os 
"Curiangos" e os "T a p e r u s s ú s" considerados, 
pois, seus parentes mais próximos. 

Os dois exemplos acima frizam bem a questão: nin- 
guém dirá que o pequeno parente dos papagáios seja pás- 
saro — mas quanto aos pequenos beija-flores ficarão em 
dúvida aqueles que não se desprenderam ainda, de todo, 
do critério das relativas dimensões. Constatemos, porém, 
que é uso generalizado dizer-se que os beija-flores são 
graciosas "avezitas" ou "avezinhas" e não passarinhos. 



114 



O emprego dos vocábulos ave e pássaro deve, pois, 
ser regulado única e estritamente pelo critério da classi- 
ficação. 

A definição zoológica da ordem dos Passeriformes 
é infelizmente, bastante complicada, devido às naturais 
afinidades dos variadíssimos géneros aqui compreendidos 
(das 1.600 aves brasileiras, quasi 900 são pássaros). Em 
resumo, caracterizamos os Passeriformes como: "Aves 
cujo bico, de forma variável, não tem membrana (cêra) 
na base; o tarso é desprovido de penas; os pés têm 3 de- 
dos dirigidos para a frente e 1 para trás; a unha do dedo 
posterior é mais forte que a dos dedos anteriores, dos 
quais os dois interiores se acham ligados entre si, na 
base". Por ser difícil ao leigo orientar-se, com segui-ança, 
baseado em tal definição, mencionaremos, a seguir, os 
tipos característicos das aves pertencentes às demais or- 
dens (e que, portanto, não são pássaros): Avestruz, Ga- 
lináceos, Inambús, Pombos, Aves aquáticas, marinhas e 
praieiras, Pernaltas, Palmípodes, Aves de Rapina, Cora- 
ciformes: Marti m-pescador, Juruva, Curiangos, Tape- 
russús, Beija-flores, Surucuás, Cucos (Alma de gato. Saci, 
Anú), Tucanos, Picapaus, João bôbo, Beija-flor da mata, 
Bico-redondos (papagaios etc). 

(Avestruz) — Designa propriamente a grande ave 
africana Sti-uthio camelas, mas entre nós é vulgarmente 
aplicado à espécie correspondente da nossa fauna, a 
"Ema". 

Avinhado ou "C u r i ó" — Pássaro da fam. Frrngil- 
lideos, Oryzoborus amjolensis, de corpo cheio e bico gro.sso, 
sendo o macho preto em cima e de côr castanha no lado in- 
ferior, ao passo que a fêmea é mais bruna no lado dorsal 
e mais amarelada em baixo. E' um dos melhores cantores 
da família e sua distribuição natural se extende por todo 
o Brasil. Faz parte do mesmo género o "B i c u d o". 

Aviú — Na Amazónia designa um pequeno crustá- 
ceo, um camarãozinho (fam. Scrucstideos, Acetcs ameri- 
canus) da foz do Tocantins e ao que parece de Santarém. 
No mercado é conhecido por "Aviú de Cametá", pois que 
só nos arredores dessa cidade se faz sua pesca em maior 
escala. 

O corpo mede quando muito 3 cms. de comprimento e 
a grossura apenas ultrapassa a de um palito de fósforo. 
Não conhecíamos êste curioso crustáceo e assim, logo ao 
chegarmos em Cametá, encarregámos um rapazinho de 



— 115 — 



nos procurar uma amostra; momentos depois êle trazia- 
nos uma cuia cheia de aviús, facilmente apanhados com 
um saco na água rasa. Sem ser preciso qualquer outro 
preparo, além da lavagem, simplesmente cozido, frito co- 
mo bolinhos ou sêco e reduzido a quasi farinha, o aviú é 
saborosíssimo. Mas é uma riqueza que só abunda durante 
poucas semanas, depois das primeiras enchentes do rio em 
Julho ou Agosto. Todos os peixes, com exceção apenas 
dos iliófagos ou comedores de lodo, àquele tempo se lo- 
cupletavam com o aviú tão nutritivo e fácil de pegar. 

Em rai"as localidades, na foz do Mississippi e no Ja- 
pão há espécies semelhantes do mesmo género, onde tam- 
bém são muito apreciados. Mas sua biologia é difícil de 
estudar e talvez não seja possível aproveitá-lo melhor, 
pela criação, como seria de desejar. 

Avoante — O mesmo que "Pomba de bando". 

Aza branca — No Norte do Brasil é o nome da pom- 
ba Columba picazuro; veja "Pomba torcaz". Goeldi 
registra o mesmo nome também para uma espécie de 
"Anambé" (Xipholena lamdlipciinis) , mas a acepção 
mais generalizada é a referente à pomba. 

Aza de telha — Denominação riograndense do 
"Vira", de azas castanhas, Molothrus badius. 

Azulão — Como é natural, há várias espécies de pás- 
saros azues, aos quais cabe êste nome. No Norte chamam 
assim ao "V i r a", de fato azul escuro, mas cuja fêmea é 
parda, Molothrus boyiariemis (ttronitenH : um "Sanhas- 
s o", Stephanop}iorus leucocephalus (veja sob "S a n h a s - 
s o f r a d e") , é todo azul, mas a cabeça, em cima, na fren- 
te, é preta, em seguida, no vértice, vermelha e mais atrás 
azul-clara. Mais geralmente conhecido por "A z u 1 ã o" 
é o pássaro da família FrinfjUUdcos, Cyanocompsa cyanea, 
também chamado "G u a r u n d í a z u 1", do grupo dos 
"Pa p a -arroz", azul, com fronte e encontro das azas 
mais claros; a fêmea é pardo-amarelada. 



Raba de boi — No Rio Grande do Sul são assim 
chamados os fios das aranhas aeronáuticas, do género 
Thmnwhis, do grupo dos Laterigrados. Nas tardes calmas 
de Outubro voam fios de seda pelo ar e, presas a êles, 
acompanham essa viagem as pequenas aranhas que, por 
meio de tal locomoção aérea, demandam novas paragens, 
onde esperam encontrar caça mais abundante. A aranha 
arma seu aparelho colocando-se sobre qualquer ponto 
um pouco mais elevado e, dirigindo a extremidade do 
abdómen para cima, faz esguichar seu fio de seda, que 
qualquer brisa leva consigo e, sendo bastante longo, tam- 
bém cari'ega por fim a aranha. Como Darwin certa 
vez observou em alto mar, as aranhas, nestes seus vôos, 
chegam a afastar-se 60 milhas da terra. Querendo dar 
por finda a migração, a aranha sabe transformar seu apa- 
relho em paraqueda, simplesmente pelo encurtamento do 
fio, que ao ser enrolado numa bolinha, tende a cair e, por 
fim, o passageiro vai pousar em lugar distante, atingido 
a esmo, bem se vê. 

Babosa — O mesmo que "M u s s u r u n g o". 

Bacacú — Goeldi registra êste nome amazônico, apli- 
cado a várias espécies de pássaros da fam. CotingideoH, 
ou "Anambés", como são conhecidos genericamente. 
Pertencem ao género Xipholena, caracterizado pelas longas 
penas coberteiras das azas. A*". ImncUipennis da Amazó- 
nia inferior é de côr mais escura, com brilho purpúreo e 
azas e cauda brancas; A', punicca, do alto Amazonas, é de 
colorido semelhante, porém muito mais brilhante, de be- 
líssima côr de púrpura intensa e que a torna digna de ser 
registrada entre os mais belos representantes da família, 
que aliás prima pela formosura de suas cores vivas. 

(Bacalhau) — Designa propriamente o peixe dos 
mares frios do hemisfério septentrional, Gadiis cuUarias 
(antigamente G. morrhmtj e que no Brasil é importado 
em larga escala, como peixe seco. Há em nossos mares 



— 118 — 



algumas espécies da fam. Gadideos, tais como o "A b ro- 
te" (vide êste), aos quais impropriamente se dá o nome 
de bacalhau ; nenhum dêles, porém, oferece pesca em maior 
escala, pelo que não tem valor para a indústria. 

Bacoral — ou antes — " B a c o r á ", como o pro- 
nunciam os caipiras, é a "C o b r a cora 1". Afrânio do 
Amaral tenta a explicação etimológica: mboi (cobra) 
corá ou cará (com círculos, as faixas anulares). 

Bacú — Na Amazónia, designa várias espécies de 
peixes da água doce do género Prochilodus, ao qual aliás 
pertencem os "C o r u m b a t á s" do Sul. Às vezes o 
mesmo nome é aplicado às espécies do gên. Doras, o que, 
porém, parece provir da confusão com "V a c ú" (vide 
êste) . 

Bacucú — Molusco lamelibrânquio marinho da fam. 
Mytilidens (Modioliis giíijaneii.-iiíi e M. tulipa), semelhan- 
te ao "Sururu" e, como êste, comestível. Têm duas 
conchas iguais, de forma um tanto oval, alargadas na 
parte posterior e por isto, às vezes, de configuração quasí 
triangular; por fora a côr é escura nos exemplares do 
Brasil meridional, amarelo-castanha, com parte posterior 
esverdeada, nos do Norte (Baía) ; o interior é azul ou ver- 
de, nacarado; atinge 8 cms. de comprimento. Confronte- 
se a explicação sob "S u r u r ú". 

Bacurau e "Curiango" — Parecem aplicar-se a 
quasí todas as espécies de aves da fam. Capri))iiil(jideos, 
à exceção do gên. Nyctihius, que abrange os "U r u t a u s". 
Assim o constatámos tanto no Sul como na Amazónia. 
Acrescem ainda os nomes "João corta pau" (Capri - 
nmlffiis rufus), que é onomatopaico e"Mede-léguas" 
(Nyctidronms ulbicollis). Vide sob êstes nomes e a parte 
geral sob "Curiango". Em Pernambuco diz-se tam- 
bém "I b i j a u". 

Bacurau-tcsoura — Vide "C u r í a n g o - t e - 
s o u r a". 

Badejele — "Badejo mira" (Parepincphehis 
acutirostris) ou simplesmente "Mira" (não confundir 
com "M i r a g u a i a"), é conhecido em geral por exem- 
plares de tamanho mediano, menos de 50 cms., i)odendo, 
porém, atingir 90 cms. de comprimento; é de côr choco- 
late no mercado, mas em vida é esverdeado, com largas 



— 119 — 



faixas transversais, de côr sépia e com finas estrias lon- 
gitudinais, ondeadas nos lados. Vive nos lugares de pe- 
dras, onde é pescado em boa quantidade. 

Badejo — Várias espécies de peixes do mar da fam. 

Serranideos têm êste nome; distinguem-se do "C h e r n e" 
e das "G a r o u p a s" por terem caninos distintos na parte 
anterior da maxila. No Nordeste são conhecidos por "S e - 
ri gado". (O Badejo de Portugal pertence a outi'a fa- 
mília muito diversa e é do género do bacalhau). São to- 
dos de carne excelente, tanto os pretos como o "b r a n- 
c o". Êste (Trinotropis microlepis) é côr de pérola ou cin- 
zento, com manchas escuras e atinge l'",50 de compri- 
mento. "Badejo f e r r o" (T. honaci) é coberto de 
máculas escuras, separadas entre si por linhas brancas, 
sinuosas, que formam uma verdadeira rede; uma fina orla 
branca guarnece as nadadeiras. E' a espécie que atinge 
maior desenvolvimento entre as congéneres, isto é, l'",80 
de comprimento. Com as marés calmas gosta de tomar 
sol à flor d'água, nos lugares pedregosos, e então pode 
ser colhido com a fisga. A carne, mesmo dos grandes 
exemplares, é bôa, sendo geralmente vendida em postas, 
o que então dá lugar a falsificações, porque também o 
cação pode assim "virar" em badejo. . . 

Em Pernambuco êste peixe é negociado em primeira 
mão como si fosse de 5.^ classe, quando de fato é de ótima 
carne; mas essa depreciação do peixe inteiro tem por fim 
contrabalançar a "quebra", que é grande, quajido o peixe, 
depois, é eviscerado e retalhado pelo vendedor ambulante, 
lá apelidado "pombeiro". 

Badejo-fogo ou "B. sangue" — Pterometepon 
cruentatus, faz jús ao nome por ser de lindíssima colora- 
ção rubra, às vezes com algumas máculas pretas. Não al- 
cança bem um metro de comprimento. Difere genérica- 
mente dos outros badejos por ter apenas 9 acúleos na dor- 
sal e não 10 ou 11, como as espécies dos outros géneros. 
No Nordeste é conhecido por "P i r a ú n a". 

Badejo-sabão — Peixe do mar <Ia família dos prece- 
dentes, Rypticus saponaceiís; difere dos outros badejos 
por não ter acúleos na nadadeira anal. E' de côr choco- 
late escura e, como o corpo é revestido por abundante 
mucosidade, isto lhe valeu os nomes tanto vulgar como 
científico. No Nordeste diz-se "Serigado sabão". 



— 120 



Bagageiro — Passarinho da fam. Tyranniâeoí^, do 
grupo dos "Caga-sebo". Pardo esverdeado em cima, 
branco no lado ventral e desta mesma côr são as margens 
das penas das azas e um traço superciliar. Phaeomyius 
murina. Seu nome vulgar "Bagageiro" é da Amazó- 
nia; não lhe conhecemos a denominação usada mais ao 
Sul, onde também ocorre até o Est. de S. Paulo. 

Bagre — Vocábulo introduzido pelos portugueses e 
espanhóis na América do Sul. De acordo com as informa- 
ções de Bluteau, João de Barros se refere nas "Décadas" 
a peixes deste nome, que conheceu em Sumatra e assim pa- 
rece que a origem do vocábulo é asiática e não antilhana 
como sugerem R. Lenz e outros autores. 

Já em 1640 o termo era de uso corrente em Pernam- 
buco, como o atesta Marcgrave ("Nhamdia Brasiliensis, 
"bagre do rio" vocatur á Lusitanis" ) ; nos modernos ca- 
tálogos dos peixes de Portugal não o encontrámos regis- 
trado e as espécies correspondentes, do gên. Cobitis são 
conhecidas vulgarmente por "Verdeman". Em acepção 
restrita, no Brasil, "bagre" na zona litorânea designa as 
espécies da fam. Ariideos (veja-se a seguir) e nos rios do 
interior é sinónimo de "J u n d i á". 

Bagre (do mar) — Como acima ficou dito, abrange 
êste nome as várias espécies de peixes de couro da fam. 
Ariideos, que são propriamente marinhos, mas que ao 
tempo da reprodução procuram a água salobra e sobem 
os cursos dos rios. Ao contrário dos outros Nematognathos, 
têm as 2 narinas de cada lado distanciadas entre si; os 
três géneros Tachymrus, Genide.ns e FcUchthys abrangem 
cêrca de 17 espécies ocorrentes em nossas costas. (Ve- 
ja-se abaixo os vários nomes específicos). 

No vocabulário indígena os bagres do mar eram co- 
nhecidos por "G u r í" (Norte e Sul) ou "U r í" (Norte), 
formas estas ainda usuais. 

Economicamente, são peixes de muito valor para a ali- 
mentação do povo, visto como por ocasião da reprodução 
abundam em todas as embocaduras dos rios da zona cos- 
teira e são fáceis de pescar ; pelo sabor, porém, são em ge- 
ral de qualidade inferior, devido ao gosto de lodo e quasi 
sempre também de óleo, que caracteriza sua carne. Como 
todos os Nematognathos, não têm dentes, mas apenas pla- 
cas ósseas, às vezes espalhadas por toda a cavidade bucal 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



^ 121 - 

e providas de pequenos espinhos muito unidos, que fun- 
cionam como limas ou grozas. Daí o regimen desses pei- 
xes, restrito muitas vezes a detritos orgânicos que encon- 
tram no fundo, juntamente com vermes, que por sua vez 
vivem do lodo; outros contudo, são carnívoros. 

Como já ficou dito, o bagre do mar vem para as em- 
bocaduras dos rios. afim de cuidar da multiplicação. Os 
óvulos são provavelmente depostos e fecundados em um 
remanso; para garantir a evolução dos mesmos, os pais, 
principalmente os machos recolhem-nos à bôca e aí os 
mantém até a eclosão. E' curioso examinar e.ssas bolas 
de quasi 2 cms. de diâmetro, consi.stentes, amarelas, no 




Bagre do rio 



meio das quais se move o embrião. Veja-se o respectivo 
estudo do Prof. H. von Ihering, transcrito no Boletim Bio- 
lógico, S. Paulo, 1928, n.° 14. pag. 98. 

Por ocasião da desova os pescadores apanham enor- 
me quantidade de bagres (que, depois de preparados, 
salgados e secos, são conhecidos por "Mulato velho" 
no mercado do Rio Grande do Sul). O dr. H. von 
Ihering de.screve a destruição desta riqueza natural na" 
época da desova do TachysiiVHs barbiifi na Lagôa dos 
Patos, narrando o caso de um pescador que apanhara 
16.000 bagres em um só dia e, como possuísse apenas 
um caldeirão, que comportava 800 peixes para a extração 
do azeite, só pôde ferver 7.200 peixes em três dias. Com- 
putados também os peixes que salgara no primeiro dia, 
pôde aproveitar ao todo apenas 8.000 bagres, deixando 
apodrecer outro tanto, ou sejam 15.000 kilos de peixe ex- 
terminado sem proveito, no tempo da desova. Claro está 
que não há abundância que resista a tal faina de extermí- 
nio, principalmente quando praticada na época da pro- 
creação. Vide " G u r i j u b a". 



^ 122 



Bagre d'água doce — A rigor, a denominação portu- 
guêsa, bagre (gên. SilnruH, da Europa), aplicada a espé- 
cies nossas, d'água doce, deveria ser puro sinónimo de 
"j u n d i á" (veja êste) restrito portanto às espécies do gé- 
nero Rhamdia (sensu stricto). Mas aos poucos o termo 
foi abrangendo várias outras formas e como "B a g r i - 
n h o" designa-se hoje qualquer peixe de couro, de corpo 
não muito delgado, antes roliço e mesmo as "C a m b e- 
V a s", "A n u n j á" ou "B u r e v a" são "bagres pe- 
quenos", para o pescador menos versado no conhecimento 
dessa fauna. 

líagre amarelo — Bagre marinho, Tachysiirm spixii, 
dos mais comuns no mercado, onde é vendido a baixo 
preço. A côr amarela aparece mais no lado inferior; a 
parte dorsal é prateada e azulada. 

Bagre ariassú — Tachysurus parkeri, que anatomica- 
mente se caracteriza por ter entre o processo occipital e 
a base do 1." raio dorsal uma placa óssea, trapezoidal, 
com recorte côncavo nas margens anterior e posterior. 
E' peixe grande, de mais de 1 metro de comprimento e 
30 quilos de peso, que no verão proporciona boa pesca no 
litoral da Paraíba. 

Bagre bandeira ou "Bagre fita" ou "Ban- 
deira d o" — Bagres do mar do gên. Felichthys, que se 




Bagre bandeira 



caracterizam iielos filamentos que enfeitam as nadadei- 
ras dorsal e peitorais. Atingem 50 cms. de comprimento e 
4 quilos de peso. 



- 123 

Bagre beiçudo — Na Paraíba é o T. grandicassis; 
vide "bagre urutu". 

Bagre caiacôco — Em Pernambuco e na Paraíba é 
conhecido por êste nome um grande bagre amarelo, do 
mar, Tachysunis luniscutis; vide "c a n g a t ã". 

Bagre mandim ou "B a n d í m" — E' no litoral nor- 
destino, o nome do "bagre bandeira", F. marinus, 
que tem 20 a 24 raios na nadadeira anal. 

Bagre sapo — O mesmo que "P a c a m ã o". 

Bagre sari ou "Sargento" — Felichthys bagre, 
pertence ao mesmo género do "Bagre mandim" e 
difere dêste apenas pelo maior número de raios anais (32 
a 35 e não apenas 20 a 24). 

Bagre urutu — Espécie marinha Tachysurus gran- 
dicassis, que difere do bagre congénere T. luniscutis 
"Cangatã" por ter dentes palatinos viliformes e não 
granulosos. O lado dorsal é pardacento e o lado ventral 
um tanto manchado com máculas esparsas. Atinge 1 
metro de comprimento. 

Igual nome é dado, segundo A. M. Ribeiro, ao bagre 
do gên. Genidcns, que difere do precedente por não pos- 
suir dentes vomerinos; na Paraíba G. genidens tem o 
nome "bagre ma n d í ". 

Baguarí — O mesmo que "J a b i r ú - m o 1 e - 
que ". 

Baiacu — Compreende os peixes marinhos da ordem ' 
Plectognutos, Gijmnodontes, isto é, que em vez de den- 
tes isolados tem os maxilares guarnecidos de placas, de 
modo a lembrarem o feitio do "bico" das tartarugas. Há 
trés grupos: Triodontideos (que têm uma placa inteiriça 
no maxilar superior e duas no maxilar inferior, isto é, 
es.sa placa é dividida no meio), Tetraodontideos (com as 
placas de ambos os maxilares divididas no meio; portanto, 
como si fossem quatro dentes) e Diodontideos (as duas 
placas são inteiriças), sendo estes os chamados "B a i a c ú 
de e s p i n h o", porque o corpo é todo coberto de espi- 
nhos grandes, grossos e triangulares. Todos êles, quando 



124 



assustados ou irritados, estufam o corpo, como se fôra 
uma bola de borracha. Atirando-o, então, assim, na água, 
o peixe, transformado em boia, nada por algum tempo 
de barriga para cima, até que se resolva a expelir o ar, 
para poder mergulhar. 

Diz o povo que, fazendo-se cócega na barriga do 
baiacu, este continua a estufar, até arrebentar. Algumas 
espécies atingem três palmos de comprimento e há es- 
pécies que se deixam apanhar em grande quantidade nas 
rêdes; mas ninguém os quer, porque todos sabem que são 




Baiacu 



peixes venenosos. E' a bile que encerra o veneno, dizem 
alguns pescadores, que sabem tirar as vísceras e comem 
a carne sem inconveniente. 

Afirma-se também que o baiacu só é venenoso na 
época da reprodução. 

Em Recife tomámos nota das seguintes denominações 
específicas: baiacu caixão, franguinho, guarajuba que os 
pescadores comem, ao passo que são conhecidos como 
venenosos: baiacu de espinho, bubú e panela. Outro no- 
me, talvez local, é baiacu "b e i j a - t ô c o", que pode 
sêr sinónimo de um dos precedentes. 

líaiacú da água doce — E' o chamado "Ma- 
ma i a c ú" do Amazonas. 

Baiacú-ará — Da fam. Tetruodontideos (vide su- 
pra), Lagocephalus Inevigatus, de pele aparentemente lisa, 
porém áspera como lixa; a côr em cima é azul ultrama- 
rina, em baixo alva. E' uma das espécies mais comuns 



125 — 



nos nossos mares, bem como em outras zonas quentes do 
Atlântico. 

Os pescadores detestam-no, i)orque não só come os 
peixes pequenos que estão na rêde, como estraga os 
grandes. 

Baiacu de espinho — Da fam. Diodontideos (vide 
supra) ; há dois géneros principais: Diodon, com os espi- 
nhos anteriores móveis e Chilomycterus, com espinhos 
curtos, largo.s c triangulares na base (veja "Baiacú- 
g u i m a") ; Diodon histrix, que atinge 90 cms. de com- 
primento, encontra-se também em outros mares. 

Baiacu feiticeiro — Na Baía é assim chamado um 
baiacu que só alcança 10 cms. de comprimento ; seu colo- 
rido é escuro nas costas, manchadas de amarelo escuro, 
e a barriga é branca. 

Baiacú-guima — Registrado pelo almirante Camara 
entre as espécies da Baía, talvez seja Chilomyctems que 
mencionamos sob "Baiacu de e s p i n h o". 

Baiacú-mirim — Sphcroides testudineiis, atinge 
quando muito um palmo de comprimento. 

Baiacií-pinima — Spheroides spengleri, também liso 
como o "B. ará" e de colorido semelhante, porém com 
algumas manchas arredondadas na linha mediana. 

Baiagú — Ave da fam. Charadriideos, Haematopus 
palliatus, assim chamada em S. Paulo e "Bejaguí" 
no Rio Grande do Sul; também "P i r ú - p i r ú" na Ama- 
zónia ou "Batuíra do mar grosso". Ave forte, 
de 40 cms. de comprimento, bico comprido, sendo êste e 
as pernas de côr laranja. A cabeça e o pescoço são 
pretos, o dorso cinzento escuro, o lado inferior bran- 
co. Vive nas costas do mar, da Patagônia à Amé- 
rica do Norte. 

Bairar í — ( Por " P a i r a r i " ) . O mesmo que " P o m- 
ba de band o". 

Baitaca — O mesmo que "Maitaca"; esta úl- 
tima é a forma mais corrente. A pronúncia original in- 
dígena é "M b a e t a c a". 

Baleia — Denominação genérica, que compreende 
todos os mamíferos Cetáceos da subordem Mystacocctos, 
fam. Balaenideos. São todos êles animais marinhos, ca- 



— 126 — 



racterizados pela falta de extremidades posteriores (no 
esqueleto, porém, encontram-se rudimentos das mesmas) 
enquanto que as anteriores são transformadas em nada- 
deiras. Não têm dentes (os quais, porém, no embrião se 
acham esboçados) e, para substituí-los em sua função, 
desenvolveram-se i)lacas córneas no céu da bôca, consti- 
tuindo as barbatanas, tão conhecidas pelo uso que delas 
fazemos. Êsse conjunto de placas, finamente franjadas 
nos bordos, em número de algumas centenas ou mesmo 
até mil, enche a bôca do animal, cuja língua não é mó- 
vel. Todos sabem que as baleias são os maiores animais 
hoje existentes; no entanto, sua alimentação consiste uni- 
camente em organismos pequenos, o que, porém, não quer 
dizer que seja pouca cousa que lhes vai diariamente ao 
buxo. Com a fauce enorme aberta, toca a baleia a per- 
correr grandes distâncias e toda a bicharia miúda, que 
não sabe fugir depressa, vai se acumulando no salão 
bucal : medusas, sibas, vermes, algumas algas e milhões 
de bichinhos miúdos ou quasi microscópicos; repentina- 
mente fecha-se a bôca e, graças às barbatanas, a água vai 
sendo filti-ada e o que permanece, é considerado alimento. 
Bocados maiores, as baleias não podem engulir, porque a 
garganta é muito estreita. 

Mas as baleias não são peixes; são mamíferos e, 
como tais, respiram por meio de pulmões. Podem mer- 
gulhar por algum tempo, porém depois de terem gasto o 
ar armazenado, precisam voltar à tona e respirar nova- 
mente. Em geral a baleia mantém-se na superfície das 
águas e assim se pode ver bôa parte do costado emer- 
gindo; si ela prefere caçar no fundo, cada 15 ou 20 mi- 
nutos tem de vir à tona. Sentindo-se fi.sgada pelo har- 
pão, pode permanecer mesmo uma hora e vinte minutos 
sem respirar. Quem viajou em alto mar, já viu o mui 
falado repuxo, que de longe assinala a presença do cetá- 
ceo; mas não é água que êle expele pelo nariz, porém, 
simplesmente o vapor d'água, de que vem saturado o ar 
expirado. 

Apesar do seu feitio abrutalhado e do peso, que é de 
cem ou cento e tantas toneladas, as baleias são ágeis e 
mesmo tão velozes, que talvez só os mais rápidos dos pa- 
quetes modernos as podem acompanhar. 

Nas águas brasileiras até agora foram assinaladas 
7 espécies, Balaena nnstralis tem barriga lisa e é o 



— 127 



"peixe verdadeiro" dos pescadores ou "baleia dos pólos", 
ao passo que a barriga é sulcada longitudinalmente, como 
enorme tábua de lavar roupa, em Megaptera, que tem 
mão proporcionalmente muito comprida, igual a Vi. f^o 
comprimento do corpo e em Buhtenoptcra, de mãos cur- 
tas. Os maiores exemplares destas atingem 18 a 22 me- 
tros; mas há espécies, que, porém, não ocorrem em nossos 
mares, de 36 metros de comprimento e cêrca de 150.000 
klgs. de peso bruto. 

O filhote mama na mãe debaixo d'água e, enquanto 
é mamão, chamam-no "b a 1 e a t o" ou "s e g u i 1 h o t e". 

Nos tempos coloniais, a pesca da baleia teve grande 
desenvolvimento, principalmente nas costas septentrio- 
nais do Brasil e ainda em 1817 uma estatística assinalou 




Balela 



que foram pescadas nesse ano 232 baleias, cujo produto 
foi avaliado em 440:800$000. Nos "Contratos" e na.s 
"Armações" extraía-se o azeite, rendendo os espécimens 
maiores, deílO metros, até 10.000 litros. 

Talvez ainda hoje a carne apareça à venda nos tabo- 
leiros do mercado da Baía; há não muitos anos era aí 
apregoada como "moqueada", por ser oferecida já assada 
e envolvida em folhas de bananeira. O preço é baixo, 
correspondendo ao sabor, enjoativo, por ser muito gor- 
duro.sa. 

Transcrevemos da "Liga Marítima", n." 226, a .se- 
guinte descrição da moderna pe-sca da baleia: "Avistada 
a baleia, logo as canoas são descidas ao mar e lançadas 
em perseguição, em silêncio. Cada uma leva a bordo 
equipagem de arpoadorcs. 

O arpéu é uma espécie de dardo de ferro com anzol, 
do comprimento de um metro, preso a uma sólida corda, 
de 250 a 300 metros. 

Antigamente eram os arpéus lançados a mão, hoje 
lançam-se com armas de fogo. Na prôa do barco há 
uma espécie de pequeno canhão, cujo projetil é o arpéu 



— 128 -- 



munido de pequena granada. Chegando a alcance de tiro, 
o baleeiro faz fogo, o arpéu penetra nas costas do animal 
e a granada explode e ao mesmo tempo armam-se as far- 
pas, de 25 cms. de comprimento, que estavam dobradas 
junto à haste do arpéu. Abrindo como um guarda-sol, 
êles impedem que a arma saia do corpo da vítima. 

Apenas lançado o arpéu, o barco aproxima-se a 
remo ; depois a baleia mergulha e foge com tal velocidade, 
que a corda, enrolada no carretel, pegaria fogo ao se de- 
senrolar, si não fo.sse imediatamente molhada. A menos 
de não ser ferido de morte, o cetáceo arrasta a embarca- 
ção durante horas, até que se gastem suas forças. Então 
a pesca é rebocada até o navio e corta-se-lhe logo a ca- 
beça, para retirar as barbatanas e o corpo é içado a 
bordo. Cortam-se compridas tiras de gordura, que são 
picadas em pedaços e postas para derreter em caldeiras 
especiais. O líquido assim obtido é levado depois 
aos aparelhos refrigerantes e metido em seguida em 
barris". 

Bandeira ou "Ba nde irado" — O mesmo que 
"Bagre-bandeir a". 

Baquiquí — Talvez seja apenas corruptela ou va- 
riante de "Bacucú", mas foi-nos indicado como tendo 
tal nome a espécie geralmente conhecida em todo o 
Brasil por "S e r n a m b í". 

Bararuá — Na Amazónia é o nome de um Acará 
(peixe da água doce da fam. Cichlideos) e que, segundo 
Barbosa Rodrigues, se distingue por ter os olhos pretos, 
orlados de amarelo e encarnado e o corpo é bronzeado 
com uma linha preta, horizontal, no meio. 

Barata — Compreende em geral todos os insetos 
Orthopteros da fam. Blattideos, dos quais há mais de 
100 espécies indígenas. Há delas de várias côres e ta- 
manho, algumas até bem bonitas (si fôr permitida tal 
expressão!), verde-gaio ou pintadas. Mas na acepção 
mais restrita "Barata" designa as espécies caseiras, que 
aliás são pragas importadas e hoje cosmopolitas. A es- 
pécie caseira maior é Periplaneta americana, de 35 a 
40mms., com duas faixas amarelas no protórax; Blattu 
orientalis, de 22 a 26 mms., com protórax unicolor; Bia- 
tella germânica, de 11 a 13 mms., tem cabeça amarela, 
com duas listras pretas. Além destas há ainda outras es- 



129 




pécies caseiras. Os ovos são postos em uma cápsula, em 
forma de maleta de mão (sem alça) ; cada cápsula destas 
contém 30 a 40 ovos. Passando pela metamorfose, as ba- 
ratas nascem sem azas, que aos poucos vão crescendo, 
cada vez que o inseto muda de quitina (vide "Barata 
desça scad a") ; levam, porém, 
muito tempo até atingir desenvol- 
vimento completo (12 a 18 me- 
ses). As baratas, além de imun- 
das, causam prejuízos, roendo e 
estragando tecidos, capas de li- 
vi'os, etc. E' difícil exterminar a 
praga e só a custo de muita perse- 
verança no asseio e na persegui- 
ção dos indivíduos mais novos e 
menos esquivos, se consegue eli- Barata 
minar de casa êsse flagelo. Pou- 
co valem os pós baraticidas ; o mais eficaz é a matança di- 
reta, aásídua. Onde fôr possível, persigam-se as multi- 
dões com água fervente ou com querozene, aplicado com 
pulverizador; os lugares suspeitos devem ser tratados re- 
petidas vezes, para que sejam atingidos os ovos. 

Barata d'água — Não é barata (Ortóptero), porém, 
Hemiptero do grupo dos Hydrocores (aquáticos). As 
maiores espécies pertencem ao gên. Lethocerus, (antiga- 
mente designado Belostoma grande), que atingem 10 cms. 
de comprimento; dobrado sobre o peito, trazem escon- 
dido o grande ferrão, com o qual sugam suas vítimas, 
isto é outros insetos e suas larvas e alevinos de peixes até 
8,5 cms. de comprimento. A mesma arma é também sua 
defesa e quem já experimentou tal picada, sabe dizer 
quanto é dolorosa. Seus ovos são postos sobre as her- 
vas aquáticas. Nos machos de espécies um pouco meno- 
res, do género Belostoma, vêm-se, às vezes, as azas co- 
bertas por uma placa de ovos; foi o meio mais seguro 
que a mãe imaginou, para que a postura não se perdesse 
e fosse vigiada até a eclosão. O naturalista que obser- 
vou esta cena, afirma que o macho só a viva força aceita 
êste encai-go, que lhe é imposto pela fêmea. Em noites 
cálidas, os grandes fócos de luz atraem, às vezes, gran- 
de número desses insetos. Foi o que sucedeu no Rio de 
Janeiro, ao ser inaugurada a iluminação elétrica da Ave- 
nida Beira Mar; aos milhares essas baratas se acumulam 
de baixo dos lampeões, incomodando os transeuntes e di- 
ficultando a varredura. 



— 130 — 



Baratá dos coqueii'os — E' o nome impropriamente 
dado às larvas dos besouros da fam. .Chrysomelidcos do 
gên. Mecistojnela (antigamente Alurnvfí). De fato, as 
larvas têm alguma semelhança com baratas novas (ainda 
úpteras). O coleóptero adulto de M. margiriatiiH mede 
32 mms. de comprimento; a cabeça é amarela, o tórax 
verde, com orla amarela, e da mesma forma os elitros (e 
uma outra variedade tem, ainda, listras oblíquas sobre 
). M. corallinus é vermelho escuro, com linhas 
pretas sobre o corpo. Em Pernambuco seu nome é 
"Lesma de coqueiro". 

Barata descascada — ou "B. noiva" em Pernam- 
buco. As baratas, quando mudam de pele, não adquirem 
logo seu colorido natural, escuro; assim nos primeiros 
dias, são claras, desbotadas, pelo que se lhes comparam 
as pessoas amareladas ou albinas. 

Barata do mato — São as espécies de Blattideos 
que não habitam as nossas casas e que só acidentalmente 
penetram nelas, atraídas pela luz; não há, portanto, pe- 
rigo que constituam praga, pois que só as espécies acima 
indicadas se adaptaram a esta vida de intrusos. 

Baratinha — Crustáceos da ordem Isopocles, fam. 
Oniscídeos; êstes vivem nos porões úmidos e junto 
aos muros cobertos de musgo; ou- 
tros, "Baratinha d ' á g u a " da 
fam. Sphaeromideos, vivem entre as 
pedras batidas pelas ondas do mar. 
O povo também dá o nome de "T a- 
t ú z i n h o s" às espécies que se enro- 
lam, ou melhor, dobram o corpo, for- 
mando uma bola, quando se lhes toca. 
No Maranhão têm o nomo de "Pa- 
pa - b r e u" ; são das melhores iscas 
para quasi todos os peixes, porque 
continuam a mover-se quando espe- 
tados no anzol. Em Por-tugal são co- 
nhecidos por "B i c h o de conta". 

- Peixes cascudos de água doce, Nema- 
tognathos da fam. Loricariideos, género AncMrus. O 
nome vulgar refere-se às espécies de cascudinhos que se 
caracterizam pelos numerosos tentáculos carnudos, que 
revestem a parte anterior da cabeça, às vezes também 
divididos em Y. 

Barbado — Vide "Bugio". 




Baratinha 



Barbadinho 



SciELO 



10 11 12 ] 



131 



Barbado ou "Barbudo" — Peixe do mar da fam. 
Pohjnemideos, Polyãactyhts i^irginiciís, caracterizado por 
ter os raios das nadadeiras peitorais dissociados, separa- 
dos em filamentos (que seriam, pois, a barba a que alude 
o nome vulgar) . Nadadeira dorsal dupla, VIII - 1,13 ; 
anal com 3 acúleos. Linha lateral reta, bifurcada na 
base da cauda. Vive em fundos de areia, aos cardumes; 
atinge 35 cms. de comprimento. Em Recife tem cotação 
de penúltima classe. Seu sinónimo de origem tupi é 
"P i r a c u a b a". 

Barbeiro — Inseto Hemiptero, percevejos da fam. 
Reduviideos, Triutoma megisUis e outros, também cha- 
mados "C h u p a n ç a" ou "C h u p ã o", "Fine ã o" (no 
Rio Grande do Sul), "Percevejo gudério" (em 
Goiaz), "P r o c o t ó" (na Baía) e "Bicho de pare- 
d e" (no Norte) ; as larvas são conhe- 
cidas por "Cascudo s" ou "Bor- 
rachudo s". São percevejos gran- 
des (até 25mms.). O mais típico 
T. megistus é preto, com seis man- 
chas vermelhas, alongadas, sobre o 
protórax, algumas linhas de igual 
côr sobre as azas e outras bordando 
os segmentos abdominais, mais lar- 
gas nos lados. Só os adultos têm 
azas, mas ainda assim pouco voam. 
A evolução completa do inseto dura 
mais ou menos um ano; sua biologia 
foi estudada pelo dr. A. Neiva 
(Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 1910). 
Encontram-se em quasi todo o 
Brasil central, tendo sido primeiro assinalados pelo 
dr. Cai'los Chagas, em Minas, como insetos caseiros, 
responsáveis pela propagação de uma moléstia até então 
desconhecida. E' recente a adaptação desses insetos à 
vida domiciliar e é principalmente nos casebres de taipa, 
não rebocados, que encontram bons esconderijos, entre 
as frinchas. A picada é quasi indolor, mas o grande mal 
que acan"etam é a transmissão da "moléstia de Chagas", 
tripanozomíase humana (Trypanosoma criizi), desgraça- 
damente muito disseminada em certas regiões do interior. 
A infecção dá-se, não em consequência da picada, mas 
pelas fezes do barbeiro, o qual costuma defecar logo em 
seguida à sucção; os germens estão contidos nessas fezes, 
que, atingindo as mucosas, podem aí penetrar no orga- 




132 



nisnio. Há outras espécies, ainda, do mesmo género, que 
igualmente se prestam a este papel de transmissores da 
moléstia (T. infestans, sórdida, etc.) ; T. rubro fasciata, 
também domiciliária, tornou-se cosmopolita, das regiões 
quentes: índia, Java, Madagáscar. Nos. países hispano- 
americanos, êstes percevejos são conhecidos por "V i n - 
chuça s". 

A última revisão sistemática dos Reduviideos hema- 
tófagos da nossa fauna (Cesar Pinto, 1931) registra ao 
todo 24 espécies brasileiras, 16 das quais já foram assi- 
naladas como frequentando domicílios. As espécies per- 
tencentes ao gên. Rhodnhis, caracterizam-se por terem o 
artículo mediano do rostro bem mais longo que o primeiro, 
ao passo que nas espécies do gên. Triatoma o artículo 
mediano do rostro é apenas um pouco maior que o pri- 
meiro. Há muitos Reduviideos não hematófagos, que 
também o leigo facilmente distinguirá, reparando no 
feitio do rostro, que é curvo (e não retilíneo como nos 
hematófagos, nos quais o rostro se dobra sobre o pei- 
to sem api-esentar curvatura). É preciso atender a esta 
particularidade, pois há Reduviideos não hematófagos 
como S^nniger domesticus Pinto, que também penetram 
nos domicílios à procui'a de Triatomas e outros insetos 
de que se alimentam; e também éles, quando agarrados, 
picam, defesa esta aliás muito dolorosa, quando, ao con- 
trário, a sucção pelos verdadeiros "Barbeiros" é 
quasi indolor. Há ainda outros Rediimideos que sugam 
insetos (e não sangue de vertebrados), como Ainomenis, 
mas êstes se destinguem dos verdadeiros barbeiros por 
serem muito peludos. 

Barbeiro — Peixes do mar da fam. Acunthitrideos, 
gên. Acantimrus, caracterizados pelas escamas ciliadas 
e pela presença de um espinho móvel, de cada lado na 
base da cauda, em forma de lâmina de navalha e daí o 
nome "B a r b e i r o" ou "d o c t o r f i s h", isto é cirur- 
gião, em inglês. Essa navalha, que de fato é uma arma 
perigosa, em condições normais fica escondida nas do- 
bras da pele ; mas em se sentindo ameaçado, o peixe levan- 
ta as lâminas, de modo a ficarem quasi em ângulo reto 
com o corpo e assim podem infligir ferimentos graves. 
A. bahianus é a espécie mais comum; de côr pardo-ama- 
rela, com linhas azuis. A. hepalus, com 12 faixas trans- 
versais e nadadeiras azuis, mas o peixe pode variar a 
tonalidade das cores do corpo, o que o torna sobremodo 



— 133 — 



interessante nos aquários. Vivem nos recifes e diz-se 
que sua carne é venenosa. 

Barbudinho "Mono", "Monge" ou "Rendei- 
r a" — Passarinho da fam. Pijmdeos, Chiromncheris 
gtdturosus que, da Baía para o Sul, corresponde à espé- 
cie amazônica Ch. manacus, lá conhecida por "R e n d e i- 
r a" ou "B i 1 r e i r a". A espécie do Sul é preta, tendo a 
garganta, o pescoço e a nuca brancos e barriga cinzenta; 
a fêmea, porém, é verde. Como parente próximo que é 
do "Tangará", também gosta de dansar, mas é um 
só passarinho, de cada vez, que, cantando e pulando, se 
exibe e volta ao seu lugar. 

Barbudo — Peixe do mar, assim conhecido em Per- 
nambuco ; vide "Barbado". 

Barra fogo — Nome de uma abelha social (Meliponi- 
deo) no Rio Paraná. Talvez sinónimo de "C a g a f o g o". 

Barriga tin-tin — Na Paraíba e em Pernambuco é 
êste o nome dos "Barrigudinhos" ou "G u a r ú s" 

Barrigudinho — O mesmo que "G u a r ú - g u a r ú". 

Barrigudo — Símios da Amazónia, do gên. Lagothrix, 
obeso, de cerca de 60 cms. de altura, com pêlo curto, 
lanudo. L. Ingotricha é de côr cinzento-amarelada ou 
avermelhada, mas a cabeça e as extremidades são quasi 
pretas; L. infnmata, do Alto Amazonas, é mais escuro. 
Domesticam-se facilmente e tornam-se então sérios e 
brandos, quando na mata sua índole é, ao contrário, atre- 
vida e má. Vide também "C a r i d a g u e r e s" e "C a - 
p a r ú". A. Miranda afirma, ao contrário de outros escri- 
tores, que os "barrigudos" sempre são de índole mansa. 

Balará — ou também "Mbatará" (que é a pro- 
núncia original, em guarani). Pássaros da fam. Formi- 
cariideos (gên. Thamno))hilvH, e também "P a p a - f o r - 
m i g a" e "B o r r a 1 h a r a"), Goeldi diz ser sinónimo de 
"Choca". O colorido do macho é preto, com manchas 
ou estrias brancas; a fêmea tem o mesmo desenho, mas 
em córes mais amareladas. 

Batata — também "B o d i ã o - b a t a t a" (vide 
"Bo d ião"), peixes da fam. Scarídeos gên. Cryptoto- 
mus, com os dentes mandibulares não conci'escidos; colo- 
rido lilás ou esverdeado, com manchas ou zebrui'as. 

Bate-cú — No Est. do Rio de Janeiro é assim que 
denominam o "Tuim", ao qual em outros Estados cabe 
outro nome, igualmente pouco airoso. 



134 — 



Batiáquios — São os anfíbios providos de extremi- 
dades. (Há um pequeno grupo de anfíbios, os Gi/mno- 
phionos, cujo corpo é perfeitamente vermiforme; são as 
"cobra-cegas", que, porém, constituem ordem à parte). 
A ordem dos Batrachios ou Anuros compreende cêrca de 
180 espécies da nossa fauna. Quanto às poucas denomi- 
nações vulgares que designam as espécies, vide o que 
fica dito sôbre o "S a p o". A metamorfose realiza-se sem- 
pre na água. Geralmente os ovos são depositados em 
montículos de espuma alva ou em fios semelhantes a ro- 
sários, em um remanso dos córregos ou de preferência 
nos brejos. Os girinos ou os cabeçotes, ao saírem do ovo, 
não têm extremidades; estas crescem-lhes depois, pri- 
meiro as posteriores e mais tarde as anteriores; seus 
órgãos respiratórios são a princípio dois pares de brân- 
quias externas e só mais tarde adquirem pulmões. A 
cauda ainda subsiste por algum tempo, atrofiando-se de- 
pois, aos poucos. Os grandes sapos só no 5." ano têm 
todos os caracteres dos adultos, mas continuam a crescer 
até o 10." ano. Diz-sc que o sapo cresce tão de vagar, 
porque não bebe água, e, de fato, ôle dispensa o líquido 
como bebida; mas em compensação a pele absorve grande 
quantidade. Privando um batráquio de água, mas envolven- 
do-lhe o corpo em panos úmidos, êle vive perfeitamente. 

Batuíra — Parece designar, da n^esma forma como 
"Massari co", a maior parte das espécies de aves da 




Batuíra 



fam. Charudriideos, que em sua generalidade habitam 
as praias; efetivamente, das espécies brasileiras desta 
família, em número de 37, muito i)oucas têm nome espe- 
cial, tais como "Q u e r o - q u e r o", as "N a r c e j a s" e 
as "G a 1 i n h o 1 a s". "T a r a m b o 1 a" é pouco usado ; 



— 135 — 



é palavra de origem portuguêsa, referente a aves seme- 
lhantes (Charadrius). Uma das espécies mais comuns 
é Aegialitis collaris, de dorso côr de areia e lado ventral 
branco; o macho distingue-se por ter guardanapo pi'eto 
e vértice também preto, precedido de fronte branca. Vive 
juntamente com outras espécies semelhantes nas praias 
e, às vezes em tal número, que Goeldi, com 7 tiros abateu 
182 espécimens; mas o naturalista assim agiu não como 
colecionador, porém como caçador que estava com fome 
e que precisava aproveitar a boa carne para cozinhá-la 
no arroz, seu único alimento durante muitos dias. E ês.se 
prato tem fama bem merecida. 

Batuíra do campo — E' da mesma família Chara- 
driideos (Bartramia loiujicauda) ; ave pequena de 28 cms. 
de comprimento, de bico curto. O colorido é escuro em 
cima com as penas orladas de amarelo; o uropígio é 
preto; o lado inferior é branco, mas o peito amarelado 
tem manchas e faixas pretas e também as coberteiras 
das azas, brunas, tem igual desenho, bem como a cauda, 
cujas faixas são transversais. As pernas e o bico são 
amarelos, êste com ponta preta. E' ave de migração 
anual, que i)rocria nos Estados Unidos e vem para a 
América do Sul nos meses de calor, extendendo-se então 
até os pampas. 

Batuíra do mar grosso — O mesmo que "Baia gú". 

Batuqueiro — Segundo Severiano da Fonseca é, no 
Mamoré, a melhor espécie de "Pacú". 

Batuquira — Denominação amazônica do " J a p a- 
c a n i m "'. 

Batuvira — Pretensa sub-espécie ou variedade de 
"A n t a" em Goiaz. 

Baú — Crustáceo marinho, Decápode braquiuro da 
fani. Calappidcoíi, Hepatus princeps, com carapaça oval, 
de côr cinzenta com pequenas manchas avermelhadas, 
mais ou menos confluentes. As pinças são achatadas e 
adaptam-se ao corpo quando o crustáceo está em repouso, 
de modo que assim permitiu a comparação com um baú 
fechado. Também conhecido por "S i r i - b a ú". 

Bauá — ou também "X e x é u - b a u á", em Per- 
nambuco e na Paraíba, é o nome de um pássaro da fam. 
Icterideos. Seu ninho, como de i-egra entre os Japús, é 
uma bolsa pendente ; mede 70 cms. de comprimento e é feita 
da casca do mororó, e entretecido com fios longos. 



— 136 — 



Baúna — Peixe do mar, em Pernambuco; tem 
baixa cotação, mas a "Baúna de fogo" é tida pelos 
pescadores como ótima. Além destas, há outras espécies 
dos géneros Bodianus e Serranus de côres interessantes, 
mas de porte em geral pequeno, de 20 a 30 cms. Veja-se 
também sob "C a r a ú n a" e "M a r i q u i t a". 

Beatinha ou "Beatriz" — Em Recife, como a 
precedente é sinónimo de "M a n g a n g á", 

Beguaba — Vide "P e g u a b a". 

Beija-flor — E' usado na linguagem culta, brasi- 
leira; "C u i t e 1 o" dizem os caipiras (derivado de cutelo, 
segundo Amadeu Amaral, em alusão ao bico), "gua- 
n u m b í" na língua tupi (vide êste e seus derivados) ; 
"Colibri" é termo de origem americana, porém hoje 



Ncctariniideos, aliás bem diferentes no feitio). Mas no 
Brasil só ocorrem 80 espécies de Trochilideos; a região 
mais rica em beija-flores é a subandina, da Bolívia, Perú 
e Equador. Não nos auxiliaria a pena, si quizessemos 
descrever a beleza do colorido destas creaturas, que pa- 
recem antes jóias vivas, nem bastariam os nomes de 
todas as pedras preciosas e dos metais brilhantes, para 
dar uma idéia da variedade dos matizes, sempre cinti- 
lantes. — E' preciso vêr uma coleção completa em um 
museu — ou, então, mil vezes melhor, espreitar os lindos 
amigos das flores no seu ambiente natural. Mas essa 
mesma beleza os torna vítimas de atroz perseguição; aos 
milhares eram mortos e embalsamados, para servirem 
de adorno nos chapéus das senhoras e era da Baía que 
seguiam as maiores remessas para a Europa. 




Beija-flor 



usada só pelos euro- 
peus e pelos poetas. 
São as minúsculas 
aves da fam. Trochi- 
lidcos, a qual encer- 
ra cêrca de 500 es- 
pécies, todas elas só 
da América do Sul e 
Central. (Na África 
há uma família de 
aves cujo colorido 
rivaliza, até certo 
ponto, com o dos 
beija-flores; são os 



— 137 — 



E' entre os beija-flores que se encontra o menor re- 
presentante de toda a classe das aves. Èsses anões medem 
apenas 65 mms. de comprimento total ; descontando porém 
a cauda e o bico, restam só 35 mms. como dimensão do 
corpo propriamente dito e portanto há muitas moscas 
que são mais volumosas do que tais avesitas. (Veja-se sob 
"Moscardo") . . . 

Há também beija-flores gigantes, que medem até 
20 cms. (Topaza pella, da Amazónia) ; tais dimensões 
avantajadas são, no entanto, atingidas, em boa parte, à 
custa do bico, que se tornou tão ou mais comprido que o 
corpo todo, ou então as penas caudais alongam-se outro 
tanto. 

Muitos naturalistas, depois de descreverem a mimo- 
sa estrutura dos beija-flores, salientam, em contraste, o 
génio irrascível, briguento e mesmo violento dessas crea- 
turas. Pequenas escaramuças, entre dois beija-flores que 
se encontram, são acontecimentos frequentes; não raro 
um desses pigmeus se atraca a pássaros bem maiores e 
certa vez o zoólogo assistiu a uma luta que parecia não 
ter fim. Dois beija-flores haviam iniciado um duelo no 
estilo usual; em breve um dos contendores fugiu o o ou- 
tro, satisfeito, pousou num galho, julgando-se vencedor; 
mas, passados poucos minutos, surgiu de novo o mesmo 
contendor e a luta recomeçou, mais porfiada e mais de- 
morada; outros intervalos e novas escai'amuças se suce- 
deram, afirmando o observador que poude acompanhar 
tão interessante espetáculo durante o espaço de uma hora. 

O alimento dos beija-flores consiste quasi unicamen- 
te em pequenos insetos. E' em procura dêles que os ve- 
mos "sugar" nas flores; o mel que acideiítalmente inge- 
rem, não lhes basta e tanto é assim que nunca dão resul- 
tado as provas de carinho, testemunhadas por meio de 
melado, oferecido a um beija-flor cativo. Os ninhos são 
lindos e delicados, como seus habitantes adultos; os mí- 
seros pintinhos são, ao contrário, talvez as mais feias 
criaturas; quasi nús, representam um enorme bico ao 
qual está apenso um corpo tão horrendo e desageitado 
quanto se possa imaginar. Também a descrição do modo 
como a ave-mãe os alimenta, inspira comiseração: ela 
enfia o longo bico juntamente com o alimento já digerido, 
quasi até o fundo do estômago do pintinho e assim o 
faz repetidas vezes, parecendo antes querer matar 
o filho do que cuidar dêle. Os ovos são sempre 
alvíssimos, variando o tamanho entre 1 cm. e centímetro 



138 



e meio; são chocados em duas semanas, mais ou menos 
(12 a 16 dias). 

Os beija-flores vôam só durante o dia e, de prefe- 
rência, quando há sol; parece que fazem migrações no 
inverno, mas não se tem coligido ainda dados positivos 
a respeito. O povo acredita que as mariposas crepuscu- 
lares Sphyngideos sejam beija-flores que viraram insetos; 
realmente, no lusco-fusco, tal confusão se explica facilmen- 
te pela semelhança dos dous bichinhos, de igual tamanho. 

O ninho do beija-flor corresponde à delicadeza do 
seu corpo. O material empregado é a mais fina paina, 
branca ou amarela, disposta em forma de taça ou de ca- 
dinho e do tamanho do um pêcego, quando muito; por 
fora o ninho é enfeitado com liquens de côres variadas 
e escamas de samambaias. Para não empregar sinão 
material do mais mimoso, a avezita serve-se de teias de 
aranha como amarrilhos e, de fato, assim consegue aliar 
a máxima delicadeza à necessária solidez. Há dois tipos 
de arquitetura: os beija-flores de bico reto constroem 
tigelas ou taças, ao passo que os de bico curvo adotaram 
a forma de maçã, ornada de apêndices mais ou menos 
compridos em que termina o ninho propriamente dito. 

Conta Euler que viu certa vez um beija-flor (Phae- 
toniis) trabalhar no ninho, pelo que só três dias depois 
foi espreitar, a vêr si já continha ovos. Qual não 
foi a sua surpresa ao encontrar, em lugar do ovo espe- 
rado, dois filhotes da idade presumivel de 8 dias. Por 
outra ocasião teve a prova de que o beija-flor continua a 
aformosear o ninho depois da postura e mesmo depois 
do nascimento dos pintinhos. Burmeister já relatara o 
curioso fato, atribuindo-o à necessidade de serem os bor- 
dos do ninho alteados à medida que o conteúdo se avolu- 
ma. Euler soube depois que o proveto naturalista Bur- 
meister ajustava rapazes como auxiliares, que lhe deviam 
descobrir ninhos de beija-flores, que queria estudar e 
descrever. E, como pagasse melhor preço pelos ninhos 
mais perfeitos, os espertalhões esperavam por que o 
beija-flor levasse a termo a sua ninhada, para depois 
introduzirem fraudulentamente ovos de outras posturas 
nesse ninho bem acabado, fazendo jús, assim, a melhor 
remuneração! 

O cientista, além de .ser roubado, ainda faltava à 
verdade, como tem acontecido também a outros obser- 
vadores de ninhos de aves, que não se acautelaram sufi- 
cientemente nessa tarefa realmente bem difícil. 



139 



Beija-flor do mato virgem — Vide "Cuitelão". 

Beijo-pirá — Registramos esta pronúncia riogran- 
dense do norte, Jiias é evidente que se trata apenas de uma 
corruptela de "B e i j ú - p i r á". 

Beijú-caba ou "Marimbondo de chapéu" 
ou "Caba de 1 a d r ã o" — Vespas sociais do gên. Apoi- 
ai. A. pallida é a mais comum, de côr amarela que, como 
o dizem seus nomes, faz grandes ninhos em forma de 
beijú ou de chapéu, comparáveis a um grande prato fundo, 
formado pehi juxtaposição das células. Ás vezes, medem 
meio metro de diâmetro; a parte plana, com a abertura 
das células, se acha virada para baixo; o meio do ninho 
é atravessado pelo galho que serve de suporte. Estas ves- 
pas não vôam de dia (o povo diz que são cegas, e daí o 
nome vulgar "Caba cega", usado no Maranhão); 
são insetos noturnos, o que aliás é comprovado pelas di- 
mensões pouco vulgares dos ocelos. De acordo com as in- 
formações do sr. Wilson Costa, referentes ao Maranhão, 
"qualquer pancada que se dê no galho em que se acha 
o ninho, faz com que todas as vespas, à uma, caiam do 
alto, perseguindo tenazmente o inimigo. O macaco, co- 
nhecendo os hábitos destas cabas, trepa na árvore em 
que avistou um ninho e com ambas as mãos abala forte- 
mente o galho. Quando as vespas cáem, "cegas" em busca 
do inimigo, o macaco arrebata o ninho e vai descansada- 
mente comer larva por larva, no mais alto da árvore". 

Bejaguí — No Rio Grande do Sul, o mesmo que 
"Baiagú". 

Bembé — Inseto díptero da fam. Chironomideos 
(Culicoides) na Amazónia. Vide "Maruim" e "Mos- 
quito p ó 1 v o r a". 

Bem-le-ví — Passáro da fam. Tijmnnidcos, (Pitnngiis 
sulphuratus, com várias subespécies), pardo em cima, 
amarelo em baixo; vértice amarelo, orlado de preto, gar- 
ganta, cílios e nuca alvos; o bico é forte, um tanto acha- 
tado e na ponta um pouco- encurvado; o tamanho do pás- 
saro é pouco inferior ao do sabiá. 

E' um dos nossos pássaros mais populares; não se 
chega muito às casas, mas por toda parte, na roça e nos 
parques da cidade, o encontrámos, pousado sobre uma ár- 
vore, espiando o que se passa pela redondeza. E, logo de- 
pois, tão claro éle pronuncia a frase que lhe deu o nome 
e, por vezes ela nos chega ao ouvido em momentos tão 



— 140 — 



inesperados ou oportunos, que não contemos uma resposta 
galhofeira ao indiscreto mentiroso. O natui-alista que im- 
poz o nome Tyrannus a êstes págsaros, fê-lo com conheci- 
mento do génio despótico que por vezes se revela no bem- 
te-vi. Não se sabe porque, lá uma vez ou outra, lhe dá 
para maltratar outras aves, em geral de porte bem maior, 
mesmo aves de rapina e garças, corujas ou urubus; in- 
veste contra quem estava quieto, dá-lhe bicadas, tanto o 
atormenta, que o faz fugir e então o persegue no vôo, as 
vezes a longa distância. Curioso é que a vítima não se 
defende, sabendo embora que tem mais força o melhores 
armas; durante a fuga o gavião, uma vez ou outra tenta 

revoltar-se, mas logo apres- 
sa o vôo, para se livrar 
quanto antes do importuno. 

Relatou-nos o sr. Cleô- 
menes Campos que em Ser- 
gipe a criançada detesta 
êste pássaro e o persegue 
a pedradas pois, segundo a 
lenda, foi êle quem denun- 
ciou Jesus Cristo, quando 
os judeus o procuravam: 
"bem-te-vi". Mas o "B e m - 
t-e -vi" não é apenas inte- 
ressante; é também um in- 
cansável perseguidor de in- 
setos e, como o "T e s o u - 
r a" e tantos outros da fa- 
mília, não dá tréguas às 
içás, quando estas se dis- 
põem a iniciar um novo 
formigueiro. O nome indígena "Pitanguá" é pouco 
conhecido. Segundo o dr. A. Neiva, o povo na Baía desig- 
na certa espécie do gên. Pitayígus pelo nome "B e n t e v í- 
car rapa te iro" e, de fato, tal qualificativo lhe cabe 
bem, pois êste pássaro, da mesma forma como o "An ú" 
e o "C a r a c a r á", é bom amigo do gado, aliviando-o dos 
carrapatos. Admira, apenas, que não seja maior o nú- 
mero dêsses bemfeitores dos bovinos, pois sem dúvida o 
gordo bocado, repleto de sangue, deve ser um ótimo pitéu, 
para o paladar de um insectívoro. 

Além disto, o "B e m - 1 e - v i" na beira dos rios imi- 
ta o "M a r t i m - p e s ca d o r", pois não é raro vê-lo 
apanhar um peixinho, que depois saboreia com prazer. 




141 — 



Em vários Estados, o nome dêste passaiúnho tem 
servido para designar partidos políticos. 

Bendito — Em certas zonas do sul de Minas Ge- 
rais, o povo da roça só conhece por êste nome o "L o u- 
V a - De u s". 

Benedito — E' denominação paulista e mineira de 
um pica-pau : Mclanerpes flavifrons, preto, com uropígio 
e coberteiras das azas de côr branca. A fronte e a gar- 
ganta são amarelas, a face preta, o vértice, a nuca e o . 
peito vermelhos; a barriga é amarelada com faixas trans- 
versais pretas. Na fêmea o colorido vermelho é mais res- 
trito, predominando os ornatos amarelos. 

Bengo — E' sinónimo de "p r e á", em Sergipe, como 
nos informou o poeta Cleômenes Campos. 

Benjuim — Vide "B i j u r í". 

Bentererê — O mesmo que "P i c h o r o r é". 



Benteví do bico chato — Parente próximo dos pre- 
cedentes (Mcgarhynchus pitangua), mas, como o diz o 
nome, de bico mais largo e muito chato; o amarelo do 
vértice está mais escondido. O nome indígena é "P i- 
t a n g u á - a s s ú" e "N e i - n e i". 

Bcnteví-gamela — no Ceai'á, ou 

Benteví pequeno — Designa várias espécies afins 
ao Benteví comum, porém menores e com ligeiras dife- 
renças no colorido. (Legatvs albicollis, com peito mais cla- 
vo e manchado). 




Bentererê 



— 142 — 



Bentevizinho — Passarinho da mesma família que o 
"Bem-te-vi", porém menor e com crista alaranjada 
(Myiozetetes similis). 

Berbijíão — (Em Portugal dão êste nome à concha 
que aqui mencionámos sob "M i j a - m i j a"). Em nossa 
fauna é o molusco marinho lameli- 
brânquio da fam. Veneridcos (Ano- 
mulocardiu brasiliana), comestível; 
vive na ai-eia. Sua classificação an- 
tiga era Cryptoyramma flexiwm e 
talvez "S i m o n g o i á" seja apenas 
o equivalente em tupi. As duas me- 
tades iguais formam um quadrante 
Berbigão um pouco simétrico e sulcado. O de- 

senho, como que rabiscado a pena, 
consiste em linhas curtas e densas em zig-zag. Na re- 
gião litoral de Iguapé é conhecido por "Sarro de 
pito" e o nome "Berbigão" cabe aí à Chione pe- 
ctorína. ' 

Bercrê — Registrámos esta denominação em Arara- 
quara (Estado de S. Paulo) e também ao Dr. Alex. Pe- 
droso assim foi designado em Baurú um mosquitinho 
hematófago da mata. Será sinónimo de "B i r i g u í". 

Berne — E' a larva da mosca da fam. Oestrideos, 
Dermatobia hominis (antigamente Derm. cyaniventris) ^ 
cuja larva se desenvolve debaixo da pele da vítima (ho- 
mem, gado, cão, etc.) para depois sair espontaneamente e 
enterrar-se, afim de se transformar em mosca. Esta mede 
15 mms. de comprimento; o tórax é cinzento, com refle- 
xos azuis e brancos e o abdómen é azul ferrete. 

Muito curioso é o modo como a mosca faz chegar 
as larvas ao corpo do hospedeiro; em vez de depositá-las 
diretamente, procede da seguinte forma: subjugando e 
cavalgando certas moscas ou mosquitos diurnos, ela lhes 
deposita de 15 a 50 ovos sobre o abdómen; aí êstes ovos 
colam fortemente e, dentro de poucos dias, transformam- 
se em larvas, que espreitam a ocasião oportuna para se 
passarem da mosca para o mamífero, em cuja pele vão 
permanecer um a dois meses. Esta manobra, aliás caso 
único entre todos os insetos, dificultou durante longo 
tempo o estudo da biologia completa do berne, de modo 
que só há poucos anos ela foi elucidada, em parte confir- 
mando anteriores observações, em parte desfazendo por 
completo a interpretação de outros cientistas. Vários pes- 




144 



quizadore.s tentaram resolver o problema, porém só em 
1917, quando o dr. A. Neiva, concluindo os seus estudos, 
de colaboração com o dr. Florêncio Gomes, publicou "A 
Biologia da mosca do berne", ficou desvendado de todo 
o mistério. A mosca do berne nunca desova diretamente 
sobre o vertebrado. Às vezes, é sobre mosquitos que a 
mosca desova; porém é mais frequente ser a vítima, es- 
colhida como intermediária, um dos muitos muscídeos 
que costumam pousar sobre os animais no pasto, especial- 
mente Stomoxys (a mo.sca dos estábulos). A mosca do 
berne vive de preferência nos bosques e capões; nos cam- 
pos desprovidos de vegetação arbórea, a criação não está 
sujeita ao berne. 

E' praga da maior pai'te dos mamíferos maiores; só 
no burro e no cavalo é raro. Nas aves não se cria, de- 
vido à temperatura elevada do sangue (vide "Berro"). 
O berne, a princípio, quando pequeno, tem corpo oval, 
com pescoço comprido, cm cuja extremidade se acham os 
estigmas respiratórios; quando maior, êle torna-se ovói- 
de; os anéis que corresi)ondem aos segmentos são provi- 
dos de numerosos acúleos. 

A esta fase parasitária, segue-se a fase ninfal, na 
terra, para onde o berne se passa, abandonando volunta- 
riamente seu hospedeiro. Envolvendo-se em uma cápsula, 
forma a pupa; só depois de 30 ou mesmo 70 dias nasce a 
mosca, de modo que a evolução completa, de ovo a adulto, 
demanda 120 a 140 dias. 

Convém advertir que em muitos escritos de compi- 
lação, êste ciclo evolutivo tem sido deturpado, por confu- 
são com a biologia da mosca europeia e norteamericana, 
Hypodcrma bovia, que nunca foi assinalada no Brasil. 

Ao homem o berne torna-se apenas incómodo, pro- 
vocando um tumor cutâneo. Costuma-se colocar uma 
fatia de toucinho crú sobre a abertura e o berne, não 
podendo mais respirar, procura em breve atravessar o 
toucinho e assim sai espontaneamente. Sério prejuízo 
causa o berne aos criadores de gado, desvalorizando com- 
pletamente o couro, tal o número de furos que, às cente- 
nas, às vezes, se aglomeram por todo o corpo da rez. 

A denominação indígena, "U r a" (vide esta) ainda 
se conserva em algumas regiões; "B e r ne", é o vocábulo 
Verme deturpado, ou, como o lembrou o dr. A. Neiva, 
"Berro", que em Portugal designa a larva de Hypo- 
ãerma bovis e de outras moscas parasitas. 



Berro — No Nordeste do Brasil é conhecido por 
êste nome o díptero Muscídeo Mydaca piei, parasita dos 
filhotes de vários pássaros. A. Neiva (Mem. Inst. O. 
Cruz, VIII, pág. 111) lembra que esta palavra (aliás 
oriunda de Portugal, onde designa as moscas dos gên. 
Hypoderma e Gasterophihis e as respectivas larvas que se 
desenvolvem como parasitas dos animais), tenha dado 
origem, enti-e nós, ao vocábulo "Berne"; efetivamente, 
])elo aspeto zoológico da questão, há afinidades suficien- 
tes, para que a explicação seja pelo menos plausível. 
Ao etimólogo esta derivação talvez agrade menos do que 
a mais simples filiação ao vocábulo - verme - (com a 
pronúncia portuguesa "berme"). 

Beruanha — A verdadeira grafia deveria ser Mberu- 
anha. Marcgrave registra Mbcru-obí como nome de outra 
mosca de côr verde-"obí". Vide "Muruanha". 

Besouro — Denominação vulgar, que corresponde 
exatamente à ordem zoológica dos Coleopteros, ou insetos 
cora partes bucais mordentes (mandíbulas) e azas ante- 




Besouros 



riores transformadas era elitros, sempre grossos, coriá- 
ceos e que no repouso recobrem o segundo par, dobrado 
por baixo. As larvas dos besouros são ápodes em algu- 
mas famílias e assira se locomovem à moda das larvas das 
moscas, ou tem nos segmentos torácicos três pares de 
extremidades articuladas, como os "bichos de pau pôdre" 
ou "bicho gordo". Pela maior parte vivem escondidas na 
terra ou em vegetais em decomposição ou em plantas sa- 
dias: "cóleobrocas" quando perfuram galhos ou madeira 
e outros se desenvolvem nas sementes: "caruncho s". 
Poucas são as que carcomem as folhas e assim constituem 
pragas como os Chrysomelideos: "vaquinha s". Para 



— 146 — 



se transformar em ninfa, quasi sempre se ocultam e 
entram em metamorfose, raras vezes protegidos por 
casulo. A sub-divisão desta ordem, em grupos de fa- 



de espécies brasileiras de besouros. E, no entanto, é re- 
duzidíssimo o vocabulário nacional, referente a êstes in- 
setos: Serra-pau, Vaquinha, Joaninha, Escara- 
velho, Gorgulho, Visita, Vagalume, Salta-mar- Vx^y 
tim, Potó, e poucos mais. jQsl 
Uma boa coleção de besouros pouco fica a i^ffik 
dever à de borboletas, quanto à beleza, pois .^íBJSiy 
também nestes insetos varia ao infinito a bizar- llOXl 
ra conformação do corpo e a originalidade do ^BF 
desenho e do colorido. Todas as côres aí apa- Besouro 
recém, frequentemente realçadas pelo brilho me- 
tálico intenso ou delicadíssimo. E para o colecionador 
api-esentam êstes insetos a vantagem de serem menos 
frágeis e, portanto, de captura, preparação e conserva- 
ção mais fáceis. (Veja estampa da pg. 398). 

Besouro d'água — Coleóptei-os das fam. Hydrophi- 
lideos, Gyrinideos e Dytiscideos, que frequentemente se 
vêm "caminhar" ou girar na superfície das águas para- 
das. Tanto os adultos, como as larvas, alimentam-se de 
pequenas larvas e ovos de outros insetos. Também a 
piscicultura reconhece, em várias espécies dêste grupo, 
inimigos muito prejudiciais à multiplicação dos peixes. 

Betara — Pi-onúncia equivalente a "mbetara" ou por 
extenso: "Tembetara", forma esta que porém nunca ou- 
vimos. Mas o radical "tambetá" se impõe, pois o i)eixe a 
que se refere a denominação, o "P a p a - 1 e r r a" marinho 
(Menticirrhus amcricarms) tem no mento um barbilhão, 
que o índio deveria, sem dúvida, comparar a um tembetá. 
Alguns pescadores de Recife pronunciam "T reme- 
tara . 




Besouros 



mílias e a delimitação des- 
tas, é trabalho deveras ingrato. 
Há em nossa fauna representan- 
tes de aproximadamente 100 fa- 
mílias distintas de coleópteros, 
algumas de somenos importân- 
cia, mas certamente 25 delas 
abrangem muitas centenas de es- 
pécies cada uma. Pode-se avaliar 
em perto de 5 a 6 mil o número 



Betú 



— Vide "P a V a c a r é". 



Bicha cadela — Denominação portuguesa, pouco 
usada no Brasil como sinónima de "L a c r a i n h a" ou 
"T e s o u r a" (Forficulídeos). 

Bichas — O mesmo que "S a n g u e - s u g a", mas es- 
pecialmente Hirudo medicinulis, da fauna européia. E' sig- 
nificativo como documento zoogeográfico que essa espécie, 
conquanto tenha sido usada por longo tempo nas farmá- 
cias no Brasil, tendo provavelmente tido repetidas opor- 
tunidades para se aclimatar aqui, não conseguiu multipli- 
car-se em plena liberdade. Compare-se o mesmo fato veri- 
ficado com Apis melifica. 

Bicheira — Designa, com mais propriedade, a ferida 
invadida por larvas de moscas "Varejeiras"; mas o 
mesmo nome é aplicado também às próprias larvas, que 
na nomenclatura indígena são conhecidas por "t a p u r ú" 
ou "coró"; (veja também "Morotó"). 

Bicho de cesto — E' têrmo argentino, que porém, 
pela propriedade com que descreve o inseto-praga era 
questão, certamente logrará difusão entre nós, como aliás 
já parece tê-la alcançado no Rio Grande do Sul. Trata-se 
da lagarta polífaga de uma mariposa, da fam. Psijchidcos, 
Oiketicos kirbyi, que constróe seu casulo de gravetos, ar- 
mados em forma de cesta, revestida de fios de seda. A 
mariposa fêmea é áptera; só o macho é alado. E' na Ar- 
gentina, principalmente, que estas lagartas constituem 
praga dos vegetais. 

Bicho de côco — E', na Baía, a larva do coleóptero 
Pachyineriis nucleorum, da fam. Briichideos, que se desen- 
volve dentro do fruto das palmeiras baguassú, uricurí e 
dendê. O povo, em expressão muito bem achada, designa 
do mesmo modo uma pessoa sumamente experta. O ter- 
tiíis comparatioíiis está em parecer muitíssimo difícil um 
bicho tão grande, como o é a larva depois de. crescida, po- 
der entrar na noz do côco, sem deixar vestígio do buraco 
de penetração. (Claro está que a larva, em pequena, pe- 
netra no fruto ainda mole e, com o crescimento dêste, o 
furo desaparece completamente). 

Bicho coh)rado — No Rio Grande do Sul êste nome 
argentino designa o que nos demais Estados chamamos 
"Micuim" ou "Mucuim". 

Bicho de conla — Denominação portuguesa dos pe- 
quenos crustáceos Isúpodes, mais conhecidos no Brasil por 
"Baratinha s". 



— 148 — 



Bicho das frutas — Larvas das moscas da fam. 
Tryjmneideos ; Ceratitii^ capitata e Anastrei^ha fratercula, 




Bicho das frutas 



A. serpentina e várias outras deste último género. A fêmea 
põe os ovos na fruta ainda em desenvolvimento (pêcego, 



2 3 4 



SciELO 



9 10 11 12 ] 



— 149 



goiaba, laranja, ameixa, etc.) e as larvas, à medida que 
se desenvolvem, vão carcomendo toda a polpa. Quando 
a fruta cai ao chão, as larvas enterram-se em pequena 
profundidade e formam seu casulo, que é pardo-averme- 
Ihado. As duas espécies de moscas, acima mencionadas, 
assemelham-se um tanto; ambas são amarelo-pardas com 
azas desenhadas, mas C. capitata (aliás espécie impor- 
tada da África e que é flagelo também dos pomares dos 
países do Mediterrâneo) dístingue-se facilmente por ter 
no tórax e na aza diversas manchas e linhas pretas. Há 
vários parasitas himenópteros que põem seus ovos nas lar- 
vas da mosca e desta forma limitam, até certo ponto, a 
excessiva proliferação da praga. Contudo, não c eficaz 
a atuação desses nossos auxiliares, devido à sua pouca di- 
fusão, e tanto é assim que hoje, por todo o Brasil, é raro o 
pêcego ou a goiaba sem bichos. Quem quizer cuidar do 
seu pomar, deve juntar diariamente as frutas caidas, 
para não deixar as larvas completar sua metamorfose, 
E, em vez de destruir estas frutas (com o que se mata a 
larva da mosca e a do parasita útil também) deve-se dei- 
tar tudo em caixas com téla, cujos fios distem apenas 2 
mms. um do outro, para que os parasitas que se desen- 
volvem, possam fugir pelas malhas, ao passo que as mos- 
cas muito maiores, morrem na prisão. Também na ce- 
reja do café o "bicho das frutas" se desenvolve 
bem ; aí, porém, não causa dano à semente, pois a larva só 
se alimenta da polpa; ainda, assim, o fazendeii'o é lesado, 
pois que em geral várias larvas vivem na mesma cereja, 
carcomendo a polpa e desvalorizando assim a palha, que 
chega a perder metade do peso. A praga que tende a in- 
tensificar-se cada vez mais, deve, pois, ser combatida, 
para valorizar a palha como adubo. 

Bicho gordo — E' o nome dado pelo povo da roça 
às larvas dos coleópteros Lamelicórneos e de outros be- 
souros, sempre que estas larvas sejam gordas, roliças e 
brancas; algumas vivem na terra, outras em paus podres 
e são procuradas pelos pescadores como isca. (Vide tam- 
bém sob "C o r ó", "João torresmo" e "P ã o de 
g a 1 i n h a"). 

Bicho de ouvido — O mesmo que "Gongôlo". 
Veja "Embuá". 

Bicho de parede — No Nordéste do Brasil, o mesmo 
que "B a r b e i r o". 



150 



Bicho-pau ou "C i p ó s ê c o" ou "T a q u a r i n h a" 

ou "T r e m e - 1 r e m e" — no Nordeste : veja "M a n u e 1 - 
m a g r o" ou em Portugal, também "Cavalinho do diabo". 
Ortópteros da fam. Phasmideos, cujo corpo se parece com 
gravetos^ de taquara; por isto e pela imobilidade em que 
se mantêm durante longo tempo, são exemplos notáveis de 
mimetismo. As espécies mais comuns são dos géneros 
Phasma e Bacilus; os maiores espécimens (até 26 cms. de 
comprimento) são dos géneros Bacteridinm, Otocrania e 
Phibalosoma. Em algumas regiões do Nordeste do Brasil 
são muito abundantes, a ponto de incomodar a quem se 
abriga sob algum vegetal onde, pousados às centenas, 
deixam cair as dejeções em gotas, o que constitue um cho- 
visco bastante desagradável. Algumas espécies ficam imo- 
bilizadas por longo tempo na mesma posição, imersas em 
verdadeiro sono cataléptico, do qual nem mesmo amputa- 
ções de segmentos conseguem despertá-las (A. Neiva). 

As poucas espécies aladas voam mal; às vezes só o 
macho tem azas. Os Fasmídeos alimentam-se unicamente 
de folhas e brotos; nunca, porém chegam a causar dano 
nas plantações. Os ovos são postos isoladamente e pare- 
cem-se com sementes, com opérculo em um dos poios. 

"M a n é - m a g r o", no Nordéste, parece que se re- 
fere em particular ao conjunto que forma a família dos 
PrnscQjnideos e que se distingue facilmente dos Phasmi- 
deos, por terem aqueles a cabeça muito longa e antenas 
curtas, ao passo que nos verdadeiros bicho-paus se verifi- 
ca justamente o contrário. 

Bicho do pé ou "B i c h o de p o r c o" — Inseto 
orúcm Siphonapteros (pulgas), Timga penetrans. (An- 
tigamente gên. Sarcopsilla). Vive 
principalmente nos chiqueiros e nas 
casas de pouco asseio; a fêmea fe- 
cundada penetra na pele da vítima 
(poi-co e homem) e em poucos dias 
o abdómen estufa, repleto de ovos. 
Por fim rompe-se o abcesso, os 
ovos caem na terra e aí as larvas 
se transformam, nascendo os adul- 
Bicfo do PC tos ao cabo de 3 semanas. Vide a 

significação de "c a m b a d o". 
, parece que esta praga é de origem sulamericana e da- 
qui foi levada para a África. Já Ilans Staden em 1557 
se referiu ao bicho do pé, já então generalizado no litoral 
paulista e também Oviedo a registrou em 1547. Quando 




se permanece junto dos chiqueiros, é quasi certo voltar 
com uma ou algumas destas pulgas no pé ou na mão, 
principalmente junto das unhas; nos primeiros dias pro- 
voca uma cócega característica. 

Cuidados: desinfetar a agulha com que se tira o bicho 
do pé e fazer penetrar iodo ou álcool na ferida. 

A tunga da orelha do rato é outra espécie (Tiniga 
coecata) bem como a que parasita a região abdominal do 
tatú (Tunga travassosi) ; essas duas espécies não atacam o 
homem. 

Bicho de seda — Designa tanto a lagarta como o 
inseto adulto, Lcpidóptero Heterócero, (portanto, maripo- 
sa) da fam. Bombicidcos, Bombyx mori. E' espécie impor- 
tada. Ainda é muito insignificante a indústria da criação do 
bicho de seda no Brasil, não obstante a região meridional 
do país oferecer condições de todo favoráveis, como vá- 
rios ensáios, alguns já em maior escala, estão demons- 
trando. Ilá várias espécies indígenas do gên. AttacuH 
(grandes mariposas de côr chocolate ou avermelhadas, 
com quatro triângulos transparentes nas azas) hoje 
Rothschildia, que também tem sido apontadas como bichos 
de seda, mas ainda não foram sujeitas a provas decisivas. 
Parece cei'to, contudo, que estas espécies nunca terão a 
importância económica do Bombyx.. 

Já em 1810 um certo Vieira, de Vitória, Est. de Esp. 
Santo, ofereceu uma meada de seda nacional ao soberano, 
requerendo ao mesmo tempo sua nomeação para o cargo 
de inspetor da indústria de seda. D. João VI mandou 
proceder a um inquérito, ficando então patente que tal 
bicho de seda em questão se alimentava principalmente 
da mamona, bem como de muitas outras plantas, o que 
aliás confere com os hábitos das Rothschildiait e mais não 
soube relatar a respeito C. A. Mai'ques em seu "Dicio- 
nário da prov. do Espírito Santo". 

Bichos de taquara — Designa as larvas de insetos, 
que se desenvolvem no ôco das taquaras. Certas tribus 
indígenas as comem fritas ou derretem a gordura, que 
serve de manteiga. Mas dizem que é indispensável tirar 
a cabeça e os intestinos, porque, ingerindo-os, sobrevem 
uma embriaguez semelhante u do opio. Haverá várias 
espécies dessas lagartas, mas predomina entre elas a da 
mariposa Myelobia, cujos insetos adultos em certos anos, 
à noite invadem as cidades aos milhões, atraídos pela ilu- 
minação. A larva da mariposa, logo ao sair do ovo, faz 
um minúsculo furo na taquara e assim passa a habitar 



— 152 — 



um intei-nódio, cuja parede interna lhe fornece também 
o alimento. Cresce então até 10 cms. de comprimento, e, 
antes de tecer seu cásulo, roe uma janelinha oval, deixan- 
do-a, porém, ainda fechada, isto é, não rompe a parede 
externa. Continuando, pois, bem oculta, está contudo, 
com a saida de tal fox-ma preparada, que mais tarde, de- 
pois da fase de ninfa, e já transformada em mariposa e, 
portanto, desprovida de maxilares, o inseto quando quizer 
sair, sem mais trabalho, empurra a porta com a cabeça. 

Si hoje, nas cidades, nos queixamos dessa praga, que 
aos milhões se aglomera e esvoaça em redor dos focos 
da iluminação, ao conti'ário o índio, antigamente, bem 
dizia os anos de grande abundância de tais insetos. Já 
o dizia o Padre J. de Anchieta (1560) em sua Epistola 
rerum naturalium, ao descrever o inseto, que os índios 
chamam Rahu: "costumam comê-los assados e torrados 
ao fogo; tamanho, porém, é o seu número, juntado 
em montes, que dêles se faz uma banha, que é diferente 
da que se obtém do porco e da qual se usa para comer e 
para engraxar couros". Não pode, naturalmente, o na- 
turalista concordar com o seguinte trecho do Apóstolo 
dos Brasis: "Dêstes uns se transformam em borboletas, 
outros viram ratos..." E' fácil verificar a razão pela 
qual o inexperiente observador foi levado a tal associação 
de idéias. Em geral, a praga de lagartas nos taquarais 
determina o subsequente florescimento dos colmos e, como 
fica dito sob "Rato da taquar a", tal abundância de 
sementes, por sua vez, favorece a proliferação de certas es- 
pécies de ratos. O bom jesuíta, ignorando tão complica- 
da concatenação de fatores biológicos, quiz simplificar, 
fazendo intervir uma transformação muito mais ema- 
ranhada (porém admitida pelos coetâneos como .sendo 
possível) . 

Bico de braza — Sinonimo dc "T a n g u r ú - 
par á". 

Bico pimenta — Vários passarinhos de bico aver- 
melhado. (Não confundir com o "Bico de lacre", 
que é pássaro de gaiola importado). Mais geralmente 
tem êste nome a espécie de Fringilideos, PityluR f uligino- 
sus, do tamanho de sabiás, côr de rato, com garganta e pei- 
to pretos e bico côr de laranja, ou tonalidade um pouco 
mais carregada. 

Bico rasteiro — O mesmo que "Talha mar". 
Também designa uma espécie de pequeno "Massa- 



rico", Helodromas solitarius, de pernas curtas; a côr é 
pardacenta, com manchinhas escuras e alvacentas nas 
orlas das penas; o lado inferior é branco, com estrias 
cinzentas no peito. Em sua vasta distribuição extende- 
se da América do Norte à Argentina. Tem o mesmo 
nome, ainda uma "Narceja", Gallinago paragvuiiae. 

Bico redondo — Denominação genérica, popular, 
dada ao conjunto de aves que em zoologia constitue a 
família dos Psittacideoís. Veja-se sob "P a p a g a i o s". 

Bicuda — Peixes do mar da fam. Sphyraenideos, 
Sphyracna picnãilla e barrnciida, algum tanto semelhan- 
tes à "Agulha", mas com duas nadadeiras dorsais e 
e focinho não muito alongado; são voracíssimos e muito 
audazes; os exemplares maiores, que atingem mais de 
dois metros de comprimento, chegam a atacar pessoas 
que nadam. A carne é saborosa, mas diz-se que às vezes 
é venenosa. Em Pernambuco os pescadores distinguem 
3 variedades (espécies?): "gaviana" ou "cara na" 
ou "goirana" e bicuda "da lama", além da "de 
c o r s o", cuja cotação é superior à daquelas. 

Bicuda de corso — Em Recife vimos exemplares 
juvenis do peixe dêste nome, que alcança até 2 meti-os 
de comprimento, com 40 a 50 quilos de peso; seu nome 
provém do fato de só se poder pescar esta espécie pelo 
sistema conhecido por pesca de corso ou corrico (e ao 
qual nos referimos sob "A 1 v a c o r a"). Tomámos nota 
do seguinte colorido dos exemplares pequenos: Côr geral 
cinza-perola, mais clara no ventre; 10 manchas difusas, 
mais escuras acima da linha lateral; nadadeiras, exceto 
as peitorais, com manchas pretas. 

Parece tratar-se de Sphijraena barracuda; mas a 
respeito desta espécie a literatura da pesca nas Antilhas 
registra numex'osos casos de envenenamento, que aí são 
conhecidos pelo nome "Ciguatera". Sabemos porém 
que os pescadores de Recife atribuem a esta espécie alta 
cotação, isto é de 2." classe (igual à do badejo) superior 
pois à classificação das outras bicudas, que são de 3.'\ 

Bicudo — Na Amazónia designam assim diversas 
espécies de pássaros do gên. Sporophila, conhecidas no 
Sul por "Papa-capim". 

Bicudo — Há várias espécies de passarinhos a que 
o povo, às vezes impropriamente, dá êste nome. No 
Brasil meridional o verdadeiro "Bicudo", muitíssimo 
ajireciado pelos amadores de passarinhos de gaiola, é o 



— 154 — 



Oryzohorus maximiliani, congénere do "A v i n h a d o", 
que também é um "B i c u d o". Para melhor o definir, 
em São Paulo diz-se "Bicudo do Norte" (norte do 
Estado de S. Paulo até a Baía). O macho é preto, tendo 
apenas uma malha branca na aza e bico claro. Na Ama- 
zónia uma espécie muito semelhante, O. crassirostris, 
tem igual nome vulgar. As fêmeas são pardas e o bico é 
escuro; igual colorido têm os machos enquanto novos. 
Êstes "cantores de gaiola" alcançam, às vezes, preços ele- 
vados entre os amadores e há destes que reputam seus 
bicudos como émulos dos canários. 

Bicudo encarnado — Pássaro da mesma família dos 
"Bicudos", porém de outro género, Periporphyrm 
erythromelas, da Amazónia. E' lindo o colorido, verme- 
lho, um pouco vináceo no lado dorsal, mais vivo no lado 
inferior; a cabeça e a garganta são pretas. 

Biguá — Ave da fam. Carbonideos, Carbo vigna, de 
cauda, pescoço e bico enormemente alongados, êste en- 
curvado na ponta. O colorido é inteiramente preto; só 
o bico e as partes núas da cara e garganta são amarelos. 
Vive tanto no litoral como nas lagoas e rios do interior 
do país. E' ave essencialmente aquática e vive só da 
pesca. Persegue os peixes debaixo d'água e tão bem o 
faz, que na Amazónia seu nome vulgar é "Mergu- 
lhão" (denominação esta que, mais para o Sul, cabe 
a outra espécie). Não é, porém, afundando e nadando 
debaixo d'água que o biguá foge do caçador; êle se afasta 
voando, porém de um modo característico e curioso: ba- 
tendo as azas, prossegue durante algum tempo rente com 
a água e a tão pouca altura, que os pés e a cauda, às 
vezes arrastam de leve e assim traçam um sulco, que 
indica a sua passagem; só mais adeante a ave firma o 
voo e se eleva a boa altura. (Impõe-se, mesmo, a moder- 
na comparação com a decolagem de um hidroplano). Ca- 
racterística é a ordem que o bando de biguás observa 
quando em viagem; alinhados, formam um ângulo ob- 
tuso, indo, porém, 'adeante não o vértice do ângulo, mas 
uma das linhas retas. (H. v. Ihering, apud. Goeldi). 

Biguá-tinga ou "A n h i n g a", "M e u á" ou "M i u á" 
(Maranhão), e na Amazónia "Carará" — Plotus 
anhmfja e um verdadeiro biguá pela forma, diferin- 
do principalmente pelo colorido e pelo bico, que é di- 
reito, sem curva na ponta, porém serrilhado nas mar- 
gens. Bigua tinrja (branco) êle é rcabnente só em iiarte, 



pois o pescoço, o dorso e as azas são brancos, ou ao menos 
riscados. E' também de vasta distribuição. Quieto, está 
êle pousado sobre um tronco à beira do rio e uma caiiôa 
que passa não o assusta; mas, si tem razões para des- 
confiar das intenções dos tripulantes, repentinamente 
êle se atira à água e some-se por longo tempo; passados 
uns três ou quatro minutos, lá longe surge qualquer 
cousa — a ponta de um galho? Não; é o bico e junto 
dele também afloram os olhos, que espreitam, cautelosos. 
Mas não foi só para se ocultar, que o biguú aprendeu a 
mergulhar tão bem; os peixes que o digam! Como si es- 
tivesse em seu ambiente habitual, êle persegue a vítima 
debaixo d'água, durante longo tempo e com extrema des- 
treza. E, si o seu pescoço parece uma cobra, essa seme- 




Blguá-tlnga 



lhança se extende também à fácil dilatação de que é 
capaz uma tal tripa; parece incrível como, à força de 
boa vontade, arranja geito para que caibam lá dentro 
peixes tão grandes! E' curioso o seu modo de pescar, 
comparável ao cerco do peixe, usado pelos pescadores e 
denominado "cambôa": Os pescadores, reunidos fe- 
cham um círculo de canoas e tarrafeiam simultanea- 
mente. Os "M e u á s" também, reunidos em círculo, 
procuram concentrar os peixes num espaço restrito e 
então precipitam-se sobre êlcs, fisgando-os com os bicos 
fortes, (cf . Raymundo Lopes, Torrão Maranhense, 1916, 
l)ág. 163). 

líijuí — Nome de Abelha do gên. Trigona em Minas. 
Vide "Bi j uri". 

Bijú-pirá — Peixe do mar da fam. Rachi/centri- 
deos; Rachycentron cavadim, afim às espécies da fam. 
Scombridcos ("B o n i t o"), mas com uma só nadadeira 



— 15Õ ^ 



dorsal, comprida, precedida de 8 pequenos acúleos sepa- 
i-ados, e o primeiro dos quais se acha na altura da peito- 
ral; no ventre também há uma nadadeira (anal) longa, 
pouco mais curta do que a dorsal; uma linha escura, me- 
diana, vai do focinho à cauda e outra mais fina se extende 
por baixo. Atinge l'",90 cms. de comprimento b quasi 
40 kls. de peso. A carne c muito saborosa e pode se dizer, 
mesmo, que é das melhores espécies brasileiras. E' pes- 
cado à linha, como as cavalas. Níío ocorre no Sul do 
Brasil, mas só do Rio de Janeiro para o Norte. Vive em 




Bijú-plrá 



pequenos grupos e afirma Mii^inda Ribeiro que "é comu- 
mente encontrado nadando sobre as grandes raias, espe- 
cialmente as jamantas". 

Em Pernambuco, onde aliás é raro, também é co- 
nhecido por "peixe rei". 

Devemos ob.servar que na estatística do pescado de 
Paranaguá figura, às vezes, um peixe "P a r a m - b e j ú", 
nome êste que i)oderia equivaler ao da presente espécie; 
mas o verdadeiro Rachijccitiron não alcança, ao Sul, nem 
mesmo a região de Santos. 

liijurí ou " R e n j u i m " ou " B i j u í " — Sob 
estes nomes o Sr. Pio L. Corrêa conheceu, em Araraquara, 
uma íibelha social do gên. Trigona, preta, menor que a 
irapuã, que faz ninho em ôco do páu e cujo mel costuma 
ser muito aromático. (A única vez, porém, que o prová- 
mos, não lhe achamos sabor nenhum, i)arecendo até ser 
apenas calda puríssima de açúcar branco; tratava-se de 
urn cortiço artificial, o que talvez influísse sobre o aroma). 
Vide "B o j u í", que provavelmente é a variante mato- 
grossense do mesmo nome. 

Bilreira — Vide "R e n d e i r a". 
Biquara — Peixe do mar da Baía para o Norte. 
Parece que e palavra incompleta, faltando uma ou mais 



sílabas iniciais (a semelhança de Sernambiquara). O 
Almirante Camara diz que êste peixe é "pequeno, grosso; 
tem dentes miúdos, costas escuras, barriga amarela, com 
queixo amarelado e com listras azuis curvas, partindo 
dos olhos; interior da bôca, vermelho. Vive só nos fun- 
dos de tócas. Sua carne não tem sabor". Abrange 
várias espécies da fam. Haemidideos como as "Cor- 
oo rocas". Seu comprimento, é de 30 cms., pesando 
em média 1,4 quilo. Segundo a estatística do pescado no 
Rio Grande do Norte, certa espécie, em Janeiro e Mar- 
ço contribue com mais de 1/10 para o total dos peixes 
pescados, ou seja com 5.000 quilos. 

Em Pernambuco pronuncia-se também "Abiqua- 
ra" e informam-nos que é peixe roxo, de escama, que se 
cria nos rios, para depois se passar parn o mar. 

Biriquí, "B a r i g u í", "M a r i g u í" ou "B e r e r ê" 
e também "Mosquito palha" — Mosquitos hemató- 
fagos Nematoccros, da fam. Psijchodi- 
deos, gên. Phlebotumtis. (Para a dis- 
tinção dos diversos outros mosquitos 
sugadores de sangue, vide "Mos- 
quitos"). Há várias espécies bra- 
sileiras minúsculas, de 2 mms. de 
comprimento, com abundantes fran- 
jas o pêlos nas azas e pelo corpo todo. 
São crepusculares ou noturnos e às ve- 
zes entram nas casas, atraídos pela 
luz. Ainda não se conhece bem sua 
biologia. B. Aragão verificou, expe- 
rimentalmente, que u espécie Ph. in- 
termcdius pode transmitir a úlcera de 
Baurú (leishmaniose). Vide "Ta t u- 
quira", que é o nome da espécie de Phhbotomtts da 
Amazónia (Ph. sqiiainivciitris). 

Bironha — O mesmo que "Beruanha", isto é 
"M u r u a n h a". 

Birro — Em Minas Gerais é o passarinho da fam. 
Tyraimideos, Ilirundinca hdlicnm e que, segundo Wied, 
tem os nomes "Gibão de couro" ou "Casaco de 
couro", na Baía. De fato o colorido é bruno escuro, 
mais claro no uropígio e na cauda, esta com pontas 
pretas. Também o "P i c a p a u b r a n c o" Lcuconerpes 
cavdidm tem igual nome em S. Paulo e em Mato Grosso. 
Informa-nos a respeito o Sr. João L. Lima que esse pi- 




— 158 — 



ca-pau frequenta os pomares, causando estragos nas la- 
ranjas; além disto, destróe ninhos de vespas (Polybia). 

líirú — Provavelmente por "m b o i r ú", vide 
"boirú". Afr. do Amaral registra o nome como equi- 
valente a "C o b r a nova", DrymobinH bifopisatm, ou seja 
Erodryas, pela recente substituição. 

Birú — Designa, na linguagem caipira, certas mos- 
cas (hematófagas ou varejeiras?). E' a mesma palavra 
tupi "m b e r ú", que compreende as moscas em geral. "B i - 
r u a n h a" (vide *'B i r o n h a") aplica-se em Mato Gros- 
so especialmente à "M o s c a dos estábulo s". 

Birú — No Rio Grande do Sul equivale a "S a g u i- 
rú", em S. Paulo. A palavra, provavelmente c apenas 
uma simplificação de "S a b i r ú" (pronúncia nordestina, 
aliás "S a b u r ú"), mas a espécie é diferente das que se 
encontram ao norte do Rio Grande do Sul. Seu feitio 
é bem o mesmo dos Curimatíneos em geral, mas as di- 
mensões são bem mais avantajadas, pois vimos exem- 
plares no mercado de Pôrto Alegre, com 18 cms. de com- 
primento, quando as outras espécies mal ultrapassam 10 
ou 12 cms. Daqueles exemplares grandes 3 pesam 1 
quilo. 

Bituva — Peixe cascudo, da água doce, Nematogna- 
ta, da fam. Loricariideos (Hurttia kroiiei) da Ribeira do 
Iporanga. 

Bóbó — Na Baía chamam assim o "Guarú- 
g u a r ú". 

Bôca d'água — No Pará é frequentemente empre- 
gado como sinónimo de "Japussá" (símio). 

Bôca de barro — O mesmo que "Bôca de sapo". 

Bôca de colher ou " Ju r u p e n s e m " — E' o 
mesmo que " J u r u p o c a". 

Bôca mole — No Rio Grande do Norte e em Per- 
nambuco o peixe conhecido por êste nome contribua, 
em certos meses, com mais de 8 mil quilos para um total 
de 40 mil quilos de pescado. Certamente, êste nome 
deve corresponder a outro de algum peixe bem conhecido, 
identificação esta que ainda não conseguimos. 

Bôca preta — O mesmo que "Macaco de 
c h e i r o". 

Bôca de sapo — No Sul; no Norte é conhecido por 
"C ú de V a c a". Designa várias espécies de abelhas 



5SCÍELO 9 10 11 1 



— 159 



sociais, da fam. Meliponideos, gên, Trigona. As espécies 
aqui compreendidas são as que constroem ampla entrada 
ou porta do ninho, de forma extravagante, de modo que 
provocou, da parte do povo, nomes não menos curiosos. 

Bôca torta — Sardinhas do gên. Anchovia e outros 
afins, cuja fenda bucal é oblíqua e se extende muito para 
trás; são, pois, propriamente anchovas ou man jubas, es- 
tas ornadas com faixa longitudinal prateada. 

Bôca torta — No Ceará dá-se êste nome à vespa 
social, que no Sul é conhecida por "Camoatim". Re- 
fei'e-se aquela denominação ao feitio da entrada do ninho, 
bôca essa que em geral, de fato, não é simétrica. 

Bocarra — Em Minas tem êste nome um peixe de 
escama, certamente da fam. Characídeos. Supomos tra- 
tar-se do mesmo "Saguirú" a que nos referimos sob 
"Lambari bocarra". Mas pôde também ser um 
Cichlideo, dos quais há um denominado "Bôca de pa- 
t r o n a". 

Bodeco — E' segundo José Veríssimo, o nome que 
se dá na Amazónia ao filhote do "P i r a r u c ú". 

Bodião ou " B u d i ã o " e " G u d i ã o " — Tanto 
em Portugal como aqui, designa várias espécies de peixes 




do mar da sub-ordem PharingognatJios, fam. Labrideos 
(em Portugal ocorre só esta) e Scarídeos, êstes especial- 
mente. São peixes que por vários motivos se caracteri- 
zam bem: as escamas são grandes, redondas; a nadadeira 
dorsal é longa; os dentes fundem-se uns com os outros, 
de modo a formarem uma dentadura inteiriça e portanto 
muito forte; finalmente o colorido de quasi todos êles 
é vivo e variegado, tendo motivado em alguns países a 
denominação — "peixe-papagaio". Vivem junto às pe- 
dras e recifes e alimentam-se de preferência de algas. 



160 — 



Algumas espécies, cuja dentição é ainda mais reforçada, 
habituaram-se a trincar as conchas dos moluscos, cuja 
carne assim conseguem saborear. Os pescadores conhe- 
cem várias espécies: Bodião vermelho, azul, B. verde, 
dourado, tucano, B. sabonete, B. batata, etc. Mas, go- 
zam fama de serem venenosos, o que de fato tem sido 
comprovado. Em Pernambuco há mais os seguintes: 
B. cachorro, curuá, bindalo, papagaio, rabo de forquilha, 
trombeta. 

(Bodó) — Vimos tal nome registrado como sendo o 
de um dos muitos peixes que vivem no grande açude de 
Quixadá (Ceará). Era seguida a vários outros, o autor 
da lista menciona... Cará, Cascudo, Bodó, Tartaruga, 
Taracajá. Como se vê, a inquirição a fazer não é simples, 
caso não se trate da mesma espécie registrada sob 
"Bozó". 

(Boga) — Queremos somente fazer lembrada esta 
pronúncia, aliás a original em Portugal e que assim tam- 
bém se manteve nas repúblicas platinas, ao passo que no 
Rio Grande do Sul só se diz "V o g a" (veja esta) . Em Por- 
tugal "boga" designa as três espécies de peixes do gên. 
Chondroíitoma, do grupo das "tincas", que na América do 
Sul não tem representantes. 

Boi-de-Guax-á — Segundo informação do dr. Viriato 
Correia, no Maranhão dá-se êste nome ao peixe cascudo 
comum. 

Boicininga — Nome tupi da cobra "Cascavel" 
(literalmente: cobra que faz rumor, isto é, que tem cho- 
calho). Lembraremos, como tendo etimologia semelhante, 
"C a s s u n u n g a", isto é, Caba-cininga, "que faz ru- 
mor". 

Boicoatiara — Menos usado que "C o a t i a r a". 

Boicorá — Provavelmente palavx-a híbrida: mboi- 
coral por "cobra coral", de onde parece derivar ou- 
tra pronúncia: "bacorá". Veja-se porém a etimologia 
lembrada sob esta última grafia! 

(Boiobí) — ou seja "cobra verde" em tupi; nome 
equivalente a "C o b r a - c i p ó", e portanto igualmente 
com acepção ampla; não sabemos, porém, se ainda está em 
uso corrente. 

Boi-peva — ou "mboi-peva" (ou peba), que em tupi 
signrfica — cobra chata — também " J a r a r á c a m - 
b e v a '. Compreende duas espécies semelhantes, Xoio- 



— 161 — 



don merremii, da fam. Colubrideos, aglifos. O colorido é 
preto, ornado por desenhos geométricos indistintos, for- 
mados por escamas amarelas e que lhe dão certa seme- 
lhança com as jararacas. O nome indígena, de fato, lhes 
cabe bem, porque esta cobra se achata. Não é propriamen- 
te venenosa, visto como não tem dentes inoculadores de ve- 
neno; mas, por causa das suas dimensões, de dois metros de 
comprimento, torna-se respeitável. Na Amazónia lhe cabe o 
nome "P e p é u a" e no Rio Grande do Sul e cm Mato 
Grosso "Capitão do camp o". Outra cobra que bem 
merece o mesmo nome indígena, por se achatar quando ir- 
ritada, é Lystrophis dorhigniii, do Brasil meridional. A 
parte dorsal mostra desenho variado de manchas casta- 
nhas com orlas claras sobre fundo pardo-amarelado ; o 
ventre é rubro-coralino, com linhas transversais azuladas, 
muis fracas na parte mediana. O que, porém, caracteriza 
notavelmente esta espécie é a feição do focinho bicudo e 
quasi arrebitado. Alimenta-se de batráquios. 

Boiíievassú — E' espécie de género afim ao prece- 
dente (Cyclagras gigas). Também conhecida por "Su- 
r u c u c ú do pantanal" porque vive nos brejos. 

Boiquira — Denominação registrada por Afr. do 
Amaral (Nom. vulg. ofid.) como usada no Centro c no Sul, 
para designar a "Cascavel". Não temos documenta- 
ção própria. 

Boirú — Segundo Afr. do Amai'al, sinónimo de 
"M u s s u r a n a" (Pseudoboa cloeliu) : mboi-rú, que co- 
me cobra. 

(Buiúna) — Parece que não deveríamos dar acolhida, 
aqui, a êste vocábulo que, na Amazónia, designa um ser 
fantástico, mais terrível que a famigei-ada "D o r m i d e i - 
r a" c comparável, talvez, ao "M í n h o c ã o". Zoolo- 
gicamente Afrânio do Amaral atribue o nome à maior 
das serpentes, a sucurí. 

Boiussú — Denominação indígena, que significa: co- 
bra grande, aplicada à "Sue u r í". 

Bojuí — Abelha da fam. Meliponídeos, citada por 
Roquette Pinto como uma das muitas espécies que em 
Mato Grosso fornecem mel delicioso. Vide "B i j u r í". 

Bolacha — Na Baía dá-se êste nome, aliás ba.stante 
sugestivo, aos Echinodermos Echinoidcs irregulares 
(tais como Eticope emarginata). Vide "Corrupio 
do mar". 



— 162 — 



Bom-dia-seu-chico — Nome que o Sr. João L. Lima 
registrou, na região noroeste de S. Paulo, como onoma- 
topéia, aliás muito adequada ao cantar do passarinho 
mais conhecido por "T r i n c a - f e r r o" (Saltator si- 
milis). 

Bom-é — No Ceará, segundo Th. Pompeu, é o nome 
do "J a p i m" ou "C h e c h é u" (Cucictis cela). 

Bom-nome — Peixe de escama do mar, ao qual na 
Baía assim chamam "por eufemismo, para não compará- 
lo diretamente a um falus". Segundo outras informa- 
ções, é espécie semelhante à "U b a r a n a". No Rio de 
Janeiro também tem êste nome Malacanthits plumieri. Ve- 
ja sob "P i r á". 

Bonito — Peixe do mar da fam. Scombrideos, Eu- 
thynnus aUetterataH que realmente merece tal nome, alu- 
sivo ao colorido e desenho variado. Pelo feitio é um 




Bonito 



meio termo entre as "Cavalas" e a "Serra". A 
metade posterior do dorso mostra um desenho de linhas 
irregularmente ondeadas e paralelas enti'e si; abaixo das 
peitorais há várias máculas negras, redondas. Seu peso, 
em média, é de 3 a 6 quilos. 

Borá — O mesmo que " V o r á". 

Borá-boi ou "Borá-cavalo — E' sinónimo ma- 
togrossense de "Aramá", nome pelo qual é conhecida 
na Amazónia uma das abelhas mais comuns aí, TrU/ona 
liexderi. 

Borboleta — Na Buía designa um lindo peixe peque- 
no, também chamado "C a s t a n h o 1 a" e que entre os 
praieiros ainda é conhecido pelo nome indígena "C a r a - 
p i a s s a b a". 



— 163 — 



De acordo com Alipio M. Ribeiro cabe êste nome, 
aliás muito apropriadamente, ao Chaetodon striatus, pa- 
rente próximo do "P a r ú da p e d r a". O corpo é ovala- 
do, muito comprido e de viva côr amarela; sôbre êste fundo 
claro destacam-se 5 faixas negras, além de outros orna- 
tos na cabeça e nas nadadeiras. 

Borboleta ou "R a i a manteiga" — Seláquios do 
grupo das raias, Pteroplatea altavela e P. micrura. São 
do Atlântico e a primeira também do Mediterrâneo. São 
peixes muito largos, com l'",20 de envergadura, o que 
corresponde a mais do dobro do comprimento do corpo; 
êste termina em cauda curta, provida de dardo serrilha- 
do. A côr é parda em cima, vermiculada e mais clara em 
baixo. 

Borboletas — Denominação vulgar dos Lepiãoptcroíi 
Ropaloceroi^, isto é, de hábitos diurnos e com antena cla- 
vada (terminada em bolinha oval) ; na posição de re- 
pouso juntam as azas, de modo que só se vê a face infe- 
rior das mesmas; as lagartas não tecem casulos de fios 
de seda, porém ficam abrigadas em uma casquinha que, 
por ser em algumas espécies reluzente e dourada, teve o 
nome de origem grega "crisálida" (de ouro). E' carac- 
terístico, para cada grupo, o modo como fica suspensa 
esta crisálida: com a cabeça para cima (Papilionideos') 
ou para baixo (NyinphaUdeos) e amarrada por um fio 
pela cintura (Pierideos). E' impossível dizer qualquer 
coisa em resumo a respeito das inúmeras espécies de 
borboletas da nossa fauna. Citaremos apenas, ao acaso, 
algumas formas típicas. Bastante comuns são algumas 
espécies de Papilio, nome genérico geralmente conhecido 
(devido à fantasia do Visconde de Taunay, que no ro- 
mance "Inocência" fez o naturalista batizar Papilio 
innocenciaa a uma espécie imaginária). Caracteriza-se 
êste género por ter as azas anteriores alongadas em ponta 
oval no angulo anterior, ao passo que o bordo posterior 
do segundo par é recortado, de modo a formar várias 
pontas arredondadas, uma das quais, porém, é estirada, 
formando às vezes longa fita ou "rabinho". O colorido 
predominante é preto, com manchas amarelas ou verme- 
lhas, havendo outro grupo de Papilios de côr clara, ama- 
rela ou mesmo branca, com pouco desenho. 

As conhecidas "borboletas azuis", grandes, belíssi- 
mas, que vôam vagarosamente pelas clareiras da mata, 
pertencem ao gên. Morpho; algumas são de côr azul in- 
tensa, com reflexo de seda e bordos pretos; outras são 



— 164 — 



de um branco anilado, com pontos pretos aubmarginais. 
As borboletas mais comuns, brancas ou amarelas, de di- 
mensões médias, em gei'al com a parte apical anterior 
preta, pertencem ao gên. PierL^ (vide "P a n á - p a n á") . 
Os Nymphulideos encerram uma enorme variedade de 




espécies, e das mais bizarras quanto à forma e áo colori- 
do. Dentre elas mencionaremos as conhecidas borbole- 
tinhas que no lado inferior da aza posterior têm um de- 
senho semelhante a dois algarismos: 80 ou 88 (Calicore 
e Catugrammu) ; certas Ageronias produzem um estalido 
quando batem as azas e justamente estas espécies, cons- 
tituindo exceção da regra geral, mantêm as azas disten- 



(lidas ao pousarem, quando todos os outros Ropaloccros, 
na posição de i'epouso, juntam as azas a prumo sôbre o 
dorso. Essa exceção tem sua razão de ser: a face supe- 
rior das azas das borboletas em geral mostra colorido 
brilhante, que o inseto esconde quando pousa; ao con- 
trário, nas Ageronias, essa face das azas imita bem o 
colorido das cascas das árvores e dos líquenes e assim, 
pousando com as azas distendidas, confunde-se com o 
ambiente (Mimetismo). (Veja estampa da pg. 398). 

Poucas são as lagartas de borboletas que constituem 
praga propriamente dita; as de certos Pierideos, às ve- 
zes, danificam as hortaliças; as de Papilin preferem as 
folhas das laranjeiras, sem contudo prejudicarem gran- 
demente a lavoura. As lagartas mais daninhas são as 
dos Lepidópte.rofi heteróceros, (vide "M a r i p o s a s") . 

Borboleta de bando — Interessante fenómeno de mi- 
gração de Lepidopteros, conhecida na Amazónia pela 
expressão indígena "P a n á - p a n á", (vide esta) . 

Boró — O mesmo que "Motoro". 

Bororó — Veado de armação simples, Mazana rnfi- 
na que é a menor das nossas espécies ; mede 49 cms. nos 
traseiros ; da ponta do focinho à cauda mede 73 cms. 
Os chifres, simples pontas direitas, medem apenas 6 cms. 
Veja-se também "G a p o r o r o c a" e sob "Veado s" 
em geral. 

Bororó — Peixe do mar da fam. Sciaenideos, Bair- 
diellii ronchiis; veja-se sob "Cangoá". 

Borrachudo — Em certas regiões do Nordeste e na 
Baía é a denominação dada às larvas dos Tnatomas, 
"Barbeiro s". 

Borrachudo — ou "P i u m" no Norte do Brasil. Díp- 
teros Nematoceros da fam. Siinuliideos. E' um grupo de 
insetos hematófagos bastante homogéneo no aspeto, com 
um só género, Siimdium, representado no Brasil por tal- 
vez 30 espécies. As dimensões variam, conforme a espé- 
cie, de 2 a 4 mms. de comprimento; o corpo é sempre 
gros.so, principalmente o tórax, caracterizado por uma 
bossa, como que de aleijado. As azas são hialinas. O 
colorido é pouco variado e na maior parte das espécies 
é preto ou pelo menos escuro; nas pernas é que se nota a 
maior variedade de desenho branco ou amarelo. Os ma- 
chos não picam; om compensação as fêmeas são bem 
conhecidas como hematófagos bastante importunos. A 



— 166 — 



princípio não se percebe a picada, mas logo se segue um 
prurido muito característico e que persiste, às vezes, du- 
rante alguns dias, ficando o ponto da punção marcado 
por um sinal de sangue, do qual ao ser expremido sai líqui- 
do seroso. E' sabido que na Raiz da Serra entre Santos e 
S. Paulo, os borrachudos invadem os vagões, e sorrateira- 
mente reclamam tributo dos passageiros incautos. Espécies 
do mesmo género existem também na Europa, sendo notó- 
ria a praga que constituem na Hungria, para a criação 
do gado, desesperando os animais com suas picadas, 
quando atacam em nuvens. 

As larvas desenvolvem-se unicamente na água cor- 
rente ou encachoeirada, fixando-se às pedras ou à vege- 
tação, por meio de fios de seda ; contudo sabem locomover- 
se na mais forte correnteza, usando de ventosas e do- 
brando o corpo como os "m e d e - p a 1 m o s". Natural- 
mente é pouco o alimento que encontram nas águas lím- 
pidas, e assim lhes sorvem quaisquer detritos, bem como 
protozoários, diatomáceas e algas microscópicas. Para 
se transformarem em ninfas, tecem casulos em forma de 
cartuchos tle papel, abertos em cima e dos quais emer- 
gem apenas os filamentos traqueuis, que servem para a 
respiração. Finalmente, os bori'achudos adultos nascem 
debaixo da água e vêm à tona, sem se molharem. Logo 
vóam, e às vezes afastam-se bastante dos criadouros; 
mas, como é natural, os lugares em que mais se está ex- 
posto às picadas, são as proximidades de águas corren- 
' tes. Na zona do litoral de S. Paulo e Rio de Janeiro a 
espécie mais comum é S. pertinax, de 2,5 mms. de côr 
geral enegi-ecida, com pernas coloridas de ocráceo e com 
escamas brancas. No interior prepondera S. perflavum que 
é todo amarelo alaranjado, de 2 a 3 mms.; S. exigunni 
mede apenas 1 a 1,5 mms. 

líorralhara ou "Matraca" — Pássaros da fam. 
Formicnriideos, do gên. ThamnophUns, ao qual também 
pertencem^ "B r u j a r a r a", "Choca" e "M b a t a r á" 
da Amazónia. A espécie maior, é T. cinerea, de 35 cms. 
de comprimento; o macho é cinzento, com topete preto; a 
fêmea é pardo-amarelenta. liá ainda umas 35 espécies 
brasileiras, do mesmo grupo, em geral bem menores e 
que todas vivem no mato, prestando os mesmos serviços 
como os "papa-f ormigas". 

Bota-mesa — Curioso nome dado no Norte a certos 
insetos aquáticos, incluindo talvez a grande "Barata 
d' água" (Belostoma) e outros HemiptcroH da fam. Ne- 



— 167 — 



vídeos. De Pernambuco, porém, registrámos "P(5e-me- 
s a" como sinónimo de "L o u v a - D e u s"; a significa- 
ção do apelido parece referir-se k voracidade dos insetos 
predatórios a que o nome é aplicado e, entre estes os 
Mantideos são de fato os mais gulosos. 

Bôto — Mamíferos da ordem dos Cetáceos Odonto- 
cetos, marinhos (fam. DeJphinideos) ou da água doce 
(fam. Platanistidcos, vide "B. b r a n c o") . Há ainda duas 
denominações, "G o 1 f i n h o" e "T o n i n h a", que, tan- 
to aqui como em Portugal, designam espécies da mesma 
família. (O têrmo português "Roaz", aplicado a espécies 
afins, parece que não entrou para o nosso vocabulário; 
propriamente generalizado, só temos o termo "Bôto"). 
De entre os bôtos marinhos, o mais conhecido é o da 
baía do Rio de Janeiro (Steno brasUiensis) , que aliás 



vive unicamente nessas águas; difere, desde logo, das 
demais espécies pelo colorido alaranjado nos lados e o 
tamanho raramente excede a 2 metros. Ao nadar des- 
preocupadamente à tona d'água, o bôto descreve linhas 
verticalmente onduladas, apjirecendo só i)artc do seu cor- 
po fora d'água: primeiro a cabeça, depois o dorso, mas 
a cauda nunca emerge. O rostro é curto e a cabeça um 
tanto avolumada, dos olhos pai-a trás; a nadadeira dorsal 
SC extende até ])erto da região caudal, cuja nadadeii*a ó 
achatada, contrastando com o tronco roliço. 

As espécies brasileiras de bôtos do mar aberto ainda 
não foram bem estudadas e, como nos mares da Argen- 
tina já foram assinaladas 15 espécies, é de crer que a 
nossa lista definitiva também venha a acusar um número 
elevado. Pela simples inspccão, à distância, quando mo- 
mentaneamente emergem, não é possível classificar as 
espécies. Certo é que qualquer delas distrai os viajantes 
em alto mar e a todos pai-ece que é apenas por brinca- 
deira ou como exercício, que o bando, às vezes numeroso, 




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vem à tona, quando de fato todos êles vêm respirar o ar, 
de que necessitam, como verdadeiros mamíferos que são. 
"Caldeirão" chamam-lhes os pescadores de Torres 
(R. Grande do Sul), onde aparecem em grandes bandos. 
Em Mato Grosso e no Alto Amazonas os bôtos são co- 
nhecidos pelo nome "Peixe porco". 

Bôto branco — ou "Uiara" dos indígenas. Vide 
supra, fam. Platanistideos; com 66 a 68 dentes em cada 
ramo maxilar; a mão é larga e truncada na ponta. Ao 
conti*ário do que se observa nos outros cetáceos, êste 
bôto tem uma constrição atrás da cabeça, dando uma 
idéia de pescoço. À semelhança das espécies do Ganges, 
a nossa "U i a r a", Inin (jeoffroyensis, vive só na água 
doce do Amazonas; atinge 2 a 3 metros de comprimento. 
Um exemplar de 2'",80 pesa 125 klgs. (como o verificou 
Castelnau). A côr geral é ardósia, clara em cima, bran- 
ca em baixo. 

Ainda que não seja de todo inofensivo, mormente 
quando atacado, contudo lhe são atribuídas muitas faça- 
nhas e mesmo tais estrepolias, como só as sabe inventar 
e aceitar a crendice do povo. Assim dizem que o bôto, 
qual Don João originalíssimo, sai das águas em procura 
de donzelas e também muita quebra de fidelidade encon- 
tra nele a sua excusa. "U i a r a" é ainda o nome de 
uma moléstia nervosa, atribuída à influência dêsse cetá- 
ceo (J. Veríssimo, Cenas da Vida Amazunica, pg. 59). 
Com relação à outra espécie amazôníca, veja-se sob 
"T u c u X í". 

Botoado — Goeldi registra assim, no Pará, o nome 
dos peixes do gên. Doraft, aliás "Abotoado", ou 
"Cuiú-cuiú" mais ao Sul. Da mesma forma o vi- 
mos grafado em uma lista de peixes mato-gros.senses. 

Bozó — Peixe de couro da fam. Doradideos (geral- 
mente conhecido por "Cuiú-cuiú"), do rio S. Fran- 
cisco, Franciscodoras marmoratus; alcança apenas um 
palmo de comprimento e não tem valor comercial. Dis- 
tmgue-se por ter nadadeira adiposa alta e longa, sem 
prolongamento anterior em crista. 

Bragado — O. Monte (Alm. Agr. Eras. 1026) des- 
creve sob este nome um peixe, ao que parece, semelhante 
a 1 u vir a (fam. Giimnotídeos) e cujo dorso é escuro, 
com malhas miúdas, escuras, em forma de vírgulas. 
Veja-se sob "S a r a p 6". 



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Branquinho — DenominaçíTo provavelmente local 
dada no Pará a um peixe do mato (da água doce) e que 
certamente se aplica a uma variante, apenas, de outiva es- 
pécie bem conhecida. Tal identificação ainda está por 
fazer. 

Brecumbucú — O mesmo que "P a c a m ã o". 

Brejal — Passarinho de Alagoas e Baía, muito apre- 
ciado pelo seu canto. 

Brejercba — O mesmo que "Prejereba". 

Brió — Denominação dada em Sergipe ao "Vira". 

Broca — Abrange as larvas de insetos que carco- 
mem ou "brocam" os galhos das árvores. São "lépi- 
do b r o c a s" quando os adultos são Lepidópteros e "c o - 
I e o b r o c a s" quando se trata de larvas de Coleópteros. 
Algumas espécies são muito conhecidas, por causa dos 
danos que fazem nos pomares; tais são: "Broca do 
figo", de uma mariposa da fam. Pyralideos, (Azochis 
gripusalis) de 34 mms. de envergadura, de côr pardo- 
amarelada, com faixas de manchas pardas; às vezes a 
mesma planta é perfurada também por cóleobrocaa (Ce- 
rambycideos, Trachyderes thoracicm). As laranjeiras, 
goiabeiras e outras árvores frutíferas são atacadas por 
várias espécies diferentes. Por hoi"a não há ainda me- 
lhor recurso sinão a poda, devendo-se queimar esses ga- 
lhos, para destruir os insetos que, do contrário, ainda 
assim se desenvolveriam. Parece ser aconselhável, para 
combater as brocas dos arvoredos, o seguinte tratamento: 
introduzem-se algumas pedrinhas de carbureto no canal 
excavado pela larva e em seguida fecha-se a abertura 
com cera, bem apertada. Com a própria humidade do 
vegetal, o carbureto desprende seu gás, que asfixia a 
broca, sem prejudicar a planta. Outras receitas aconse- 
lham o emprego de sulfureto ou creolina, aplicada da 
mesma forma, se não fôr possível matar a lagarta dire- 
tamente, introduzindo-se um arame no canal aberto pela 
larva. 

Broca do café — Denominação dada recentemente 
ao minúsculo besourinho, da fam. Iptdeos importado de 
outros países cafeeiros e que também entre nós prejudica 
seriamonte a grande lavoura ])aulista. Seu nome cientí- 
fico que alcançou larga popularidade (Stephanoderes cnf- 
fiac), deve, segundo Costa Lima, ser alterado para Hypo- 



— 170 — 



thenermis hmnpei. Ao mesmo género pertencem maia 8 
espécies, da nossa fauna, que às vezes penetram em bagos 
de café, mas o dano causado é insignificante; algumas 
destas espécies são muito semelhantes à verdadeira 
broca do café, tendo por isto causado confusão. A verda- 
deira "broca do café" mede apenas 1,7 mms. de com- 
primento e, portanto, sob grande augmento somente, os 
detalhes característicos podem ser vistos. A côr é casta- 
nho-escura, reluzente; as pernas são mais claras. E' po- 
réni, inconfundível, quando visto em seu trabalho des- 
truidor no grão de café. Ataca o grão verde, de prefe- 
rência pela coroa (o vestígio floral, oposto ao pedúnculo) 
e depois de excavar um túnel, aí deposita os ovos. Em 
um só fruto podem nascer até 160 besourinhos, dos quais 
apenas 8 % são machos. O ciclo evolutivo, de ovo a adulto, 
realiza-se em vinte dias, si as condições fòrem favoráveis 
e, duas semanas depois de nascidas, as fêmeas dessa ge- 
ração já põem ovos. Daí a rapidez e a intensidade com 
que a praga alastra e se iiitensificá no cafezal. De uma 
fazenda a outra, porém, ou mesmo de talhão em talhão, a 
broca só lentamente consegue passar, pois o seu vôo é curto 
e assim a disseminação pelas grandes áreas tem se reali- 
zado com o auxílio indireto do homem, pelo transporte 
das fêmeas vivas nas amostras e na palha do café, nos 
apétrechos agrícolas, nas sacarias, etc^ A broca não só 
reduz grandemente a colheita, deteriorando parcial ou 
inteiramente as sementes e chegando a causar prejuízos 
de 80 ou totais quando a praga atinge a intensidade 
máxima, como também desvaloriza os grãos pouco ata- 
cados, dando-lhes máu gosto. 

O combate à broca, conforme a solução iniciada em 
S. Paulo pelo dr. Arthur Neiva, consiste no "repasse'' 
do cafezal, logo após a colheita. Devem ser catados todos 
os grãos de café remanescentes, quer pendentes da árvo- 
re, quer^ caídos ao chão, para que desta forma o besou- 
nnho não encontre o único alimento capaz de permitir o 
desenvolvimento das larvas. Ficou demon.strado em ta- 
lhões de experiência, que os cafezais repassados escru- 
pulosamente, no ano seguinte são infestados em propor- 
ções mínimas. A despesa do repasse é quasi compensada 
pelo café assim colhido após a safra e o excedente deve 
ser considerado como "imposto" pago à broca. A lei, 
que obriga o fazendeiro a combater a broca, aconselha 
ainda varias outraí medidas de desinfecção da safra, porém 
a base e o repasse meticuloso. Êste processo, aliás, 



— 171 — 



só é aplicável em nosso meio, onde o café floresce 
e amadurece em determinados meses, condição essa es- 
sencial para o êxito do combate à broca. Ao contrário, 
em Java e outros países, nos quais o cafezal não passa 
por um período de hibernação, tal processo é inexequível 
e, por isso, em tais países de clima tropical grandes fa- 
zendas já abandonaram a cultura, desvalorizada pela 
broca. 

Na prática, porém, o resultado não tem sido tão fa- 
vorável como teoricamente deveria ser. E' certo que o 
mal pôde ser restringido, porém dentro de alguns anos 
ou decénios terá invadido toda a nossa cultura cafeeira 
6 nada faz prever que possa êsse inseto ser definitiva- 
mente subjugado. 

Adotando o método de combate das pragas por meio 
de seus inimigos naturais, o Instituto Biológico de São 
Paulo importou da África a "V e s p i n h a de U g a n - 
d a" (veja esta) ; desta forma se conseguiu resultados bas- 
tante satisfatórios, no sentido de prejudicar a prolifera- 
ção da broca, beneficiando assim consideravelmente a co- 
lheita. 

Broca da raiz do algodoeiro — Trata-se de um co- 
leóptero, Gdsterocercodes [lo.^íaypii Pierce, da fam. Cur- 
ctãionideos, assinalado em quasi todas as regiões algo- 
doeií-as (de S. Paulo ao Maranhão) e que ataca a planta, 
principalmente na região do colo. PLxcavando galerias, 
as várias larvas por fim determinam a queda do tronco. 
Por causa da sua localização, que dificulta o combate, esta 
praga é de caráter grave, quando invade uma plantação. 
Recomcnda-sc então o afolhamento, deixando de plantar 
algodão durante 2 anos nos terrenos em que foi notifica- 
da esta espécie. 

Foi registi'ada também a denominação "R ó I a", tal- 
vez local ainda, no Norte. E' possível que haja mais de 
uma espécie, cujos estragos sejam semelhantes. 

Brôco — Um veado está "brôco", no dizer dos ca- 
çadores, quando, iior ocasião de mudar a armação, a 
cabeça fica desguarnecida de pontas ou galhadas. 

Brota ou "Br o te a" — Vide "Abrote". 

Brugelo — Em Sergipe chama-se assim os pintainhos 
implumes das aves de biscato. Informação do sr. Aroaldo 
Azevedo. 

Brujarara — Pássaro da fam. Formcaiiideos, 
Thamnophiliis leachi, do mesmo género das "borra- 



— 172 - 



lharas". E' espécie média, de 26 cms. de comprimen- 
to, de côr preta com manchas redondas, brancas no lado 
dorsal e estrias transversais, brancas, no lado ventral; 
na fêmea estes desenhos são de côr amarelenta. Habita 
o Brasil meridional, de Minas Gerais para o Sul. Outra 
grafia? "Br ij ara". 

Bruxa — Vide "Mariposa". O povo não adota 
critério certo para a diferenciação. Nem todas as ma- 
riposas são bruxas; estas, em geral, são as espécies de 
tamanho médio ou mesmo grande e o essencial é serem 
de côr sombria, para serem "lúgubres e agoureiras". Há 
superstições, que obrigam a enxotar sem matar as bruxas, 
que porventura entrarem em casa. 

Bruxa-beija-flor — Mariposa da fam. Sphyngideof;, 
cujo corpo fusiforme, com azas talhadas como as das 
aves, lhe dá um aspeto muito característico. São crepus- 
culares e, como seu vôo e aspeto geral tem realmente al- 
guma semelhança com os beija-flores, o povo teima em 
afirmar que são avesitas que "viraram" mariposas. Vide 
neste sentido, a curiosa explicação dada pelo padre An- 
chieta, que achava muito natural semelhante metamor- 
fose. (Vide "Bicho de t a q u a r a") . 

Buara — Nome de um peixe, do Sul da Baía, (Tau- 
nay, Voe. Omissões). Falta melhor informação. 

Budião — Vide "B o d i ã o". 

Bugiguara — Sapinhos amarelos, que cantam muito 
forte, quasi sempre aos bandos, nas matas do Apiaí, Est. 
de S. Paulo (por informação do Dr: Jesuino Maciel). 

Bugio ou "Barbado" ou "Guariba" — Veja- 
se também sob "Carajá". Compreende ás 5 e.spécies 
brasileiras do gên. Alountta (antigamente conhecido por 
Mycetes), havendo ainda várias outras espécies no con- 
tinente, do Norte da Argentina até a América Central. 
O género caracteriza-se anatomicamente pelo grande de- 
senvolvimento do osso hioide, que funciona como caixa 
de ressonância. São animais corpulentos, mas ainda 
assim lestos e ágeis quando querem ; a cabeça é massiça, 
o queixo barbado, principalmente nos machos velhos, 
cujo pescoço se avoluma em demasia, pelo grande desen- 
volvimento, já mencionado, do osso hioide. Em algumas 
espécies o macho é preto e a fêmea amarelo-escura; em 
outras os machos são ruivos e as fêmeas quasi pretas. 
Vivem em bandos de mais ou menos uma dúzia de indi-. 



víduos, guiados pelo macho mais velho, que é chamado 
o "capelão". De manhã e à tardinha, principalmente 
quando o tempo está para mudar, põem-se a uivar (ou a 
"roncar", como diz o povo), todos juntos, no tôpo de uma 
gi'ande árvore; nessas ocasiões se ouve sua voz a mais 
de meia légua. Alimentam-se de brotos, folhas e frutos; 
quando perseguidos, muitas vezes, em vez de fugir, pro- 




Bugio 



curam esconder-se entre a folhagem dos galhos mais 
altos. Sabem utilizar-se, melhor talvez que os demais 
quadrumanos, de sua quinta mão e fazem-no constante- 
mente, pois confiam mais na força que têm na ponta do 
rabo, do que na segurança das mãos. Logo que a pas- 
sagem de um galho para outro exige mais cautela, o rabo 
enrosca-se e assim nunca lhes acontece cair. Querendo, 
podem até fazer seu repasto dependurados. Mesmo de- 
pois de gravemente ferido, o bugio continua suspenso na 
árvore, o corpo todo caido, dependurado pela cauda; di- 
zem até que êle pode permanecer assim durante alguns 
dias e só vem a cair, quando já em decomposição. 



— 174 — 



As mães são extremamente carinhosas para com os 
filhos, que elas trazem ao colo ou às costas, enquanto 
novinhos. Há caçadores que apreciam sua carne — mas 
ninguém tem coragem de serví-lo assado, sem trinchar, 
pois representaria, perfeitamente, uma criança sobre uma 
travessa. 

Não deixaremos de registrar também, aqui, a rima 
popular: "Guariba na serra — chuva na terra", com 
que o símio foi confirmado no posto de meteorologista, 
cujo "roncar" insistente anuncia chuva. Contou-nos o dr. 
A. Neiva a seguinte crendice bem curio.sa: em certas lo- 
calidades flageladas pelo bócio, os curandeiros preten- 
dem fazer desaparecer o i)apo do cliente, aplicando água 
que tenha permanecido na vasilha formada pelo grande 
osso hioide dos bugios machos, osso êste que é a causa 
anatómica do grande papo desses símios. 

Como já dissemos, o povo denomina "capelão" o 
macho velho e ao qual entre outras atribuições, como 
patriarca, cabe também a vigilância, em ocasião de pe- 
rigo iminente, como, por exemplo, quando os membros 
restantes da família e.stão saqueando uma roça do milho. 
Do .seu posto de atalaia, é êle quem dá sinal para a fuga; 
e, diz o povo, o "capelão" é castigado a vergastadas 
quando, descuidado, não preveniu em tempo a aproxima- 
ção do inimigo e assim expoz os seus a maiores atri- 
bulações. 

(Bujuí) — Em seu roteiro de viagem (1780) J. La- 
cerda de Almeida menciona sob êste nome "uma espécie 
de andorinha, que faz seu ninho pelas pedras das 
cachoeiras". O vocábulo, colhido há tanto tempo no 
curso inferior do rio Tietê, é puramente indígena, pois 
Montoya registra Mbiyvi como denominação guarani 
das andorinhas. Hoje ao que nos consta não é mais 
usado, designando-se tais aves pelos nomes "Taperá" 
e "Chabó", sendo êste último menos correntio. Além 
disto veja-se "Taperussú", sob "Andorinhão". 

Buraqueira — Vide "Codorna b u r a q u e i r a". 

Bureva — Peixe de couro. N ematognathos da água 
doce. fam. Trachycorístideo», Glanidinm alhcsc.rns. Ba- 
grinho algum tanto semelhante à "Cambéva", mas 
de outra família, .sem os acículos no opérculo; êste tem 
abertura muito reduzida acima das nadadciras peito- 
rais. E' do Brasil meridional (Minas, S. Paulo) e atin- 



— 175 — 



ge 25 cms. de comprimento. Veja-se também "A n- 
ú u i á". 

Buriquí — Aliás "Mburiquí"; vide "Mono". 

Burrico — Em Mato Grosso (Porto Murtinho) são 
conhecidos por êste nome certos insetos vesicantes que, 
em noites de primavera, se tornam extremamente mo- 
lestos. São as seguintes as informações, ainda impre- 
cisas, que a respeito pudemos colher. 

Pereira da Cunha, em "Viagens e Caçadas" pg. 17, 
assim relata o seu primeiro encontro com esta praga, 
em Porto Murtinho: "X. estava próximo a uma lâmpada, 
admirando o turbilhão de insetos, quando se queixou de 
alguma cousa que lhe havia produzido sensação de ardor 
ou de queimadura; pessoas conhecedoivas da região ex- 
plicaram a origem, para nós misteriosa daquela queima- 
dura — cousa muito frequente em Mato Grosso e devida 
ao contato de um inseto conhecido pelo nome de "b u r r i- 
co". "íloje há nuvem de burricos" é a frase usual que 
bem exprime a quantidade desses infernais insetos, que 
invadem também as casas". 

Como vaga elucidação podemos apenas acrescentar 
o seguinte, baseado em uma carta do Sr. Rufino Theo- 
doro, de Porto Murtinho, o qual, a nosso pedido, nos in- 
formou que o "Burrico" "é um inseto preto lustroso 
de tamanho médio entre os cascudos que à noite costu- 
mam voltigear em redor das lâmpadas. Tem um bico 
ponteagudo; não ferroa e quando assenta sol)re a pele, 
queima como se fôra uma braza e aí logo se forma uma 
bolha d'água, brancacenta, idêntica à de uma queimadura 
de braza e, é curada da mesma forma que esta. Não é 
inseto comum; aparece algumas vezes na primavera, jun- 
tamente com os cascudos comuns, atraídos pelas lâmpa- 
das e principalmente nas noites que ameaçam chuvâs. 
Ao matá-lo, esmagando, o "B u r r i c o" deixa um mau 
cheiro característico". A esta amável informação acres- 
centa o Sr. Rufino Theodoro, que pretende enviar-nos al- 
guns espécimens, tão logo os possa encontrar e só então 
poderemos classificá-lo. 

Interessante é também a seguinte informação que 
nos foi prestada pelo Sr. Regnier (Porto Murtinho) 
"Depois da noite fechada, com a mudança do temi)o, 
surgiram muitos "Burricos". Atraídos pela luz cairam 
alguns sobro a mesa e o Sr. R. matou alguns com a faca, 
esmagando-os ; depois limpou a lâmina com a mão, mas 



— 176 — 



logo sentiu a cai-ne em brazas e só ao cabo de uma se- 
mami a dor cessou de todo". (Ver também "Potó"). 

Burrinho — No sul do Brasil dá-se êste nome às 
"Vaquinhas" (vide estas) da fam. Meloideos da qual 
fazem parte as "Cantáridas" género Epicauta) que 
atacam a folhagem das Solanáceas (batata ingleza e 
pimenteira) . 

Burriquete — Filhote de "M i r a g u a i a"; esta de- 
nominação é correntia no Rio Grande do Sul e ainda em 
Sta. Catarina. 

Butuca — O mesmo que "Mutue a". 

Buxiquí — Protozoários fosforescentes que, forman- 
do plâncton espesso, cobrem grande área do mar nos 
meses quentes (Novembro), quando faz bom tempo, pois 
não aparecem com "águas do monte". Para os pescadores, 
o "B u X i q u í" é uma calamidade, porque lhes impede 
a pescaria com rêde; os protozoários colam nos fios, sen- 
do quasi impossível tirá-los por 
mais que se lave a rêde e assim de- 
terminam o apodrecimento destas, 
que, valendo alguns contos de réis 
cada uma, representam a fortuna 
dos pescadores. Gabriel Soares gra- 
fou o vocábulo "Muciquí" e dá- 
Iho a acepção de "a 1 f o r r e c a s" 
ou "coroas de frade"; conta 
o precur.sor dos nossos naturalistas 
que em certas ocasiões êstes celen- 
terados dão à praia aos milhares e 
é bem o que hoje ainda se observa, 
às vezes, com relação às "Cara- 
vela s". 

Búzio _ ("Buzo" na Baía). Molusco do mar, 
de concha retorcida em forma de corneta e da qual os pes- 
cadores do mar se utilizam para dar sinais, (buzina; 
buccinum do latim). São Gasteropodes pro.sobrânquios da 
fam, Strombideoíi (gên. Strombus). A denominação indí- 
gena, correspondente é "A t a p ú" 




■o- 



Caba — E' palavra indígena, que designa as vespas 
em geral. Com o acréscimo de vários qualificativos, a 
êste radical, formaram-se as denominações de determi- 
nadas espécies: Caba-ussú ou "C a p u x ú", Caba-cininga 
ou "C a s s u n u n g a"; Caba-moatí ou "C a m o a t i m; 
Cuba piranga ou Caba-pitã, que deu "C a v a p i t ã". Nos 
Estados do Sul o qualificativo é anteposto: beijú-caba, ta- 
tú-caba, tatú-cava, tapiú-caua (repare-se nas variantes b, 
V, n, na palavra "c a b a"), ao passo que nos brasileirismos 
do Norte "c a b a" funciona como palavra brasileira, equi- 
valente a vespa ou marimbondo: caba (ou vespa) tatú, 
caba-cega, etc. 

A mais rica coleção de nomes específicos de vespas 
em tupi encontramos na lenda relatada por Barbosa Ro- 
drigues ("M u y r a k i t a n", Vol. I, pág. 36 e "P o r a n- 
d u b a Amazonense", pág. 308) : Tapiúcaua, Tam- 
batiácaua, Taconhacaua, Meiúcaua, Tatúcaua, Urubúcaua, 
Aturácaua, Liurácaua, Mbeiúcaua, (beijúcaba), latícaua. 
Na mesma lista figura, e em primeiro lugar, a "M a m a n- 
gaua" (ou será maman-caua?) , étimo interessante para 
documentar a origem da palavra "m a m a n g a b a" (ve- 
ja esta). 

Caba caçadeira — As vespas grandes da fam. Pom- 
Vilídeoft; veja "V e s p ã o". 

Caba camaleão — Vespa social da Amazónia (Clype- 
(ívia apicipevnis), cujo ninho é mais ou menos como o da 
vespa-tatú, porém mais delgado e comprido e, portanto, 
compáravel a um lacertílio. 

Caba cega — No Norte, o mesmo que "Beijú 
caba". 

Caba de ladrão — No alto Amazonas, o mesmo que 
''B e i j li - c a b a". "L a d r ã o", neste caso, alude somen- 
te aos hábitos da vespa. 

Caba mirim — Pequenas vespas sociais (Polyhia se- 
diila), ((lio, lia face inferior de folhas grandes, constroem 
mimosos ninhos comparáveis a uma fatia de pão, até 



— 178 — 



10 cms. de comprimento, com as células recobertas por 
um delicado teto, de uma sorte de mata-bori-ão. As ves- 
pinhas são tímidas e assim é fácil tirar o pouco mel que 
às vezes fabricam (mas, como se vê sob "V e s p a", o mel 
pode ser venenoso). Veja também sob "Enchuí" e 
"Sissuíra", 

Caba mutuca — Vespa social, (Purachartergus apica- 
lis), que na Amazónia tem tal nome; constróe o ninho 
em forma de garrafa, com o gargalo virado para baixo. 
A parede externa é áspera, enrugada. Os favos estão dis- 
postos de modo a simularem prateleiras, estando cada 
favo preso por um pedúnculo lateral ao galho-mestrc, ao 
qual também se fixa o ninho todo. A vespa é preta, só as 
azas têm pontas brancas; é assaz agressiva e a picada 
muito dolorosa. 

Caba de peixe — Vespa social, (Stelopolyhia viãga- 
ris), assim chamada na Amazónia, porque gosta de lamber 
o peixe e as carnes que estão para secar; faz seu ninho 
em árvores ócas ou em cupins abandonados. 

Caba piranga — Vespas vermelhas (como Polistes 
eanadensis, que em S. Paulo conhecemos por "Cabo- 
clo"). 

Caba tatií ou " V e s p a t a t ú" ou simplesmente "T a- 
tú" — Vespa social (Synocca cyanea) de 24 mms. de 
comprimento, azul-metálica, com azas brunas e algum de- 
senho avermelhado na cabeça. A construção do ninho 
tem forma de casco de tatú, preso ao tronco de uma árvore ; 
essa casca, semelhante a papelão grosseiro, é tóda ondula- 
da, rugosa. No interior ficam resguardadas as células, pre- 
sas diretamente ao tronco. São vespas temidas pela dôr 
que ocasiona a ferroada e pela braveza com que atacam. 
Veja-se também "I r i n a". 

Cabatã — Nome indígena do himenoptero social 
registrado no Dic. Apícola de D. Amaro van Emelen como 
"vespa, que os caboclos dizem ser nação valente". 

Cabeça de côco — Peixe do mar, em Pernambuco, de 
penúltima classe no mercado. 

Cabeça de ferro— Veja sob "A n u j á". 
Cabeça de pedra — Grandes aves assim denomina- 
das na Amazónia e "C a b e ç a s ê c a" em Mato Grosso. 

Cabeça de prego — São assim conhecidas, em várias 
regiões, as larvas dos mosquitos. 



— 179 



Cabeça sêca — Em Mato Grosso é denominação 
regional, dada à grande ave, mais geralmente conhecida 
no Sul por "Tuiuiú (Tantalus americunns) e na Ama- 
zónia por "Cabeça de pedra". 

Cabeça torta — Segundo Henrique Silva e, ao que 
parece, em Goiaz, designa uma tartaruga que difere da 
"Traça já" por ter o pescoço listado de preto e casco 
inferior vermelho. Os ovos são esféricos. O macho não 
difere da fêmea. A denominação "c a b e ç a t o r t a" in- 
dica que o pescoço é dobrado para o lado, característico 
da subordem Plenrodim, que abrange o maior número 
de espécies dos nossos quelônios conhecidos por "C á- 
ga d o s". 

Cabeçote — Segundo A. Neiva (Viagem Cient. pág. 
115) designam assim, em certas regiões do Nordeste, de- 
terminada espécie de Tcrmitideu (cupim), muito abun- 
dante onde existe e que ocasiona grandes devastações e 
prejuízos, invade as habitações e aí coíTÓe os arreios e 
outros utensílios; produz então um ruido perfeitamente 
perceptível e que trai sua presença (Veja sob "C u - 
p i m"). 

Cabeçote ou "C a b e ç u do" — Conquanto pouco vul- 
garizada, esta denominação, dada pelo povo, tanto em Por- 
tugal como também aqui em parte, às larvas dos batrá- 
quios, merece ampla divulgação, pois é, de fato, muito 
expressiva : a larva, cm sua fase mais típica, parece, essen- 
cialmente, uma grande cabeça com uma pequena cauda 
anexa. Assim substituo com vantagem o sinónimo de ori- 
gem erudita ou francesa, "G i r i n o", aliás .só usado pe- 
los letrados. (Segundo Aug. Vasconcelos, em "Mu.seus 
Escolares", 1918, o povo, em Portugal, conhece essas lar- 
vas também por: "Peixe cibeçudo", "Cagarralo", "Co- 
Iherudo", "Rapa colhér", "Colher", "Caganato" e "Car- 
tuxo"). O nos.so vocábulo "Cabeçudo" corresponde li- 
teralmente ao "têtard" do francês. 

Cabeçuda — E' na Amazónia, o nome de uma tarta- 
ruga da água dóce, Podocncmis dumeriliuna que, de fato, 
se distingue por ter a cabeça relativamente grande, com 
Ijíco de gavião respeitável, queixos exquisitamente tor- 
cidos e 6 fortes placas córneas em cima e nos lados; a 
couraça dorsal é forte, com as faces laterais decaindo 
íibrutamente. 

Cabeçudo — Veja sob "C h a r é u". 



^ 180 — 



Cabeludo ou "M a c a c o cabeludo" — E' o mes- 
mo que "Para u a c ú. 

Caboclo — Vespa Hocial, Polistes catiadensis (veja- 
se também sob "C a v a p i t a"), de côr vermelho-queima- 
do, medindo até 28 mms. de comprimento, mas no mesmo 
ninho há também espécimens bem menores. As azas são 
brunas ou mesmo negras; articulações dos pés amarela- 
das; antenas pretas no meio, o resto mais claro. O ninho 
é um favo sem invólucro, medindo às vezes até 15 cms. 
de diâmetro, pi-eso por um pedúnculo curto a um galho ou 
a uma pedra. Gostam de se abrigar debaixo de telheiros 
e do beiral das casas. São mansas e só em último caso se 
desprendem do ninho, para atacar quem vier molestá-las. 
Em começo do inverno abandonam o ninho, dissolvendo 
a sociedade e as fêmeas fecundadas procui-am um abrigo 
contra o frio; por isto, às vezes, encontramo-las no inver- 
no dentro de casa, lerdas e desorientadas. Na primavera 
seguinte dão início a um novo ninho, sozinhas, até que a 
nova prole as auxilie no trabalho. Há espécies um tanto 
semelhantes, mas de outro género (Mwchncyttarns), que 
se distinguem por terem pedúnculo abdominal muito mais 
comprido, formado pelos dois primeiros segmentos ab- 
dominais. 

Caboclinho — Várias espécies de passarinhos da fam. 
Fringillideos, do gên. Sporophila (veja "Papa-ca- 
p i m") ; em especial S. nigroaurantia, de côr castanho- 
parda, com vértice, cauda e azas pretas, estas com um 
espelho branco ; a fêmea é de côr parda mais clara e ama- 
relada no lado ventral. Encontra-se desde S. Paulo até a 
Amazónia. 

Caboré ou "C a b u r é" — Corujas miiu'isculas do gên. 
Glaucidmm. (Veja-se também "Cauré", que etimologi- 
carnente deverá ter outra interpretação, porém na Ama- 
zónia designam assim, ou melhor: "C a u a r é", o pequeno 
gavião "T e n t e n z i n h o") . Ao contrário do hábito ge- 
ral entre as corujas, os caburés são aves diurnas, que 
voam e caçam à luz do sol, como a "C o r u j a do c a m - 
p o ; porém, diversamente desta, vivem só entre o arvo- 
redo. A espécie mais vulgar cm todo o Brasil é Glauci- 
dmm brasthamim, que mede apenas 13 cms. de comprimen- 
to. A côr em cima é bruna, com manchas claras, amare- 
ladas o brancas ; o lado ventral é claro com estrias longi- 
tudinais ; a cauda, quasi preta, tem manchas brancas São 
habitantes das matas e, apesar de serem os pigmeus da 



— 181 — 



família, são caçadores valentes. Assim, entre as poucas 
observações autênticas rejjistradas, foi presenciada a luta 
de um caboré com um macuco, sendo êste vencido pela 
pequena coruja, após breve, mas encarniçada peleja. 

Caboré do campo — O mesmo que "Coruja do 
c a m p o". 

Caboré do sol — Denominação amazônica, registrada 
por Goeldi no "Álbum das Aves Amazônicas" e aplicada 
aí ao Glaucidhcm puniilum. Êste nome caberia melhor à 
espécie do outro género, Speotito, a "C o r u j a do c a m - 
p o" do Sul, pois que os caborés vivem de preferência na 
mata; aquela, porém, não existe na Amazónia e "sol", 
portanto, tem apenas a significação de "luz", porque esta 
coruja não é noturna. 

Caborge — Peixe do rio Paraíba (Alagoas). O Dr. 
A. Lutz classifica, sob êste nome, o peixe do rio S. Fran- 
cisco, Doras marmoratus, da mesma família do "C u i ú- 
c u i ú" ou "Abotoa d o". 

Cabo-vcrde — Nome bastante generalizado de uma 
mutuca de vasta distribuição por quasi toda a América 
do Sul, Lepidosekiíja crassipefí, muito característica, de 
colorido inteiramente verde, uniforme; os tarsos são bran- 
cos e as azas, brunas, têm triângulo apical e bordo interno 
claros. Antes de sugar é arisca, mas, quando repleta, 
torna-se muito lerda; é mais frequente à beira dos rios. 
A espécie L. lepidota é mais escura. Veja-se a parte ge- 
ral sob "Mutue a". ' ' 



Cabrinha — Peixes do mar da fani. Triglídeos, gên. 
Priouotus, de cabeça óssea, estriada, granulosa e com 




íicúleos; caracteriza-os bem a transformação que sofre- 
ram os três primeiros raios da peitoral, que são como que 
pernas, com que o peixe caminha sobre o fundo arenoso 



— 182 — 



e, mais do que isso, servem-ihe de verdadeiros dedos, com 
os quais êsses peixes reviram pequenas pedras, em pro- 
cura de alimento que ali encontram escondido, como sejam 
vermes e crustáceos. Também Perintedion merece o mes- 
mo nome vulgar, mas êste é peixe do mar fundo. 

Cabuçu — Talvez "Capuxú" seja a mesma coisa 
("grande vespa social") em tupi. 

Cação — Designa os seláquios pequenos e médios, 
que têm aberturas branquiais laterais e corpo de feitio 
pisciforme (ao contrário das "Raia s", com aberturas 
branquiais inferiores e corpo chato) ; ai)lica-se, pois, aos 
PleivrotremadoH em geral, que não tenham nomes espe- 
ciais. Parece ser têrmo quasi equivalente a "E s q u a 1 o" 
(palavra erudita e não do povo) ; "Tubarão", em Por- 
tugal, designa apenas a espécie aqui conhecida por "A n e- 
q u i m"; hoje, o povo em todo o Brasil tende a dar acepção 




mais ampla ao vocábulo e assim um cação grande é um 
pequeno tubarão e com êste último nome são designados 
apenas os seláquios máximos e antropófagos. 

Esta acepção ressalta bem do seguinte emprego dado 
ao termo por Vicente de Carvalho, que era não só o 
"poeta do mar", mas também emérito pescador. Em "Pá- 
ginas soltas", I, pag. 25 lê-se: "um cambeva, grande como 
um pau de canôa. Era um cação que era um bicho". 

Na Baía chamam "Mãe c a ç ã o" à mãe que é sem- 
pre má para com seus filhos. Em Pernambuco tomámos 
nota das seguintes denominações especificas: "Cação 
j a g u a r a" (talvez sinónimo de "t i n t u r e i r a") , "a n- 
galista", "sicurí". "fidalgo" ou "flamen- 
go , c a v a 1 a", "v i o 1 a", "p a n ã", "lixa de 
e s c ama, "d e e s p i n h o". A carne de todas as es- 
pécies e de ínfima qualidade. 

Cação anjo — Seláquio (Squatma squatina). E' em 
nossos mares o iinico esqualo de corpo achatado, que tem 



— 183 — 



o lóbulo inferior da cauda maior que o superior; a base 
anterior da nadadeira peitoral é livre e a cabeça tem vá- 
rios tubérculos. Atinge no máximo l^.TO de compri- 
mento. E' vivíparo e bastante comum, sendo aliás espé- 
cie cosmopolita. 

Cação bagre — Seláquio (Squahis blainvillei) . Além 
do "C a ç ã o a n j o", só êste e uma espécie afim (Isistius 
brasiliensis) são desprovidos de nadadeira anal. Squahis 
tem um acúleo em cada uma das duas nadadeiras dorsais, 
acúleos êstes que faltam ao Isistms. A côr é pardacenta 
em cima, branco-amarelada inferiormente; não chega a 
medir 2 palmos e habita águas pouco profundas. 

No entanto são muito prejudiciais à pesca, não só 
porque devoram grande quantidade de peixe, como por- 
que danificam as redes. Sua carne é de qualidade inferior. 

Cação do fundo ou "Cação perú" ou "Serra 
g a r o u p a" — E' o seláquio Carcharias limbatus, que não 
só atinge grande desenvolvimento, como também é muito 
bem sei'VÍdo de dentes, pelo que fica incluído na lista dos 
antropófagos. Ao mesmo género pertencem mais duas 
espécies, C. henlei e conimersonii, aliás também pouco 
conhecidas ; são comparáveis à "Tintureira", porém 
menores, com 3 a 4 metros de comprimento. 

Cação-lixa — Seláquio (Ghiglymostoma cirratum). 
Nos outros esqualos as 5 aberturas branquiais acham-se 
todas igualmente afastadas entre si; nesta espécie as 
duas últimas são contíguas e é quanto basta para reco- 
nhecê-la; seu nome provém da aspereza da pele, aliás 
das mais adequadas para a fabricação do couro-lixa. 

Cação panã — E' em Pernambuco o nome de uma 
espécie, para cuja classificação não obtivemos material. 

Cação perú — O mesmo que "Cação do f u n d o". 

Caçarema — Formiga da sub-fam. Dolichodcrineos 
(Azteca chnrtifex var. spiriti), que na Baía se encontra 
com certa frequência nos cacaueiros. Seu ninho asseme- 
Iha-se ao dos cupins arbóreos; além da casa central, têm 
sempre guaridas menores, frequentadas só pelas obreiras. 
Dizem uns que a formiga é útil à planta; outros têm-na 
como nociva. Porém o que se dá é o seguinte: as Caçare- 
mas percorrem as árvores em procura dos coccídeos e 
tripsídeoa, para sugar-lhes as secreções, como aliás o fa- 
zem muitas outras formigas. Elas assim, dii-etamente, 
não têm influência sobre o vegetal; todo o mal provém 



— 184 — 

dos parasitas, às vezes extremamente prejudiciais às 
plantas. Resta averiguar, ao certo, até que ponto as for- 
migas são responsáveis pela proliferação de tais para- 
sitas e quais os cuidados e a proteção que dispensam a 
êste seu gado leiteiro. Confronte-se também "Pi chi- 
chi ca". 

Caçarema grande — Por êste nome ou também como 
"Formiga mole"é conhecida na Baía uma outra es- 
pécie (Dolichoderes bidens), à qual são igualmente atri- 
buídos certos malefícios causados ao cacaueiro. (Veja-se 
a precedente). 

Caçaroba ou " P i ç u r o b a " — O mesmo que 
"Pomba amargos a". 

Cachalote — Cetáceo da subordem OdniUocetos, fam. 
Physeterideos, Physeter viacrocephulus. Monstruoso ma- 
mífero marinho, de 24 metros de comprimento e que às 




Cachalote 



vezes aparece em nossas costas, como em quasi todos os 
mares quentes e temperados. A cabeça é (juadrada, trun- 
cada na frente e perfaz quasi um terço do comprimento 
total. Ao contrário das baleias, que até certo ponto são 
tímidas, o cachalote é valente e atrevido, \^c\o que sua 
caça é perigosa. Só o maxilar inferior é i)rovido de den- 
tes, aliás gros.sos, cónicos, de 10 cms. de comprimento. 

Quando o animal quer atacar inimigos maiores, um 
homem ou um bote, êle precisa virar-se de costas, como 
os tubarões, para poder valer-se dos dentes. Vive quasi 
exclusivamente de polvos. Rende espermacete, óleo e o 
âmbar cinzento, tão apreciado em perfumaria. 

Cacharréu — Na Baía o mesmo que "Cachalote" 
(Segundo o Almirante Camara é "b a 1 e i a - m a c h o 
adulto"; mas parece que há engano) . 



Cacheta — Registrado no "Dic. Apícola" de D. Ama- 
ro van Enielen, baseado em Escragnolle Taunay, como 
sendo "abelha cujo mel é preferido a qualquer outro pe- 
los mato-grossenses". Não lhe conhecemos a classifica- 
ção científica. 

Cachimbo — No Estado do Espírito Santo é uma es- 
pécie de coral que dá nas praias (Mvfm hurtti) e que é 
utilizado para a fabricação de cal. 

Cachimbo — O mesmo que "T i c o - 1 i c o do b í r í". 

Cachinche — Denominação local, em Saquarema 
(Est. do Rio de Janeiro), do "C a x i n g u el ê". A cor- 
ruptela não só abreviou a palavra, como deu feição bra- 
sileira ao vocábulo afiicano. 

Cachinguí — Segundo .1. Gonçalves é denominação 
dada ao "R a t ã o d' á g u a". 

Cachorrinho — Em Minas Gerais, segundo Alvares 
Rubião, é o nome de um i)equeno peixe de couro, prova- 
velmente pertencente ao grupo das "Cambevas". No 
Pará, Belém, êsse mesmo nome cabe à espécie mais co- 
nhecida por "A nu já" (Veja-sc êste e também "Cum- 
b a c a". 

Cachorro-aô — No litoral do Sul do Estado de São 
Paulo designa um pequeno mamífero, talvez Grison vit- 
tatiíK; veja-se "F u r ã o". Esta é a opinião de A. Neiva, 
que coligiu o vocábulo. Si "aô" for onomatopaico, deve 
referir-se a um verdadeiro canídeo. 

Cachorro da areia — Denominação cearense dos 
grilos-toupciras, conhecidos no Sul por "p aqui nhãs" 
e também "Cachorrinho d' á g u a". 

Cachorro do mato — Compreende genericamente, as 
várias espécies de carnívoros da fam. Cunideos do gên. 
Canis. Como designação esiiecífica, o nome refere-se a 
Canis thoKs, que efetivamente vive de preferência na 
mata. A côr predominante desta espécie é pardo-cinzenta 
ou cinzento-amareladu; no dorso e na cauda prevalece a 
côr preta, assim como no focinho o na garganta. Ali- 
menta-se de pequenos mamíferos, aves e às vezes, também, 
de quaisquer outros bichos menores. 

Têm o mesmo nome vulgar as duas espécies do gên. 
Speothos, o qual difere do gên. Covis por terem essas es- 
pécies só 1 dente molar superior e 2 molares inferiores 
(Canis tem ao todo 42 dentes, segundo a fórmula se- 



— 186 — 



guinte: Ht"!' passo que em Speothos a dentadura 
compreende 38 dentes) ; a cauda é antes achatada. Sp, 
venaticus é ruivo, com barriga, cauda e pernas denegri- 
das; S. ivhKjei é um pouco maior, do tamanho do "gua- 
rá c h a i m" e de côr mais clara, ruivo-amarelada. Mas 
estas duas últimas espécies são bastante raras e por isto 




Cachorro do mato 



pouco conhecidas. Na Amazónia, onde tem o nome "J a- 
nauí" ou "Janauaíra", vivem em bandos numero- 
sos e, como são valentes, tornam-se perigosos para os 
cães de caça, quando êstes os vão descobrir nas tocas, 
cavadas nos barrancos. Veja-se também sob "J aguará- 
c a m b é". 

Caçote — De Pernambuco ao Ceará, designa os ba- 
tráquios menores, equivalendo mais ou menos à "rã" da 
nomenclatura sulina. Esta, ])orém, inclue espécies maiores, 
que no Nordeste são as "g i a s". 

Caçuirova — Pomba, aliás mais conhecida por 
"Pomba amargos a" (veja esta) . O nome indígena, 
também pronunciado "Caçaroba" e "Saroba", tra- 
duz-se igualmente como: pomba grande amarga (piciií 
é o nome genérico das pombas; picuí-assú ou picassú é a 
pomba legítima; rob — significa amargo). 

Cafife — Veja sob "Neném de galinha". 



— 187 — 



Cágado — são os répteis da ordem dos Qitelônios, em 
especial os do gêii. Hydrtíspis, Hydroni eclusa e Platemys, 
da água doce, abi-angendo ao todo umas 12 espécies da 
fam. Chelijideos. As espécies marinhas da mesma ordem 
são "tartaruga s" (veja-se aí a parte geral) . 

No Brasil meridional os quelônios não têm valor eco- 
nómico comparável ao das várias espécies da Amazónia, 
tão api-eciadas como fino manjar. E' interessante obser- 
var como os cágados engolem bocados menores, quando 
estão nadando; fazem-no como nós, que ingerimos um 




grande gole d'água, para fazer passar uma cápsula ou 
drágea maior pelo esôfago. Mas o cágado tem a facul- 
dade de regorgitar a água desnecessária, depois de tê-la 
utilizado como veículo. Em Mato Grosso, "Cágado" 
designa unicamente a espécie que nos demais Estados 
do Brasil é conhecida por "J abo ti". Em Portugal, o 
povo emprega também a denominação "Sapo concho" 
como sinónimo de cágado; entre nós aquele nome é intei- 
ramente desconhecido. 

Caga-fogo ou "Barra-fogo" — Abelha social 
da, fam. Meliponideos, Trigona cagafogo, de. 5 a 5,5 mms. 
de comprimento, cabeça e abdómen ferrugíneos e o resto 
do corpo preto. O ninho acha-se em troncos ócos e a 
entrada é uma simples fenda, o que está de acordo com 



— 188 - 



a índole agressiva desta espécie. As abelhas tímidas, in- 
defesas, fazem portais grandes, com várias entradas pe- 
quenas, que podem ser fechadas. A presente abelha faz 
uma entrada simples e ampla, porque é bravia e, quando 
morde, segrega um líquido cáustico, que arde como fogo 
(daí o seu nome) ; dizem que ataca também as colmeias 
das abelhas do reino, para roubar o mel, como aliás o 
fazem algumas outras espécies, igualmente valentes. 

Caga-fogo — Em Pernambuco e no Ceai*á, como tam- 
bém em Portugal, designa os " V a g a 1 u m e s", 

Caga-fogo — Formiga conhecida também por "L a- 
V a p é s. 

Caga-sebo — Vários passarinhos da fam. Tyranni- 
deos, pequenos, de colorido pouco vistoso e que facilmente 
se confunde com a vegetação: bruno, cinzento, esverdea- 
do ou amarelado. A espécie que em S. Paulo mais geral- 
mente tem êsse nome é Miiiobiits fasciatut! e também vá- 
rias espécies de EiiHcarthmua. A denominação corres- 
pondente indígena é "Tacurí". Impropriamente também 
chamam assim a "Ca mb a cie a". Grupo aliado a êste 
é o das "Guaracavas". 

Cagassebinho — Passarinhos da fam. Tijrannideos, 
semelhantes às espécies acima mencionadas, porém me- 
nores, tais como as do gên. Pln/Uinnyiitíf. 

Caiacôco — Veja sob "Bagre caiacòco". 

Caiacú — Peixe do mar, que vimos no mercado de 
Recife, mas que no momento não pudemos identificar. 

Caiarara — Símios do gên. Cehiis, da Amazónia, 
correspondendo, pois, aos "M i co s" do Sul. C. capucimis 
tem mãos brunas, C. alhifnms, mãos claras e em ambos 
a barba também é clara. Goeldi grafou "Sai arara"; 
uma espécie congénere chama-se "S a i t a u á"; "Saá" 
é em tupi a raiz de vários outros nomes de símios, bem co- 
mo "Caí", como aliás grafou Montoya. 

Caiçaca — Denominação tupi dada, segundo Afrâ- 
nio do Amaral, à "J a r a r a c a" Luchesis atrox, no Sul 
da Baía, Espírito Santo e Rio de Janeiro. 

Caicanha ou " C a r c a n h a " — Peixe do mar, 
Genyatvemus lutam, da fam. líaermãideos (veja-se "C o r - 
coroe a"). Caracteriza-o a feição da região occípito- 
cervical em quilha, de perfil conve.xo até o alto da cabeça, 
região frontal quasi quadrangular e daí descendo abrup- 
tamente até os lábios. A côr do dorso é azulada, a da 



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parte inferior argênteo-amarelada ; as manchas escuras 
do centro das escamas formam estrias longitudinais di- 
fusas. E' peixe comum, porém de pouco valor comercial; 
atinge 30 cms. de comprimento ou pouco mais. 

Caiçara — Veja sob "Sardinha de gato". 

Calco — Segundo Rodolfo Garcia (Dic. Brasileiris- 
mos) : "peixe pequeno, sêco e salgado. Sertões de Per- 
nambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte". Por essa de- 
finição parece que o vocábulo não tem valor classificativo, 
mas é usado em acepção semelhante a "M u 1 a t o v e - 
1 h o", (veja-se êste) do Rio Gi-ande do Sul. Mas infor- 
maram-nos que no sertão da Paraíba o"Caíco"é um 
peixe pequeno, com feri'ão. 

Caitetú ou "Caetetú", "Gatêto", "T a tê to" — 
Porco do mato (veja-se êste). E' a espécie menor, Ta- 
yansu tayassii, de 90 cms. de comprimento, caracterizado 
pelo colar branco que envolve o pescoço, do peito às costas ; 
o resto do coi'po é pardacento, abundantemente salpicado 
de branco. Nos seus hábitos pouco difere da espécie con- 
génere, maior, "Queixada" (Tai/ansii albirostris). 
Registramos aqui, copiando de João Ribeiro (Língua Na- 
cional, i)ág. 235), o provérbio mineiro, muito expressivo 
e a cujo fundamento nos referimos sob "Porco do 
mato"; "Caitetú fora da manada cai no papo da onça". 

Caixa de marimbondo — São os ninhos da.s vespas 
sociais em geral, mas especialmente os que são revestidos 
de coberta (phrafiDioci/fíiaros). Têm nomes especiais 
apenas algumas, como as vespas "t a t ú" ou "de cha- 
péus" ou "beijú", nomes escolhidos de acordo com o 
feitio dos ninhos. A "caixa" mais comum e que frequen- 
temente se vê nos beirais das casas ou nas janelas, ha- 
bitada por vespinhas pretas com duas manchas amarelas 
nas costas, é a "c a m o a t i m". São poucos os ninhos 
de vespa que contém mel; êste, porém, muitas vezes é 
venenoso, produzindo uma sorte de embriaguez ou alie- 
nação passageira. Muito conhecido é o ditado roceiro, 
que exprime bem o receio do caipira de se aproximar dos 
vespeiros: "laranja madura na beira de estrada, ou é 
azêda ou tem caixa de marimbondo no pé" (o que é bom 
e fácil de alcançar, já tem dono). 

E' sabido quanto é desagradável, para não dizer pe- 
rigoso, esbarrar inopinadamente em um vespeiro dissimu- 
lado entre a folhagem. Quando o mato o permite, basta dar 
de pernas, procurando correr por entre a ramagem, de 



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modo a dificultar aos insetos a perseguição, às vezes pro- 
longada. Outro estratagema aconselha P. le Cointe e só o 
repetimos, porque êsse autor do belo livro "L'Amazonie 
bresilienne" (1922) é emérito conhecedor do assunto. Diz 
êle: "No mato o melhor que se tem a fazer, é dar um 
pulo para o lado e atirar-se ao chão, abrigando a cara 
entre os braços e ficar imóvel, até que o bando dos ini- 
migos se tenha dispersado; as vespas nunca atacam quem 
se finge de morto". 

Ao contrário de todos os outros seres, que sempre 
evitam, o quanto possível, a perigosa vizinhança dos ves- 
peiros, há certos pássaros que, muito de propósito, dêles 
se aproximam. E' junto às caixas de marimbondo, do gên. 
Chartergus, (vespas sociais bastante irritadiças) que al- 
gumas espécies de Tyrannideos do gên. Rhynchocydus 
(veja "F e r r e i r i n h o") gostam de construir seus ni- 
nhos. Como o fato já foi observado repetidas vezes, pa- 
rece que se pode concluir que êsse hábito tem por fim ga- 
rantir a postura do passarinho, graças à defesa que assim, 
indiretamentc, lhe dispensarão as vespas, por todos te- 
midas. Igual fato registrámos também com relação aos 
"J a p i n s" (veja êstes). Diga-se, embora, que é por 
mero instinto que a ave assim procede, mas o caso dá que 
pensar... Talvez haja quem discorde, citando-nos o tre- 
cho desconcertante de A. Ducke (Boi. Mus. Goeldi, vol. IV 
pág. 679) : Certa vespa constróe ninho alongado na vi- 
zinhança dos ninhos de japins, mas dá forma arredon- 
dada à sua construção, quando se acha perto de formi- 
gueiros cujos ninhos são esféricos. 

Calafate — Peixe do mar, registrado em pequena 
quantidade na lista do pescado de Paranaguá (cm quan- 
tidade igual à do linguado e da solteira). 

Calamar — (Em italiano: calamaio, isto é, tinteiro, 
em alusão à sépia). Os moluscos Cephalovodes, da fam. 
LoliginideoK. São os polvos comestíveis com 8 braços. 
As espécies mais frequentes nos nossos mares são Loligo 
brasiliennis e Luliguncula brevis, que se caracterizam 
pela feição da siba, parecida com uma pena de galinha, 
transparente. 

No sul do Brasil ocorre também e espécie argenti- 
na OmmastrepheH hartrami. 

O corpo é alongado (ao passo que nos verdadeiros 
polvos tem feitio de um saco) e, além dos 4 pares de ten- 
taculos regulares, possue ainda um par mais fino e mais 



— 191 — 



longo. A verdadeira Scpia, parecida com estas espécies 
e da qual provem a "siba" que se dá aos canários, é 
de família afim, que não ocorre em nossos mares (Sépia 
officinalis, denominada 
"Choco" em Portu- 
gal). (Veja-se também 
"Lula"). 

Calango — Na Baía 
é o mesmo que "Tara- 
guira". No Maranhão, 
conforme descrição de 
Wilson da Costa, é um 
Igiianideo do mato, que 
vive só no chão e cujo 
colorido, adeante azul, 
atrás verde, com linhas 
negras, o distingue dos 
demais. Goeldi o P. le 
C o i n t e identificam o 
"Calango" da Ama- 
zónia com Tropidurus 
torquatus (que é a típica 
"T a r a g u i r a"). 

Também Rod. Gar- 
cia (Dic. Brasileirismos. 
Pernambuco), como Wil- 
son Costa, não concor- 
da com tal classifica- 
ção do calango. E', pois, evidente que nessas duas regiões 
do Norte a palavra tem aplicação zoológica diferen- 
te e, portanto, só à vista de espécimens autênticos a 
questão poderá ser elucidada. Na Paraíba a graduação 
por tamanho é a seguinte: teju, lagarto, tigibú, calango 
e víbora (aliás pronunciado: "b r i b a"), que é o menor 
lacertílio. "Calango bico doce"éda região do 
brejo, maior que o do sertão. 

J. de Alencar e Macedo Soai-es (Dicionário) grafa- 
ram "Calangro", aliás vício de pronúncia. 

Calango — Peixe do mar, cm Pernambuco, aliás sem 
cotação 110 mercado; o nome foi bem escolhido, pois o 
peixe tem muita semelhança com um réptil. Talvez seja 
«inõnimo dc "L a g a r t o do ma r" (veja êste) . 

Caldeirão — Mencionado como sinónimo dc "B ô t o'' 
no Rio Grande do Sul. 




Calamar. Ao lado a pluma 



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Calhandra — Nome de pássai-o europeu, também 
chamado "cotovia". Entre nós há quem designe assim 
o "Sabiá poca" (Mimus saturninus). 

Calorim — Veja sob "Pa vacar é". 

Calunga— Na Baía equivale a "C a m o n d o n g o". 

Calunga — Denominação regional, no nordeste bra- 
sileiro, das lavandeiras (Libélulas). 

Camaleão — (Palavra de origem grega) ou antes 
"Camaleão grande", "Papa vento" ou "Si- 
nimbu", no Brasil central, ou ainda "Preguiça". 
Abrange vários réptis um tanto semelhantes aos lagartos, 
Lacertílios da fam. Iguanideos. A maior das nossas es- 




pécies é Iguana tnhercvlata, que atinge quasi 2 metros 
de comprimento (190 cms.) ; a cabeça é grande, triangular 
e tem um saco guiar, que o animal estufa quando irritado, 
assim como levanta as pontas da crista, que lhe vai da 
nuca até a cauda, onde os dentes dêsse longo pente se 
tornam sucessivamente menores. Os dedos, tanto da mão 
como do pé, são enormes; a cauda excede o comprimento 
do corpo. A côr predominante é verde, manchada de 
azul, verde-escuro e pardo; a cauda tem faixas transver- 
sais. Em certas regiões do nordeste brasileiro, dão-lhe 
o nome de "preguiça", pelo fato do animal não fugir, 
mas pretender, imobilizado, fazer-se confuiulir com a fo- 
lhagem. Mas são lestos e ágeis, tanto nos galhos das ár- 
vores como na água, nadando e mergulhando com per- 
feição. Alimentam-se não só de vegetais e insetos, como 
também de outros pequenos animais que possam sub- 
jugar. Quando atacados pelo homem sem poder fugir, 



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avançam com coragem e, si conseguem fincar os dentes, 
cerram a bôca e não largam mais. Mas quem os caça, 
leva para casa mais do que uma galinha, no peso e na 
qualidade da carne, que é das mais delicadas. Também 
os ovos são apreciados; i'egulando em tamanho com os 
de pomba, são porém elásticos e inquebrâveis e encon- 
tram-se em número de 15 a 30 em cada postura, deposi- 
tada simplesmente na areia; contêm quasi só gema, que 
não endurece ao ferver. 

Têm ainda o mesmo nome as espécies do género 
Polychrus, um tanto semelhantes, mas que não têm crista. 
Outros papaventos são bem menores. 

O nome "Camaleão" (do grego, que em latim 
deu Chamaeleon) ou "C a m e 1 e ã o" como se diz tam- 
bém em Portugal, designa propriamente as espécies de 
uma família de saurios estranhos à nossa fauna e que ha- 
bitam o sul da Europa, o Norte da África e a índia. Ca- 
racterizam-nos, além de vários outros dados anatómicos, 
o feitio da língua muito longa (15 a 20 cms.) e terminada 
em uma porção glandiforme, que efetua a apreensão dos 
insetos de que se alimentam. Foi nessas espécies que 
primeiro se observou a curiosa faculdade que tem sua 
pele, de mudar de côr, de acordo com o colorido do am- 
biente. Aplicando, pois, tal denominação às espécies da 
nossa fauna, muito diversas daquelas, cometeram os pri- 
meiros obsei'vadores o mesmo erro, que também em tan- 
tos outros casos ocasionou confusões de nomenclatura, 
quando empregada por vaga analogia. Nossos "Sinim- 
b ú s", como em tupi foram denominados os grandes la- 
certílios da fam. Igiianidcos, têm, como os verdadeiros 
Chamaelcontideos, a mesma propriedade de mudar de côr, 
adaptando-a ao ambiente. 

Camaleão comum — Espécies um tanto semelhantes 
à precedente, porém menores, atingindo apenas 50 ou 
60 cms., sem crista dorsal e saco guiar muito reduzido. 
A côr ó verde. Vivem sóbre as árvores, de preferência 
nos galhos recurvados sóbre os rios e, ao menor ruído 
suspeito, deixam-se cair, para mergulhar e reaparecer 
mais longe. Usurpam ainda o mesmo nome as várias 
espécies de Enyalius e Ophryocssa, que alcançam apenas 
30 ou 40 cms, Veja-se também sob "T i g i b ú". 

Camarão — As muitas espécies de crustáceos, a que 
se dá êste nome, são Decapodes Macruros; tais denomi- 
nações gregas lhes cabem por terem 10 pernas a contar 



— 194 



da primeira unha provida de pinça e por ser o abdómen 
estirado e não dobrado por baixo da carapaça, como nos 
carangueijos. Os verdadeiros camarões, que se compram 
no mercado, pertencem a três espécies marinhas, da fam. 
Fenaeideos. Há duas espécies que atingem 20cms. de 
comprimento, ambas com o rostro reto e serrilhado em 
cima com 8-11 farpas, em baixo só com 2. Um dêles o 
"camarão rosa", Peimeus brasiliensis , tem a crista 
mediana do cefalotórax ladeada por dois sulcos, que atin- 
gem quasi o bordo posterior, ao passo que o "camarão 
b r a n c o", "do 1 i x o" ou "1 e g 1 1 i m o", Penaeus seti- 
ferus, tem a crista mediana mais curta e não há sulco 
lateral. Em Pernambuco estas duas espécies são conheci- 
das por "v i 1 a f r a n c a" e "c a b o cl o". Uma tercei- 
ra espécie, P. (Xiphopenaeus) kroyeri, ©"camarão de 




CamarSo 



areia" ou "ferro" ou "sete barbas", é bem 
menor, atingindo apenas 7 a 8 cms. de comprimento; seu 
rostro é encurvado para cima na ponta e tem 6 a 7 farpas 
em cima e nenhuma em baixo ; esta espécie tem muito me- 
nor valor no mercado. Dos camarões grandes, 25 pesam 
um quilo; mas fervidos e descascados, perdem metade do 
peso. 

Na estatística do pescado brasileiro, os camai'ões figu- 
ram quasi sempre com quantidade igual ou superior à do 
peixe mais abundante. Também a indústria da conserva 
aproveita^ largamente esta riqueza natural ; mas, infeliz- 
mente, são enlatados os exemplares mínimos, dos quais 
600 são necessários para perfazer um quilo de mercadoria. 
Alem disto, o camarão sêco constitue artigo de vultuoso 
comercio. Cozinha-se em água do mar, adicionada de 150 
grs. de sal por quilo de camarão; tendo fervido por espaço 
de 20 minutos, escorre-se e põe-se a secar durante 2 ou 3 
dias. Da boa secagem depende a qualidade da mercado- 
ria e sua boa conservação. Afamados são os camarões 



— 195 — 



sêcos (lo Maranhão e do Paraná. No Sul do país estão 
localizadas as principais fábricas de conserva enlatada 
e durante a safra, que se restringe aos primeiros meses 
do ano, são manipuladas muitas toneladas dêstes crus- 
táceos. 

A evolução dos camarões do mar é diferente da das 
espécies da água doce (Puluemonideos) e das lagostas 
(Paliniirideos). Ao passo que as fêmeas dêstes mantêm 
os ovos pi-esos aos pêlos dos pés abdominais, durante o 
tempo suficiente para que a larva saia da casca em estado 
de metamorfose mais adeantada, nos camarões (Penaei- 
dcos) a eclosão se dá numa fase muito rudimentar e o 
minúsculo e frágil "n a u p 1 i u s" ainda deve passar pela 
fase de "zoéa" e " mis is", para só então adquirir se- 
melhança com os adultos. 

Afirmou um biólogo norteamericano que os camarões 
morrem depois da primeira desova, atingindo todos, por- 
tanto, no máximo, 12 meses de idade; mas por ora não 
foram feitos estudos concludentes, o que dificulta a boa re- 
gulamentação de tão valiosa pescaria. 

Nos Estados Unidos as boas espécies conhecidas por 
"shrimp" são as mesmas acima descritas; na Europa, 
porém, elas não existem, correspondendo-lhes a "cre- 
V e t t e" dos franceses (Palacmon serratns) e Cangron 
vidgaris, que não fica vermelho depois de cozido; ambos 
não atingem dimensões maiores que as do nosso pequeno 
"camarão de areia". Só no Mediterrâneo há es- 
pécies maiores. 

Camarão da água doce — Mais conhecido por "P i t ú" 
(ou "Potiassú" do índio nordestino). Pertence à 
fam. Palacnionideos e as 6 espécies brasileiras são do gên. 
Bifhyms. Seu colorido varia conforme a côr do fundo 
(lo riacho ou da vegetação aquática onde se abrigam. 
Veja-se também sob "Lagosta da água doce", 
nome êste com que os pescadores apregoam os espécimens 
maiores de Bithynis jumaicensis, aliás a espécie de mais 
Vasta distribuição i)or toda a América do Sul e que chega 
a medir 20cms. de comprimento, exclusive as grandes 
tenazes. Veja-se também sob "Aviú". 

Camarupim ou "C a m u r u p í" — ou também "C a n - 
j u r u p i m", "C angu r u p í" e "C a m u r i - p i m" 
do Ceará ao Maranhão e "P i r a p e m a" no Pará, é um 
grande peixe das águas tropicais do Atlântico, Tarpon 
nthtnticus, gigante entre os Clupcoides, a que também 



196 — 



pertencem as sardinhas, pois cresce até pouco mais de 2 
metros de comprimento, pesando entíio 160 quilos. (Hor- 
naday, 383 lib.) Tais medidas extremas ainda não vimos 
assinaladas com relação a espécimens brasileiros; consta- 
nos, ao contrário, que o seu peso médio, no Atlântico Sul 
é apenas de 20 quilos. Suas feições são bem as das sar- 
dinhas comuns, fugindo, porém, à delicadeza da estru- 
tura destas. O maxilar inferior, ainda que enorme, tem 
o feitio caractei*ístico e da mesma forma o colorido é o 
usual entre as sardinhas: o dorso é azul intenso, os flan- 
cos são de prata brunida. A nadadeira dorsal tem os 
últimos ráios prolongados em flâmula comprida. Notá- 
vel é a dimensão das escamas, que, medidas no espéci- 
men "record", .são de 8,5 por lOcms. (Hornaday). Tais 
escamas no Norte (Maranhão e Rio Grande do Norte) 
são aproveitadas para confecção de lindas floi-es artifi- 
ciais, como aliás em Santa Catarina as senhoras o fazem, 
empregando outras escamas alvas, porém menores e que 
são montadas sobre fios de prata, imitando flores. 

Do ponto de vista prático, culinário, o Camarupim é 
peixe discutível. Sem dúvida os exemplares ainda peque- 
nos, os "pemas", têm carne flácida com muitas espinhas; 
nos muitos velhos, ela é grosseira, mas o fato é que o 
nordestino, principalmente, o aprecia imenso. Também 
nos Est. Unidos as opiniões divergem bastante, o que não 
impede que os veranistas, nas praias do Golfo do México 
tenham elevado a captura do "tarpon" ou "rei de prata" 
como lá o chamam, a um esporte todo especial, regulamen- 
tado e com prémio de campeonato. O camarupim prefere 
as águas rasas, mornas e, rente com o nível, êle gosa o 
calor do sol. Gosta também de imitar o bôto, pulando 
como este e mostrando às vezes todo o corpo fora d'água. 
Mas do avistar o peixe ao pegá-lo, quasi sempre decorrem 
horas tão longas, que é preciso ser pescador deveras, 
para não perder a paciência, antes que o camarupim se 
resolva a abocanhar a isca, em geral uma tainha inteira. 

Com a ferramenta i-egulamentar, isto é vara leve, 
de 2 metros, carretilha e linha n." 24 com quasi 200 me- 
tros de comprimento, é bem trabalhoso e difícil dominar 
êsse peixe, que pula muito e assim escapa facilmente. 
Como nos outros concursos de pesca, são levados em 
conta não só a habilidade, como o tempo empregado, do 
momento de "ferrar" até tirar o peixe d'água. 

O camarupim passa por uma fase larval muito in- 
teressante, mudando de feitio e até diminuindo de com- 



— 197 - 



primento. Cria-se bem nos viveiros, de água salobra ou 
mesmo doce, mas nunca se multiplica nesse ambiente. 

Na Paraíba os exemplares menores, com menos de 
3 palmos de comprimento, são conhecidos por "P e m a", 
o que aliás é interessante do ponto de vista linguístico. 

Cambacica ou "Mariquita" — Passarinho da 
fam. CoerebideoH, CQercha chloropyga, afim aos "Saís". 
A côr é cinzenta em cima, o vértice mais escuro e o dorso 
posterior verde-amarelo. A garganta e uma estiúa sôbre 
os olhos e as pontas da cauda são brancas; a barriga é 
amarela. Habita todo o Brasil, de Norte a Sul. Impro- 
priamente, atribuem-lhe às vezes também o nome de "C a- 
g a - s e b o". Para não dormir ao relento, sempre tem um 
ninho preparado, mesmo fora do tempo da incubação. 

Cambado — Adjetivo, que em Pernambuco significa 
"atacado de bicho de pé". 

Cambaxirra — O mesmo que "C o r r u i r a". 

Cambeva — Cação que parece ser o mesmo "Cha- 
péu a r m a d o". Vicente de Cai'valho, referindo-se a 
um cambeva, diz que "era um cação grande como um pau 
de canôa". 

Cambeva — Peixe de couro, Nematognata da fam. 
TrichoiiDjcteridcos (Trichomycterus brasiliensis). Carac- 
teriza-se, como todos os i-epresentantes desta pequena 




Cambeva 



família, pelos numei'osos cspículos que tem no opérculo e 
no preopérculo. A nadadeira dorsal acha-se situada muito 
atrás e é curta de base. O desenho característico con- 
siste em numerosos pontinhos violáceos, escuros, por todo 
<• corpo. Os maiores exemplares não ultrapassam 20 cms. 
de comprimento. 

Além da denominação "Peixe g a t o", que parece 
Ser sinónimo de cambeva, só conhecemos o nome "C a n- 
^ i r ú " para espécies de outros géneros desta família. 

Cambilo — Denominação regional, no Nordeste bra- 
sileiro, das "Lavandeiras" (Libélulas). 



— 198 — 



Camboatá — O mesmo que "T a m boa tá". 

Cambuba ou '"C a m b u m b a" — Denominação nor- 
destina do peixe do mar, semelhante, pela forma, ao "B i - 
q u a r a". E', pois, da fam. Hacmulideos, do grupo das 
"C o r c o r o c a s" do Sul. Tanto o Almirante Alves Ca- 
mara (Peixes da Baía), como O. Monte (Alm. Agr. Bras. 
1926) dizem ser êste um "peixe com grandes escamas; as 
costas são pardas, escuras e a barriga é branca. Vive em 
pequenos cardumes". O tamanho mínimo admitido no mer- 
cado, pela lista oficial, é de 20 cms. Em Recife é consi- 
derado de penúltima categoria. 

Catnbucú — Veja-se "P i r a c a m b u c ú" e também 
sob "P e s c a d a". 

Cametau — Nome amazonense da "A n h u m a". 

Caminheiro ou " P e r u i n h o do c a m p o " ou 

"C o t o V i a" — Pássaro da fam. MotacilUdeos, gên. An- 
thus, de bico fino, azas longas, pernas altas com dedos 
muito finos e longos, e com unha posterior muito com- 
prida e curva. E' mais ou menos do tamanho do tico- 
tico; o colorido é bruno-avermelhado, entremeiado de 
amarelento; no peito e nos lados predominam esta côr, com 
desenho de escamas brunas. As quatro espécies brasi- 
leiras vivem no chão, entre o capim e nas estradas. 

Camiranga — Veja sob "Urubu caçador". 

Camoatim ou "Canguaxí" — Genericamente é 
abrangido pela denominação "Enchú" e por isto tam- 
bém chamado: "Enchú da beira do telhado. E' 
vespa social, fam, Vcspideos, Pohjbia sadcUnris, pequena, 
de 11 mms. de comprimento, preta, com dois traços trans- 
versais, quasi unidos, amarelos, no meio do dorso. Gosta 
de fazer seu ninho nos beirais das casas ou nas janelas. 
E' uma construção quasi esférica, que atinge dois pal- 
mos de diâmetro e cai-acteriza-lhe o revestimento unv 
grande número de pequenas saliências pontuadas (estas, 
porém, às vezes faltam, sendo substituídas por um de- 
senho de linhas curvas). A entrada acha-se no bordo 
inferior, formando "bôca de sapo". Em certas ocasiões 
ve-se estas vespinhas perseguindo moscas domésticas, 
mas, infelizmente, são pouco ágeis em tal mistér. No 
Ceara é conhecida por "Bôca torta". 

Camocica — ou "V e a d o b o r o r ó" ou. na língua 
indígena, "Nhambí". Veja-se .sob "Veados". E' 



— 199 — 



Mazama nana, o menor dos nossos veados e habita o 
Brasil central. 

Camondongo ou também "C a t i t a", "C a 1 u n g o", 
ou "M o r g a n h o" — E' o menor dos ratos caseiros, Mm 
viusculus, por demais conhecido para que deva aqui ser 
descrito nos seus hjibitos. E* espécie importada, cosmo- 
polita, veja-se também sob "Ratos caseiros". 

Caniorim — No Norte do Brasil é o nome genérico 
dos peixes conhecidos por "Robalos" no Sul. Regis- 
trámos em Recife os seguintes nomes específicos: "C a - 
morim-assú", "c a b o d e m a c h a d o" ou "so- 
ve la", "corcunda", "taba" e "ticupá"; na Pa- 
raíba, além dêsses nomes, mais: "C. estoque" (de 3 
palmos de comprimento, com mau cheiro característico), 
"b r a n c o", que é o melhor, "de g a 1 h a"; o menor é 
"c a m o r i m r o b a r d o" ou "r o b a 1 o"; a um destes 
também cabe o nome "pa p a - m o r c e g o". 

Campineiro ou "Capineiro" — Sinónimo de 
"Chi mb o ré", ao que nos parece, mais usado no Sul 
de Minas Gerais. Pode ser também que designe espécie 
um pouco diferente entre as muitas dos géneros Schizo- 
don e Ayiostomns a que pertencem os "C h i m b o r é s". 

Camuengo — Assim chamam no Ceará a uma abelha 
social da fam. Melipoiíideos, Meliponn (Trigona) testa- 
ceicornis, no Sul conhecida por "J atai p r e t o" ou 
" J. m o s q u i t o". A abelha mede apenas 4 mms. de com- 
primento; a côr é preta com pilosidade grisalha e azas 
muito enfumaçadas no terço apical. E' tímida e produz 
mel de boa qualidade. 

Camuripí — Veja "Camarupim". 

Camuripeba — Veja sob "Robalo". 

Camuripema ou " P e m a " simplesmente, designa 
na Paraíba os exemplares novos do"Camarupi m", 
com menos de 3 palmos de comprimento; seu valor é 
ínfimo. 

(Camutanga) — Vimos registrado como "abelha" 
quando a etimologia (caba-mutanga?) parece indicar 
que se trata de vespa. 

Canário do Ceará — Denominação dada na Amazó- 
nia ao "Canário da terra" (Sicalis flaveola). 

Canário pardo — Nome dado na Amazónia ao mes- 
mo "T i c o - 1 i c o do c a m p o" do Sul. 



— 200 



Canário do reino ou "C. legítimo — E' pássaro 
de gaiola, importado, fam. Fringillidcos, Fringilla cana- 
r/ensis,* originário das ilhas Canárias e hoje espalhado por 
todo o mundo, mas unicamente como pássaro de gaiola. 

Canário da terra — Há várias espécies de pássaros 
pertencentes à mesma família que a espécie importada 
e mais ou menos semelhantes a esta. São ao todo 5 as 
espécies do gên. Sicalis, das quais no Brasil meridional 
só ocorrem S. pelzelni e S. flaveola. Êste tem fronte 
côr de laranja e lado ventral amarelo e não é riscado de 
preto como S. pelzelni. Vivem no campo, na borda do 
mato ou das capoeiras, aos bandinhos e gostam de apro- 
xímar-se das casas da roça; sua voz, ainda que menos 
brilhante que a de seu primo importado, é agradável e, 
por isto, também êste canário é apreciado pelos amadores 
de passarinhos engaiolados. Não revela muita arte quan- 
do constróe seu ninho, nem o faz com cuidado; contenta- 
se com uma cavidade em ôco de pau, que forra com palha 
mal escolhida e com plumas. Reconhecendo a sua pouca 
habilidade, prefere, quando o pode, tomar conta dos ni- 
nhos abandonados por outros pássaros, principalmente o 
do "P i c h o r o r é". Veja-se, sob "C h o p i m", a predi- 
leção que tem êste parasita pelos ninhos do nosso tico- 
tico e também dos canários, para neles introduzir clan- 
destinamente seus ovos. 

Cancã — Na Amazónia é o mesmo que "Cara- 
cará preto" no Sul. O gavião conhecido no Sul por 
"C a n c ã" é Urubitinya nrubitingu, que, por sua vez, 
na Amazónia, é conhecido por "Gavião c a i p i r a". E' 
de porte acima de mediano; o macho é todo pi-eto, tendo 
só uma faixa transversal branca na base da cauda e a 
fêmea (bem como o macho novo) tem plumagem malhada 
de bruno escuro e branco, com exclusão do lado dorsal. 
Cancã — Veja "P a t u r í". 

Cancã — Em todo o Nordeste é o nome das "gra- 
lhas". Às vezes é por assim dizer a voz do Cancã o 
unico canto de ave que se faz ouvir na caatinga resseca. 
As duas sílabas de seu nome onomatopaico soam metá- 
licas e o pássaro as repete frequentemente. Seja por que 
fôr, o cancã goza de maior popularidade no norte que 
seus parentes sulinos, as gralhas. "Tem carne de can- 
cã" diz-se em Sergipe, aludindo a pessoas magras, for- 
tes, que não envelhecem. (Informação do Sr. Aroaldo 
Azevedo). 



— 201 — 



Candeia — Veja-se "Siri c a n d e i a". 

Candimba — Palavra muito poucas vezes citada em 
livros e que Amadeu Amaral, em seu "Dialeto caipira", 
diz significar "lebre" e, portanto, é sinónimo de "ta- 
p i t í". Ouvimos o mesmo têrmo também da bôca dos 
roceiros do Sul de Minas Gerais, 

Candirú — Esta denominação vulgar, amazônica, 
compreende dois géneros de pequenos peixes de couro, 
uns da fam. Triclwmycterkleos, gên. VandeUia e Stego- 
phibis, que, como as "C a m b e v a s" da mesma família, 
têm o opérculo e o preopérculo providos de acículos; ou- 
tros, ,da fam. Cetopsídeos, não têm êsses aciileos; os bar- 
bilhões, pequenos, são em número de 6. Êstes últimos 
peixes (gên. Cetopsis e Hemicetopsis) atingem 30 cms. 
de comprimento e daí o nome mais adequado "Candirú- 
a s s ú". (Veja a seguir). Aos representantes da primeira 
família mencionada, VatideUiu cirrhosa e Stcfiophilus in- 
termèdius e insidiosns (êste último do rio S. Francisco) 
são de há muito imputados vários malefícios, os quais, 
porém, sempre haviam sido postos em dúvida. Podemos, 
porém, transcrever a êste respeito as observações do pro- 
vecto conhecedor da natureza amazônica, P. le Cointe. 

Das espécies de um género da mesma família, e tam- 
bém conhecidas por "Candirús", constam iguais fa- 
çanhas. Já Castelnau relatara, do Araguaia, que Parno- 
don piisilhis é temido pelos pescadores, a ponto de êstes 
não se atreverem a urinar (liretamente na água, porque 
receiam que o pequeno peixe, subindo o curso da coluna 
líquida, penetre na uretra. Miranda Ribeiro, em Manaus, 
verificou que Pareíodon micrnps é peixe carnívoro, que 
arranca pedaços circulares da pele de bagres vivos. A 
tanto de fato o habilita a dentição, que fica escondida 
numa prega da mucosa; mas, desnudando os maxilares, 
tem-se a impressão de uma miniatura dos dentes de tuba- 
rão (Galeocerdns muadatun), simplificados e com a ponta 
niaior muito curvada para fora. 

Reunidos em legião, como se fossem pequenas pi- 
ranhas, descarnam não só os animais mortos, como tam- 
bém a caça ferida, que venha procurar refúgio na água. 

Muito mais perigosa é a mania do candirú VandeUia 
<!h'rhosa que procura penetrar na abertura urogenital dos 
banhistas. O tamanho máximo que êste peixinho atinge 
^ 70-80 mms. mas os exemplares de 40 mms. têm apenas 
mms. de diâmetro e dêste modo lhes é fácil insinuar-se, 
forma a penetrar complehimente na cavidade. E o 



- 202 — 



pior é que os peixes desta família, como também se nota 
nas "Cambevas", seus parentes próximos, têm numero- 
sos espinhos na região opercular e êstes, ao se tentar a 
extração, cada vez mais se encravam nas carnes, pro- 
vocando grande hemorragia. Não só este fato foi várias 
vezes testemunhado por médicos amazonenses, chamados 
para proceder à difícil extração, como também a população 
ribeirinha, temendo o candirú, toma providências para 
evitar acidentes desta natureza, aos quais principalmente 
as mulheres estão mais sujeitas. Com evidente exagero 
os homens temem, até, verter água em jato direto nos 
rios habitados por candirús, porque êstes, dizem êles, po- 
deriam mesmo dêste modo subir e penetrar. 

O fato é que os etnógrafos têm assinalado que em vá- 
rias regiões amazônicas e das Guianas, os índios pro- 
tegem as partes pudendas, de forma a evitar acidentes, 
entre os quais os mais temidos são os provocados pelas 
piranhas e pelos candirús. 

Ultimamente o emérito conhecedor da literatura ictio- 
lógica, Dr. E. W. Gudger, do Museu de Nova York pu- 
blicou um livrinho, no qual vem relatadas todas as infor- 
mações fidedignas que os naturalistas registraram a res- 
peito do famigerado "Candirú", VandelUa cirrhosa. Es- 
tudada a biologia dos vários peixes que têm hábitos 
semelhantes, fica patente que todos êles são hematófagos 
e para tal fim têm não só a dentição adequada, isto é 
uma série de dentes muito aguçados e curvos, com os quais 
provocam o fluxo do sangue, como também o estômago e 
o intestino só se prestam a êste género de alimentação. 

Algumas espécies penetram nas guelras dos gran- 
des peixes, como o sorubim e aí facilmente obtêm sangue 
em abundância; outras espécies atacam a região anal de 
vários peixes maiores e, lanhando as carnes, chegam a 
produzir grandes chagas, como o verificámos em doura- 
dos e piracanjubas, que haviam sido amarrados na água, 
para serem vendidos no dia seguinte. 

Certa analogia, sob êste ponto de vista, apresenta a 
espécie Pífciidoategophiliis ftcurificator, descrita por nós 
do rio Mogí Guassú, Est. S. Paulo e que maltrata muito 
os peixes, que os pescadores deixam amarrados, de um dia 
para outro. 

Em tais ocasiões juntam-se às vezes pequenos bandos 
desses malfeitores que, naturalmente, podem agir com 
maior facilidade, estando as vítimas amarradas, sem po- 
der fugir ou melhor se defender. 



— 203 — 



Candirú de cavalo — Assim chamam no Pai'á aos 
"candirús" maiores (Vaiidellia cirrhom e V. plazai) 
e a seu respeito o Dr. Jobert relata o seguinte: O povo 
teme êstes peixes por causarem êles escarificações na 
pele dos banhistas, assim como dos cavalos e de outros 
animais que penetram no rio. Certa vez, o Dr. Jobert 
foi banhar-se uma milha à juzante da cidade e logo teve 
de sair da água, pois o seu corpo fôi-a todo lanhado por 
escarificações formadas por grupos de 5 ou 6 linhas i)a- 
ralelas, de 1 cm. de comprimento; tais feridas sangi-am 
abundantemente. 

Canela ruiva — Nome dado pelos caçadores ao 
porco do mato menor ou "Caitetú" ou, como afirma 
Henrique Silva, ao "Queixada", também conhecido - 
por "Tiririca". 

Caneleira — Pássaros da fam. Cotingideos, gên. Ha- 
drostomvs e Puchyrhumphus; tem afinidades naturais 
com a araponga; o seu aspeto lembra, porém, os pe- 
quenos bentevís. O nome vulgar refere-se às espécies de 
côr castanha, ainda que várias congéneres tenham outras 
côres; nas fêmeas é que predomina a côr canela. Pachy- 
rhuinphus parece que se compraz em procurar a vizinhan- 
ça das casas e também constróe seus ninhos nos jardins 
e pomares. E que ninhos ! Verdadeira montoeira de talos, 
folhas, lã, cortiças, tudo reunido sem arte, mas com muita 
solidez; até pedaços de morim foram encontrados no in- 
terior da grande bola, de palmo e meio de diâmetro. Em 
12 dias o casal conclue o edifício, mas para isto traba- 
lham juntos e, muitas vezes, carregam molhos de ma- 
terial que excedem o seu próprio tamanho. 

Cangambá — O mesmo que "M a r i t a c a c a", 
"I r i t a t a c a", "J a r i t a t a c a", "J a g u a r 1 1 a c a" 
ou "Jeritacaca" ou simplesmente "Tacaca". No 
Rio Grande do Sul lhe corresponde a espécie muito pare- 
cida, à qual nos referimos sob "Zorrilho". O corpo 
do cangambá, Conepatm chikmsis, mede 45 cms., além 
de 30 cms. de cauda. A côr predominante é preta; o 
pêlo é longo e denso; .sobre o vértice passa uma faixa 
branca, que se extende também pelo lombo (em regra divi- 
dida em duas por uma nesga preta, mediana) e chega quasi 
até à cauda, que é branca, pelo menos na parte terminal. 

Vive nos grandes campos do interior do Brasil, desde a 
região serrana do Rio Grande do Sul até o Amazonas. 
Em S. Paulo, só ocorre na região de Franca, sempre em 



zonas de campo aberto. E' animal noturno, que, segun- 
do Hensel, só se alimenta de besouros e larvas; outros 
tem-no em conta de matador de galinhas; o certo é que 
mata passarinhos e não rejeita carne. Houve quem apre- 
goasse esta espécie como ótimo elemento da nossa fauna 
para diminuir o número das cobras venenosas, as quais 
caça impunemente, pois o violento veneno das serpentes 
não lhe faz mal. Porém o inconveniente já apontado e 
outro, que, seguramente, pouco o recomenda, excluem-no 
em absoluto do rol dos nossos amigos. E' que o Cangam- 
bá tem uma glândula da qual faz esguichar, com pontaria 
certeira, um jato de líquido que é a essência mais fétida 
que se possa imaginar. O que fôr atingido por algumas 
dessas gotas, animal, roupa ou qualquer objeto, conser- 
va a catinga nauseabunda por longo tempo. Transcre- 
vemos da "Viagem Científica" do Dr. A. Neiva o seguinte 
trecho, muito descritivo: "O animal foi surpreendido du- 
rante o dia, o que é raro, por ser de preferência noturno; 
ocultou-se no óco de uma umburana, donde foi x-etirado 
à viva força, defendendo-se terrivelmente com as ejacula- 
ções esverdinhadas, lançadas a distância, o que afastava 
os cães e obrigava a mais de uma pessoa a abandonar a 
luta. Um camarada, que mais se afanara em ari-ancar o 
animal do abrigo, teve de deitar-se, completamente nau- 
seado. Da glândula retal foi retirada grande quantidade 
de líquido oleoso, de côr amarelo-escura. A substância, 
que dá à secreção o repelente cheiro caríifterístico, c o sul- 
fidrato de etila, mais conhecido pelo nome de mercaptã. 
Quando as ejaculações são repetidas, chega-se a perceber 
a formação de vapores. Já Ayres de Casal se referia 
do seguinte modo ao fato: "Algumas pe.s.sôas dizem ter 
observado uma pequena fumaça averdeada na parte pos- 
terior do canhoneiro, quando êle dispara a peça". 

O Dr. Vital Brasil descreveu a anatomia do aparelho 
defensivo do "C a n gambá". Consta o mesmo de duas 
vesícula.s ovais, um pouco maioi-es do que um ovo de ga- 
linha e que se acham situadas na região perineal. Cada 
uma das vesículas termina no reto, próximo ao anus, for- 
mando aí, de cada lado, um pequeno tubérculo dotado de 
um orifício muito fino. As vesículas são envolvidas por 
forte camada muscular, cuja compressão faz o líquido 
esguichar sob pressão. 

A pele unicolor da espécie congénere, norte-america- 
na, é o afamado "skunk". (*'Cangambá" é também 
o nome do "Mercúrio vegetal" ou "Manacá", Brnnfelsia). 



— 205 — 



Canganguá — O mesmo que "C a ngo á". 

Cangapara — Tartaruga dos campos do Maranhão, 
maior e mais grosseira que a "Capinima", com man- 
chas vermelhas nos bordos. Faltam-nos i-eferências mais 
detalhadas. 

Canga tã ou "C a n g a t á" — No Norte, do Pará ao 
Ceará, é sinónimo de "Gurijuba", com alguma apli- 
cação especial, conforme a idade e o desenvolvimento do 
peixe. Em Pernambuco e na Paraíba é conhecido por 
"bagre caiacôco". 

Cangatí — Peixe de couro d'água doce, Trachyco- 
ristes strintiilus, do Nordeste, onde é frequente e tam- 
bém da Amazónia. E' um bagrinho, de pouco mais de 
um palmo de comprimento, de corpo abrutalhado, todo 
êle manchado de traços escuros sobre fundo pardo ama- 
relado. Por ser, em certas regiões, o único representante 
maior dos peixes de couro nos açudes, é muito apreciado; 
de fato, porém, sua carne não é melhor que a de tantas 
outras espécies do grande grupo. Muito curiosos são 
uns tantos detalhes de sua biologia, estudada pela Com. 
Técnica de Piscicultura do Nordeste, para fins de expe- 
riência da criação em larga escala. A fêmea é fecundada 
muito antes da piracema, mas os óvulos são retidos no 
ovário até a época das enchentes; só então dá-se a pene- 
ti'ação do espermatozóide. O ovo também apresenta pe- 
culiaridades que diferenciam muito sua evolução da dos 
outros pei.xes; observa-se uma curiosa rotação na massa 
ovular, como só poucas espécies a apresentam. Os ale- 
vinos crescem rapidamente e ao cabo de 4 meses, os peixes 
já medem 18cms. de comprimento. 

Há também raros representantes desta sub-família 
TracJiiicorutrncos no Brasil meridional, onde a espécie, 
que mais se assemelha ao cangatí, 6 a pequena "B u r e v a". 

Cangica — O mesmo que " A r a p o n g u i n h a", 

Cangica ou "C a n g i q u i n h a" ou "P i p o c a" — 
Nome dado pelo povo ao cisticerco, forma larval de Taenia 
solium, a "S o 1 i t á r i a". O porco, ingerindo matérias fe- 
cais de indivíduos portadores dêstes parasitas intestinais, 
infecciona-se com numerosos ovos, que êstes soltam con- 
tinuamente. Os ovos desenvolvem-se e as respectivas lar- 
vas são levadas pela circulação do sangue a todas as 
regiões do corpo do hospedeiro e aí encapsulam-se sob 
forma de "Cangica"'. Nos casos de ampla infecção, 
encontram-se as pequenas cápsulas brancas em todas as 



— 206 — 



carnes e órgãos do corpo; aparecem primeiro na língua, 
onde podem ser constatadas pela inspeção da face inferior 
no animal vivo. Também o boi tem "cangica", ainda que 
raramente. Ingerindo tais carnes, o homem contrai a "So- 
litária" e dois ou três meses depois começa a deitar os 
segmentos portadores de ovos. Profilaxia : Só comer car- 
nes bem cozidas. 

Cangoa ou "C a n g a n g o á" — Peixes do mar, per- 
tencentes à mesma família das "Pescadas", isto é Sciae- 
nideoH; trata-se, porém, de espécies de menor valor eco- 
nómico, dos géneros SteUifcr e Bairdiclla, que no má- 
ximo atingem 20 cms. de comprimento. Figuram às vezes 
em grande quantidade nas estatísticas. Veja-se também 
sob "B o r o r ó", "P i r u c a i a" ou "M a r u c a i a". 

Cangoropeba — Corruptela de "C a n j u r u p e b a", 
que é o mesmo que "C a m u r i m p e b a". 

Canguaxí — O mesmo que "C a m o a t i m". 

Canguira — Peixe do mar, do Maranhão, semelhante 
ao "Parú" ou "Frade". Tem bóca muito pequena, 
pelo que não pode ser pescado com azois grandes e os 
pequenos êle parte facilmente, com a sua dentadura ex- 
tremamente forte. 

Cangulo ou "C a n g u r r o" — Denominação de ori- 
gem portuguesa, que também no Brasil designa vários pei- 
xes marinhos PlectogiiatoK, da subordem Sclcroderma e, 
em sentido mais restrito, as várias espécies do género Balis- 
tes, cujo corpo é revestido de escamas placoides, em lo- 
sangos regularmente alinhados e com mais de um acúleo 
dorsal. E' mencionado às vezes como peixe venenoso; 
no entanto, na estatística do pescado levado ao mercado 
do Nordeste, o "Cangulo" figura em número tão ele- 
vado como qualquer outro peixe de qualidade. 

"Cangu ira", no Maranhão, deve ser espécie afim. 
Às espécies do gên. Balistes, que podem atingir quasi 
meio metro de comprimento, atribue-se também o nome 
indígena "A c a r á - m o c ó". Não sabemos a que espécie 
se refere o sr. A. Guedes quando, ao descrever a eclosão 
das tartarugas do mar, na ilha da Trindade, diz que "no 
mar aguardam as tartaruguinhas os vorazes peixes "c a n- 
gulos", de paladar destestável, que por serem assaz 
numerosos, mereceram o nome de "por-favor-me-pegue". 
A literatura antiga registra o nome indígena " P i r á - 
a c a". 



207 - 



Em Pernambuco distinguem-se 3 víu'iedades ou es- 
pécies, todas elas de ínfima categoria no mercado: o Can- 
gulo "comum", o "de pedra" e o "de Fernando"; êste 
último, isto é da ilha Fernando Noronha, é o Monacan- 
thus ciliatus, ao qual nos referimos sob "Peixe p o r c o". 

No Ceará Balistes vetula é o peixe mais abundante e 
barato; quem não pode adquirir outras carnes, come can- 
gulo, cuja sopa aliás é muito nutritiva, sendo aconselhada 
como fortificante para quem sofre do peito (e principal- 
mente de falta de alimentação). 

Cangurupí — Sinónimo paraense de "Camaru- 
pim". 

Cangussú — O mesmo que "O n ç a pintada"; re- 
fere-se às formas menores, de cabeça mais grossa e cujo 
pêlo tem manchas menores e mais numerosas. 

Caninana — Cobra da fam. Cohibriãeos agliphos, 
Spilotes qnãatus, que atinge mais de 2 metros de com- 
primento; o colorido é pardo-amai-elado, com desenho 
transversal escuro, curvado para a frente nos cantos; dos 
olhos parte uma faixa denegrida, que se extende pelo 
pescoço. E' ágil tanto no chão como na ramagem das 
árvores, onde busca ovos nos ninhos e em certas ocasiões 
também apanha algum passarinho. Pega e devora tam- 
bém roedores até do tamanho de preás. Apesar de ser 
cobra inofensiva, por não ter veneno, o povo a teme; de 
fato, é agressiva, mas claro está que não "vôa", nem pode 
ficar em pé na ponta da cauda, como a crendice dos mais 
medrosos o imagina. Veja-se, também, "Limpa-cam- 
po" e "Papa -ovo" e "P a p a - p i n t o". 

Canindé — Arara (veja-se estas) de colorido azul 
em cima, amarelo no lado inferior e sem ornatos verme- 
lhos; Ara ararauna é seu nome científico, que aliás não 
corresponde à nomenclatura indígena, pois a "ararau- 
na" é outra espécie. A arara "c a n i n d é" habita tôda 
a zona compreendida entre S. Paulo e a Amazónia. 

Canivete — Pequenos peixes de escama, da água 
doce, da fam. Churacideos, com corpo alongado, sem a cur- 
vatura característica do perfil dos lambaris. Chnraci- 
dium fascidtvvi, de apenas 5 cms. de comprimento, tem 
cêrca de dez faixas transversais indistintas ou pouco regu- 
lares sôbre o corpo e um ponto negro na base da caudal. 
Tem o mesmo nome as espécies da subfam. Hemiodonti- 
neos, .sem dentes no maxilar inferior; a alguns destes pei- 



— 208 — 

xinhos cabe também o nome "Charuto" (veja-se este) . 
Vivem nos remansos e são procurados por serem boa isca. 

Canjarana — Em Goiaz, segundo Henrique Silva 
(pág. 141), é êste o nome de um felino. Certamente é 
denominação local de espécie mais conhecida por outro 
nome. 

Canjurupí — O mesmo que "C a m a r u p i m". 

Cansanção — Na Baía, algumas das espécies mais 
urticantes das "Agua vivas" são conhecidas por êste 
nome, que aliás é o do vegetal terrivelmente urticante 
(Loasa), cujos espinhos provocam ardor muito mais in- 
tenso que as urtigas comuns. 

Cantárida — As espécies de besouros da fam. Me- 
loideos, (antigos Cantharideos), cujas propriedades epis- 
pásticas e afrodisíacas foram primeiro re- 
conhecidas na espécie européia, Lyta vesi- 
catório; a espécie bi-asileira Epicauta ads- 
persa, segundo as aiaálises feitas, contém 
2,5 % de cantaridina, quando as espécies 
européias contêm apenas 0,5%. Trata-se 
de substância muito ativa, pois bastam 
0,2 mg. para provocar albuminúria. Veja- 
.se, também, sob "P o t ó - p i m e n t a" e 
"E u r r i n h o". 

Canudo — Abelha indígena da fam. 
c»iitirida Melijwnideos, assim chamada no Nor- 
deste (Ceará), provavelmente por ter 
porta de entrada em forma de canudo, o que aliás não 
é raro. Êste tubo, conforme a espécie, pode ser da grossu- 
ra de um lápis, como na "Jataí" ou "Mandagua- 
r í" ou grande e largo, como na "T u b u n a" ou no "I r a - 
X i m". 

Capararí — Peixe de couro da Amazónia e que, pela 
sinonímia de Spix, parece ser o mesmo "S o r u b i m". 

(Caparos) — O Dr. A. E. Goeldi grafou dêste modo 
o nome de certa espécie de símio do gên. Laçiothrix. Veja- 
se sob "Barrigudo". No vocabulário de Tastevin 
acha-se grafado "Capar ú", forma esta que mais facil- 
mente pode corresponder à pronúncia original indígena. 
(Confronte-se também "C a r i d a g u e r e s") . 

Caparú — Veja-se acima (Caparos). 

Capelão — E' o macho mais velho e mais perspicaz 
do bando de macacos "b u g i o s" (veja-se êste). 




— 20Q — 



Capijuba — No Maranhão, é "um macaquinho pardo, 
amarelado de cara pelada; a cauda longa tem manchas 
transversais em forma de anéis". Não bastam estas in- 
formações para a identificação da espécie, a respeito da 
qual o Sr. Wilson da Costa ainda informa que é a mais 
abundante na ilha do Maranhão. No tempo de sêca, quan- 
do faltam nas matas as frutas de que se nutrem, inva- 
dem os pomares e as hortas. 

Capincho — No Rio Grande do Sul esta denomina- 
ção platina da "Capivara" é aplicada aos machos. 

Capineiro — O mesmo que "C h i m b u r é t i n g a". 

Capinima ou "C a p i n i n g a" — No Maranhão é uma 
tartaruga semelhante à "tartaruga da Amazó- 
nia", porém menor, com pescoço muito mais longo; vive 
nos campos que alagam no inverno. Será provavelmente 
uma espécie do gên. Podocnemis, semelhante à "Traça- 
j á", si não fôr sinónimo desta. 

Capiranga — Molusco da iam. Venerideos. A con- 
cha bivalva, de cór vermelha coralina, dá muito na praia; 
também é chamada "Concha de rapar mandio- 
ca", porque, de fato, serve para tal fim, porém só a valva 
mais plana é assim utilizada. A forma primitiva talvez 
seja "T a p i r a n g a". 

Capitão do campo — No Rio Grande do Sul e em 
Mato Grosso é sinónimo de "Boi peva". 

Capitão do mato ou " J o ã o do mato" — Pássaros 
do gên. Morpho, grandes, com 15 cms. de envergadura, 
tão características das clareiras das grandes matas. Não 
sabemos si é nome dado pelo povo ou si é apenas da 
giria dos colecionadores de borboletas. 

Capitão do mato ou "J o ã o do mato" — Pássaros 
da fam. BiiccoHideos, gên. Bvcco (12 espécies, pela maior 
parte do Norte da Amazónia, sendo aí conhecido por 
"Rapazinho dos velhos"). Alguns tem pluma- 
gem meio preta, meio branca; outros são castanhos, com 
coleira, peito bi-anco e vários desenhos. A única espécie 
Verdadeiramente meridional é B. chacuru. (Veja-se "Ja- 
cu r ú" sob "João bôbo"). 

Capitão de saíra ou "Tinguassú" — Pássaro 
da fam. Cotingideos, Attila cinereus, de 22 cms. de com- 
primento, cór pardo-bruna em cima, cauda e barriga 
castanhas e cabeça, pescoço e garganta cinzentos. O bico 
é comprido e tem a ponta do maxilar superior curvada. 



— 210 — 

Capitarí — São as tartarugas que não põe ovos, isto 
é, os machos de Podocnemis expansa (Veja "Tartaru- 
ga da Amazôni a") . Igual nome cabe também a uma 
árvore amazônica, abundante nos igapós; diz-se também 
capitarizeiro. 

Capiúna — Peixe do mar (gên. Haemulon?). 

Capivara — E' o maior de todos os roedores, Hy- 
drochoerns hydrochoerus. Atinge 1 metro de comprimen- 
to; a côr é uniforme, parda, nem muito avermelhada 
nem muito amai-elenta. Não tem rabo ; as orelhas são pe- 
quenas. Vive sempre à beira d'água, que é seu 




refúgio, quando perseguida; nada e mergulha bem. For- 
ma sempre pequenas varas, que, não raro, contam até 20 
indivíduos. Alimenta-se como perfeito herbívoro e na- 
turalmente dá preferência ao arroz ou milho novo, pelo 
que nas regiões ribeirinhas causa, às vezes, muito dano. 
Passa o dia escondida, perto da água e só à noitinha vem 
pastar. Assim, só a espingarda pode valer ao lavrador. A 
carne não agrada a todos os paladares, mas o óleo ex- 
traído pela fervura e que depois foi exposto ao sereno, é 
considerado medicamento valioso. O couro tem boa apli- 
cação para certos fins, laços principalmente. E' caracte- 
rística sua posição de repouso, sentada como um cão. Al- 
guns caçadores distinguem uma espécie branca, "Capi- 
vara ti nga", mas trata-se apenas de indivíduos velhos, 
que ficam grisalhos. Veja-se também "Cap incho". 
Na Amazónia, às vezes vêem-se capivaras domesticadas, 
que então acompanham as crianças mesmo durante o banho. 



— 211 — 



Êstes animais são atacados, como o cavalo, pelo "m a 1- 
d e - c a d e i r a s", pelo que alguns cientistas desconfiam 
que sejam êstes gi'andes roedores os depositários do fla- 
gelado Trypanosoma eqrnnim. De fato, é sabido que, de 
tempos em tempos, a epizootia determina grande mor- 
tandade entre as capivaras. 

O distinto pintor Theodoro Braga afirmou-nos que 
os marajoáras criadores de gado incluem as capivaras 
entre os mais perniciosos inimigos da criação, "porque elas 
envenenam a água e fazem morrer o gado". Ainda uma 
vez devemos dar razão à intuição do povo que assim, sem 
o saber, atinou, antes dos cientistas, com os depositários 
do causador do "m a 1 - d e - c a d e i r a s" (ou "quebra 
bunda", como lá diz o povo). 

Capoeira — O mesmo que "U r ú". 

Capororoca — Nome onomatopaico da ave da fam. 

Anatideos, Coscoroba coscoroba, verdadeiro tipo de cisne 
do sul do Brasil, inteiramente branco no corpo e só as 
remiges da mão têm ponta preta. Em nosso país habita 
apenas o Rio Grande do Sul, extendendo-se daí até a Pa- 
tagônia. Seu ninho, a Capororoca o faz nas praias de- 
sertas dos rios e dos lagos: uma construção de junco e 
folhas, de metro de altura e forrado com espessa ca- 
mada de finas plumas brancas, com as quais a ave cobre 
os 6 ou 8 ovos, quando se afasta temporariamente. Os 
ovos são brancos e medem 6 por 9 cms. Veja-se, também, 
a espécie congénere, "Pato arminho". 

Mencionaremos, de passagem, que igual nome, capo- 
roroca, designa várias árvores da fam. Myrsinaceas, sendo 
que no Rio Grande do Sul se aplica especialmente a Myr- 
sine rapanea. 

Capote — No Ceará e Estados vizinhos cabe êste 
nome à "galinha d'A n g o 1 a". Registrámos, também, 
"Cocar" com igual acepção no Piauí. 

Capuxú — Vespa social, Míschncijf(trus ater, de côr 
preta, que nidifica em cavidades de árvores, de cupins 
ou em buracos de tatii. Armazena algum mel nas mes- 
mas células destinadas à criação das larvas. Não cremos 
seja essa denominação uma corruptela de caba Ks.tú, 
pois a espécie em questão é apenas de tamanho médio 
(12 mms.), o que não justificaria o aumentativo. 

Cará — O me.smo que "Acará" (peixe). 



— 212 — 



Caraça — O mesmo que "C r a c a". V. Chermont de 
Miranda assinala esta forma como vício de pronúncia 
no Pará. 

Caracará ou "Carrapateiro" — Ave de rapina 
da fam. Falconideos, Milvago chimachirna. O corpo é 
quasi todo branco (propriamente branco-sujo e nos indi- 
víduos novos muito mesclado de penas escuras) ; o dorso 
e as azas são de côr escura, quasi preta; a cauda tem 
algumas faixas transversais e a ponta preta. Não é êle 
um gavião no sentido próprio da palavra. E', ao con- 




trário, bom amigo nosso, pois gosta de viver perto das 
casas, onde às vezes apanha migalhas que lhe convém, 
ou então está junto ao gado, montado sobre as rezes, 
catando os carrapatos e daí lhe proveiu a denominação 
"C a r r a p at e i r o". 

Também na perseguição de outras pragas o pres- 
timoso gavião nos é útil. O sr. A. llempel observou, certa 
vez, que um bando, formado por centenas dessas aves, 
havia "empreitado" o serviço de limpar um alfafal in- 
vadido pela "lagarta do milharal". Não acon- 
selhamos a ninguém que espere pelo auxílio do "Cara- 
cará", quando sua plantação estiver atacada; porém o 
fato observado demonstra que a ave se alimenta em larga 
escala de insetos daninhos. Não merece êle, pois, toda 
nossa proteção? Veja-.se, também, sob "Ca rancho"- 



— 213 



Caracará preto ou "Cancã" na Amazónia — 

Ave de rapina, Ibycter umerkunua, que se extende de 
S. Paulo à Amazónia. Tem certa feição de urubú, quasi 
todo preto, barriga e coxas brancas, papo e pés verme- 
lhos; na cabeça as penas agrupam-se formando uma sorte 
de carapuça. Veja-se também sob "G e r e b a". 

Caracaraí — Não sabemos ao certo a qual das aves 
da sub-fam. Polyhorincos se aplica esta denominação. 
Goeldi, em "Aves do Brasil", destrocou os nomes vulga- 
res "Ca rancho", "Chimango" e "Caracará", 
no que foi imitado por vários escritores, zoólogos e leigos. 
Em nosso "Catálogo das Aves do Brasil" (H. e R. von 
Ihering) tais nomes foram aplicados como aqui o fa- 
zemos; lá, porém, não figura o "Caracaraí", nome 
êste que em S. Paulo só pode caber ao próprio "Cara- 
ça r á" (Milvago chimachima) , pois o "C h i m a n g o" é 
espécie mais meridional; ao "Caracará preto" o 
nome não cabe, por ser esta espécie maior e não menor, 
ao contrário do que indica o í final (i = pequeno). 

Assim, a nomenclatura: Carancho (Pohjhorus), Ca- 
racará (M. chimachima), Caracaraí (M. chimango), está 
certa para o Rio Grande do Sul, onde as três espécies são 
frequentes; em S. Paulo, falta a terceira delas e, desig- 
nando-se P. tharus como "Caracará", a denominação 
"Caracaraí" deve caber a M. chimachima. Esta es- 
pécie tem o lado ventral uniforme, amarelento, ao passo 
que M. chimango a tem bruno-amarelada, com estrias 
longitudinais escuras. 

Carachué ou "Guarachué" — Na Amazónia de- 
signa 03 "S a b i á s"; três espécies : Turdus phaepygus, f u- 
migatns e gymnophthulmus. "Uirachué" é a forma ori- 
ginal, indígena. Parece-nos que Gonçalves Dias, como ma- 
ranhense, deve ter conhecido êste vocábulo, mas felizmen- 
te o mavioso poeta recorreu, em sua poesia, ao sinónimo 
sulista. 

Carachué da capoeira — Sabiá da Amazónia, tam- 
bém da Baía, Norte de Minas e Mato Grosso (Turdus 
fvvúgatns) , de cór canela, mais carregada nas azas, quasi 
amarelada no ventre, garganta branca com desenho de 
escamas da cór geral. E' o sabiá, aliás carachué mais 
gabado no mercado paraense, como cantor por excelência. 

Caracol — São os moluscos gasterópodes, que têm 
concha enrolada em espii*al (veja-se, também, "Cara- 



— 214 — 



mujo"). Caracol designa as espécies terresti'es ou da 
água doce; mas o Bnlimus (StrophochcUus) que habita 
a mata, e a espécie que vive sobre o café, são "caramu- 
jos". A espécie muito comum em nossas hortas e jar- 
dins (Helix similar is) é importada, da Europa. Há espé- 
cies dextrorsas e sinistrorsas, sendo estas bem mais raras. 
Para designar qual a direção das voltas, coloca-se o ca- 




Caracáis 



racol com o ápice virado pai'a cima e a abertura dirigida 
para o observador; ficando esta para a direita da linha 
mediana, a concha é dextrorsa e sinistrorsa no caso con- 
trário. Alguns têm tampa (opérculo) de natureza córnea 
ou calcárea. 

Carainha — Peixe do mar, segundo o registro de 
pesca de Paranaguá ; há pequena quantidade e por isto 
não deverá ser da sinonímia da "ca ranha". 

Carajá ou " B u g i o preto" — Macaco do gên. 
Allouata (veja "Bugio") A. curaya do Brasil central e 
países visinhos ; os machos velhos são bruno-escuros, quasi 
pretos, os novos e as fêmeas são de côr pardo-amarelada. 

Caramugí — Denominação baiana dada aos miriá- 
podes Julidcos, do gên. Rhmocriciis; veja-se "Piolho 
de c o b r a". 

Caramujeiro ou "Gavião de u r u á" (no Norte e 
Amazónia) — Rostrhamus kamatns e sociabilis. Bolo ga- 
vião preto, que apenas tem a base da cauda branca; pu- 
rece-se muito com o "C a n c ã" (Urubitiiiga), o qual, 
porem, tem pernas muito mais compridas. O caramujeiro 
vive em bandos, às vezes numerosos, nos campos alaga- 
diços e junto aos rios. 

Seu alimento predileto são os moluscos, conhecidos 
no Norte por "aruás" Certamente, sabe empregar 
meios adequados para tirar a carne do molusco de dentro 



— 215 — 



da casca, pois é ave astuciosa, como o observou o Dr. H. 
von Ihering. Um dêstes gaviões havia deitado as garras 
a um peixe "Cascudo" (Loricariideo) , porém seu bico 
não conseguiu virar as grossas placas ósseas que reco- 
brem a carne. Por isto voou para um poste e, malhando 
repetidas vezes a presa contra o pau, aos poucos pôde 
desagregar a couraça do cascudo. 

Caramujo — São os moluscos gasterópodes, caracte- 
rizados pelas conchas torcidas em espirais; pa- 
rece designar particularmente as espécies gran- 
des, de casca grossa, enquanto que "caracol" 
é aplicado aos molus- 
cos da mesma ordem, 
porém de casca fina 
e de dimensões meno- 
res. Aqueles abran- 
gem as formas mari- 
nhas, inclusive as es- 
pécies miúdas, que 
então são "cara- 
m u j i n h o s". 




Caramujos 



Caramujo do café — Molusco Gasterópnãe, pulmo- 
nado, Oxijí^f ila. phlogera, de 4 cms. de comprimento, de 
côr córnea, com desenho preto e bruno, disposto irregu- 
larmente em zig-zag nas primeiras vol- 
tas, mais direito nas últimas circun- 
voluções. Vive nós pés de café, e como 
às vezes prolifera muito, causa algum 
dano ao vegetal, devendo, por isto, ser 
catado e esmagado. 

Caramujo do mato ou "A r u á d o 

mato" (ou "Cumbé"?) — Desig- 
na em especial o género Strophocheilus 
(antigamente Biãiim(s), do qual há 
aproximadamente 40 espécies na fauna 
brasileira. As dimensões variam de 5 
a 10 cms. de comprimento e em alguns 
casos atinge 13 cms. Em vida, a epi- 
caramujo do café ra dcmie quo reveste a casca é em geral 
de côr pardo-bruna, as vezes com al- 
gum desenho; morrendo o molusco, o cai'amujo perde a 
epiderme e então fica branco, permanecendo, porém o 
lindo colorido róseo ou vermelho do lábio da concha. E' 




— 216 



neste estado que mais frequentemente se encontram os 
Strophocheilns na mata. 

O Dr. H. von Ihering registrou a denominação vulgar 
"C u m b é" (veja-se êste vocábulo) que se refere às les- 
mas em geral e assim é provável que o caipira designe tam- 
bém com o mesmo nome a casca do molusco. 

Caramuru — Peixe do mar da fam. Miiraenideos, a 
que pertencem as "Moreias" em geral e portanto, pode 
êste nome ser considerado mais ou menos como sinónimo 
da denominação indígena. Trata-se de várias espécies, 
pertencentes a diversos géneros, principalmente Gynino- 
thorax. São peixes do feitio da enguia (que aliás não 
existe no Brasil), mas desprovidos de nadadeira peitoral; 




Caramurú 



a doi-sal extende-se da cabeça à cauda; não tem escamas; 
a dentição é forte e parece que há células produtoras de 
veneno, ao redor. Trata-se de um conjunto de espécies 
pouco diferentes no feitio, porém com colorido muito va- 
riado. Assim a classificação se torna difícil, pois tam- 
bém para a mesma espécie o colorido não é constante, 
tanto que à mais comum delas, Gyvinothorax moringa, 
foram dados nada menos de dez nomes específicos, de- 
pois reconhecidos como sinónimos; além disto há mais 
uma dezena de espécies: G. funebrís, vichms, ocellatus, 
espécies dos géneros Echidna, Muraena, e outros. 

O. Monte (Alm. Agr. Bras., 1929) registra os no- 
mes dados no Norte (Ceará?) às múltiplas variedades 
de colorido diverso : "Caram u r ú b a n a n a" é ama- 
relo; "C. b o m b ó i a" preto com pintas côr de ouro; "C. 
cachorro" pardacento e manchado de preto; "C. ji- 
bóia", a menor, amarelada e manchada de preto; "C. 



— 217 — 



mulato", "C. verde", "C. pi n ima", preto e pin- 
tado de amarelo. E' de crer que muitos destes nomes, 
baseados somente no colorido, se refiram apenas a va- 
riantes. Veja-se também sob "Miroró". 

Há espécies que atingem grandes dimensões, chegan- 
do a medir 3,5 metros de comprimento e grossura supe- 
rior à da coxa de um homem. Vivem somente no mar, 
escondendo-se entre as rochas ou nos arrecifes; são pu- 
ramente carnívoi-os. 

A carne do "Caramuru" em certas zonas do re- 
côncavo baiano é muito apreciada e, como a gi'ande mo- 
reia é relativamente frequente, sua pescaria especializou- 
se de modo muito original. Devemos ao Dr. Arthur Neiva 
a seguinte descrição da mesma : 

"O pescador, armado de uma haste flexível e longa, 
em cuja extremidade se acha encastoado grande anzol 
(conjunto êste a que se chama "bicheiro"), sonda, quan- 
do a maré baixa, as cavidades das pedras que ainda se 
encontram cobertas pelo mar. Logo que sente sua preza, 
procura fisgá-la e, conforme as dimensões do caramurii, 
encrava-lhe um, dois ou três "bicheiros", os quais o pes- 
cador tem enfeixados nas mãos; em seguida arranca o 
peixe violentamente, lançando-o então em terra firme. 
Não é raro encontrarem-se caramurús maiores que um 
homem, e êstes oferecem desesperada resistência ao pes- 
cador, mesmo quando já fora da água, pois suportam 
bem as condições do ar livre. 

Dadas as proporções do animal, suas dentadas po- 
dem vulnerar gravemente. O caramurú tem o corpo re- 
vestido de uma mucilagem, que o povo chama de "limo"; 
ao preparar o peixe para uso culinário, é preciso esfregar- 
Ihe o corpo com cinza." 

Afirma o Contra-Almirante Camara que um cara- 
murú grande, de 15 palmos de comprimento, rende até 
12 garrafas de azeite. 

A célebre personagem da história, Diogo Alvares 
Corrêa, o Caramurú, foi alcunhado dêste modo pelos in- 
dígenas da Baía, por ter sido encontrado entre as pe- 
dras junto ao mar. A interpretação adotada pelos 
nossos historiadores, quando ti-aduzem o vocábulo como 
o "homem do fogo ou do trovão", é completamente erró- 
nea e fantástica. Admira, aliás, não ter de há muito 
prevalecido esta explicação, já fundamentada pelo P." 
Jaboatão, no "Orbe Seráfico", que insiste na afirmação 
tle ter sido o naufrago encontrado enti*e as pederneiras. 



— 218 



habitações das moreias, e, como se fosse alguma delas e 
das grandes, lhe foi posto o nome Caramnrú-gunssil". 

Ao partido político restaurador, que pretendia res- 
tituir o trono a D. Pedro I, foi dado o nome "Cara- 
muru" (de 1831, desde a abdicação, até 1834, quando 
faleceu o ex-monarca) . Veja também "M u t u t u c a". 

Carancho — Ave de rapina da fam. Falconídeos, Po- 
lyborus tharm. Belo tipo de gavião, do corpo bruno; a 
parte superior do dorso e o peito mostram linhas trans- 



versais, interrompidas; a cabeça é branca com largo cha- 
péu preto; a cauda é branca, com linhas tremidas pretas 
e ponta larga, também preta. 

E' difícil definir em poucas {)alavras o modo de vida 
dessa, ave de rapina, que nem sempre merece tal quali- 
ficativo. Às vezes, é bem um gavião, ávido por boas 
presas, como sejam galinhas e mesmo cordeirinhos no- 
vos, que ataca e vence em luta rápida; outras vezes, con- 
tenta-se com restos de carne que encontra, mesmo que 
seja preciso beliscar ossadas velhas; e até larvas, vermes 
e insetos, como besouros e gafanhotos, para variar tam- 
bém lho apetecem. Em certas ocasiões, observa-se o 
carancho molestando tanto um pernalta, até que êste, no 
vôo, regorgite o bocado que havia ingerido, e só assim se 




Carancho 



— 219 — 



livrará do importuno que, aliás, só tinha êste resultado 
em vista; não se trata, contudo, de nenhuma novidade, 
pois êsse é o sistema frequentemente empregado pelas 
águias marinhas. O carancho prefere as regiões de cam- 
po e de pouco mato ; seu andar é um tanto solene e quando 
levanta o topete não lhe falta certa imponência que, no 
entanto, não condiz com o seu modo de vida de verdadeiro 
plebeu. 

Veja-se também sob "C a r á - c a r á" e "C h i m a n- 
go", dois outros gaviões um tanto semelhantes, porém 
menores e cujos nomes, conforme a região, são às vezes 
confundidos com o da presente espécie. Assim, Goeldi, 
em seu "Álbum das Aves", denomina "cará- cará" o 
nosso "c a r a n c h o". 

Carangonço — Em Minas é sinónimo de escorpião. 
Denominação local. 

Caranguejeira — Ordem Araneidas, subordem My- 
galomorphos, subdividida em 4 famílias. Em sua gene- 
ralidade são grandes, de corpo grosso, escui-o, cabeludo, 
em especial os géneros Eurypelma e Homoeomma, cujos 
maiores espécimens atingem até 25 cms. de comprimento, 
medido entre as extremidades das patas distendidas. 

Em tupi seu nome é "N h a n d u a s s ú". 

Distingue-se facilmente das outras aranhas pelo 
modo de mover as mandíbulas (quelíceros), em sentido 
vertical e não horizontal, como o fazem todas as outras 
aranhas. A caranguejeira é por todos muito temida como 
bicho dos mais venenosos e com justa razão, pois sua 
mordedura acarreta dôres violentíssimas. Contudo, a fe- 
rida sara logo, ao i)asso que a mordida das outras aranhas 
determina chagas ulcerosas, rebeldes a qualquer trata- 
mento, que não seja o do sôro específico. 

Os hábitos destas aranhas são bastante variáveis; 
sendo a maior parte delas terrestres, possuem, não raro, 
um aparelho especial, formado de espinhos muito duros, 
colocados na face anterior dos quelíceros e que lhes per- 
mite cavar a terra e preparar assim seu abrigo; outras 
caranguejeiras, desprovidas de tal aparelho, vivem sim- 
plesmente debaixo das pedi-as ou em fendas naturais do 
solo ou dos ti'oncos; algumas fecham a entrada com um 
tecido sedoso. Em geral, têm hábitos noturnos. 

Os Drs. Vital Brasil e J. Vellard realizaram interes- 
santes estudos com relação às várias espécies de "C a r a n- 
guej eiras". O género Grammostola encerra várias 
espécies, de quasi 8 cms. de comprimento. Alimentam-se 



— 220 — 



de pequenos vertebrados de sangue frio, como sejam rãs, 
lagartixas e cobras. A estas tentam apanhar pela cabeça 
e, si o conseguem, mantém-nas firmes, durante um ou 
dois minutos, que é o tempo suficiente para que o veneno 
injetado paralise a vítima. Começa, então, a aranha a 
triturar com os quelíceros a cabeça do ofídio ; em seguida, 
também o resto do corpo, até reduzir tudo a uma massa 
uniforme, que depois é sugada aos poucos, ou seja durante 
24 ou 48 horas, segundo o apetite. Depois de um farto 
repasto, a aranha deixa passar até duas semanas sem 
procurar novo alimento. Os autores desta observação 

têm tais caranguejei- 
ras na conta de ofiófa- 
gos preciosos, por da- 
rem caça às serpentes 
novas. 

Outra espécie es- 
tudada pelos mesmos 
autores é Lasiodora 
curtior. Alimenta - se 
principalmente de pe- 
quenos vertebrados : 
rãs, lagartixas, ofí- 
dios, porém nunca 
aceita, nas experiên- 
cias de laboratório, 
nem camondongos nem 
insetos. O efeito do 
carancuejcira veneno sobre a víti- 

ma é curioso: de- 
pois de um período de agitação, sobrevêm uma sorte de 
alucinação e movimentos desordenados (como por embria- 
guez). Muito .sensíveis a êssc veneno são os lacertílios, 
que constituem o principal alimento desta aranha. Do gên. 
Acanthoscuria foi estudada a espécie A. ntcrnalia, de di- 
mensões menos avantajadas. À noite caça diversos animais 
pequenos, batráquios e vários insetos. O animal picado 
entra logo em estado de embriaguez, perde o equilíbrio e, 
por fim, cai em torpor. Si não morre, as perturbações 
nervosas permanecem durante meses. 

O único caso de acidente referente ao homem, do 
qual os autores tiveram notícia segura, não revelou sin- 
tomas de envenenamento, a despeito dos sinais evidentes 
deixados pelos dois ferrões da caranguejeira, que ficara 
agarrada ao dedo do paciente. 




— 221 — 



Como já foi dito sob "A r a n h a", as "C a r a n g u e- 
j eiras" não tecem fios, nem armam teias. Sua vida é a 
dos salteadores destemidos, que lutam corpo a corpo com 
a vítima, arriscando a vida, por vezes, mas desprezando 
sempre o embuste vil ; assassina, sim, mas ninguém a cha- 
mará de covarde. Os literatos não conhecem estas pai'- 
ticularidades biológicas dos nossos animais e, assim, um 
dos poetas mais festejados da Academia descreveu, em 
lindos versos, os cuidados de uma caranguejeira, que ar- 
mou sua teia para caçar um besouro dourado . . . E o besou- 
ro, de fato, enroscou-se na teia . . . imaginada pelo poeta, 
que empregou a denominação vulgar "caranguejei- 
ra", referente a determinado grupo de espécies, como se 
fosse apenas um sinónimo de "aranha desmesuradamente 
grande". Ao zoólogo, porém, tais deslises doem... a 
ponto de lhe estragarem toda a poesia! 

Carangueijo — Na acepção ampla designa todos os 
Crustáceos Decapodes brachyuros, isto é, crustáceos com 
5 pares de pernas e abdómen completamente dobrado 
por baixo do cefalotórax, que é a parte central do corpo, 
revestida em cima por uma carapuça redonda, oval ou 
quadrada. São pela maior parte marinhos ; poucos géneros 
vivem também na água doce. 

Camarões e lagostas não são carangueijos; e a zoolo- 
gia popular menos rigorosa, numa quadrinha muito conhe- 
cida amplia ainda esta dúvida: 

Carangueijo não é peixe - Carangueijo peixe é; 
Si carangueijo não fosse peixe - Não nadava na maré! 

Os carangueijos alimentam-se em parte de caça, e 
bastante ágeis e astuciosos são eles para poderem pegar 
muita caça viva; mas predileção maior têm êles pelas car- 
niças e por toda sorte de detritos, pelo que podem ser con- 
siderados como sendo pequenos "urubus" do mar. 

Segundo nos informa o Dr. A. Neiv-a, no recôncavo 
baiano o povo vai fachcar os carangueijos quando êstes 
andam "ao atá". Dá-se isto em certas ocasiões, quando 
vários crustáceos, como também o guiamú, saem à noite 
dos seus buracos e andam pelas praias, inteiramente esque- 
cidos do seu instinto de se conservarem nas proximidades 
das tócas, e então facilmente são capturados à luz de 
fachos, feitos com as folhas da palmeira "uricurí" {Cocus 
schyzolobium) . 



— 222 — 



O modismo brasileiro, ou propriamente nortista, "an- 
dar ao atá", foi extensa e meticulosamente estudado por 
João Ribeiro (A Lingua Nacional, 1921, pag. 163). A 
expi'essão corresponde mais ou menos às formas portu- 
guesas: andar à tôa ou às tontas. (Veja-se também sob 
"Atá"). 




Carangueljos diversos; A esquerda, em baixo, o >aratii. {'/,); i\ 
direita: «siri. ('/j); .caranEiicijo do rio. c o .cliama-maré. ('/,) 



Denominações genéricas são: Guaiamú, Guaiá, Grau- 
çá, Santola, Espia-maré, Siri, etc. 

Carangueijo no sentido mais restrito, como é empre- 
gado principalmente no litoral nordestino, designa a espé- 
cie Uca cordata, de grandes dimensões, inferior em tama- 
nho apenas ao guaiamú. Em enorme quantidade os 
praieiros pegam estes cai-angueijos, arrancando-os da sua 
tóca, no lodo do manguezal, para vendê-los às fieiras, por 
pouco preço — mas também não é muito o que se aproveita 



— 223 — 



ao descascá-los. Podem ser mantidos, durante longo tempo, 
em chiqueiros, e, sendo bem alimentados, engordam. 

Carangueijo do rio — Crustáceos da fam. Trichoda- 
ctylideos, muito semelhantes aos carangueijos do mar; 
aqueles, porém, vivem unicamente na água doce. As várias 
espécies do único género Trichodactyliis pouco diferem 
entre si e habitam em geral as águas pouco correntosas. 

O nome indígena correspondente, " G u a i a ú n a ", 
ainda é empregado correntemente. 

Caranha — Peixe do mar, Salema rhomhoidalis, da 
fam. Sparideos, a que pertence também o "P a r g o". Cor- 
po normal; à frente do primeiro raio da dorsal há um es- 
pinho, dirigido para frente, escondido entre as escamas. 
Dorsal XIII-11, Anal. III-IO. A côr é esverdeada no dorso, 
prateada no ventre; algumas estrias douradas no lombo e 
uma placa negra, circular, no flanco anterior. Pertence 
ao mesmo género o "S a r g o de d e n t e". 

Caranha ou "C a r a n h o" — Vários peixes da fam. 
Lutjanideos, gên. Neomaenis, ao qual também pertencem 
os "V e r m e 1 h o s". Caracteriza-os o forte desenvolvimen- 
to dos dentes caninos e as escamas, logo junto à cabeça, 
são grandes. A nadadeira dorsal tem 10 espinhos e 14 
raios; na anal a contagem respectiva é III-8. Quasi sem- 
pre, além do colorido róseo ou vermelho, há outros tons 
vivos, tais como um tom esverdeado no dorso e faixas 
transversais ou longitudinais douradas. São frequentes 
nos mercados e a carne é apreciável, conquanto classifica- 
dos, em geral, na 2.'' categoria. 

Certa espécie, conhecida pelos pescadores por "Ver- 
melho caranha", atinge l'",50 de comprimento, com 
mais de 50 quilos de peso e o almirante Camara admite até 
2 metros. Em Recife distingue-se como espécie diferente 
a "c a r a n h a de t ô c o" ou "d o r m i n h o c o". 

Julga Miranda Ribeiro que o nome provenha da obli- 
teração de "acará-aia" ou "cará-aia", como os indígenas 
denominavam esta espécie. 

Caranha — Em Goiaz e Mato Grosso são peixes da 
água doce, que correspondem ao que na Amazónia são os 
"Tambaquís", e os "Paciis"nas outras regiões. 
("S aranha" é peixe muito diverso) . 

Carão — Grande ave da fam. Aramideos, Aramus 
^colopucens. O nome é onomatopaico, pronunciado pela 
^ye "à nortista". Mede quasi 70 cms. de comprimento; o 
bico é forte e um pouco curvado. A côr geral é pardo- 



— 224 — 



denegrida; a fronte e a garganta são esbranquiçadas e a 
nuca e o pescoço posterior estriados de branco. Vive à 
margem dos rios c açudes, procurando à noite os moluscos 
aquáticos, de que se alimenta. 

E' ave bastante arisca e para isto tem sua razão, pois 
há caçadores que a perseguem, para aproveitar sua carne. 

Às vezes juntam-se em bandos de algumas dezenas e 
então seu vôo é o de tropa disposta em fila, um atrás do 
outro. 

Carapá — Registrado como sendo nome de um peixe 
do mar, no Ceará. 

Carapanã — Na Amazónia é o mesmo que "Pe r n i- 
1 o n g o". 

Carapanã-ôra — Denominação dada no Acre, segundo 
nos comunica o Dr. A. Neiva, a alguns Ichneumonideos 
(insetos himenópteros, de corpo leve e pernas longas, 
confundidos, provavelmente, com os Tipulideos), que os 
índios julgam ser os causadores do berne, ôra é o mesmo 
que "ura", o nome indígena do berne, e, portanto, a deno- 
minação é bem o sinonimo de "Mosquito berne" 
(veja-se êste nome, dado a uma mosca de pernas longas e à 
qual o povo também atribue a origem do berne). 

Carapanã-pinima — Na Amazónia é êste o nome espe- 
cífico de Aedes egypti, vctor da febre amarela. 

Carapau — ou "Carapau" na Baía, como também 
em Portugal, designa 03 exemplares juvenis do "Chi- 
cha r r o". 

Carapeba — Peixes do mar, da fam. Gerrideos; esta 
se caracteriza por sor a bôca extremamente protrátil, for- 
mando assim um curioso bico curvado para baixo, com 
abertui-a bucal muito pequena e desguarnecida de dentes. 
Corpo ovalado, comprimido. A"Carapeba" (Moharra 
rhomhea) tem apenas 2 raios ósseos na nadadeira anal, ao 
passo que a "C a r a t i n g a" e o "C a r a p i c ú", perten- 
centes à mesma família, têm 3 desses raios. Todas as espé- 
cies criam-se otimamente nos viveiros do litoral nordestino, 
tendo a "Carapeba" a maior, até 30 cms. e a mais 
apreciada. 

Carapeba listada — Em Pernambuco dá-se êste nome 
a uma outra espécie (Etigcrrcs brasilianns) , semelhante à 
precedente, mas cuja nadadeira anal tem 3 raios ósseos e 
que é "listada" por ter linhas oliváceas sobre todas as 
séries longitudinais de escamas nos flancos. Ao mesmo 



225 



género pertence E. phmieri, cujo 2.° raio dorsal é maior 
que o 2.° anal. 

Carapiassaba — E' na Baía, o nome do lindo peixe do 
mar, a que nos referimos sob "B o r b o 1 e t a". O nome 
indígena foi também registrado pelo Alm. Camara, sem 
classificação; parece que é ainda hoje o que predomina 
entre os praieiros, mas Alipio M. Ribeiro só anotou "B o r - 
b o 1 e t a". 

.Carapicú — Peixes do mar, da fam. Gerriãeos, género 
Encinostoinus, que difere dos outros da mesma família 
(veja "C a r a p e b a" e "C a r a t i n g a") , por ter o 2.° 
espinho da nadadeira anal mais ou menos igual aos dois ou- 
tros. As duas espécies, E. gula e pseudogula pouco diferem 
entre si, a segunda desprovida de escamas no sulco pre- 
maxilar. 

"Carapicú sem d e n t e" da linguagem fami- 
liar é pleonasmo, porque os carapicús, como também os 
corumbatás, são desprovidos de dentes bem desenvolvi- 
dos, tendo apenas pequenos dentes viliformes. Veja-se, 
também, "Caratinga", da mesma família. Segundo 
P. Villar, parece que "P r i m i t u m a" é sinónimo de 
"Carapicú". Em Recife distinguem-se : o assú, o 
branco e o pena. Tem pouco valor enquanto pequenos; 
os exemplares bem grandes são vendidos como peixe de 
primeira qualidade. 

Carapina — O mesmo que "P i c a - p a u", isto é, car- 
pinteiro. 

Carapinhé — Nome onomatopaico do gavião que tem 
esta voz, isto é, o "C a r a c a r a í" ou "C h i m a n g o". 

Carapirá — ou também "G r a p í r a", como mais ge- 
ralmente se pronuncia o nome desta ave marinha. 

A grafia "C a r a p i rá", que parece ser a mais etimo- 
lógica, só a vimos na "Poranduba Maranhense", de Frei 
Prazeres. 

Carapitanga — No Norte (Ceará, Maranhão), é um 
peixe marinho, de escamas côr de rosa, com riscas transver- 
sais esverdeadas ; o vocábulo indígena significa peixe ver- 
melho e, de fato, no Norte do Brasil é sinónimo do "V e r - 
iTi e 1 h o", Rhornhoplites aurorubens, que difere dos outros 
"Vermelhos" (gên. Ne<ymaenbt) por ter pterigoides 
dentados e, além disto, 13 acúleos dorsais (e não 10 ou 
11 como os Neomaeniíí). E' de sua sinônimia também o 
"D e n t ã o". O colorido da "Carapitanga" é ver- 
melho vivo, mais claro inferiormente; dorso e flancos le- 



SciELO 



10 11 12 13 1 



— 226 — 



vemente estriados por linhas irregulares, escuras e dou- 
radas. No Norte tem sido assinalado como alcançando um 
metro de comprimento e em certos meses sua pesca rende 
tanto como a da "Cavala". 

Carapó — Vimos registrado em uma lista de peixes 
do mar da Baía, parecendo tratar-se de um Haemulon 
("C o r c o r o c a"). 

(Carapopeba) — E' nome indígena, registrado por 
Marcgrave em Pernambuco, designando um lacertílio de 
três a cinco dedos de comprimento e talvez seja a espécie 
africana importada (a "1 a g a r t i x a" Hemidactylns) ; 
acrescenta, porém, o naturalista do príncipe de Nassau, 
que é venenosa (!), quando, de fato, não há lacertílio 
algum capaz de nos fazer o menor mal. Não sabemos si 
hoje em dia ainda é usada tal denominação indígena, que 
nunca lemos em outros autores. O radical talvez seja 
"Caruá". 

Catará — Nome que se dá ao "B i g u á - 1 i n g a" na 

Amazónia e em Mato Grosso. 

Carará - pirá — Na Amazónia parece designar uma 
grande ave oceânica. (A indicação Diomcdca, portanto 
"Albatroz", certamente é errónea, pois e-sta ave não 
chega às regiões equatoriais). Talvez pela forma "Ca- 
ra pirá" se ligue a "Grapira". 

Carataí — Peixe de couro, da água doce, da fara. 
Trachijcorystideos, Pse.itdaucheniiiterus nodosm, assim 
denominado em Marajó (seu habitat extende-se, porém, 
até a Baía). Difere da "B u r e v a" por ter 20 i-aios na 
região anal e não apenas 10. O colorido é bruno no lado 
dorsal, passando abruptamente para o branco nos flan- 
cos; região umeral maculada. Não alcança um palmo 
de compi-imento. Goeldi atribuo o mesmo nome a espé- 
cies do grupo do "C u i ú - c u i ú"; "C a r a v a t í" é, se- 
gundo Kner, um bagre verdadeiro do rio Guaporé. 

Caratinga — E' denominação sulina, dadas às várias 
espécies da fam. Gerridens, que os pescadores nordestinos 
conhecem por "C a r a p e b a s" (géneros Diapterus e 
Eugerres). Veja-se também "C a r a p i c ú", que perten- 
ce à mesma família. 

Carauassú — E' no Maranhão uma espécie de peixe 
semelhante ao "C h a r é u". 

Caraúna — Em Recife é peixe do mar de ínfima qua- 
lidade; há três variedades, a preta, a azul e a verde (tal- 



— 227 — 



vez apenas variante, conforme a proveniência). Mas tam- 
bém à Cephalopholis fiãvns ruber, de côr vermelho-rubra 
com pintas claras, se dá êste nome, que aliás lhe cabe 
mal, pois una significa preto em tupi, e sendo vermelho, 
o qualificativo deveria ser "piranga". Veja-se também 
sob "P i r a ú n a". 

Caraúna — No Norte o mesmo que "Guaraúna" 

(Veja-se sob êste nome, Plegadis cfuarauna). A etimo- 
logia indica a côr preta dêste "g u a r á", para diferenciá-lo 
da ave semelhante, vermelha, que é simplesmente "gua- 
rá" (Endocimtín rvbêr). Na Amazónia também pronun- 
ciam assim o nome da "graúna" (Barb. Rodr.). 

Caravelas — Celenterados do mar, medusas do gru- 
po dos Syphonophoros; cada espécimen representa uma 
verdadeira colónia, isto é, uma reu- 
nião de várias categorias de indiví- 
duos, estando cada uma encarregada 
de determinado serviço em beneficio 
da comunidade: certo número de in- 
divíduos promove a natação do con- 
junto todo; outros caçam o alimento; 
outros defendem a colónia e outros 
ainda cuidam só da reprodução. São 
estas, de todas as medusas, as mais 
belas e interessantes, não só pela de- 
licadeza do colorido e transparência 
de todos seus órgãos, como pela fei- 
ção bizarra dos múltiplos braços e 
filamentos; algumas manifestam fos- 
forescência bastante intensa. Phi/m- 
lia caravella é a espécie mais típica; 
aparece em algumas ocasiões aos ban- 
dos, nadando na superfície do mar CaraveU 
tranquilo e, dando na praia, seus cor- 
pos gelatinosos são apreciados pelas tartarugas, as quais, 
porém, as comem de olhos fechados (Almirante Camara) 
"para não serem ofendidas pelas cápsulas urticantes com 
que estas medusas se defendem". 

Carcanha — O mesmo que "Cai canha". 

Cardeal — Pássaros da fam. FrÍ7iffillide.os, gên. Pa- 
yoaria, em geral ; abrange 5 espécies, de colorido preto 
ou cinzento em cima, branco em baixo; caracteriza-os 
principalmente a côr vei-melho-escarlate da cabeça, aliás 
*;om penas alongadas em penacho. Como se vê, são lin- 




— 228 — 



dos ornamentos dos viveiros, onde se dão bem. Da Baía 
ao Ceará, em várias zonas, o cardeal (talvez P. larvata) 
é um dos pássaros mais comuns e nas ruas de certas ci- 
dades faz as vezes do tico-tico do Sul ou da "Lava- 
deira" nordestina. (Veja-se a respeito sob "Galo de 
campina"). 

Cardeal amarelo — Pássaro da mesma família do 
precedente, Gubernatrix cristata, do tamanho dos outros 
cardeais, tendo também, como êste, as penas do vértice 
alongadas em penacho. Porém a côr é verde-azeitona em 
cima, amarela em baixo. A garganta e o vértice são pretos ; 
o macho distingue-se da fêmea por ter supercílio e boche- 
chas de côr amarela, que na fêmea são brancos. E' espé- 
cie argentina, que só chega até o Rio Grande do Sul. 

Cardigueira — ou, em Sergipe :"Cardinheir a". 
O mesmo que "Pomba de band o". 

(Cardóza) — Em Santa Catarina, como nos informou 
o Dr. A. Neiva, é o nome de um peixe do mar, semelhante 
à sardinha. Em Portugal, o mesmo nome (talvez apenas 
corruptela de "Cabóz"), mais usado, designa os Gobii- 
deos. Veja sob "M u s s u r u n g o". 

Cari — Veja sob "Cuiú-cuiú"e parece que só 
como sinónimo dos peixes Doradideos êste vocábulo indí- 
gena ainda se conserva em uso. Outrora, porém, na signi- 
ficação mais ampla, abrangia todos aqueles peixes Nema- 
tognatas que têm placas ósseas sobre o corpo, tais como 
os "Cascudos" ou "Gu acaris" e assim, segundo 
Th. Pompeu, no Ceará às vezes ainda é aplicado. Os eti- 
mologistas parece que não concordam todos com a interpre- 
tação dada à palavra "cari-oca": "moradia dos cascudos". 

Cariaponga — Segundo Rod. Garcia, designa em 
Pernambuco a ave da fam. Caprinmlgideos, Caprimulgiís 
occellattis, mais conhecida por "Curiango". 

(Caricho) — Em Minas Gerais é denominação local 
do "V i r a" (Molothrus) ; registrámos, porém, com dúvida, 
esperando confirmação. 

(Caridagueres) — Segundo Goeldi êste nome, que 
aliás nunca vimos registrado por outros autores, parece 
designar certa espécie de símio, do gên. Lagothrix, conhe- 
cido, geralmente, por "Barrigudo". (Veja-se tam- 
bém: "C a p a r o s"). 

Carimbamba — Veja sob "C h a r é u", que assim é 
designado na Baía, quando magro, depois da desova. 



— 229 — 



Carmim — Corresponde à "C o c h o n i 1 h a" (Coccí- 
deo que fornece o corante dêsse nome) ; mas no Rio Gran- 
de do Sul parece que é aplicado ao "p u 1 g ã o 1 a n í g e - 
r o" da macieira (Eriosotna lunigerum). 

(Carneiro) — Denominação portuguesa, que, desig- 
nando restritamente os carunchos dos cereais, do género 
Bruchus, infelizmente não logrou divulgação no Bi-asil. 
Aqui confundimos essas espécies com os demais insetos 
que caruncham os cereais; o nome "gorgulho" não lhes 
cabe, pois não são Curculionidoefi. Trata-se de espécies 
cosmopolitas, das quais as mais difundidas são Bruchus 
ohsoletus, pisoruin, rufimamis, e outros medindo cêrca 
de 3 mms., de corpo ovalado, pubescente, alguns com man- 
chas coloridas; são bastante nocivos. 

Carocha — Vocábulo português que primitivamente 
se referia aos besouros da fam. Curabideos. Mas o povo 
confunde espécies de vários feitios sob êste nome. Da 
mesma forma no Brasil esta designação não se refere a 
espécies bem determinadas. Veja-se, também, sob "Va- 
queiro". A. Neiva ouviu chamar assim no noi'te o que 
aqui denominamos caruncho e foi o que nos confirmou o 
Sr. E. Avila, de Tigipió. Ninguém, no Brasil, imagina 
que os populares "Contos da Carochinha" tenham qual- 
quer coisa em comum com besouros. 

Carqueja — Ave da fam. RalUdeos, Fiãica armillata; 
é o maior dos nossos "frangos d'água", medindo 45 cms. 
de comprimento. O colorido é cinzento escuro, com ca- 
beça e pescoço pretos e as coberteiras inferiores da cauda 
são brancas. As pernas são verdes e o bico amarelo, com 
uma grande mancha vermelha no meio do maxilar su- 
perior. 

(Carraça) — Denominação portuguesa dos Ixodideos, 
conhecidos no Brasil por "carrapato s". Aquele nome 
também cabe, em Portugal, aos carangueijos do gên. Po- 
hjbms (Portunus). 

Carrapateiro — isto é, "Gavião carrapatei- 
r o"; o mesmo que "C a r a c a r á". 

Carrapato — Aracnóides da ordem Acarinos, da 
fam. Ixodideos. Têm quatro pares de extremidades, não 
têm antenas e não só o abdómen não c segmentado (o 
que, aliás, também caracteriza as aranhas), mas ainda 
êste abdómen conflue com a cabeça (de modo que todo o 
corpo forma uma só peça arredondada, enquanto que nas 



— 230 — 



aranhas o "cephalotórax" fica separado do abdómen por 
uma cintura). Por estes caracteres confundem-ae os ver- 
dadeiros carrapatos com os "C. das galinhas", sub- 
fam. Argasineos. Para diferenciá-los basta observar o 
escudo dorsal, presente nos Ixodineos e ausente nos Ai-ga- 
sineos e a cabeça que nos Argasmeos fica escondida na 
face ventral. Em Portugal, os carrapatos têm o nome 
de "carraças". Seus hábitos são bastante uniformes, 
como adeante veremos (excepto o "C. do chão"). 

Certas espécies vivem só sobre determinados hospe- 
deiros; outras agarram-se ao homem como a quasi todos 
os quadrúpedes; há várias espécies que parasitam aves 
e répteis. A espécie mais comum nos nossos campos é 
Ambhjoinma cayennense. Como é sabido, o " C a r i- a - 
pato do boi" transmite a moléstia do gado chamada 
"Tristeza" o^i "febre do Texas". 

A evolução dos carrapatos é bastante curiosa: a fê- 
mea, ao pôr os ovos, sobre os vegetais, junta-lhes uma 
saliva, que os cola e, marchando para ti'ás, a mãe deixa 
estirada uma faixa com muitos milhares de ovos. Finda 
esta sua missão, a fêmea morre, ao passo que dos ovos, 
dentro de alguns dias ou de algumas semanas, nascem as 
larvas hexápodes. Estas ficam à espera do hospedeiro que 
lhes convenha, para realizarem a primeira sucção de san- 
gue; conforme a espécie, as larvas, depois desta refeição, 
deixam-se cair ao chão ou permanecem imóveis sobre o 
hospedeiro, mudam de pele e sugam, então, como ninfas 
octópodes, em tudo semelhantes aos adultos, porém ainda 
sem orifício genital. Segue-se nova sucção e nova muda, 
para então apai-ecer o caiTapato adulto. São principal- 
mente as larvas hexápodes do "Carrapato estre- 
1 a" que nos molestam extraordinariamente, quando, no 
tempo da sêca, ao roçarmos nos arbustos das pastagens 
do gado, êste minúsculo "Carrapato pólvora" se 
apega às nossas vestes, aos milhares e logo após procura 
encravar sua tromba na pele, para sugar. Convém não 
arrancar os carrapatos, arranhando a i)ele com a unha, 
porém antes matá-los esfregando ilfetróleo ou gazolina, 
pois assim se evita as "feridinhas". 

Carrapato do boi — O giande carrapato Boophihts 
microplvíf, que pode atingir 13 mms. de comprimento. E' 
o transmissor da moléstia "t r i s t e z a", do gado. 

Carrapato do chão — São carrapatos que, como os 
das galinhas, pertencem à subfamília Avíjasineos e, por- 



— 231 



tanto, têm a cabeça escondida na face ventral do corpo, 
pelo que não tem o escudo na frente do dorso. São do 
género Ornithoãorus, que se distingue de Argas, no qual 
o dorso é delimitado lateralmente, formando um bordo 
saliente, ao passo que em Oníithodorns as faces dorsal e 
ventral confluem sem que haja separação. O. rostratus 
em Mato Grosso e O. talaje em Minas Gerais vivem, de 
fato, no chão e, quando precisam de sangue para se ali- 
mentar, procuram a vítima. 

Carrapato-estrela — Devido ao desenho do corpo, 
tem êste nome os indivíduos adultos de Amhlyomma cayen- 
nense, a nossa espécie mais comum. No Norte do Bra- 
sil, a mesma espécie tem o nome de "Rodeleiro" ou 
"R o d o I e i r o" ; no Sul de Minas, "P i c a ç o" ou, em 
Sergipe: "Carrapato rodolêgo". 




Carmpalo do boi, fêmea e o macho visto do lado ventral; 
carrapato-estrela c a fornia larval, só com 3 pares tic pernas 



Carrapato das galinhas — Já foi mencionado mais 
acima; é da subfam. Argctsíncos, Argua persicns; vivem 
sobre as galinhas e outras aves e são os transmissores da 
moléstia "E s p i r o q u e t o s e". Não confundir com os 
"Piolhos das galinhas", muitíssimo menores. 

Carrapato de passarinho — E' a ninfa de Ambly- 
oníma longiroí^tre, que é comumente encontrada parasi- 
tando várias espécies de aves: sabiás, anús, jacus, etc. E' 
também conhecido por "Brinco de passarinho". A forma 
adulta parasita o porco espinho. 

Carrapato de pei\e — Em alguns peixes d'água 
doce, dourado, piranha e sorubim, encontram-se nas ca- 
vidades branquiais certos crustáceos da ordem dos Bran- 
chiuros, os quais os pescadores comparam a carrapatos. 
Pertencem à fam. Argulideos; o corpo é em geral, discoi- 
dal, muito achatado o a cauda é representada por dois 
apêndices vascularizados. Carlos Moreira catalogou 7 es- 
pécies da fauna brasileira, 3 do gên. Argulus, 3 de Dolops e 
1 Talavs. 



— 232 — 



Carrapato pólvora ou "C. fogo" ou "Carrapa- 
t i n h o" oú "M eio-chumbo" — São as larvas e nin- 
fas do Amblyomnia cayemiense, (veja "C. estrela"), 
que vivem principalmente nos pastos, no tempo das sêcas, 
agarrados aos galhos e de baixo das folhas, algumas ve- 
zes em enorme quantidade e que aí esperam a primeira 
ocasião para se passar para o corpo do animal que vão 
molestar como ectoparasita. "M i c u i m", em certos casos 
considerado sinónimo de carrapatinho, é cousa diferente. 
Mas essa confusão é tão generalizada, que o Dr. Aragão 
chegou a adoptar o têrmo "Mucuim escuro" para a 
presente espécie. 

Divergimos do modo de pensar do ilustre especialista, 
pois não nos fica bem contribuir para que se oficialize 
um erro, que só acarreta confusão. 

Carrapato vermelho do cão — Rhipicephalus san- 
guineus. Espécie cosmopolita; vive também sobre outros 
animais, além do cão. 

Carriça — Em Portugal designa o pássaro Ano/*- 
tlmra troglodytes e aqui, especialmente no Norte (Baía), 
é aplicado à espécie semelhante, que no Sul conhecemos 
por "C o r r u í r a". Na Baía pronúncia-se "G a r r i ç o" 
e em Sergipe "Garrincha". 

Caruara — Formiga assim chamada pelos índios, 
porque sua mordida coça como sarna e é esta a signifi- 
cação primitiva do vocábulo em tupi. 

Caruaru — No Maranhão denominam assim os la- 
certílios conhecidos na Amazónia por "J a c u r u a r ú". 
Veja sob "T e i ú". 

Carumbé — Quelônio às vezes considerado como es- 
pécie distinta, mas que efetivamente parece ser apenas 
o macho velho do "Jabotí" e cuja couraça dor.sal se 
torna com o tempo muito mais abaulada. E' o mesmo 
que se dá com os machos da "tartaruga da Amazónia", 
que têm o nome especial de "C a p i t a r í". Assim parece 
não ter razão Chermont Miranda, quando diz que se trata 
de uma variedade do jabotí, cujas escamas dos pés são 
amarelas. 

Caruncho — Na acepção mais ampla abrange todos 
os insetos ou suas larvas, que perfuram madeira, livros, 
cereais etc, excluídos porém os que atacam vegetais vi- 
vos, cavando aí suas galerias, as chamadas "Brocas"- 
(A separação, porém, não c nítida, pois a semente do mi- 



— 233 — 



lho pode estar "carunchada", mas com relação ao café 
diz-se que "tem broca"). Assim o caruncho pode ser 
Coleóptero (por exemplo, o gorgulho) e pode ser tam- 
bém um Microlepidóptero (traça dos cereais, Tinen gra- 
nella); também o entomologista não consegue estabelecer 
limites, pois na grande família dos Ipidcos abundam as 
espécies que caruncham a madeira e a ela pertence tam- 
bém a "Broca do caf é". 

E' impossível enumerar aqui a enorme lista de coleóp- 
teros que perfuram os materiais acima mencionados; há 
espécies indígenas e muitas são importadas, cosmopoli- 
tas em geral. 

Tanto o inseto adulto como as suas larvas excavam 
canais, alímentando-se da fina serragem ou do papelão 
ou couro das encadernações ou da pimenta ou do choco- 
late ou fumo que, segundo sua predileção, escolheram como 
moradia. Um dos maiores carunchos é o "das talhas", 
a que adiante nos referiremos e que só se alimenta de grãos 
velhos, armazenados, ao passo que entre as espécies me- 
nores há algumas que mal atingem 1 milímetro de com- 
primento. Há madeiras que nunca são atacadas pelo 
caruncho, especialmente as mais duras e mais pesadas, ao 
passo que outras, moles como a grumixaba, são preferidas ; 
mas o lenhador sabe que o pau, derrubado em certos meses 
ou fases da lua, é mais facilmente atacado e isto deve cor- 
responder à maior abundância de seiva que atrai ou ali- 
menta o caruncho. Calandra granaria é a espécie mais 
frequente no milho; C. oryzae no arroz; ambos são "Gor- 
gulhos". Bruchvs obtectus, chinensis e 4-maculatus, 
redondinhos, vivem no feijão, etc. Na madeira há uma 
grande variedade de espécies pertencentes a diversas fa- 
mílias. Para o ensino, querendo-se demonstrar o papel 
que desempenham as vespinhas minúsculas (Microhymc- 
nopteros) que parasitam os insetos, os carunchos dos 
cereais fornecem ótimo material de demonstração. Basta 
recolher, em vários frascos, algumas amostras de milho 
ou feijão carunchado e poucos dias depois se verá que 
nasceram diversas vespinhas de 2-3 mms. de comprimento, 
criadas à custa das larvas dos carunchos. Contudo a efi- 
ciência desses parasitas não é tal que se possa esperar 
diminuição sensível dos besourinhos, em tempo útil. 

Caruncho do café — ou antes "das tulhas", é um pe- 
queno besouro da fam. Avthribiideos, Araeoceriis fascicu- 
de 4 mms. de comprimento, oval alongado, de ante- 
nas longas, com os três últimos artículos um tanto mais 



— 234 — 



grossos; o colorido é pardo escuro, irregularmente man- 
chado de pontos claros e escuros, devido à pubescência 
dessas cores, que lhe reveste o corpo. Há muito tempo, 
já foi assinalado entre nós, não só como carunchador do 
café, como também do milho e de outros cereais. Não faz, 
porém, estragos consideráveis e não deve ser confundido 
com a "Broca do café", recentemente importada da 
África. 

Casa de marímbondo — Veja sob "Caixa de ma- 
rimbo n d o". 

Casaco de couro — Pássaro da fam. Dendrocolapti- 
deos, Pseudoseisura crvitata, de aspeto de um pica-pau, 
com crista de penas longas e todo êle côr de couro; daí 
e por viver de preferência entre a vegetação de espinhos, 
lhe vera o nome. Faz um ninho imenso, às vezes de um 
metro de diâmetro, um verdadeiro amontoado de grave- 
tos e espinhos, enfeitados com toda sorte de coisas que 
pareçam vistosas ao construtor: papel, pedaços de latas, 
casca de cobra, etc. O ninho abandonado é de novo ocu- 
pado i)or outros pássaros e mesmo por pombas. Segundo 
Goeldi o mesmo nome é dado a um pássaro da fam. Mi- 
mideos, Donacobim airicapiUus, também chamado " J a - 
p a c a n i m" (como aqui o registrámos) , Parece-nos 
pouco apropriado, pois a côr da plumagem não confere 
com o nome. Também o "Birro" (HiriaLdinea) tem 
êsse nome em Mato Grosso, devido à côr da plumagem 

Casaco de couro — Na Amazónia designa duas es- 
pécies de gaviões de plumas sm côr de couro, como o 
usam os vaqueiros do norte. Um dêles é o "Gavião 
b e 1 o", ao qual nos referinn..^ sob essa rubrica; o outro 
é Heterospizias meridir.nalis, que no Sul é chamado "Ga- 
vião cabocl o". 

Cascavel ou " B o i c i n i n g a " do guarani (e ainda 
" M b o i q u i r a ") — Cobra da fam. Vvperideos, Cro- 
talus terrificus, bem caracterizada por ser a única das 
nossas espécies que tem a cauda terminada cm "guizo" 
(são 8 a 14 ou mesmo 20 anéis córneos, móveis, que pro- 
duzem um som de chocalho, quando a serpente, irritada, 
os faz vibrar). Atinge no máximo 1"',80 de compri- 
mento. O desenho consiste em uma série mediana de lo- 
sangos, com os quais alternam outros, dispostos de cada 
lado nos flancos. A peçonha é a mais violenta; o soi'o 
curativo, que serve para as várias espécies de outros vi- 
perídeos (veja "J a r a r a c a"), designado como "anti- 



— 235 — 



botrópico", não atua quando aplicado em acidentes de 
cascavel. Pode ser utilizado o soro polivalente, em dose 
elevada, mas o acertado é ter o "anti-crotálico" à mão. 
Diversamente do que sucede nas curas de outras morde- 
duras de cobras, no caso da cascavel há a temer recaídas 
e, portanto, o tratamento deve ser renovado. 

A cascavel vive nos campos sêcos e evita as flores- 
tas ; por isto não ocorre na zona do litoral, devido às matas 
da Serra do Mar bem como na Amazónia. 

Cascudo — Em Portugal é têrmo de uso corrente, 
abrangendo todos os Coleópteros de elitros bem duros, 
especialmente os maiores, do tipo dos escarabeus. No 
Brasil, porém, esta significação não é muito conhecida, 
preferindo-se o termo mais geral: "Besouro". Con- 
tudo no interior do país. Mato Grosso e algumas regiões 
do Nordeste, é têrmo usual. 

Cascudo — Peixes da água doce, Nematognathas, da 
fam. Loricariideos, cujo corpo é revestido de placas ósseas, 
ásperas, às vezes com pequenos espinhos. Só aparece a 
pele núa no lado ventral, na barriga. Curiosa é a bôca, 
tôda ela situada no lado inferior, com beiço largo, arre- 
dondado e dentes com feitio de "ff". Não pegam em 
anzol e só são pescados com tarrafa; a carne não é de 
qualidade, mas ainda assim, quando o peixe é bem pre- 
parado, assado na própria casca, não é má; a sopa de 
cascudo é excelente. Há uma grande variedade de espé- 
cies; são "cascudos" propriamente ditos, os da subfaniília 
Plecostomineos, cujo pedúnculo caudal é comprimido 
(wais alto que largo), ao passo que são "C ascudos- 
6 s p a d a", os da subfam. Loricariineos, nos quais o pedún- 
culo caudal é deprimido (achatado) ; no Rio Grande do 
Sul são chamados : "C a s c u d o viola". 

Trata-se de um conjunto de talvez 260 espécies, que 
vezes diferem muito pouco umas das outras. Além 
•íisto são "C a s c u d i n h o s" as numerosas espécies do 
&í'upo Otocinclus e Microlepidogaster, miúdos, de 5 ems. 
^6 comprimento no máximo, com placa temporal crivada, 
•Marginada atrás por curtos acúleos; adiposa ausente. Vi- 
^em só em i)equenas águas ou entre as pedras e locas mar- 
^inai.s dos rios maiores. (Veja também "Ta mo a tá"). 

Há cascudos de mais de meio metro de comprimento, 
^'ííuns horrivelmente guarnecidos de espinhos por todo o 
^^i"po, principalmente junto à cabeça, onde atingem alguns 
^^ntímetros de comprimento. 



— 236 — 



O cascudo comum deita ovos em tócas dos barrancos; 
o cascudo-espada, porém, fixa-os ao ventre, de forma a 
protegê-los eficazmente. Por êste motivo o cascudo-espa- 
da pode limitar o número dos ovos a uma centena apenas, 
pois a evolução da quasi totalidade dêles está garantida; 
ao contrário disto, aqueles peixes que soltam os óvulos na 
correnteza, onde a maior parte se perde, precisam com- 
pensar essa falta de cuidado, o que fazem produzindo 
imensa quantidade de óvulos, como por exemplo no caso 
do dourado e do jaú, que dispõem de alguns milhões de 
óvulos. Veja estampa da pg. 582. 

Cassaco — No Nordeste (Pernambuco ao Ceará) o 
mesmo que "Gambá". 

Cassununga — Vespa social, Polybia vicina, relati- 
vamente pequena (11 mms. de comprimento) de côr bruna, 
com pouco desenho apagado, amarelo. E' uma das espé- 
cies mais temidas pelo povo e com justa razão, não só por- 
que suas picadas são muito doloridas, mas também de- 
vido ao grande número delas, que saem do ninho para 
atacar quem lhes perturba o socego. O ninho é consti- 
tuído por enormes camadas de células sobrepostas, sem 
invólucro e sempre são construídos dentro de um abrigo, 
como sejam ôcos de árvores, latas, casas abandonadas, 
etc. Um ninho encontrado dentro de uma barrica vasia, 
portanto pequeno, (pois os ninhos grandes podem medir 
até metro e meio de diâmetro) contava cerca de 500.000 
células e abrigava talvez 100.000 indivíduos. 

Tem razão, o povo, quando afirma que está sujeito 
a ficar morto no chão quem fôr seriamente atacado por 
um enchame de cassunungas. Soubemos de vários casos 
autênticos e, por experiência própria, podemos assegurar 
que é temeridade aproximar-se em dias quentes a 50 me- 
tros do ninho desta espécie. Ao contrário, com o frio, 
não há perigo e assim, certa madrugada de inverno fo- 
tografámos à magnésio, o teto de uma capela abandonada 
da roça, cujo forro estava revestido por um enorme ninho 
de cassununga. Há benzedores que dizem saber afugentar 
tais ninhos, mas no caso da capela a que acima nos refe- 
rimos, tudo falhou e, por fim, só o fogo conseguiu vencer 
as vespas, destruindo o ninho.. . e a capela também! 

A etimologia do nome indígena parece ser clara- 
"caba cynynga" — a vespa que zumbe; de fato é bastante 
intenso o ruido que estes insetos fazem no interior o" 
ninho. 



— 237 — 



Castanheta ou "S a 1 e m a feiticeira" — Nome 
que registrámos em Olinda-Pernambuco, para os peque- 
nos peixes do mar da fam. Pomacentrideos, semelhantes 
aos "acarás" d'água doce (ordem Chromides) , com 12 a 
14 acúleos na Dorsal e 2 na Anal. Mal atingem 20cms. 
de comprimento e por isto não têm valor no mercado, 
mas são em geral lindamente coloridos e por isto aprecia- 
dos como enfeites de aquário. Nas Antilhas são conhe- 
cidos pelo nome de "demoiselles". No cativeiro perdem 
com o tempo as côres vivas, mas se por acaso se irritam, 
o amarelo ou azul reaparecem. O género Eupnniacentriis 
abrange várias espécies; à mesma família pertence Abn- 
defdnf marginatus, caracterizado pelas 5 ou 6 faixas ne- 
gras verticais. Esta espécie foi registrada por Marcgrave 
(1648) sob o nome indígena ("lagvacagvare"), com a 
observação de que os lusitanos o conheciam por "Jaqueta", 
nomes estes que hoje estão esquecidos. Mas nas ilhas 
Canárias ainda subsiste para esta família a denominação 
"Castanhetas", idêntica, portanto, à nordestina. Miranda 
Ribeiro registrou "Q u e r ê - q u e r ê" e "M a r i a m o 1 e". 

Castanhola — Na Baía, um peixinho também cha- 
mado "Borboleta", talvez idêntico aos precedentes. 

Catasol — Na Baía, os pequenos caracóis do grupo 
dos Helicideos (terrestres) ; talvez também sejam incluí- 
das as formas aquáticas (Limnaea, veja "C a r a c o 1"). 

Cateto — O mesmo que "C a i t e t ú". 

Catingueiro — Apelido dado à "C i g a n a", por causa 
de seu mau cheiro. 

Catingueiro — Veja-se sob "Veado catin- 
ga e i r o". 

Catita — No Rio de Janeiro é um peixe do mar, talvez 
sinónimo de "E n c h o v i n h a". 

Catita — (subst. masc. "rato catita"), no Nordeste 
(Pernambuco ao Rio Grande do Norte) é sinónimo de 
"C a m o n d o n g o", 

Catorra — Veja "P a p a g a i o", Myiopsitta mona- 
chus, semelhante aos "Periquitos", mas de bico bo- 
judo nos lados; verde, com fronte e lado ventral parda- 
cento, ondulado e remígios azuis. E' do Rio Grande do 
Sul e Mato Grosso c também da Argentina; frequente- 
Wiente é mantido como papagaio doméstico. 

A "C a t i t a", como a ave é conhecida nas repúblicas 
platinas, chega a ser praga muito aborrecida dos milha- 



— 238 — • 

rais e já Darwin, em 1832, soube que na Colónia do Sacra- 
mento foram mortos pelos lavradores 2.500 desses "bico- 
redondos" daninhos. Quanto ao modo de nidificar, dife- 
i-encia-se esta espécie de todos os papagaios, pois ao con- 
trário dêstes, que todos se alojam em ôcos de pau, a 
"Catorra" constrói ninho como a generalidade das aves, 
entre as forquilhas de uma árvore. E' um grande monte 
de gravetos, medindo até dois metros de diâmetro e com 
beiral, que resguarda a entrada ; esta dá para um corredor, 
que conduz ao centro do ninho; tantas são as entradas e 
as respectivas câmaras, quantos forem os casais que co- 
operam para construir a grande "casa de apartamentos". 
Não são frequentes, em ornitologia, tais casos do tão ín- 
tima convivência durante o período da incubação. 

Catorrita — O mesmo que "C a t o r r a", talvez 
mais usado. 

Catraio — Veja sob "Linguado". 

Catuquim — Inseto (?) da Amazónia ("Inferno 
Verde" de Alberto Rangel). Falta-nos qualquer outra 
informação, para melhor identificarmos êste vocábulo, 
que nunca vimos empregado por outro autor. 

Caturra — Na ilha Marajó designa "diversos peque- 
nos coleópteros", sem melhor identificação, segundo o 
glossário de V. Chermont dc Mii-anda. 

Cauã — Na Amazónia e também em Sergipe (como 
nos informou Cleômenes Campos) e portanto talvez no 
Norte em geral, é o mesmo que "A c a u ã". 

Cauauã — No Norte é êste o nome da ave pernalta, 
que no Sul é conhecida por "Jabiru m o 1 e q u e"; veja 
êste. 

Cauí — O mesmo que "C a u i c h í". 

Cauichí ou "C a u í" ou "C a b i x í" — Pequenos es- 
pongiários da água doce, (Tvbella rcticuhtta e Parrmila 
bateíiii), que crescem sobre a parte submersa dos troncos 
dos vegetais, formando camada áspera, de cór terrosa. As 
espículas dosprendem-se na água agitada e assim provo- 
cam forte irritação da pele dos banhistas inexperientes. 
Os índios às vezes misturam êste cauichí na argila com 
que fazem seus utensílios de cerâmica. (Informações do 
Sr. Paul le Cointe). No rio Madeira dão-lhe o nome 
"Paracutaca". 

Cauintã — Na Amazónia, também "C a m e t a u" 
ou "U n i c ó r n e o" e "A n h u m a" do Sul. 



— 23Q — 



Cauré — Na Amazónia é êste o nome do gavião- 
zinho que no Brasil meridional é conhecido por "Ten- 
ten zinho", denominação sob a qual descrevemos a es- 
pécie e onde aludimos à confusão que o povo faz, ati'i- 
buindo a esta ave o ninho, que de fato é dos "Ando- 
r i n h õ e s". 

Dissemos então que o Cauré, ágil no vôo como bem 
poucas aves, chega a perseguir até andorinhas, taperás 
e taperussús; estes últimos são os "Andorinhões", 
cuja curiosa construção, semelhante aos famosos "ninhos 
de andorinhas", também aqui foi descrita e à qual o povo 
atribue predicados maravilhosos, pelo que usam como 
amuleto, um retalho apenas, daquele quasi feltro de se- 
mente e saliva! Mas porque atribuem ao cauré o ninho, 
que de fato foi construído pelo andorinhão? Êste, fugin- 
do do feroz perseguido!*, abriga-se logo em seu ninho e 
assim vê-se às vezes o pequeno gavião montando guarda 
diante da sólida construção, esperando poder mais cedo 
ou mais tarde, deitar as garras à ave sitiada. 

O povo, não compreendendo a verdadeira situação, 
julga por isto serem tais ninhos do Cauré. E' esta, pelo me- 
nos, a explicação aventada por Goeldi, quando o naturalista 
verificou que os ninhos de andorinhões eram apregoa- 
dos no mercado de Belém como sendo "ninhos de Caurés". 
E para que comprariam os negros e tapuios tais ninhos, 
retalhados em pedacinhos de alguns centímetros quadra- 
dos? Sem muito regatear, a negra velha adquire o pre- 
cioso talismã, pois sem dúvida assim lhe advirão a for- 
tuna e a felicidade tão desejadas. Outros têm mais fé nos 
uirapurús; ela prefere o "ninho do Cauré" — é simples 
questão de palpite ... ou melhor, de tradição. 

Cavaco — Na Baía chamam assim as "S ol te i ras" 
grandes (Almirante Alves Camr.ra). 

Cavadeira — Denominação, talvez não muito gene- 
ralizada, que no Est. do Rio de Janeiro se dá às aves 
mais conhecidas por "Cuitelão". 

Cavala branca — p]' semelhante à "C. verdade i- 
1' a", porém atinge apenas metade do desenvolvimento desta 
6 tem pintas como a Sororoca e além disto uma estria 
bronzeada entre as mesmas; além disto, a parte superior 
de toda a nadadeira dorsal anterior é negra (Scomhcro- 
inorns re(jalis). Em Pernambuco distinguem ainda duas 
espécies : a "b ô c a - 1 a r g a" e a "cavala sardi- 
íiheira". 



— 240 — 



Cavala do reino — Peixe do mar da fam. Sco77ibri- 
deos, Scomber eólias (corresponde ao "Maquereau" dos 
franceses e "Mackerel" dos ingleses). Não tem carena 
no pedúnculo caudal ; o desenho consiste em zebruras oblí- 
quas, subparalelas, no dorso. 

Cavala verdadeira ou "C. p r e t a" ou "p e r n a de 

moça" — Peixe do mar da fam. Scombrideos, Scombero- 
morus cavalla; é o tipo principal do grupo, ao qual per- 
tencem também a "S o r o r o c a", " A 1 b a c o r a", "B o - 
n i t o" e "S e r r a". A côr é azul-aço em cima, branca em 
baixo e não tem mnnchas nem desenhos. Atinge l'",50 
de comprimento com 20 quilos de peso; a carne é muito 
apreciada. Pescam-na de anzol ou de "corrico", dando 
toda velocidade à embarcação e a linha bem como o anzol 
são arrastados à tona; a cavala persegue a isca e pega 
de um bote. A pesca de rêde é um tanto perigosa; cerca- 
se o bando com a rêde e vai-se estreitando o cerco; os 
peixes, então, tentam escapar saltando e assim podem 
atingir o pescador e feri-lo no rosto. 

Cavalinho de judeu — E' o nome dado na Baía às 
"L i b é 1 u 1 a s". O pejorativo da denominação torna-se 
evidente, confrontando-a com o nome que, mais para o 
Norte se dá aos mesmos insetos (veja-se a seguir). 

Cavalo de cão — De Pernambuco à Amazónia é êste 
o nome dos insetos da ordem Odonatos, fam. Libelliilideos, 
a que no Sul chamamos "Lavandeiras". Parece que 
são incluídos também em tal denominação os Neurópteros 
da fam. Myrmeleonideos; êstes vivem nas terras arenosas, 
onde as larvas cavam um funil, em cujo fundo ficam à 
espera dos insetos que venham a cair na armadilha. 
Ainda no Norte, dá-se o mesmo nome às grandes vespas 
Pepsia. Desde logo é preciso explicar que "cão", neste 
caso, se refere ao "tinhoso", o diabo (palavra esta que 
não se deve pronunciar!). Resta saber porque as ele- 
gantes e para nós inofensivas libélulas, tem ligação com 
o "coisa ruim". 

Cavalo marinho — Peixes marinhos da subordem 
Lophobranchios, do gên. Hippocampwi, dos mares tropi- 
cais, representado entre nós por H. punctulatus e mais 4 ou- 
tros. A cabeça é perfeitamente a de um cavalo fantástico; 
a cauda é preensil, como a do gambá e assim faculta ao 
peixe segurar-se às algas ou outros vegetais submersos. 
Os machos têm um saco abdominal, ao qual são recolhidos 
os ovos, até concluírem a evolução. São muito interes- 



— 241 — 



santes e por isto constituem grande atrativo nos aquários 
marinhos. Não têm valor económico algum. Há outras 
espécies, com nadadeira caudal (SipJwstoma) e que não 
têm o pescoço curvado. 

Cavapita — E' a pronúncia paraguaia por "caba- 
pitanga", isto é "vespa vermelha" ou sejam as espécies 
grandes do género Polistes; aquela denominação é usada 
também em Mato Grosso, ao passo que no Brasil meridio- 
nal se diz "V e s p a cabeei o". 

Caxinguelê — Nome provavelmente de origem afri- 
cana, dado ao "Serelepe", da Baía ao Rio de Janeiro. 

Cazuza e "Cazuzinha" — E', em Pernambuco, 
segundo Rod. Garcia, uma espécie de vespídeo solitário, 
temido pela sua terrível ferroada. Parece que designa 
particularmente as espécies dos gên. Bembex e Monedtda, 
em geral do côr amarela com desenhos pretos e que, reu- 
nidos às vezes às centenas, fazem cada uma seu ninho 
separado na areia. Sua caça predileta são as mutucas; 
levam-nas para o ninho, afim do servirem de alimento às 
larvas, as quais, ao se desenvolverem mais tarde, encon- 
trarão essas mutucas ainda com vida latente, porém para- 
lizadas e portanto impossibilitadas de se defender. Em 
Joazeiro o Dr. A. Neiva registrou a denominação "Pio- 
lho de uru b ú" para estas espécies. 

(Cegonha) — Denominação portuguesa do grande 
pernalta Ciconia ciconiu e que pelos colonizadores foi 
aplicada à espécie semelhante da nossa fauna, Euxenura 
maguari, mais conhecida entre nós por "J a b i r ú mo- 
leque" (veja êste) ou "Cauauã" na Amazónia. Em 
nosso vocabulário, "Cegonha" não tem acepção restrita. 

Ceguinho — Peixe de couro Nematognata, da fam. 
Pimelodideos, Tupldobagrus kronei (que segundo alguns 
autores é sinónimo de Pimelodella lateristriga) , o qual 
representa uma evidente adaptação ao ambiente inteira- 
mente escuro em que sempre vive. Èste mandí encon- 
tra-se unicamente nos riachos que atravessam as grutas 
calcáreas do vale da Ribeira, Est. de S. Paulo, onde as 
trevas são absolutas; dêste modo a visão tornou-se impos- 
sível e 0.S olhos, conquanto presentes, não aparecem, devi- 
do à pele que os cobre. 

Centopeia — Na acepção mais ampla, abrange todos 
Os artrópodes cujo corpo longo, vermifoi*me, seja provido 
de 

pernas em todos os segmentos; os Diplopodes têm 2 
Pares em cada segmento (veja "Piolho de c o b r a") ; 



— 242 — 



os Chilopodes, um só par em cada um. Pertencem a êste 
último grupo as espécies mais propriamente conhecidas 
pelo nome de "Centopeias". Há numerosas espé- 
cies brasileiras (cêrca de 50), distinguindo-se entre 
elas as do gên. Scolopendra, algumas das quais são cos- 
mopolitas. As maiores atingem 30 cms. de 
comprimento; sua mordedura é extrema- 
mente venenosa e dolorosa. E' o primeiro 
par de patas, ou sejam os maxilipédios 
que funcionam como arma de defesa; as 
unhas, que estão em comunicação com as 
glândulas produtoras de veneno, encra- 
vam-se na carne da vítima e assim injetam 
o líquido venenoso. Dá-lhes o povo tam- 
bém o nome de "La cr aias" (contudo, 
"Lacrau" é sinónimo de "Escoí'- 
pião"). A denominação indígena " J a- 
1) e u s s á" ou " J a p u r u s s á" parece que 
em parte alguma do país foi conservada 
em uso. E' fácil distinguir as duas famí- 
lias abrangidas na ordem dos ChUopodos: 
os GeophilidroK tém corpo antes roliço e 
o último par de patas é curto; na fam. 
Scolopendrideos o último par de patas é 
muito desenvolvido (Scolopendra morsi- 
tuns, aliás de vasta distribuição, por todas 
as regiões tropicais). Há ainda uma ter- 
ceira família, da qual ocorre entre 
nós uma espécie género Scutigera, com pés muito longos, 
principalmente os últimos pares, parecendo-se os derra- 
deiros com as longas antenas da extremidade oposta; 
vive em lugares úmidos e sombrios, dando caça a insetos 
caseiros. 

Cericóia — Veja "Seri cor a", que é no Norte o 
mesmo que "Saracura" do Sul. 

Cervo — Veja "Veado G a 1 h e i r o". 

Chabó — Amadeu Amaral, em seu "Dialecto Caipi- 
ra", identifica estii andorinha grande sob "Taperá- 
g u a s s ú". Deve, pois, ser sinónimo de "T a p e r u s s ú". 
(Chaetura zonaria). Por enquanto, só conhecemos o ter- 
mo como paulistanismo. 

Chaiá — O mesmo que "Tachã", sendo aquele 
nome de origem argentina, também com base onomato- 




Ccntopéia 



— 243 — 



paica; parece-nos, porém, ser a denominação brasileira 
"t a c h ã", cópia mais fiel do grito da ave. 

Chama-maré — Crustáceo da fam. Ocypodideos, Uca 
vocator, pequeno, pois o corpo mede apenas 3 cms. de lar- 
gura e de côr azeitona ou parda, com manchinhas claras, 
E' um carangueijinho original, cuja tenaz, de um dos 
braços, é excessivamente grande, ao passo que a do outro 
lado é muito mais franzina. Quando está despreocupado, 
o pequeno crustáceo costuma brandir esta arma e, assim, 
parece estar chamando alguém, pois os repetidos movi- 
mentos das tenazes como que acenam, sempre na mesma 
direção. Daí a interpretação dada pelo povo: "si o pe- 
queno crustáceo não insiste, a maré se esquece de voltar". 
A isto também alude a denominação específica, latina, ao 
passo que o nome genérico é o mesmo vocábulo indígena 
"uçá", escrito sem cedilha, como, aliás, se acha gra- 
fado na obra de Marcgrave, em que se baseou Lineu. 
Veja-se, também, sob "E s p i a - m a r é". Na Amazónia, 
Pará, seu nome indígena é "Maracuaim"; veja-se 
sob "T e s o u r a". 

Chaniichunga — No Rio Grande do Sul é corruptela, 
aliás mais usada pelo povo do que "S a n g u e - s u g a"; 
em Sergipe diz-se "C h a m i c h u g a". 

Chancarona — Denominação portuguesa de um peixe 
do mai', que no Dicionário de Moraes é explicado como: 
"Pargo salgado". Marcgrave (1G48) escreve "Chayquaro- 
na", como sinónimo da denominação "P i r a m b ú" da lín- 
gua indígena. Tanto a descrição como a figura de Marcgra- 
ve condizem mais ou menos com alguma espécie do gên. 
Cynoscion ("Pescadas"). Ainda hoje figura êste 
nome ou "Xancarona" na lista do pescado do Ceará, 
pesando os peixes 2 quilos em média; não tivemos, porém 
oportunidade para identificá-lo. 

Chanchã ou " P i c a - p a u do ca m p o " — Ave 
trepadora da fam. Picideos, Coluptcs campestris; é uma 
das espécies maiores, que mede 30 cms, de comprimento; 
tem a fronte, o vértice e a garganta pretos ; a nuca, o pes- 
coço e parte do peito são amarelos; o dorso e a barriga 
são esbranquiçados, com faixas pretas transversais e as 
hastes das rêmiges são amarelas. E' ave dos campos e 
ttiuito arisca; pousada sobre um tronco, de longe avista 
&s pessoas que se aproximam e logo levanta vôo, grilando 
com voz metálica as duas sílabas que lhe deram o nome. 
Em geral, vive aos casais, 1'aramente em pequenos ban- 



— 244 — 



dos; sua atividade, como pex'seguidor de formigas, me- 
rece registro. 

Changó — Na Baía dá-se êste nome (ao que parece 
regionalismo restrito?) aos Engraulideos; veja-se sob 
"Manj uba". 

Chapéu armado ou "Cambeva" — Veja-se sob 
"Peixe m a r t e 1 o". 

Chapéu armado — Denominação local de certas es- 
pécies de lagartas de mariposas da fam. Megalopitgideos, 
"ta tora nas", cujos pêlos estão dispostos de forma a 
imitarem o feitio do antigo chapéu de gala. São, em es- 
pecial, as do gên. Podalia e algumas do gên. Megalopijge. 

Charéu — Peixe do mar da fam. Carangidcos, Ca- 
ranx hipjws. E' o tipo mais característico do seu gru- 
po (Veja "Cherelete" e também "C h i c h a r r o") . 
Em Portugal designa-se como "C h a r r é u" ou "C h u r - 
r é u" uma espécie congénere do "C h i c h a r r o" (veja 
êste) ; o nosso "Charéu" não foi assinalado na fauna 
portuguesa. Na presente espécie os escudos ósseos apa- 
recem só na metade posterior da linha lateral, que é 
curva na metade anterior. A côr é azul-escura em cima, 
amarelada inferiormente ; tem uma mancha preta no opér- 
culo e outra na axila. Atinge quasi um metro de com- 
primento. 

O Sr. J. Teixeira Barros descreve a "Pesca do charéu 
na Baía" em um interessante artigo da Ilbintração Brasi- 
leira (Junho de 1923) e daí extraímos os seguintes dados. 
A rêde de charéus mede, de ordinário, 800 m. de compri- 
mento por 30 m. na parte mais larga ; compõe-se de 5 
partes, de feitio original e, ao todo, os 76 panos que a 
compõem, pesam mais de 650 quilos, só o barbante, afora 
1.500 cortiças e 700 chumbadas, pesando um quilo cada 
uma destas. Está claro que a pescaria só pôde ser pra- 
ticada por um conjunto de perto de 70 homens, contra- 
tados pelo "armador" ou dono da "armação". A pesca 
começa nos últimos dias de Novembro de cada ano, pi'0- 
longando-se até a quaresma seguinte. Prepara o lanço 
a jangada grande, que leva para o mar 20 blocos de pedra, 
onde são afundados como âncoras, presas cada uma 
duas cordas, por sua vez ligadas a uma bóia de cortiça e ã 
"passadeira"; esta é um cabo grosso que flutua, suspenso 
de espaço em espaço por "jangadinhas". À passadeira 
liga-.se então a grande rêde e os amarrilhos ou "bêtas" 
distam 2 metros uma da outi-a. Formado o lanço, a parte 



— 245 — 



mais larga da rêde não toca no fundo do mar, nem tal 
seria necessário, pois o charéu em suas migrações anuais, 
de sul para norte, nada próximo da terra e na profundi- 
dade de 1 a 2 metros apenas. O peixe locomove-se sem- 
pre contra a correnteza e assim não retrocede, à procura 
da saida franca; acontece, porém, perder-se todo o peixe, 
quando um grande seláquio, também enredado, abre pas- 
sagem, cortando as malhas com seus dentes aguçados. 
No dia seguinte ao lanço e si a maré o permite, procede- 
se ao arrasto da rêde. Em três jangadas seguem para o 
mar os cortadoi'es de bêtas e os mergulhadores, que de- 
vem desembaraçar a rêde, si esta ficar presa no fundo. 
Em teri'a 40 arrastadores, auxiliados às vezes por juntas 
de bois, recolhem a rêde e, si o peixe é muito, levam 3 a 4 
horas a puxar. 

Para avaliar a quantidade e a qualidade do peixe, os 
mergulhadores "correm a i-êde" de baixo da água, ao ser 
cortada a última bêta; em certas ocasiões não é o charéu, 
porém a cavala que predomina. Uma das maiores pes- 
carias, que se fizeram nestes últimos trinta anos, rendeu, 
de um só lanço 1.517 charéus. O peixe chega á terra 
ainda vivo e antes de expirar "sapateia", dando saltos. 
Antigamente, o charéu era alimento só de escravos e da 
gente pobre; hoje, a população da capital baiana faz lar- 
go consumo dêste peixe que, simplesmente cozido ou es- 
caldado e ainda sob forma de moquecas, é refeição sabo- 
rosa. O Sr. Teixeira Barros refere-se a uns vermes bran- 
cos de 1 a 1 1/2 cm. de comprimento, "que se criam no 
lombo e dentro dos ossos da cabeça do peixe e que é pre- 
ciso retirar, pois que comunicam à carne um sabor ado- 
cicado, porém sem outro inconveniente". E' assunto que 
ainda precisa ser esclarecido pelos nossos helmintólogos, 
pelo estudo do ciclo evolutivo da larva. 

Durante sua migração paivi o norte, os charéus estão 
gordos e as fêmeas fornecem ovas apreciáveis, tanto fres- 
cas como, no dizer do historiador Rocha Pitta, "salpreza- 
das, em uma forma de prensa, onde são espremidas e de- 
pois postas a secar, com o que de amarelo se tornam ru- 
bicundas; e com êste benefício permanecem longo tempo". 
Depois da desova, os peixes voltam para o sul, porém 
ftiagros e então são chamados "C a r i m b a m b a s". Os 
Pescadores distinguem o "Cabeçudo", que, segundo 
alguns, é o próprio charéu, enquanto novo, ao passo que 
o argumento de ser êle pescado durante o ano todo, poderá 
confirmar a informação do Dr. A. Neiva, de que talvez se 



24Õ — 



trate de espécie diferente, congénere da "G u a r i c e m a". 
E', porém possível que os peixes, enquanto novos, não to- 
mem parte na migração. 

Em Recife designam os pescadores, às vezes, como 
"Charéu branco" a espécie congénere, aliás lá mesmo 
mais conhecida como "Aracimbora" ou "Guara- 
ci m b o r a". 

Charol — Peixe do mar, registrado na lista do pes- 
cado do Rio de Janeiro. Não temos informação a res- 
peito; parece, apenas, pela formação da palavra, ter li- 
gação com o "C h a r é u". 

Charuto — Na Baía os pescadores designam assim 
as tainhas pequenas. 

Chato — Inseto pertencente à mesma família Pedí- 
culideos como os piolhos (veja êstes). Phthiriits púbis é 
parasita do homem, que se localiza a princípio nos pêlos 
das partes genitais; não havendo o necessário cuidado, 
extende-se também às axilas e mesmo ao rosto. Usam-se 
pomadas mercuriais, mas bastam também as lavagens 
repetidas com álcool ou petróleo. As lêndias ou ovos de- 
senvolvem-se em uma semana e em 15 dias pode comple- 
tar-se o ciclo de ovo a ovo. O "Chato" distingue-se 
facilmente dos piolhos, por não ter cintura entre o tórax 
e o abdómen; além disto, não excede 1 a 1,6 mm. de com- 
primento e o corpo é relativamente mais curto e mais 
largo. 

Chauim — Na Amazónia é o mesmo que "S a g u i m". 

Chave — Molusco marinho, caramujo da fam. C//- 
prueideos; a espécie mais vulgar é Cypraea exanthenut. 

Chechéu — O mesmo que "Japi m". 

Chega e vira — Denominação local dada, no Mara- 
nhão, à marreca "Irêrê". 

Cherelete ou " C h e r e r e t e " — Peixe do mar 
da fam. Camngideos, Paratractns chrysos. E' parente 
próximo do "Charéu" e não do "Cherne", como o 
nome parece indicar. Às vezes os pescadores também dão 
o nome de "Cherelete" ao verdadeiro "Charéu" 
enquanto pequeno. O cherelete velho, bem grande, é co- 
nhecido por "G u a r a s s ú". O corpo é comprido, alto; o 
primeiro acúleo da dorsal anterior pôde ser deitado para 
a frente, de modo a se encaixar na pele; nadadeiras dorsal 
e anal com os ráios anteriores formando lóbulo falcado. 
Caracterizam esta espécie uma nódoa preta no opérculo e 



— 247 — 



outra na axila. No mercado não alcançam o preço dos 
peixes de primeira qualidade. 

Cherne ou "C h e r n e t e" e "C h e r n o t e" no Sul 
e ''S e r i g a d o cherne" no Nordeste — Peixe do 
mar da fam. Serranideoí^, Garupa nigritu; distingue-se 
dos outros géneros da família à que pertencem também 
a "G a r o u p a" e o "Mero", por ter a nadadeira dorsal 
dividida em duas secções. O colorido é um tanto variável 
nos espécimens menores, que podem ter várias séries de 
manchas pelo corpo; os adultos são de côr chocolate uni- 
forme e, como o "Méro", ultrapassam 2 metros de com- 
primento, pesando até 400 quilos (A. Miranda Ribeiro 
sob Garupa niveata). Sabemos que um exemplar de 
1"',70 de comprimento pesou 100 quilos. 

Cherne vermelho — Peixe do mar da fam. Liitjani- 
deos, Neomaenin aya; veja-se "Vermelho". E' evi- 
dentemente um nome "comercial", para dar maior valor 
ao peixe. 

Chibante — Registrámos sob êste nome dois passa- 
rinhos, um da fam. OxyrhampJiideos, Oxyrhamphiis flam- 
niiceps, outro da fam. Pipridcos, Ptilochloris squamata. 
Ambos são pássaros verdes, poi"ém bem diversos, pois o 
primeiro tem topete vermelho-fogo e lado inferior ama- 
relo com manchas pretas, ao passo que Pt. squamata tem 
vértice preto, azas e cauda denegridas, mas o lado inferior 
também é amarelo com linhas transversais pretas. Talvez 
sejam tais ornatos a razão pela qual o povo tem êstes 
pássaros em conta de muito janotas ou chibantes. 

Chicharro — Peixe do mar da fam. Carangideos, 
Trackurus trnchurus; igual nome lhe é dado em Portugal.- 
Seu nome indígena, ainda em uso em Recife, é "G u ara- 
Çuma" ou "Garaçuma". Pertence ao grupo do 
"C ha réu", mas tem placas ósseas em toda a extensão 
da linha lateral, as quais, porém, só da metade do corpo 
Para trás possuem acúleos. Enquanto novo, chama-se 
"C a r a p a u". 

Têm igual nome as dua.s espécies do género afim 
^('captcrus, que se distinguem pela presença de uma pí- 
lula era seguida às nadadeiras dorsal e anal. "C bichar- 
o p i n t a d o" é o D. punctatus, distinguido por 10 pon- 
tos negros no tórax. 

,^ Chichica e "Chichica d 'água" — Veja sob 
"^I u c u r a" e "Q u i c a". 



— 248 



Chico preto — Nome que no Norte do Brasil tam- 
bém se dá à "G r a ú n a". 

Chitnango — Ave de rapina da fam. Falconideos, 
Milvugo chimango, do Rio Grande do Sul, que é do mes- 
mo género que o "Caracará", com o qual se parece; 
porém o lado ventral não é claro, uniforme, mas bruno- 
amarelado, com estrias longitudinais escuras. Não sabe- 
mos ao certo a qual das duas espécies se aplica o nome de 
"C a r ú - c a r a í". 

Chimhuré "A mb o ré" ou "Timboré" — Peixe 
de escama de água doce, da fam. Chamcideon; abrange 
várias espécies da subfam. Anostomatineos à qual pex'- 
tencem as "Piabas" (da nomenclatura sulina) ou 
"Piaus" (do Nordeste) e com os quais muito se pare- 




cem, nunca atingindo porém maiores dimensões e o corpo 
é sempre mais esguio. Por êste motivo não têm melhor 
cotação entre os pescadores, que só dão valor aos Chim- 
borés como isca para o dourado. Além do género Aiiofi- 
tomiis que encerra uma dezena de espécies, são abran- 
gidos também vários outros géneros com algumas espé- 
cies; torna-se pois impossível caracterizar resumidamente 
um grupo tão variado e de difícil classificação. 

Lembraremos ainda que em 1922 foi denominada Lc- 
porellus timhorc, por Eigenmann, uma espécie do Rio das 
Velhas que faz parte, agora, de uma subfamília distinta 
e, no entanto foi por longo tempo confundida com as de- 
mais espécies do gên. Lcporímis. Veja-se também "Sol- 
teira". 

Chimburétinga — ou, em Minas Gerais, "Capinei- 
r o" ou "Piaba t o r t a". E' um "C h i m b o r é" gran- 
de, que alcança 40 cms. de comprimento e cujo perfil su- 
perior da cabeça é visivelmente côncavo. 



— 24Q — 



Chincoã — Na Amazónia é o mesmo que "Alma- 
da -gato". E' tido como ave que pressagia a morte: 
"Um belo chincoan costumava pousar nos galhos em frente 
à casa e ali ficava horas inteiras a cantar alegremente o 
seu te. . te. . te. . te. . Aconteceu, porém, que no dia em 
que o Polydoro adoeceu, o pássaro deixou de trinar o seu 
canto de alegria, para entoar o fatídico Xin-cu-an. Vi- 
mos logo que o Polydoro não levantava desta; o malvado 
veio avisar-nos que meu irmão estava para morrer". 
(Lendas Amazônicas, J. Coutinho Oliveira). Mas tam- 
bém outra ave, (Coccyziis) , um i)ouco menor, de colorido 
pardo-bruno em cima e ocráceo em baixo, de resto seme- 
lhante ao "A Ima-de-gat o", é conhecido por "C h i n- 
cuã" na Amazónia. Resta elucidar qual dos dois tem o 
"canto fatídico". Seja, porém, qual fôr o resultado desta 
investigação curiosa, nenhum mal deverá advir a qual- 
quer destas duas espécies, pois ambas são utilíssimas ao 
agricultor. E o povo sabe disto, pois o Coccyziis inela- 
corijphuís é cognominado também "P a p a - 1 a g a r t a", 
e, de fato, o seu principal alimento consiste em lagartas 
de lepidópteros. Nos Estados Unidos, onde tais investi- 
gações são talvez a preocupação primordial dos ornitólo- 
gos, as espécies dêsse mesmo género de aves foram ava- 
liadas em 10 dólares anuais, por cabeça, quando se lhes 
concede livre estadia na lavoura. E, efetivamente, o exa- 
me de 155 estômagos evidenciou que êstes cucos são pu- 
ramente insetivoros e que 509í clêsse alimento consiste 
em lagartas; não é raro encontrar até 100 lagartas como 
resto de almoço de uma só ave. Durante a colheita, quan- 
tos inimigos da plantação um bandinho de chincoãs eli- 
minará, sem despesa de inseticidas para o lavrador? 

Chiova — O mesmo que "Cioba" (peixe). 

Choca — Designa as espécies menores de "Bor ra- 
lhar as" e na Amazónia equivale em português à deno- 
minação indígena "Mbatara". Abrange as várias es- 
pécies de Thaninophilus da fam. Formicariideos. São 
passarinhos das matas e capoeiras, cujo colorido é preto 
ou cinzento escuro, com variado desenho de linhas, man-. 
chas ou orlas brancas; as fêmeas facilmente se distin- 
guem, porque o desenho, em tudo semelhante ao do macho, 
é, contudo, de colorido avermelhado ou amarelento. 

Chocão — Pássaro da fam. Formicariideos, Hypoe- 
(lulens guttatus, que é afim aos ThamnophUus, como aliás 
exprime o nome, aumentativo de "Choca". O macho 



— 250 — 



é preto, com manchas redondas, brancas, nas costas e no 
peito; o lado ventral é branco-cinzento ; sobre as azas e 
a cauda correm estrias brancas. Na fêmea estas estrias 
e manchas redondas são amareladas. 

(Choco) — Denominação portuííuesa, dada a certos 
géneros de Cephalopodes, mas que não conseguiu vulga- 
rização no Brasil. Aqui incluimos tais espécies entre as 
"Lulas" ou "Ca la mar"; em Portugal "Choco" de- 
signa particularmente a Sépia officinuUs, que também 
fornece a melhor "siba". 

Chopim — Muito provavelmente esta denominação, 
aplicada a vários pássaros pretos da fam. Icterideos, de- 
riva-se da forma primitiva "Japú" e suas alterações: 
Japuí, Jupuira, Japim, de onde (Jopim) Chopim. Quem 
procurou a origem dessa denominação no nome "Cha- 
p i m", dado em Portugal a vários pássaros, evidentemente 
ignorava que estes, nem pelo aspeto nem zoologicamente, 
podem ser aproximados aos nossos Chopins, por serem 
aqueles muito menores (fam. Parideos, extranha à nossa 
fauna) e, quando muito, comparáveis às corruíras. Há 
até, o nome "Chopim", em Portugal, designando i)orém 
um pássaro da família do pardal. A etimologia do nosso 
"C h o p i m" liga-se portanto melhor a "J a p i m". No Rio 
Grande do Sul e daí para o Norte, até Iguapé, designa 
o Aaptiis chopi (e é evidente que a denominação cienti- 
fica se baseia no nome vulgar), ficando reservado para 
Molothrus bo)iaríensis o nome "Vira" (ou por extenso 
"V i r a - b os t a"). No Estado de São Paulo, poi'ém, o 
povo tlestrocou a significação destes dois nomes e assim 
Auptiis chopi — "Vira" e Molothrus hoimriensis = 
"Chopim". Já no Estado do Rio de Janeiro o povo 
adota a significação riograndense das duas denominações. 
Acrescem, i)orém, mais os seguintes nomes: "Pássa- 
ro preto", "Graúna", "A num" aplicados, confor- 
me a região, a um ou outro destes dois pássaros e ainda 
n vários outros, de colorido inteiramente preto. Como não 
é possível remediar tal confusão, limitamo-nos à enume- 
ração das espécies envolvidas nesta embrulhada, a) Mo- 
lothrx.^ bouarioisis (pequeno, comprimento da aza 12cms., 
macho preto com brilho azul de aço e fêmea negro-fusca; 
não cria os filhos, mas põe seus ovos nos ninhos dos tico- 
ticos c de outros passarinhos) : é o " V i r a" do Rio Gran- 
de do Sul e no Rio de Janeiro, e o "C h o p i m" no Estado 
de São Paulo. Na Amazónia é "P a p a - a r r o z". b) 
Aaj)tus chopi (um pouco maior, com as penas da cabeçíi 



— 251 — 



estreitadas para o fim, onde terminam em ponta) : é o 
"C h o p i m" no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro e o 
"Vira" no Estado de S. Paulo, c) Cassidix orijzivora 
(grande, 18 cms. de comprimento alar, preto violáceo, com 
uma sorte de coleira formada por penas alongadas no 
pescoço) : é a "G r a ú n a" ou "Chico P r e t o", "M e 1 - 
r o" e "R e X e n c h ã o", d) AmblycercuH solitarius (aza 
13 cms., preto, só o bico é branco): é a "Graúna de 
bico branco", e) Crotophaga ani (preto, dorso com 
brilho violáceo, comprimento alar 15 cms., o bico tem uma 
crista mediana alta) : é o "A n ú", que ninguém confunde 
com os precedentes; mas, em certas regiões do Rio Gran- 
de do Sul, é conhecido por "A n ú" também o Aaptus chopi. 
tanto que há uma quadrinha popular: "Anú é pássaro 
preto — Quando canta à meia noite. . ." e certamente o 
trovador não se refere aos gritos lastimosos do Anú, 
catador de carrapato. "P á s saro preto" ou "M a r i a 
p r e t a" e "G r a ú n a" (aliás perfeitos sinónimos : guira- 
pássai'o, «na-preto), não tem aplicação bem certa, sendo 
usados ora para esta, ora para aquela das 4 primeiras es- 
pécies acima referidas. Mais generalizada é, porém, a 
acepção "G r a ú n a" = Cassidix. "G a u d é r i o" é ainda 
um nome vulgar que se pi"esta a confusões. Escandalosa- 
mente gaudério (isto é, vi vedor, que não cria a sua prole) 
é o Molothrns: mas êsse hábito é mal de família, pois 
ainda outras espécies de Icterídeos assim procedem, tendo 
sido observado que Cassidix orijzivora põe seus ovos no 
meio da ninhada do "Guaxe" e do "Japú". 

O Chopim, na acepção paulista (Molothrns bonaricn- 
sis), como já dissemos, não constróe ninho próprio; ain-o- 
veita-se do trabalho já feito por outros pássaros, princi- 
palmente do tico-tico, mas também vai ao ninho da Pohi- 
binha das Almas, dos Sanhaços, dos Papa-capins e dos 
Canários da ten-a. Clandestinamente aí põe seus ovos na 
postura já começada. Sua maldade ou astúcia vai a ponto 
de eliminar os ovos legítimos ou, pelo menos, inutilizá-los 
por meio de bicadas. E o pobre tico-tico, sem dar pela 
coisa, consagra todo seu carinho a éstes ovos alheios e, 
mais tarde, ao saírem os filhotínhos, díspensa-lhes os mes- 
n^os desvelos como aos próprios filhos. Tendo de crescer 
fttais, êste filho intruso também precisa comer mais e o 
paciente tico-tico dá-lhe as rações dobradas, algumas ve- 
zes preterindo os filhos legítimos, que não conseguem er- 
ííuer-se tanto no ninho, para disputar os biscatos. Engra- 
çadíssimo é ver-se, mais tarde, a mãe dando os primeiros 



— 252 — 



passeios com os filhinhos; si entre êles um é bem mais 
tahulo e de outro feitio, èste é o filho do gaudério. Os 
naturalistas ainda não chegaram a conclusão segura quan- 
to a um ponto assaz interessante da biologia deste pássaro : 
ora seus ovos são salpicados e manchados sobre campo 
esverdeado ou avermelhado; ora encontram-se ovos intei- 
ramente brancos. Diz-se que êstes são os que foram 
postos em ninhos fechados, ao passo que nos ninhos aber- 
tos, onde o proprietário vê a côr dos ovos, o gaudério imita 
a côr dos já existentes. Então, o pássaro tem influência 
sobre a côr dos ovos que vai pôr? Seria muito interes- 
sante adquirir cei'teza a respeito de tão curioso fenómeno, 
ligado, simultaneamente à perspicácia e à fisiologia do 
pássaro. (Além dos vários Icterideos, também alguns 
Cuculideos são gaudérios, notadamente em nossa fauna, 
o "Saci"; na Europa, o Cuco). Tão conhecido é o há- 
bito de parasita ou gaudério do Molothrus, que o povo já 
alcunha, correntemente, de "chopim" os maridos ma- 
landros e preguiçosos, que vivem à custa do trabalho da 
mulher. 

Chora lua — Denominação local do "Urutau". 

Chora-vinagre — Certos Celenterados do mar, assim 
chamados, provavelmente, por esguicharem um líquido, 
compai'ável a vinagre. Talvez seja sinónimo de "Á g u a 
v i V a". 

Chorão — O mesmo que "Mandí-chorão". Vá- 
rias espécies de pequenos peixes de couro, do gên. Glaiii- 
dium. Têm êles tal nome, porque, de fato "choram" quan- 
do são pescados, imitando a voz de criança manhosa. Tam- 
bém enti-e os verdadeiros "M and is" há espécies que 
emitem voz, quando são tildados da água, no anzol. Con- 
firma-se, pois, mais uma vez que não há regra sem exce- 
ção: nem mesmo todos os peixes são mudos. (Lembra- 
x'emos ainda, a propósito, os Sciaenideos do mar, como 
a "M i r a g u a i a", que roncam e certos "Cascudo s" 
que emitem vozes bastante intensas). Veja-se também 
"C h o r o 1 a m b r e". 

Choro — Veja sob "Cor ró", 

Choró-choró — Segundo Paulino Nogueira, no Ceará 
é êste o nome de uma "ave pequena, cocurutada, de papo 
branco, costas pretas, malhadas de branco; a fêmea tem 
costas vermelhas". 

Chorolambre — Pequeno peixe de couro da fam. 
Pimelodideos , Rhamdia vittata e, provavelmente, também 



a espécie congénere R. lateristriga, de mais ampla dis- 
tribuição no Brasil. Caracteriza-os a linha escura que 
vai, pelo meio do flanco, do focinho à cauda. Mas tam- 
bém lhe cabem as denominações genéricas "Jundiá" e 
"Bagrinho". 

Choupa ou " X o p a " — Denominação portuguesa 
de vários peixes do mar, aplicada na Europa a espécies 
da fam. Sparideos. Por analogia são assim chamadas, 
em Itaparica, as espécies correspondentes da nossa fauna, 
do grupo dos "P a r g o s", "S a 1 e m a" e "S a r g o s". 

Chumberga — Nome de um peixe, conforme regis- 
trou "A Voz do Mar" n. 78, segundo informação de Gam- 
boa do Morro de S. Paulo, Estado da Baía. Curiosa é 
a etimologia dêste vocábulo, explicada por João Ribeiro 
como sendo derivada do nome de um oficial dos tempos 
da invasão holandesa e que vivia embriagado; daí a lo- 
cução: "estar na chumbei-ga". 

Chupa-ovo — O mesmo que "P a p a - o v o", cobi-a. 

Chupador — Veja sob "Pulga d ' a n t a". 

Chupança ou "Chupão" — Veja-se sob "Bar- 
beiro" e "Pulga d 'anta". 

Chupança do cacau — O percevejo Monalonioíi xan- 
thophylUiin, da fam. Mirideos (Capsideos) , responsável, 
em parte, pela doença do cacau chamada "Queima" 
(veja esta). 

Chupita — No Norte do Brasil, segundo O. Monte, 
é assim chamada a "Piranha" (Pygocentrus piraya) 
quando é preta com pescoço avermelhado. 

Churi — Veja sob "Xurí", sinónimo de "Nhan- 
dú" ou "Ema" no Rio Grande do Sul. 

Ciecié — As referências que encontrámos em alguns 
escritos não evidenciam si essa denominação indígena 
ainda hoje é usada em Pernambuco. Registrou-a Mai'c- 
grave, em 1648, para designar o pequeno carangueijo do 
mangue, Gelasimus viaracoani. Obtivemos, porém, um 
apontamento do Dr. José Gonçalves, pelo qual "Cié" 
designa um siri pequeno no Norte (ubí?). Quanto ao 
nome da espécie, acima citado, veja sob "Maracu- 
a i m". 

Cigana — Denominação local da formiga açucareira 
(Iridomyrmex humilis) . 



- 254 — 



Cigana — Ave da fam. Opisthocomideos, Opisthoco- 
mus cristatus, espécie amazónica, comparável aos " J a- 
cús". Seu colorido é amarelo e vermelho ferrugíneo, 
com dorso mais bruno e peito branco; a cabeça é ornada 
por uma touca de penas longas e acuminadas. Vive em 
bandos consideráveis nos terrenos alagadiços que mar- 
geiam os grandes rios da Amazónia, especialmente sobre as 
"aningas" (Araceu). O povo também lhe dá o nome de 
"Catingueiro", devido ao seu cheiro penetrante e 
característico, comparável, segundo uns, a esterco fresco 
de cavalo ou semelhante à catinga do urubú. 

Cigarra — Tem êste nome na Amazónia um "P a p a- 
c a p i m" (Sporophila leucoptera hijpoleHca), que se ex- 
tende também para o Sul até o Rio de Janeiro. Seu co- 
lorido no lado inferior é branco, em cima côr de rato; a 
cauda e as azas são pretas, estas com um espelho branco. 
Por ser o bico avermelhado, no Sul a mesma espécie é 
conhecida por "Papa-capim de bico vermelho". 

(Cigarra) — Erroneamente, entre nós, os portugue- 
ses designam por êste nome os insetos aqui conhecidos 
por "Esperanças" (Locust ideou). Explica-se facil- 
mente tal substituição, sabendo-se que no Norte de Portu- 
gal não ocorrem as verdadeiras cigarras (Cicada) e que 
os Locustidcos também "cantam" mais ou menos como - 
aquelas. 

Cigarra — Os pescadores, maus entomologistas, com- 
param ao inseto estridulador os crustáceos da ordem Iso- 
podes (portanto, afins aos Oniscus, "t a t u z i n h o s"'* 
da fam. Cuinothnideos, parasitas de muitos peixes do mar 
e tfimbém da água doce. O corpo, em geral alongado, 
medindo 2 a 3 cms. de comprimento, consta do cefalotórax, 
de 7 segmentos abdominais c do disco terminal ou telson; 
na face ventral há 7 pares de pernas grossas, que ter- 
minam em garras. Algumas espécies invaginam-se na 
pele, como bernes; a maioria, porém, abriga-.se na bôca 
do peixe, agarrando-se à língua. 

Curiosa é a evolução destas últimas espécies. Ha- 
vendo sempre um só dêstes parasitas na bôca do peixe 
e não podendo êle aí entrar em contato com exemplares 
da mesma espécie, do sexo oposto, a natureza concedeu- 
Ihe a seguinte faculdade, deveras original: a princípio to- 
dos os Cyviothuideos são machos; após a maturação dos 
órgãos sexuais, dá-se a transformação, tomando o mesmo 



exemplar caracteres femininos, cujos ovos são fecunda- 
dos pelo órgão remanescente, masculino. 

Afirmam os pescadores de Piracicaba e de Pirassu- 
nunga, com relação ao "P e i x e cachorro" ou "S a i - 
ca nga", em cuja bôca quasi sempre se encontra êste pa- 
rasita agarrado à lingua, que o peixe morre se lhe tirarem 
a "cigarra". O fato é explicável, pois não é fácil retirar 
o crustáceo, devido aos dentes muito aguçados do pei.xe 
e como êste é muito sensível, morre logo quando fica al- 
gum tempo fora d'água. 

Cigarra — Como denominação gei-al, abrange um 
grande número de insetos Heynipteros, da subordem Ho- 
mopteros. Tais são, em parte, as espécies maiores das 
fam. Memhracidcos e Cercopideos, algumas da fam. Ful- 
fjorideos (porém com exclusão 
das espécies maiores ou a " J e- Jí 
q u i t i r a n a b ó i a") e, final- 
mente, com mais propriedade, 
as da fam. Cicadideos. Todas 
estas formas, bastante diferen- 
tes entre si no aspeto geral, 
têm em comum ser a aza ante- 
rior de consistência igual em 
toda extensão (e não com uma agarra 
parte basal mais dura, como 

nos percevejos); os tarsos são 3 - articulados e a trom- 
ba, inserida no lado inferior da cabeça, na posição de 
repouso fica dobrada sobre o peito; a cabeça tem feitio 
especial, como que truncada na fronte, com uma parte 
mediana, anterior, entumecida. 

As cigarras propriamente ditas (Cicadideos) têm azas 
transparentes, com nervuras bem salientes; há 3 ocelos 
no alto da cabeça. Só os machos "cantam", isto é, pro- 
duzem um som estridente, não por meio de fricção, como 
o fazem os grilos c gafanhotos, mas servindo-se de um 
aparelho todo especial, situado na face ventral da base 
do abdómen. Duas cavidades com membranas distendidas 
funcionam com tímbalos, que vibram em consequência da 
contração brusca dos músculos. 

Cada espécie tem seu canto peculiar e algumas, das 
niaiores, fazem um barulho infernal, principalmente em 
ílias de muito calor. Muito mais importante do que esta 
Parte quasi i)oética, é a que diz respeito à sua má reputa- 
ção como inseto nocivo à agricultura. As ninfas das ci- 
ííarras levam às vezes vários anos para completar sua 




evolução e a espécie norte-americana Cicada septemdecim 
emprega 17 anos para atingir a fase adulta. Vivem de 
baixo da terra, sugando raizes e é justamente para abri- 
rem caminho subterrâneo ao longo destas, que as larvas 
têm as patas anteriores providas de curiosas cavadeiras; 
a final, emergem, fincam as unhas na casca da árvore de 
cuja seiva se alimentaram e saem da pele, a qual apenas 
se fende nas costas e permanece intacta, i-epresentando 
perfeitamente o corpo do inseto. E' êste o documento 
invocado pelo povo, (juando afirma que as cigarras, às 
vezes, cantando em desafio, se esforçam tanto para vencer 
que até racham e morrem ! (Veja estampa da pg. 398) . 

Cigarra do cafezal — Ilá duas espécies que foram 
assinaladas como bastante nocivas aos cafeeiros: Cari- 
netta fascicvlata, com linhas em zig-zag no tórax e Fidn- 
cina pidlata, um pouco maior (45 mms.) pardo-escura em 
cima, mais clara em baixo, além de mais 2 espécies do 
mesmo género e Quemda ftodalis. A. Ilempel e ultima- 
mente M. Lopes Oliveira F." estudaram sua biologia e 
dêste último transcrevemos em resumo o seguinte: 

De Novembro a Janeiro é que aparecem. Desovam 
nos galhos secos, fazendo neles com a "espada" uma in- 
cisão ao cori'er das fibras da madeira e largando na fenda 
pequenos ovos enfileirados. Passados dez a vinte dias, 
nasce uma pequenina larva, em forma de charuto, ainda 
envolvida no amnion; nessa fase (intermediária entre 
ovo e larva) fica pendurada a um fio, para depois se 
deixar cair e se enterrai-, indo logo à procura das raizes, 
das quais suga quanto precisa para se alimentar. 

De três e meio a quatro anos, a larva vive na terra, 
num fura-fura sem parar, do raiz em raiz; à propoi'ção 
que vai crescendo, vai dando preferência às mais grossas 
e ao pião. A larva em nada se parece com a cigarra; é 
amarelada, tem a aparência de enorme pulga, com 
duas valentes pernas deanteiras, apropriadas para ca- 
vocar. 

Como vive numa profundidade de vinte centímetros a 
um metro, não põe a terra, do furo que faz, para fora: 
empurra para os lados a terra que vai cavando, tendo o 
cuidado de molhar bem esta, secretando urina aos jatos. 
Esgotada a provisão, volta para o ponto onde formou ao 
redor de uma raiz uma espécie de câmara e com o rigido 
ferrão suga seiva até se empaturrar, indo, depois, con- 
tinuar a perfuração até encontrar outra i'aiz em boas con- 
dições. 



Calculem-se quantas picadas dá uma larva em cen- - 
tenas de raizes durante a sua longa existência subterrâ- 
nea, milhares talvez. A quantidade de seiva que rouba 
às árvores é enorme. 

Conseguimos medir uma distância de onze metros, 
caprichosamente percorridos, tendo verificado 23 câmaras 
em muitas das raizes. Esta "distância, entretanto, pode 
ser muitíssimo maior. 

Ao sair, deixa um buraco limpo, sem pôr terra para 
fora; a larva sobe nos troncos, agarra-se fortemente com 
as unhas, fica imóvel, espera a pele partir-se nas costas 
e dela emerge a cigarra perfeita; as azas não demoram a 
endurecer e então o inseto pode voar. 

A cigarra dos cafezais não "canta" comprido, mas 
"tosse". 

São, em certas ocasiões, tantas as ninfas que sugam 
nas raizes de um mesmo pé, que êste definha e morre. 
Assinalado o mal, denunciado, não raro, pelos tatus que 
escavam buracos junto ao cafeeií-o, em procura das larvas, 
o único remédio aconselhável é a aplicação de formicida, 
cêrca de 200 cc. por árvore em vários buracos, de apenas 
lOcms. de i)rofundidade. 

Cigarrinhas — Insetos prejudiciais às plantas culti- 
vadas. Da mesma forma que o têrmo "Percevejo", 



Aplicado aos Hemípteros, também "C i g a r r i n h a", 
abrangendo variadas famílias de Homópteros, não per- 
mite classificação compatível com o caráter resumido 
l^estas notas. Mencionaremos apenas as seguintes famí- 
''as, aqui compreendidas: Memhracideos (cabeça abau- 




— 258 — 



lada, pernas saltígradas; as larvas envolvem-se em uma 
secreção, que forma espuma) ; tais são as espécies do gên. 
Tomaspis, muito prejudiciais à cana de açúcar. Os Psylli- 
deos (aza anterior coriácea, antenas longas, 10 - articula- 
das, pernas traseiras saltígradas) determinam galhas nas 
folhas de várias plantas. 

Cioba ou (" S i o b a ") ou " C h i o v a " — Peixe 
do mar da fam. Lutjanideos, do mesmo género da "C a- 
r a n h a" e do "V e r m e 1 h o". Neomaenis jocu é uma 
das espécies assim denominadas na Baía; o colorido é 
oliváceo no lado dorsal e vermelho-cúpreo noa lados; vá- 
rias faixas transversais escuras ornam os flancos. No 
Ceará, segundo Paulino Nogueira, o mesmo nome de- 
signa uma espécie semelhante ou "C a r a p i t a n g a", 
porém de côr mais roxa; a carne é excelente. Neomaenis 
synagris, cuja dorsal tem apenas 12 (e não 14) ráios 
moles, é semelhante e tem uma grande mancha negra no 
meio do flanco. (Veja sob "Vermelho" e também 
"C i o q u i r a"). 

Cioquira — Em Pernambuco dá-se êste nome às 
"C iob a s" enquanto novas e também às espécies de Neo- 
muenis de porte mínimo. Da mesma forma: "Siobi- 
n h a", "S i r 1 r i c a" ou "P i r á - s i r i r i c a". 

Cipó sêco — O mesmo que "Bicho-pau" (Phas- 
mideos). 

Cisne — Nome de ave européia, às vezes aplicado 
às duas espécies da nossa fauna, conhecidas por "Pato 
arminho" e "C a p o r o r o c a". 

Coandú ou "Quandú" — Em Mato Grosso, na 
Amazónia e no Ceai'á é a denominação corrente, do i'oe- 
dor conhecido no Sul só por "Ouriço cacheiro". 
Também se pronúncia "Cuandú". Às vezes, também 
os "R a t o s de espinho" ou "T o r ó" (gên. Lonche- 
res) são confundidos sob o mesmo nome. Digna de registro 
é a seguinte frase cearense, que efetivamente exprime 
grande heroísmo: "Tem coragem de matar coandú com 
a bunda" (Leonardo Motta). Ainda no Ceará dá-se o 
nome de "coandú" aos pés novos da palmeira Carnaúba, 
muito espinhentos. 

Coatá — Macacos da Amazónia, do gên. Ateies, gran- 
des, de 1,35 cms. de comprimento, e que se caracterizam 
pelas extremidades e cauda desproporcionadamente longas, 
(esta última perfazendo mais da metade do comprimento 



— 259 — 



total). A. panisciis é preto; A. varieíjatus, também cha- 
mado "M a q u i ç a p a", tem o lado ventral brancacento; 
uma terceira espécie, A. marginatus, é semelhante à pri- 
meira, distinguindo-se por ter a cabeça em cima clara. 
Deixam-se domesticar facilmente e, apezar de terem caras 
de velho, muito rugada, são 
joviais e cómicos, o que con- 
diz bem com o físico desen- 
gonçado. Gabam os caçado- 
res sua carne como sendo a 
melhor caça da Amazónia. 

Coalí ou "Cuatí" — 
Carnívoro da fam. Procyoni- 
deos, Nasua varica. As di- 
mensões dêste animal são as 
seguintes: comprimento do 
corpo, 70 cms. e da cauda 55 
cms. A côr geral é cinzento- 
amarelada, mais clara nos la- 
dos e um tanto rui- 
va na barriga. Na 
cara destacam-ae 
duas riscas bran- 
cacentas e algumas 
uianchas arredon- 
dadas ao redor dos 
olhos ; as orelhas 
têm margem ama- 
relada ; o focinho e 
os pés são pretos. 
Característicos são 
os 7 ou 8 anéis 
claros, alternados 
com outros, pretos, 
fio longo de toda 
3 cauda. Mas há 

í^uita variação neste colorido, conforme a idade e, talvez, 
tle acórdo com a região em que vivem, de modo que poderá 
haver subespécies a distinguir. Os caçadores distinguem o 
Coatí mondéu" dos "Coatís de vara", mas 
àquele não é sinão o macho velho da mesma espécie, que vi- 
ve desgarrado da vara. Reunidos em número de 10 a 20, 
Percorrem a mata de dia, em geral trepados nas árvores, em 
procura de alimento, que consiste tanto em pássaros, ovos 
^ insetos, como em frutas; também foçam o húmus a 




Coatá 



— 2Õ0 — 



procura de verme.s e larvas; de quando em quando inva- 
dem o milharal, causando grandes estragos. Perseguidos 
pelos caçadores, procuram salvar-se trepando nas árvores ; 
mas, si desta forma não conseguem fugir, ao primeiro tiro 
todos eles se deixam cair ao chão, o corpo embolado, com 
o focinho abrigado entre os braços, porque essa sua trom- 
ba é extremamente sensível. Atacado sem poder fugir, o 




Coatí 



coatí defende-se com valentia e seus dentes, muito fortes, 
são armas perigosas. Acostuma-se ao cativeiro, mas é 
menos interessante do que seria de esperar e, além disto, 
tem forte catinga. Gosta de lavar-se com sabão e apre- 
cia ainda mais uma outra invenção do homem: o gali- 
nheiro, onde gosta de procurar ovos e comer as aves. 

Coatí-mondéu — Veja supra; são os coatís velhos, 
que levam vida solitária, provavelmente destronados da 
chefia da vara. 

Coatí de vara — São os que vivem em bando; essa 
nomenclatura dos caçadores não se baseia, porém, em dis- 
tinção esi)ecífica, como alguns pretendem. 

Coatíaipê ou "C o a t i m i r i m" — Em Pernambuco 
é o mesmo que "Serelepe". 

Coatiara ou "B o i c o a t í a r a" — Serpente da fani. 
Viperideos, Bothrops coatiara; é mais ou menos igual à 
"Urutú", distinguindo-se, porém, por ter o desenho eni 
forma de feri-adura menos acabado que esta; também o 
desenho da cabeça não é tão completo. O número de esca- 
mas ventrais é menor (155 a 161) e o das subcaudais maior 
(47 a 52) do que em B. alternatns, "Urutú" (180 e 40 
respectivamente). Pode-se dizer que representa um meio 
têrmo entre urutú e jararaca. Algumas vezes o nome 
" Coatiara "é atribuído à própria urutú. 



— 261 — 



Coatípurú — Na Amazónia é o mesmo que "S e r e - 
lepe". 

Cobra — Abrange todos os Répteis da ordem dos 
Ophidios, representada no Brasil por 7 famílias, que com- 
preendem, ao todo, cêrca de 210 espécies, de acordo com 
o Catálogo de Afrânio do Amai-al, 1936. E' fácil a carac- 
terização da ordem; contudo, há representantes de ou- 
tros grupos, que são confundidos com as cobras. Assim, 
há as "cobras de duas cabeças" (veja estas), 
certos lacertílios apodes ou apenas com minúsculos rudi- 
mentos de extremidades, chamados "Cobras de v i - 




VBNENOSAS Dentição dc cobras não venenosas 



d r o", e mesmo o pequeno grupo de anfibios apodes, "C o - 
bras-cegas". Mas basta um exame mais atento, para 
desfazer tais enganos. De resto, os ofídeos constituem um 
grupo bastante homogéneo e, apenas a titulo de descri- 
ção anatómica, mencionaremos que os grandes Boideos 
(jibóia e sucurí) mostram vestígios de extremidades pos- 
teriores. A subdivisão em 7 famílias é a seguinte: Ty- 
phlopidoos e Leptotyphlopideos (outrora Glauconideos) 
compreendem espécies sem maior interêsse e quasl po- 
dem ser confundidos com vermes; llysiideos, apenas com 
uma espécie brasileira da Amazónia; Amblycephcdideos 
com uma dúzia de espécies na nossa fauna e que, ao que 
Parece, se alimentam unicamente de lesmas (Vaginiãus). 
Estas duas últimas famílias diferenciam-se das seguintes 
por não terem o sulco mediano, tão característico, que 



— 262 — 



nas outras famílias separa simetricamente as escamas do 
maxilar inferior. Boideos são as cobras gigantescas : Su- 
ciirí, Jibóia, Ararambóia. Viver ideos são as verdadeiras 
serpentes venenosas que, em vez de grandes escudos simé- 
tricos, têm escamas miúdas na cabeça; abrindo-se-lhe a 
bôca, vêm-se no maxilar superior as grandes presas, por 
meio das quais injetam o veneno na carne das vítimas. 
Trataremos destas espécies sob "Cobras veneno- 
s a s". Finalmente, a fam. Cohihrideos compreende as es- 
pécies i'estantes e subdivide-se em: a) Proteroglijphos, com 
o primeiro dente do maxilar superior desenvolvido em pe- 
quena dentuça (veja "C obra cora 1") ; b) Ojnstoyhj- 
phús, com um ou mais dentes posteriores do maxilar supe- 
rior mais desenvolvidos e sulcados e c) Aglyphos, com todos 
os dentes mais ou menos iguais e nenhum dêles é sulcado. 

As cobras, em sua grande maioria, são ovíparas ou 
ovovivíparas, isto é, põem ovos em estado de desenvol- 
vimento já bastante adiantado, de modo que não preci- 
sam ser chocados, pois dentro de poucos dias ou mesmo 
logo ao serem postos, nascem as cobrinhas, já perfeita- 
mente constituídas. Algumas são vivíparas, como as ser- 
pentes. Alimentam-se unicamente de animais vivos, ver- 
tebrados ou também insetos, vermes, etc. De acordo com 
uma crendice popular, muito difundida as cobras gostam de 
leite, pelo que vão mamar nas vacas ou mesmo no seio das 
mulheres (e, para que o bêbê não acorde, a bicha esperta 
põe-lhe a ponta do rabo na bôca!). Explica-se, porém, fa- 
cilmente a origem dessa crença: esmagando o corpo de 
uma cobra fêmea, a albumina dos ovos escorre, como si 
fosse leite coalhado. 

Cobra d'água — Nome dado indistintamente a várias 
espécies de cobras da fam. Colnbrideos, que vivem de pre- 
ferência na água: Liophis miliarífi, a maior, verde-escura, 
reticulada, devido a serem os bordos das escamas mais es- 
curos; atinge 1 metro de com))rimento. São cobras mui- 
to mordedeiras e mesmo os espécimens recém-nascidos já 
ameaçam com a bôca quando se lhes aproxima o dedo. Con- 
tudo, nem mesmo os adultos, de bom tamanho, conseguem 
varar nossa pele com seus dentes curtos e fracos. 

Helicops, com diversas espécies adaptadas à vida 
aquática, caracteriza-se pela feição peculiar da cabeça, 
com narinas e olhos colocados era nível muito mais alto 
do que nas outras cobras e à semelhança dos jacarés. 
São todas inofensivas e tímidas. No Rio Grande do Sul é 
conhecida, também, por "Cobra lisa". Alimenta-se do 



— 263 — 



que consegue caçar na água, tanto larvas de insetos, como 
sapos e até peixes, que procura debaixo da água, mer- 
gulhando durante longo tempo e perseguindo a caça com 
a bôca aberta. E' muito mansa e não tenta morder, nem 
mesmo quando agarrada com a mão. 

Cobra do ar ou "Cobra de aza" — No nor- 
deste do Brasil designam assim o inseto "Jequitira- 
n a - b ó i a". 

Cobra de duas cabeças — ou, na Amazónia, "Mãe- 
de-saúva" e em tupi "Ibijára". São répteis lacer- 
tílios da fam. Amphisbaenideos. O naturalista distingue 
umas 24 espécies, pertencentes aos géneros Amphisbaena e 
Lepidosternon; mas, à primeira vista, parecem ser todas 
iguais, simples minhocas grandes, de cauda grossa e rom- 
ba como a cabeça (e foi isto que determinou a escolha do 
nome). São de côr pá- 
lida amarelada, em con- 
sequência da vida sub- 
terrânea que levam e 
foi também esta a cau- 
sa da atrofia quasi com- 
pleta dos olhos, bem co- 
nio da perda total das 
extremidades. Encon- 
tram-se frequentemente 
nos formigueiros (daí 
"M ã e - d e - s a ú V a"). 
Ainda não está, ao que parece, de todo bem elucidado 
qual o alimento principal dêsses lacertílios. Dizem al- 
guns autores que a *'m ã e - d e - s a ú v a" come os seus 
hospedeiros, ao passo que outros lhe atribuem predileção 
por aranhas. São de todo inofensivas, mas o i)ovo lhes 
tem medo, porque "dizem que picam 
(yJ com a cauda". Não se confunda êste 

réptil com o anfibio semelhante "C o- 
b r a c e g a". 

Cobra de cal)elo — Nome que 
impropriamente foi dado aos vermes 
da fam. Gordudeon, semelhantes a 
fios de cabelo; efetivamente, medin- 
cobra de cabelo do apcnas 1 a 2 mms. de diâmetro, al- 
cançam 1 a 2 metros de comprimen- 
to ; a côr, em geral, é bruna. As formas larvais são para- 
sitas de larvas aquáticas de insetos, em cujo corpo per- 





— 264 — 



manecem, até o hospedeiro ser ingerido por outros insetos 
carnívoros, para só então chegaram à maturação. Em se- 
guida abandonam êste segundo hospedeiro, passando a 
viver livremente na água doce. E' a êstes vermes que se 
refere a afirmação do leigo, quando diz ter visto "cabelo 
de mulher, vivo" na água. 

Cobra cega — Anfíbios da ordem Gymnophionos, 
iam. Caeciliideos. A única coisa que as poucas espécies 
desta família têm de interessante, é serem verdadeiros 
anfíbios, quando à primeira vista se julgaria serem ver- 



mes ou, então, facilmente podem ser confundidos com os 
répteis chamados "Cobras de duas cabeças" 
(veja estas). 

Além das diferenças anatómicas que separam os 
anfíbios dos répteis, há um caráter que permite distin- 
guir de pronto as duas formas; a pele da "C o b r a de 
duas cabeça s"é sulcada tanto em sentido transvei'- 
sal como longitudinalmente, formando uma soi'te de re- 
ticulação, ao pa.sso que a "Cobra cega" (anfíbios) 
tem só um determinado número de anéis largos e os seg- 
mentos assim formados são lisos, reluzentes. Vivem na 
terra como as minhocas, alimentando-se de larvas, vermes 
e outros bichinhos. 

A classificação baseia-se em minúcias da anatomia» 
o que não nos permite dar aqui a diferenciação dos vários 
géneros (pelo menos 4), dos quais o mais frequente é 
Siphoiiops. 

Devemos agora mencionar outro grupo de animais 
vermíformes, que o povo ora confunde com as "cobras 
cegas", ora com minhocas. São os pequenos répteis das 




Cobra cega 



— 265 — 



famílias Typhlopideos e Leptotyphlopideos (outrora Glau- 
conideos) que, zoologicamente, fa^em parte da ordem dos 
Ophidios, mas de aspeto tal, que a desorientação do leigo 
se justifica. Anatomicamente as 10 espécies de um pal- 
mo ou pouco mais de comprimento, brancacentas ou par- 
das, são cobras, providas de escamas regulares como as 
demais, porém a dentição é incompleta, faltando ou no 
maxilar inferior (Typhlopideos) ou no maxilar superior 
(Leptotyphlopideos, com grande escama preanal). Pouco 
se sabe de sua biologia, porque vivem escondidas na terra 
e raras vezes atravessam a estrada ou o campo limpo. 

Recapitulemos os caracteres que distinguem os 3 gru- 
pos de "cobras vermiformes": 1) Anfíbios, com tegumento 
sulcado transversalmente ou seja com anéis largos: "Co- 
bra cega"; 2) Répteis, sendo a) com tegumento reticu- 
lado, com sulcos transversais e entre êstes com numerosas 
linhas perpendiculares aos sulcos : "Cobra de duas 
cabeças"; b) com reves- 
timento de verdadeiras es- 
camas em séries obliquas 
(Typhlopideos e Leptoty- 
phlopideos). 

Cobra chupa-ovo — Ve- 
ja-se "P a p a - o V o". 

Cobra cipó — E' deno- 
minação genérica, que de- 
signa muitas espécies de co- 
bras da fam. Coluhrideo^, 
de côr verde ou com esta 
côr predominante: são com- 
pridas e delgadas, muito 
ágeis, tanto sobre a terra, 
como trepadas nas árvores. 
Mas são tímidas e inofen- 
sivas. 

A definição contida no 
iiome vulgar permite a in- 
clusão de variados tipos de 
cobras, pertencentes não só 
a géneros diferentes, mas 
até as duas subdivisões da fam. Colubridcos, "aglifas" 
e_"opistoglifas" (veja sob " C o b r a s " em geral). Assim, 
são cobras-cipó as Drymobius (anteriormente Herpe- 
fodryas) das aglifas, de^mais de um metro de com- 
primento, com cauda muito longa e fina e espinha 




Cobra cipó 



dorsal formando quilha no dorso. As espécies do gên. 
Philodryas, do grupo (\as opistoglifas, também são ar- 
borícolas e por causa da côr verde são identificadas com 
as "Cipós". Vê-se por aí que o termo não tem valor 
classificativo e que abrange qualquer cobra fina, ágil, 
de côr mais ou menos verde e que saiba trepar em árvores. 
Na Amazónia parece que o povo não conhece esta deno- 
minação, correspondendo-lhe os nomes "Boiobí", 
"Acutimbóia", "Sa cai bói a", "Arabóia". 

Cobra coral — "B a c o r a 1" ou "B o i c o r á" e que 
o índio conhecia por "I b i b o b o c a". Cobi-as da fam. 
Cohihrideos, do grupo das Proteroglyphas (veja sob "C o - 
br a"). O único género brasileiro, Micrunm (Elaps, an- 
tigamente), abrange 11 espécies, nas quais sempre pre- 
domina o vermelho-coral, com anéis pretos e que em 




Cobra coral 



algumas espécies são alternados com outros de côr ama- 
rela. São cobras venenosas, cuja glândula produz uma 
secreção tanto ou mais ativa que a dos Viperideos. Porém 
são raros os acidentes ocasionados por estas espécies, 
porque a cabeça, mesmo de exemplares de 1"',50 de 
comprimento, é relativamente pequena e a dentuça não é 
suficientemente grande para poder encravar-se nas carnes. 

As mais comuns no Brasil meridional são M. corcdlimis 
(anéis vermelhos e pretos, alternados em igual distância), 
M. frontalis e lemniscatus (anéis pretos de 3 em 3, com 
dois anéis amarelos entre si, sendo estes grupos mais 
largos que os anéis vermelhos que os separam), a pri- 
meira com a cabeça quasi toda preta, a segunda com de- 
senho mais aberto. Todas as espécies vivem escondidas 
na terra ou em cupins e alimentam-se principalmente dos 
répteis chamados "Cobras de duas cabeças". 

Cobra coral falsa — Há várias espécies de cobras 
que, pelo colorido, se assemelham às corais verdadeiras, 
venenosas. Há Opistoglifos, como Eruthroktinpus (com 



— 267 — 



2 dentes sulcados posteriores) e Aglifos, tais como Pseu- 
doboa trigemina, Elapomorphus tricolor e principalmente 
várias espécies do gên. AtractKs, que, além de se parece- 
rem com Micrurus, também têm hábitos subterrâneos. 




Para diferenciar estas, não venenosas, da "Coral" ver- 
dadeira, é pi-eciso examinar a dentadura: em geral, as 
não venenosas têm olhos grandes, uma constrição atrás 
da cabeça formando pescoço e a cauda é fina e alongada. 

Cobra corre-campo — No Ceará é Chlorosoma natte- 
reri (veja "Corre-campo"). 

Cobra corredeira — Veja sob "C o r r e - c a m p o". 

Cobra-Iisa — No Rio Grande do Sul dá-se este nome 
à "C o b r a d' á g u a" do gên. Rhadinuea. 

Cobra nova ou "Jararaca do banhado" — 
Da fam. Cnliibrideos aglifos, Dri/mobitis bifossatus. Atin- 
ge 2 metros de comprimento; a côr geral é pardo-averme- 
Ihada, com anéis mais escuros e bordos de forma irregular, 
em losàngulos. Éste desenho é precedido no terço ante- 
rior do corpo por linhas amareladas, longitudinais. Vive 
em lugares úmidos, junto aos rios e brejos, porque prefere 
os sapos a qualquer outro alimento. Daí seu nome " j a - 
r a r a c a do b a n h a d o" no Rio Grande do Sul. E' ágil 
e de movimentos bruscos e temperamento agressivo; po- 
í"ém, ainda que chegue a morder, não causa nenhum mal, 
Pois os dentes são curtos e apenas podem arranhar a pele. 

Cobra-papagaio — Na Amazónia é usado no mesmo 
Sentido como "S u r u c u c ú - p a t i o b a", aliás lá também 
ernj)regado. Veja " J a r a r a c a verde". Segundo Afra- 

do Amaral, seria a "A r a r a m b ó i a", isto é, Boa 
canina. 

Cobra preta — Por ser semelhante à "Mussura- 
a presente espécie, Rhachidelun bruzili, de género 
^fim àquele, foi durante algum tempo confundida com a 
^erdadeira espécie ofiófaga, que dá combate às serpentes. 
*^ "C o b r a - p r e t a", porém, alimenta-se principalmente 



268 — 



de pássaros e portanto é antes nociva, ainda que inofensi- 
va ao homem. Diferencia-se do gên. Psendoboa por ter 
25 séries de escamas. 

Cobra-rainha — De côr coral, com uma espécie de 
corôa na cabeça (?). 

Cobra S. João — De côr verde esmeralda (?). 

Cobra-tapete ou " S u r u c u c ú tapete" — E' 
como no Estado do Rio de Janeiro se designa a " J a r a - 
r a c u ss ú". 

Cobra de veado — Segundo certas informações, ainda 
que vagas, parece ser sinónimo de "Jibóia", no Norte. 
Afrânio do Amaral identifica-a como Boa hortuhma. (Veja 
"Ararambói a"). 

Ao contrário, um nosso amigo, que fôra juiz durante 
alguns anos no Acre, trouxe de lá uma pele de "Sue u r í" e 
que, naquela região pelo menos, é a "cobra-de-vea- 
do", que vive na água e onde apanha os veadinhos quan- 
do êstes vêm beber. 

Cobras venenosas — Em nossa fauna há dois gru- 
pos distintos de cobras venenosas: a fam. Crotalideo.s com 
os géneros, Luchesis, cuja única espécie é a "S u r u c u c ú, 
Bofhrops, êste com numerosas, cêrca de 24 espécies e 
subespécies, que o índio distinguia como "Coatiara", 
" J a r a r a c a" e "U r u t ú" e o género Crotalus, com uma 
só espécie, a "C a s c a v e 1". A outra familia, Elapidcos, 
com o género Micnmis (antigamente Elaps) abrange 
cêrca de 15 espécies, todas elas conhecidas por "C o - 
b r a s cor ai". 

A nomenclatura científica distingue cobras "aglifas" 
(sem dentuças) e "opistoglifas" (com dentuças na extre- 
midade posterior do maxilar superior) ; todas as cobras 
destes dois tipos não possuem veneno. Ao contrário são 
providas de glândula produtora de veneno as cobras cuja 
dentição é "protcroglífa" (com dentuça pequena, canicula- 
da, na extremidade anterior do maxilar superior - EIu- 
pideos) ou com dentição "solenoglifa" (dentuças grandes, 
canaliculadas, anteriores - CrotaUdeos), já mencionados, 
linhas acima. 

Praticamente distíngue-se os Elapideos pelo colorido 
característico e. para reconhecer si a "Coral" é falsJi 
ou verdadeira, examina-se a dentição, que na coral falsí' 
pode ser do tipo aglifo ou opistoglifo; só as espécies do 
género Micnirus são proteroglifos. Os CrotaUdeos têm 
todos o seguinte caráter, que compartilham somente com 



— 269 — 



os Boideos (êstes porém desprovidos de dentuças e de ve- 
neno) : a cabeça não apresenta, na parte superior, suturas 
simétricas de um reduzido número de placas e escudos, 
como se verifica nos demais ofídeos, mas é toda revestida 
de escamas pequenas, alinhadas em séries oblíquas; além 
disto há, enti'e a narina e o olho, uma covinha, como a 
não tem nenhuma outra cobra não venenosa. 

Cobra de vidro ou " L i c r a n ç o " — Réptil lacer- 

tílio da fam. Atigiiideos, Ophiodes striatus, de tom azu- 
lado, principalmente na barriga e com numerosas linhas 
íinas e muito unidas, que se extendem da cabeça à cauda. 
Parece-se com cobra, porque das extremidades só restam 
Vestígios das posteriores e dizem ser de vidro, porque 



quebra tão facilmente, que é raro apanhar-se um exem- 
plar completo; a cauda partida regenera-se, mas sempre 
fica aparecendo o defeito. Também em Portugal a espé- 
cie correspondente (Aiiguis fragiUs), tem aqueles dois 
nomes vulgares. E tanto lá como cá o povo jura que tais 
"cobras", depois de partidas em vários pedaços, facil- 
mente se refazem, juntando os pedaços, que grudam tão 
bem uns aos outros, que ninguém percebe o desastre. Tal 
fantasia demonstra apenas que ao povo não basta o milagre 
regeneração da cauda — e, no entanto, ao zoólogo só 
isto dá que' pensar, a ponto de ser êsse exemplo citado 
Como uma das mais singulares manifestações da vitalidade 
de um vertebrado adulto. 

Cocar — (Subst. masculino). No Piauí chamam 
assim à galinha d'Angola, que lá é muito comum. Veja-se 
também "Capote". 

Coccídeos ou "P i o 1 h o s dos vegetais" — São 
in.setos Hemipteros, subordem Homopteros; aplica-se esta 
denominação a todas as espécies da fam. Cocciãeos, pe- 
quenos parasitas dos vegetais, cujas fêmeas se fixam aos 
fialhos ou às folhas e sugam a seiva, enfraquecendo assim 




Cobra de vidro 



— 270 — 



a planta. O inseto, propriamente, não se vê, pois fica 
escondido por baixo de um escudo de cêra, cuja forma, 
feição e tamanho são característicos para cada espécie. 
Alguns destes invólucros protetores têm feitio de peque- 
nas escamas; outros parecem ostras ou outras conchas 
de moluscos em miniatura; outros, ainda, são como que 
sementes de cêra; alguns medem apenas poucos milíme- 
tros de comprimento, outros são do tamanho de uma fava. 
Só o macho é alado; a fêmea finca sua tromba no tecido 
vegetal e ali permanece, põe os ovos debaixo do próprio 



escudo protetor, de onde surge mais tarde a cria, que se 
vai fixar em outro ponto. Só os machos sofrem metamor- 
fose completa; ocorre às vezes a partenogênese. Há uma 
espécie útil, aliás exótica, que fornece a cochonilha. As 
demais espécies e cujo número, de acordo com o "Catá- 
logo" de F. Lepage (1939), em nossa fauna se eleva a 336, 
são todas nocivas às plantas em geral e particularmente 
aos vegetais cultivados; muitas, e das mais prejudiciais, fo- 
ram importadas. Algumas vivem unicamente sobre deter- 
minada planta, enquanto as espécies mais generalizadas 
atacam grande variedade de plantas cultivadas. Para com- 
bater essa praga, aplica-se uma emulsão de sabão picado 
em 4 litros d'água e despeja-se a solução quente no p^i- 
tróleo, agitando. Essa massa conserva-se bem. Aplica- 
se diluída em 60 litros d'água, para matar coccídeos oU 
em 200 litros contra pulgões. Veja-se também sob " V e i" - 
m e 1 h o". 




Coccídeos diversos 

A -macho; B, C, D-tres espécies perni- 
ciosas aos vegetais cultivados ; E - larvas 



— 271 — 



Cochonilha — Por êste nome sao conhecidos, na li- 
teratura entomológica de divulgação, os insetos da fam. 
Coccideos (Veja êstes). Como ambos os nomes não são 
propriamente usados pelo povo, preferimos o último, pois 
tem todo o rigor zoológico. O nome "Cochonilha", tem 
além disto, o inconveniente de lembrar, desde logo, a 
única espécie útil, fornecedora da substância colorante 
(Cocais cacti do México, que vive sobre o cactus), quan- 
do todas as outras espécies são perniciosas à agricultura. 

Codorna ou "Codorniz" ou "Inambú-í" — 
Ave da fam. Tinamideos, Nothura miculosa (Aplica-se a 
esta ave a mesma observação feita sob "Perdiz" quanto 
à diversidade da espécie européia de igual nome). A côr 
é pardo amarelenta em cima, 
com manchas e faixas trans- 
versais pretas no dorso, ocu- 
pando o meio da pena e com 
estrias amareladas nos lados 
das mesmas. As rêmiges são 
cinzento-denegridas, com fai- 
xas transversais amarelen- 
tas. A garganta é bininca; o 
pescoço e o peito são bruno- 
amarelados, com largas es- 
trias pretas ; a barriga é uni- 
forme, amarelada. A fêmea 
é um pouco maior que o macho, medindo 27 cms. de com- 
primento. E.sta caça, tão apreciada, extende-se em sua 
distribuição do Rio Grande do Sul à Baía; leva vida so- 
litária nos campos e vôa pouco e só a pequena di.stância. 

Codorna buraqueira — Na Baía designa a Nothura 
biiraquira, congénere da "Codorniz" e da "Codor- 
na m i n e i r a"; em S. Paulo e mais para o Sul é Tuo- 
niscns tianus. E' esta a menor das nossas codornas, me- 
dindo 15 cms. de comprimento. O dorso é preto, com es- 
treitas faixas transversais ; a cabeça e o pescoço são pardo- 
amarelados, tendo as penas do vértice uma parte central 
escura. A garganta e a barriga são brancas; o peito e 
os lados amarelados, com largas fai.xas pretas transver- 
sais. E' dos grandes campos do Brasil meridional ; quan- 
do perseguida, esconde-se em buracos do chão, o que expli- 
o nome vulgar que lhe foi dado. 

Codorna mineira — Espécie de codorna, Nothura 
^ninor. De fato um tanto menor que a codorna .V. macu- 




— 272 — 



losa (19 cms.), é semelhante a esta no colorido, mas a ca- 
beça e o dorso são castanhos, com numerosas faixas e 
salpicos pretos. Sobre as coberteiras exteriores das azas 
alinham-se faixas pretas, transversais, estreitas. E' dos 
campos do interior de S. Paulo, Minas e Mato Grosso. 

Coelho do mato — O mesmo que "T a p i t í". 

Cogumelo do mar — Celenterados da classe dos An- 
thozoarios, ordem Alcyonarios, fam. Pennatidideos. A es- 
pécie mais comum, Renilla reniformis, conhecida também 
por "Orelha de macac o", é como que um rim sobre 
um pedúnculo, de côr violeta, com delicado desenho bran- 
co. Cada um dos pequenos tubérculos brancos, terminados 
por 8 franjas, é um pólipo e são estes organismos que, 
reunidos, constituem a colónia, em forma de rim. Vivem só 
no mar, nas pedras da ressaca. 

Coió ou "P e i X e voador" — (não confundir com 
a "T a i n h o t a") . Peixe do mar da fam. Cephalacanthi- 
deos, Cephalacanthiis volitans. Tem cabeça quadrangular, 
óssea, que na região temporal termina em longos espinhos. 
Além disto, distingue-se facilmente do outro peixe voa- 
dor (veja "T a i n h o t a"), porque tem azas (aliás as na- 
dadeiras peitorais) maculadas e pontilhadas. Aparece 
também em bandos numerosos, porém não vôa tanto; de- 
pois de certa distância transposta no ar, mergulha e daí 
a pouco vôa novamente e assim o repete diversas vezes, 
emergindo os vários membros da esquadrilha alternada- 
mente. Em certas ocasiões, porém, nota-se que não é 

por diversão que assim emei'- 
gem, mas que procuram es- 
capar a algum voraz inimigo 
que, com igual velocidade, os 
persegue debaixo d'água. 

Coleirinha — O mesmo 
que "T e n t e n z i n h o". 

Coleirinha — Veja-se 
"Papa -capim". São as 

várias espécies de pássaros 
da fam. Fringillideos, gên. 
Coleirinha Sporophila, quando têm co- 

leira preta. Em especial 
S. coerulescens, de côr cinzenta em cima, branca em baixo, 
com a fronte, garganta e uma faixa sobre o peito pretas; 
a fêmea tem o mesmo colorido, mais pálido. Também a 




— 273 — 

<S. lineola, por ter garganta preta, em certas regiões é 
conhecida por "coleira"; o macho é preto em cima e 
branco em baixo, tendo uma larga estria branca no vér- 
tice e outra por baixo do olho. Há, porém, um bom nú- 
mero de outras espécies do mesmo género, às quais tam- 
bém não vai mal êste nome vulgar, de modo que só pela 
classificação científica se podem identificar as 25 espé- 
cies do género Sporophila. 

Coleirinha do brejo — Como acima, e de acordo 
com o nome, as espécies que vivem de preferência entre 
os juncos do bi'ejo, tais como S. pileata e melanocephala. 
A primeira destas é castanho-parda, com vértice, aza e 
cauda de côr preta e com o lado ventral branco; S. mela- 
nocephala ochrascens é fusca em cima, com cabeça e co- 
leira preta e lado ventral amarelento. 

Colete — No Norte dão esta denominação (aliás, 
"T a m a n d u á - c o 1 e t e") ao "T a m a n d u á - ra i - 
r i m". 

Colhereiro — Ave da fam. Plataleideos, Ajaja ajaja. 
(Há na Europa uma espécie semelhante, da mesma fa- 




Colhereiro 



ttiília e em Portugal o nome vulgar é o mesmo). Curioso 
é o feitio do bico, grande, achatado, e alargado na ponta 
^rn forma de colhér; é com êste instrumento que o per- 
nalta examina o lôdo, afim de colher o alimento que lá 



— 274 — 



encontra, sob forma de pequenos bichinhos. Sem diivida 
é, pelo menos, curiosa a cabeça; com mais sinceridade 
dir-se-á que é horrivelmente feia. A plumagem geral é 
porém, de côr lindíssima, de um branco róseo, enfeitado 
com carmim nas azas e nas coberteiras; uma curiosa 
mecha de penas torcidas forma um berloque no peito. 
Erroneamente dão às vezes o mesmo nome à ave que re- 
gistrámos sob "A r a p a p á". 

Os colhereiros reunem-se em pequenos bandos, por 
ocasião da incubação. Seus "ninhais" encontram-se de 
preferência à beií-a do mangue ; o ninho, grande e rústico, 
uma bacia feita de galhos e ramos, entretecidos e como 
que amarrados com fibras ou cascas de árvores, balouça 
sobre os arbustos do mangue, a 2 ou 3 metros de altura. 
Os 3 ovos da postura medem 7 por 4,5 cms. e são branca- 
centos, com manchas brunas. E' evidente que esta curiosa 
ave, tão bela pelo monos no colorido e de incomparável 
efeito decorativo, aos poucos vai sendo exterminada, sem 
que se possa dizer por que razão confessável. O Colhe- 
reiro não tem valor algum como "assado", nem tão pou- 
co alcançam preço vantajoso suas plumas — que, aliás, se- 
riam muito mais facilmente obtidas passando-se penas de 
ganso pelo carmim, caso fossem requisitadas pela moda. 
Por que, então, são mortos? "E' um lindo tiro" responde 
o caçador, como única desculpa! Nos Estados Unidos, 
onde o Guará vermelho já foi exterminado, estavam tam- 
bém perigando os últimos representantes desta espécie, 
refugiados nos impenetráveis alagadiços da Flórida; uma 
lei severa garantiu-lhes a existência e, assim, a ave ro- 
sada continuará a embelezar a paizagem com seu colorido 
de flor magnífica. Fernão Cardim registra a denomi- 
nação indígena "Aí aí a", hoje desusada, apenas conser- 
vada na nomenclatura científica. 

Colibri — Denominação usada pelos europeus e, 
daí, também na linguagem poética no Brasil, para os 
"B e i j a - f 1 o r e s" ; a palavra, porém, nos vem de torna- 
viagem, pois é de origem americana, caraíbe. 

Combé — Veja "C u m b é". 

Combociro — Peixe da água doce do Ceará. 

Comedia — Na Paraíba são pequenos peixes mari- 
nhos, que vivem em cardumes e que se vêm frequente- 
mente pelos currais de pesca; são assim chamados, talvez, 
porque constituem o alimento dos peixes maiores. Vimo- 
los em Abril (peixinhos prateados, de poucos centímetros 



— 275 — 



de comprimento), mas não conseguimos apanhar exem- 
plares para a identificação. Sardinha? Alevinos? 

Em linguagem de caçadores designa as fruteiras do 
mato, quando carregadas e que atraem as aves e outra 
caça. 

Concha — Refere-se propriamente à "casa" ou casca 
calcárea dos moluscos. Mas, no sentido mais restrito, 




^sta denominação refere-se particularmente aos moluscos 
da ordem LameUibranchios (veja "Moluscos"), pela 
J^aior parte marinhos e alguns fluviais ou lacustres (veja 

Itã"), porém nunca terrestres. As duas metades, nem 
f^^jiipre simétricas, são unidas entre si, em cima, por um 

ligamento", que funciona como mola; esta tende a abrir 

concha, mas os músculos adutores fecham-na, auxiliados 
P6los encaixes de macho e fêmea, da charneira, que às 
l^.^zes tem feitio todo especial. A face interna da concha é 

isa e revestida de madrepérola. 



— 276 — 

Concriz — Em Pernambuco ê êste o nome do pás- 
saro que registrámos sob "S o f r é". 

Coral — Veja "C o b r a - c o r a 1". 

Coral — São os organismos marinhos Celenterados, 
Anthozoarios, que vivem em colónias, formando um es- 
queleto calcáreo, ramificado, que constitua, justamente, 




Corais de varias qualidades; no centro 2 pólipos 



o "coral". (A espécie que serve pai'a a confecção dos 
adereços, Corallium rubrmn, do Mediterrâneo, não ocorjs 
nos nossos mares). Em sua generalidade, os corais não 
têm a chamada côr "coral"; algumas espécies são aver- 
melhadas ou violetas, mas a grande maioria é branca- 
Os corais só se tornam propriamente brancos, alvíssimos, 
quando o esqueleto foi descarnado do revestimento vivo, 
formado pelos minúsculos pólipos, que são os construto- 
res do coral. Há muitos recifes na costa do Brasil (d" 
Est. do Espírito Santo para o Norte) que são constituídos 



unicamente por massiços de coral; note-se, porém, que o 
"arrecife" da capital de Pernambuco não é de tal origem 
e, sim, formado por sedimento. Cada espécie tem feitio 
peculiar, quer no aspeto geral do tronco, quer no detalhe 
mínimo, representado pelo esqueleto calcáreo de cada um 




Recifes formados por corais (Itaparica) 



dos pequenos pólipos; às vezes são de aspeto lindíssimo, 
representando como que flores ou galhos ou então formam 
Uma simples bola, com desenhos e sulcos, lembrando al- 
Sumas as circunvoluções cerebrais. 

Coratí — Peixe (?) do Amazonas (Alberto Rangel). 
Parece-nos corruptela ou sinónimo de outro nome mais 
usado. 

Corcoroca — ou "Corocoroca" no Brasil meri- 
(^lional; no Nordeste corresponde-lhe a denominação "B i- 
u ara". Peixes do mar da fam. Haevuilidcos, não 
do género Huemulon, que abrange 8 espécies, como de 
outros afins (Orthopnstis). O colorido é variado e quasi 
Sempre consta de estrias de côr viva ao longo do corpo. 
■'^ cavidade bucal é amarela ou avermelhada ou mesmo 
i'ubra, "bôca de fogo". A parte ramosa das nada- 
«eiras dorsal e anal é fortemente revestida de escamas. 

E' evidente que o nome onomatopaico pretende re- 
1^1'oduzir o ronco do peixe, que em certas ocasiões se ouve 
Com alguma intensidade. Também os norteamericanos 
^onhecem as espécies de HacmulideoH pelo nome de 
Si"unts", isto é, "grunhidores" e chegam a afirmar que 
^ ruido é tão intenso, que a tripulação de um barco anco- 



278 — 

rado chega a acordar, quando à noite um cardume de cor- 
corocas passa por baixo da embarcação. 

As Corcorocas têm valor no mercado mais pela quan- 
tidade do que pela qualidade. Pertencem à mesma famí- 
lia o "R o n c a d o r" e as "S a 1 e m a s". 




Corcotoca 



Corcoroca-mulala — E' a espécie mais comum do 
género, Haemvlon plumieri, com listras azuis pela cabeça 
e parte anterior do corpo. 

Corimbatá — O mesmo que "Corumbatá". 

Cornuda — O mesmo que "P e i x e - m a r t e 1 o". 

Coró — Bicho de pau podre, isto é, as larvas de 
besouros lamelicórneos e outros. Veja-se sob "Bicho 
gordo". A esta acepção primitiva acresce outra, mais 
ampla, que abrange também as larvas de dípteros, como 
as da "bichei r a". 

Coró — Peixe do mar, muito abundante em todo 
o litoral nordestino, do grupo das "C o r o c o r o c a s"> 
fam. Huemulidcos. O nome designa cm especial Conoãoii 
nohilis, que no Sul é mais conhecido por "Roncador"- 
Êste c o "C o r ó amarelo"; distinguem os pescadores, 
além disto, o coró "branco" e o "vianês". Seu tamanho 
em geral não ultrapassa um palmo e a carne é de catego- 
ria inferior. 

Coí-ó-coró — Na Amazónia tem êste nome onoma- 
topaico a ave Phimosus nuãifronH, que no Brasil meridio- 
nal é um dos vários "Tapicurus". Erroneamente, 
aplicam-lhe também o nome "Carão". Seu colorido ^ 



bruno-denegrido, com reflexos verdes e roxos. A cara é 
encarnada e o bico de igual côr, mais clara. 

A mesma denominação designa a espécie aliada, Har- 
piprion cayennensis, igualmente conhecido por "Tapi- 
curu" no Sul, ou por "Graúna" ou "Guaraúna" 
da Baía ao Ceará. 

Corocochó — Pássaro da fam. Cotingideos, género 
Ampelion. A espécie A. cncvlatus é de côr bruno-verde, 
com cabeça e pescoço pretos; o lado inferior e a nuca são 
brancos. A. melanoccphalus é semelhante, com várias fai- 
xas transversais, escuras em baixo. A denominação cor- 
respondente na Amazónia é "A na mb é". 

Corocoroca — O mesmo que "Cor cor oca". 

Corondó — Caracol pequeno, do género Planorbis, 
fam. Limnaeideos. O feitio é muito característico, pare- 
cendo uma mola de relógio enrolada, em forma de botão, 
bicôncavo. 

Vivem na água doce, em riachos ou banhados. Ulti- 
mamente, êstes caracóis têm atraído a atenção dos cien- 
tistas, pois que o Dr. A. Lutz verificou ser nestes molus- 
cos (Planorbis olivaceus e centimetralis) , que se desen- 
volvem as larvas (miracídios) do verme SchiMozomum 
'niunsoni, causador da moléstia chi.stozomose, do Rio de 
Janeiro para o Norte. Precaução: não tomar banho nas 
águas em que haja "Corondó s". 

Conquanto a chistozomose seja uma das verminoses 
ttiais traiçoeiras, porque pode localizar-se e causar da- 
Ros em órgãos e tecidos os mais diversos, ainda assim o 
Perigo que ela representa para a população nordestina tem 
sido exagerado. Propalou-se mesmo que nas regiões em 
que o verme e seu hospedeiro intermediário abundam, a 
maioria dos moradores sofre as consequências dêste pa- 
rasitismo. 

Tivemos, porém, ocasião de verificar que mesmo tra- 
balhando, como nós e vários companheiros o fazíamos, 
constantemente nos expondo à infecção, por que estávamos 
diariamente, durante longas horas, em contato com águas 
de açudes, onde os Planorbis abundavam, ainda assim 
ninguém do nosso grupo veio a padecer do mal. 

Corre-campo — Cobra da fam. Cohibrideos, opi.sto- 
SHfa, talvez Chlorosoma nattcreri e outras congéneres, 
do grupo das cobras conhecidas genericamente por "Co- 
" 1' a c i p ó". Denominam-na também "C o r r e d e i r a", 



— 280 — 



e com isto começa a confusão com a chamada "Pare- 
Iheira", do gênei'o Liophis e outras aglifas, aparenta- 
das com as cobras cipós do gên. Drymobius. 

Coi-redeira — Veja sob "C o r r e - c a m p o". 

Correição ou " M o r u p e t e c a " ou " T a ó c a ", 
ou "G u a j ú - g u a j ú", ou "S a c a - s a i a" — Formiga 
da fam. Dorylideos, género principal Eciton. Os machos 
são alados; tem sido difícil conhecer ao certo a identidade 
das espécies, pois as respectivas fêmeas poucas vezes fo- 
ram observadas. Em sua organização, os ninhos desta 
formiga se assemelham um tanto ao das abelhas do gên. 
Melipona, pois a rainha, áptera e com abdómen enorme- 
mente desenvolvido, quasi não se locomove e, por isto, 
nunca mais abandona o ninho. Haverá, portanto, enxa- 
meação organizada pela rainha nova, cujo abdómen ainda 
não está entumecido. O que se encontra comumente são 
os bandos de obreiras, cujo desfilar pode, em certas oca- 
siões, durar horas e que talvez estejam enxameando ou 
caçando e então levam de vencida tudo que fôr larvas e la- 
gartas, lesmas, grilos, baratas e outra bicharia miúda. 
Assim os bandos de formiga-correição, conquanto às vezes 
incómodos, fazem certa limpeza, tornando-.se, pois, úteis. 

O viajante e pintor francês Biarde descreveu a pas- 
sagem de uma coluna de Eciton, a que assistiu no Espí- 
rito Santo; diz éle, em resumo: "Estava esboçando um 
quadro na floresta, quando subitamente foi acometido 
por uma legião de formigas; mal teve tempo de correr e 
sacudir de si os inimigos. Seria temeridade querer bus- 
car seus apetrechos, que já estavam cobertos por milhões 
de formigas. A onda extendia-se por uma faixa de mais 
de 10 metros de largui-a e rapidamente a coluna avançava, 
sem se desviar, qualquer que fosse o obstáculo. A muito 
custo conseguiu o pintor alcançar sua espingarda e co- 
meçou a atirar aos pássaros que, em grande número, per- 
seguiam as formigas e com elas enchiam o papo. MaS 
logo verificou ser inútil continuar a caçada, pois mal os 
pássaros caiam ao chão, logo estavam cobertos por for- 
migas que, em breve, os deixavam reduzidos a esqueletos 
e penas esparsas. O naturalista Bates também se refei*e 
a enormes colunas de tais formigas, atribuindo-lhes mais 
de 300 metros de extesão. 

O quanto é temida, na Amazónia, esta formiga, piún- 
cipalmente quando se aproxima das habitações, nô-lo diz 
Raymundo de Morais (Na Planície Amazônica, pág. 159) : 



"E' o pavor do tapuio, do seringueiro e até do selvagem. 
Si, por qualquer circunstância, a "Saca -sai a" não se 
deixa pressentir dentro de casa e assalta de surpresa a 
moradia, a medida defensiva resume-se na imobilidade. 
As mulheres tiram a saia, donde vem o nome dado à for- 
niiga, e núas, impassíveis, esperam que a onda viva lhes 
passe sobre os corpos. Qualquer movimento resulta em 
mil dentadas. E o multifário animal sobe aos esteios, aos 
móveis, às paredes, à cumieira, cobre a vivenda, devasta, 
devora os alimentos e vai-se, desaparecendo no interior 
da selva, desorientador e sinistro". 

Corricho — Abrange vários pássaros da fam. Icteri- 
deos, tais como "C h o p i m", "Soldado", etc. E' deno- 
minação nortista, referente a pássaros que facilmente 
imitam o canto de outras aves. 

Corró — (ou como o povo o pronuncia, dando antes 
som de ch gutural aos rr: "cochó"), são pequenos pei- 
xes sem valor, dos açudes e rios do Nordeste da vertente 
cearense. Às vezes aplicado aos "acarás" e às "joa- 
ninhas" ou então a pequenos peixes de couro. 

Corruíra — ou "C a m b a x i r r a" ou, na Amazónia, 
"Cutipuruí" e "Carriça" (de origem portuguesa, 
devido à semelhança do pássaro europeu correspondente) . 
Veja-se "Ga r r i n c h a" em Sergipe ou "G a )• r i ç o" na 
Baía. Na Argentina : "1 a r a t o n a" ou " t a c u a r i t a". 
Passarinho da fam. Troglodytideos, com vários géneros 
e espécies; (veja-se, também, sob "Músico"); porém 
o mais conhecido, mais frequente e também mais nosso 
amigo é Troglodytes muscidus, todo êle pardo-ferrugíneo, 
mais claro em baixo e com azas e cauda atravessadas por 
linhas escuras, um pouco onduladas. Muito gracioso e 
irrequieto, êste nosso amiguinho vive a saltitar pelos 
muros ou, então, da cumieira ou qualquer ponto mais 
elevado, faz ouvir sua melodia chistosa e alegre, inter- 
rompida, não raro, por uma conversa em tom gutural : 
krét-krét-krét. Seu ninho fá-lo quasi sempre escondido 
entre as telhas ou em algum outro abrigo seguro. Ofere- 
cendo-se-lhe uma caixinha, apenas com um buraco, abri- 
Sada da chuva e colocada em lugar conveniente, a corruíra 
^ão demora em aceitá-la para esconderijo do seu ninho. 
Uma vez afeita ao local, toda a parentela considera-se 
hóspede da casa — o aluguel será pago com melodias e 
com o serviço da limpeza da horta e do pomar, onde, cons- 
cienciosamente, catam os insetos. 



— 282 



Euler, o apaixonado amigo das aves de Cantagalo 
(Rio de Janeiro), relata em seu meticuloso estudo dos 
ninhos das aves (Rev. Mus. Paul. IV) o seguinte fato 
bem expressivo: "Um casal de corruíras escolhera a pe- 
quena caixa de correspondência, pregada ao portão, para 
aí instalar seu ninho. Corria o mês de Dezembro e todos 




Corruíra 



os dias o empregado, que revistava a caixa, tirava dela 
uma montoaira de "cisco", que outra coisa não era, sinão 
o alicerce do ninho das corruíras. E até o fim de Ja- 
neiro teimaram, quem punha os gravetos e quem os jo- 
gava fora. Por fim, sabendo do caso, Euler providen- 
ciou para que o passarinho não fosse mais molestado e, 
então, em poucos dias a construção do ninho foi concluída. 
Enchendo o fundo da caixa com quatro dedos de material 
grosseiro, raminhos sêcos principalmente, sobre esta base 
edificou o ninho propriamente dito, mais fôfo na parte 



— 283 — 



interna. De cada vez põe 3 a 4 ovos e durante o ano 
cuida de, pelo menos, 3 posturas, estando assim sempre 
preocupado, de Agosto até Maio do ano seguinte". 

Corruírassú — Vários passarinhos da fam. TrogJo- 
dytideos, parecidos com a corruíra comum, porém maio- 
res; são habitantes das matas (gén. Thryophilns). 

Corrupião — O mesmo que "Sofré". 

Corrupio do mar — Echinoderma, da ordem dos EcM- 
tioiães, irregulares, fam. ScuteUidcos. São discos chatos, 
um pouco convexos, com uma esti'ela pentagonal no meio 




Corrupio do 



(crivos), cinco furos alongados, correspondentes aos raios 
e, além disto, um furo interradial ; no lado venti-al o de- 
senho é menos regular e a superfície é mais áspera. Há 
exemplares que medem até 25 cms. de diâmeti'o. Encope 
umarginnta e Mcllita testndinea são as espécies mais 
comuns. (Veja, também, "Bolacha"). 

Cortadeira — Por "Formiga cortadeira", 
é a mesma "S a ú v a". 

Cortaniar — O mesmo que "Ta Ih a -mar". 

Corucão — Veja sob "Ta b a c o b o m'*. 

Coruja — Compreende genericamente todas as aves 
i'íipineiras noturnas da ordem Strigiformes. O povo dis- 
tingue ainda entre as 24 espécies: os "Mochos" e os 
"C a b u r é s". Propriamente corujas são a "Suinda- 
ra", as várias espécies do género Pisorhina e os "Ju- 
curutus", que têm o ouvido menor que os olhos, sem 
opérculo e os olhos chegados à margem superior da corôa 



— 284 — 



facial. As corujas são consideradas pelo povo, em geral, 
como aves agoureiras, malquistas; em realidade, porém, 
todas elas devem ser incluídas na lista das aves úteis, 
dignas de proteção, pois nas suas caçadas noturnas des- 
troem quasi somente bichos daninhos, principalmente roe- 




Coiuja (macho) 



dores e só raramente apanham também algum passa- 
rinho. A prevenção gratuita baseia-se na vida mistei-iosa 
destas aves de rapina, de vôo silencioso e vista afeita à 
escuridão. 

Coru ja-do-campo ou "Coruja b u r a q u e i r a " 

ou "C a b o r é do campo" — Ave da fam. Strigideos, 
Speotito cunicularia (iraUaria, de 22 cms. de comprimento. 
O lado dorsal é pardo-cinzento, com grandes manchas aver- 
melhadas transversais. Na aza e na cauda notam-se man- 
chas alvacentas, transversais. A garganta é branca. E' es- 
pécie comum dos nossos campos, onde faz seu ninho no 
chão, num buraco, que ela forra com excremento de 
vaca. Êstes ninhos, que às vezes são buracos de tatú 
abandonados, ou então cavados pelas próprias corujas, 
formam túneis de alguns metros de extensão e as aves oS 
habitam o ano todo mesmo depois de criada a prole. Exce- 
ção única em tôda a família: os caborés (veja êstes) 
são aves diurnas, que enxergam muito bem à luz do dia; 
a presente espécie evita a mata e mesmo as capoeiras e 



— 285 — 



só nos campos abertos sente-se à vontade. Ou sentada 
diante de entrada do ninho ou pousada sobre um cupim, 
não foge à aproximação do importuno e, si fôr preciso, a 
cabeça vai girando até descrever meia volta completa, pa- 
ra assim, comodamente, ver o que se passa em redor. 
Só em último caso levanta 
vôo, gritando um qui-qui- 
qtiii (com a última sílaba 
bem prolongada e um pou- 
co modulada) e, seguindo 
quasi rente com o chão, a 
uns 20 ou 80 metros pousa 
de novo. Perseguida a ca- 
valo, em breve cansa e 
então procura salvar-se 
correndo e escondendo-se 
no capim. Alimenta-í5e 
principalmente de insetos, 
tais como lagartas, gafa- 
nhotos e escaravelhos, que 
pega no vôo, com agilidade. 
Também no escuro enxer- 
ga bem e assim, no tem- 
po da procreação, o casal trabalha dia e noite, para dar 
de comer à prole numerosa, que pode ser até de 7 filhotes 
em uma só postura. 

Coruja-de-igreja — Nome popular da "Suinda- 
ra", conhecida em Portugal, também, por "Coruja 
das torres". 

Corumbatá ou " G r u m a t ã " no Sul e " C u r i - 
ttiatã" no Nordeste — Peixes de escama da água doce, 
da fam. Characideofs, género Prochilodus, com variado 
número de espécies, entre as quais se incluem os " J a r a - 
quis" da Amazónia. À semelhança dos "Saguirús". 
que são de menores dimensões, os corumbatás caracteri- 
zam-se pela dentição ati-ofiada, nestes reduzida a vilo- 
sidades. Por isto mesmo, devido a consistir sua alimen- 
tação em algas contidas no lôdo, a carne destes peixes facil- 
mente toma mau sabor, quando criados na vasa. Mas 
os corumbatás dos grandes rios são bem saborosos e, como 
certas ocasiões são apanhados em enorme quantidade, 
ttão deixam de ter valor económico. E' o corumbatá o 
principal rendimento da interessantíssima pescaria cha- 
niada "promombó", a qual sob êsse vocábulo descreve- 
mos detalhadamente. Além disto prepondei-a nos rios, en- 




— 286 — 



tre os peixes de tamanho médio, que se pescam de tarrafa, 
ou nas redes de espera. Por causa das espinhas, este peixe 
deve ser "lanhado", isto é, a carne deve ser talhada pro- 
fundamente, com cortes transversais muito juntos, pai-a 
que, ao ser frita em postas, as espinhas finas sejam 
destruidas. Bem preparado desta forma, o corumbatá é 
bem gostoso e ao nosso paladar sabe muito melhor que 
a carpa, cuja carne é excessivamente flácida. Nos inú- 
meros açudes das regiões áridas do Nordeste, a curimatã 
proporciona grandes pe-scarias, que rendem, às vezes, 20 
a 30 mil destes peixes de bom tamanho. 




Corumbatá 



Também pelas facilidades que o corumbatá oferece 
à piscicultura, pois os ovos podem ser fecundados artifi- 
cialmente c criados em jarra, certas espécies dêste género 
se nos afiguram como muito promissoras e destinadas a 
larga exploração económica. Há espécies que atingem 
50 a 60 cms. de comprimento e 4 quilos de peso; outras 
não ultrapassam 20 cms., como o corumbatá de lagôa, que 
aliás é o de pior sabor. A melhor espécie e também a maior, 
no Sul é o "C o r u m b a t á - u V ú" ; no rio São Francisco 
a "C u r i m a t ã - p a c ú" atinge 8 quilos de peso. 

Corumbeba — Peixe do mar, de Pernambuco; ainda 
não identificado. 

Corvina ou "Murucaia" na Baía e "Cururu- 
c a" em Pernambuco — Peixes do mar da fam. Sciaeid- 
deos, do género Micropogon. O nome português, na Eu- 
ropa designa a espécie que os colonizadores julgaram cor- 
respondente à da fauna sul-americana. A denominação 
tupi, na forma original, deve ter sido "mirocaia", como 
Gabriel Soares ainda escreveu. Veja também "Curu- 
r uca". 



— 287 — 



A corvina e outros géneros aliados não têm caninos 
grandes na parte anterior do maxilar superior (inter- 
maxilar), como o têm as tão apreciadas "Pescadas", 
pertencentes a outra subfamília dos Sciuenideos. Insis- 
timos nesta diferença, porque aos compradores inexpe- 
rientes os vendedores pouco escrupulosos impingem a cor- 
vina como sendo "pescada listrada" e a diferença do 
sabor da carne e portanto do preço é deveras grande! As 
corvinas frequentemente, pelo menos no Brasil meridio- 
nal, têm detestável cheiro de ácido fênico ou iodofórmio 
o que talvez deva ser atribuído à alimentação ou então a 
certa fase da reprodução dêste peixe; Alipio M. Ribeiro 
notou que tal cheiro predomina, em certas épocas, nos 
exemplares de desenvolvimento meião e só o atribue à 
espécie M. opercidaris. 

Os pescadores diferenciam as duas espécies pelos no- 
nies "Corvina marisqueira" (M. opercnlaris) e 
''Corvina de linha" (M. nndídahis) ; esta atinge 
niaior desenvolvimento, até 80 cms. de comprimento, tem 
olhos um pouco maiores e também o 2." acúleo da nada- 
deira anal é um pouco mais longo do que em M. opercida- 
ii'is, cujo 2.° ráio anal equivale apenas a um quinto do 
comprimento da cabeça (contra um terço, na outra es- 
pécie). 

São peixes que contribuem com elevada quantidade 
para o total das pescarias de x'êde (marisqueira), mas 
sua cotação no mercado sempre é baixa. "Pescadas lis- 
tradas" elas são, pox-que têm estrias escuras, paralelas, 
a princípio longitudinais, depois oblíquas, mas apesar 
fio seu longínquo parentesco com as "pescadas" verda- 
deií-as, não podem ser comparadas com estas. 

Corvina d'água doce — Ilá diversos géneros de peixes 
<la fam. Sciaenideos, que se adaptaram definitivamente 
à vida fluvial e lacustre; tais são: Plagioscion, Pachypops 
6 Pachyurus, do Amazonas, São Francisco e rio da Prata. 
Referimo-nos detalhadamente a uma delas, sob o nome 
"Sofia". 

(Corvo) — E', em Portugal, o nome de uma ave, ou 
^ntes do pássaro da família das gralhas, Corvus corax. 
Por isso é de todo imprópria a aplicação dêste nome ao 
no.sso urubu, como o povo o faz, por influência portuguesa. 
As duas aves só tem em comum a uniformidade da plu- 
•ttíigem preta; de resto, tanto no feitio, no porte, como 
^0 modo de viver, são totalmente diversas. 



— 288 — 



Cotinga — Na Amazónia é êste o nome indígena de 
certas espécies de pássaros da fam. Cotingideos, mais 
conhecidos por "A n a m b é s". Como se vê, foi aquele 
nome que deu origem à denominação científica da família. 

Cotovia ou "Calhandra" — Pela tal qual seme- 
lhança com os pássaros europeus dêste nome (Alaiida). 
são assim chamadas entre nós as espécies da fam. Mota- 
cillideos, do género Anthus, mais geralmente conhecidas 
por "Caminheiros". 

(Cotunga) — Em seguida a uma publicação do Dr, 
Alex. Pedroso (Ann. Paul. Med. e Circ. Vol. I, pág. 100), 
êste nome tornou-se conhecido na pai-asitologia brasileii'a, 
por ser atribuído a uma mosca hematófaga, talvez vetora 
da leishmaniose ou "úlcera de Bauru". Verificámos que 
na primeira e única referência original que se fez a esta 
mosca, o cientista italiano Franchini (Buli. Soe. Pat. Exot. 
1913, pág. 219) diz apenas que um paciente, vindo do 
Brasil (onde?), o informou da existência de uma mosca 
esverdeada — a tal Cotunga — que pica o homem, através 
da roupa. Como nunca encontrámos, em nossa literatura, 
vocábulo mais ou menos parecido com êsse, referente a 
dípteros hcmatófagos, é possível que se trate apenas de 
uma deturpação radical ou cacografia de qualquer outro 
nome vulgar. (Mutuca?) Não se pode negar, no en- 
tanto, que a palavra sôa à brasileira (ou como de origem 
africana). 

Craca ou "Caraça", na Baía — Crustáceos Ento- 
mostráceos da ordem Cirripedios, família Balanideos (em 
Portugal: bolotas do mar). E' preciso abrir a casca, para 
se certificar que realmente se trata de um crustáceo; de 
fato, dentro da casca e preso à base, encontra-se um corpo 
mal segmentado e provido de 6 pares de patas, que mais 
se parecem com fios enrolados nas pontas. E' êste o 
único meio de que dispõem as cracas para se comunicar 
com o mundo exterior. Presos às pedras, ao nível das 
marés, elas abrem sua concha debaixo da água e fecham 
a tampinha quando a maré baixa. A casca é de feitio 
variável, e em geral em forma de tulipa, composta de di- 
versas peças conci-escidas. A espécie mais comum "O 
nosso litoral é Balanvs thitinaJnãum. Outras espécies da 
mesma fam. Balanideos fixam-se sobre as tartarugas, ba- 
leias, etc. São as cracas, juntamente com as ostras, qu^ 
sujam o casco dos navios parados nos portos. Em alto 
mar não há larvas dêsses mariscos, que vivem somente 



.SciELO 



10 11 12 



289 — 



nas águas do litoral e, portanto, só aí, durante a fase 
livre, aderem à base que escolhem jíara formar a casca 
ou concha. Uma vez fixados, continuam a se desenvol- 
ver, ainda que a embar- 
cação viaje e como a 
íispereza, assim forma- 
tla, impede a boa mar- 
cha do navio, é necessá- 
rio levar êste de tem- 
pos em tempos para os 
estaleiros, a fim de se 
proceder à raspagem do 
casco. 

Hábito de vida se- 
melhante têm as espé- 
cies da mesma ordem, 
da fum. Lepadideos, que 
fnais se parecem com 
conchas brancacentas, fixadas por meio de um pedúnculo 
alongado; em Portugal e às vezes também aqui, são cha- 
mados" "Percêves". 

Craúçanga — No Ceará é conhecida por êste nome 
»ma espécie de formiga vermelha, de cabeça grande, que 
faz ninho em buracos fundos na terra; a picada é terrível, 
chegando a produzir empolas e febre. Veja-se sob 
Traçanga", que parece ser variante do mesmo vo- 
cábulo. 

Graúna — Veja-se sob "G u a r a ú n a". 

Cravo — Ácaros, que se encontram no "cravo" da 
íace e são parasitos dos folículos pilosos e sebáceos dos 
mamíferos, produzindo a "sarna demodécida" do cão e 
dos suinos; são ácaros vermiformes, do género Demodex, 
'le 1 terço de milímetro de comprimento. 

Cricrió — Pássaro da Amazónia, Lathria cinerea, do 
mesmo género do "Virussú" e do "Tropeiro" do 
orasil meridional. A denominação parece ser onomato- 
Píiica; no entanto, Goeldi procurou grafar o canto dessa 
como: "hu-hu-qui-quiú". Seu colorido é todo cinzen- 
to, mais pardacento no lado superior. A seu respeito a 

Snethlage (Catálogo das Aves Amazônicas, pág. 346) 
'liz que é êle um dos membros mais conhecidos da fa- 
•^ilia, por se fazer notar pela sua voz singular e forte. 

Crispim — Veja "S a c í". 




Cracas — Lepas, com a concha aber- 
ta, mostrando o crustáceo. Ittilanus, 
.1 esquerda, é a espécie mais comum 



— 2Q0 — 



Crumatá — O mesmo que "C o i* u m b a t á". 

Cruvina — Má pronúncia, aliás bastante generaliza- 
da, por "Corvi na". 

Cruzeiro — Nome dado em algumas zonas à "Uru- 
tú"; refere-se a denominação ao desenho que u serpente 
tem na cabeça, em forma de cruz, aliás de braços curvados 
para baixo. 

Cú-cosido ou "Cú -ta pado" — E' o mesmo que 
"Tuim". 

Cú de galinha — Veja sob "Rosquinha". 

Cuandú — Veja sob "Coandú"; é o mesmo que 
"Ouriço c a c h e i r o". 

Cuatí — Veja "C o a t í". 

(Cuco) — Nome de ave eui'opéia, à qual em nossa 
fauna correspondem várias espécies da mesma família- 
como por exemplo o "Saci", com iguais hábitos de pa- 
rasita dos ninhos de outras aves. Êsse nome entre nós, 
porém, não é empregado pelo povo. 

Cuí ou "Cuim" — Denominação amazônica do 
"Ouriço cacheiro". 

Cuiabana — Formiga da fam. Camponotideos, Pre- 
nolepis fulva, que teve o seu período de celebridade, pois 
lhe eram atribuídos, com muito exagero, todos os pi-edi- 
cados de eficaz exterminadora da terrível praga saúva. 
Hoje subsistem apeníis, como realidade, êstes dois fatos: 
as duas formigas vivem muito bem na mesma região, sem 
que uma extermine a outra; mas, quando a cuiabana assii" 
o entende, talvez em tempos de penúria de melhor alimen- 
to, ela pode aniquilar o saúveiro, roubando-lhe tôda a cria- 
ção. Porém essa mesma cuiabana é também uma das 
principais "formigas açucareiras". . . e para bom enten- 
dedor é quanto basta. Ela mede apenas dois e meio mi- 
límetros; é de cór pardo-amareiada e caracteriza-se pelas 
antenas muito longas. 

Contudo, é preciso lembrar que a boa identificação 
destas formigas miudinhas não é fácil e, assim, várias 
afirmações referentes à biologia de pretensas " C u i a- 
banas", basearam-se, de fato, na observação de outras 
espécies que não Prenolcpis. 

Finalmente, como argumento máximo contra a possí- 
vel utilização das cuiabanas na extinção das saúvas, r^' 



291 



lataremos, em resumo, o que vimos na zona norte do Est. 
de Pernambuco. Anos atrás, alguém importou as cuia- 
banas e estas, multiplicando-se extraordinariamente, fo- 
ram tomando conta de toda a região, tornando-se verda- 
deiro flagelo. Hoje, não só as formiguinhas danificam 
todos os comestíveis, como molestam a pequena criação, 
pintos e bacorinhos, e até as crianças recém-nascidas cor- 
rem perigo e precisam ser vigiadas dia e noite. Tão pre- 
judicial se tornou esta praga, por toda parte, nas casas, 
nos quintais e nas plantações, que certas propriedades 
estão sendo abandonadas e não encontram comprador. 

Cuiara — Veja "C u j a r a". 

Cuica — Veja "Quica". 

Cuitelão — O mesmo que "Gu a n u mb í - g u a s- 

sú" ou "Beija-flor do mato virgem" ou, na 
Amazónia "Ariramba da mata virgem", ou 



"F u ra - b a r r i g a" em Pernambuco. Veja, também, " J a- 
c a m a c i r a". Vê-se por êstes nomes, que tanto o índio 
como o caipira e o português acharam grande semelhança 
6ntre estas aves da família GalhuUdeos e os verdadeiros 
beija-flores, semelhança aparente apenas, mas inegável. 
Só o povo da Amazónia preferiu compará-los às ariram- 
bas (ou seja o nosso "M a r t i m - p e s c a d o r" do Sul) e 
^inda aqui o confronto tem sua razão de ser. 

De fato, êstes Galbidideos são, pelo aspoto, como que 
beija-flores mais reforçadas e maiores (22 cms.), com 
bico longo, porém bastante grosso na base; o colorido é 
Verde metálico, com ornatos cúpreos e lado ventral fer- 




Cuitelão 



— 292 — 



rugíneo ou branco e azulado. As 15 espécies brasileiras 
pertencem a vários géneros: Galbula, Brachy<jalba, Jaca- 
maralcyon e Jacamerops. Como o indicam os nomes vul- 
gares, são habitantes da mata virgem. São conhecidos 
ainda no Estado do Rio de Janeiro por "C a v a d e i r a s", 
nome adequado, pois costumam cavar galerias nos bar- 
rancos dos rios e lá constroem seu ninho. 

Cuitelo — O mesmo que "B e i j a - f 1 o r"; nome 
usado pelo povo da roça. 

Cuiú-cuiú ou "Vacú", "Tuiú", "Abotoado" 
ou "Cari" — Peixes de couro Nematognatha, da fam. 
Doradideos, espécies que se caracterizam por terem, ao 




Cuiú-cuiú 



longo da linha lateral, uma série de placas ósseas, arma- 
das cada uma de vários acúleos, dos quais o mediano é 
o maior e o mais recurvado. Como os "Tamboatás", 
andam por terra, às vezes transpondo grande distância, 
quando querem passar-se de um rio ou lago para outro. 

Não sabemos dizer ao certo quantas das quasi 40 
espécies desta família já foram efetivamente encontradas 
perambulando em terra ; talvez nem todas o possam fazer. 

Há espécies do gên. Doras que atingem quasi uiu 
metro de comprimento e tais exemplares adultos têm todo 
o corpo revestido de placas ósseas, ao passo que nos jovens 
boa parte do corpo tem pele lisa. Outras espécies do gén- 
Oxydoras são menores e as do gên. Hemidoras mal atin- 
gem um palmo de comprimento. A espécie mais comum 
desta família, no rio S. Francisco (Franciscodorus mar- 
vwratus), é denominada "Bozó" em Jabotá; o Dr. A- 
Lutz a menciona como "Caborge". 

Na Venezuela a espécie correspondente, Doras cro- 
codili, tem o nome de "Mata-caiman", porque, segundo 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



— 293 — 



afirmam os pescadores, ao tentar o jacaré engolir tão 
perigoso bocado, êste lhe retalha o esôfago de tal modo, 
que o atacante passa a ser vítima e quasi sempre morre 
em consequência da imprudência. O prof. Eigenmann en~ 
dossa a observação dos índios, confirmando assim a res- 
pectiva notícia dada por Humbolt. 

Cuiií-cuiú — Papagaio ou antes maitaca, Piono- 
psitta pileata, do Brasil meridional, da Baía ao Rio Grande 
do Sul. A plumagem geral é verde-azeitona ; nas azas 
predomina o azul-cobalto ; a fronte do macho adulto é 
sanguínea, ao passo que o macho novo e a fêmea a 
tem azul. Na Amazónia a espécie correspondente é o 
"Curie a". 

Cujara ou "Guiara" — No Sul do Estado de 
S. Paulo é um rato do mato (Oryzomyn levcogaster). 

Cajubí ou "G r i j u b i m" — Ave da fam. Craci- 
deos, Ciimaua cujubi, da Amazónia inferior; pertence ao 
mesmo género que a "Jacutinga" do Brasil meridio- 
nal. A cór preta geral tem intenso brilho esverdeado; a 
crista é branca, bem como a grande mancha da garganta ; 
as coberteiras das azas são orladas de branco, principal- 
mente na barba exterior (e é êste o caráter que melhor 
a distingue da espécie afim, do alto Amazonas, C. cuma- 
ticnsis, na qual essas mesmas penas têm ambas as barbas 
orladas ou são inteiramente brancas). 

Cumbaca ou "Anu.jú" (veja êste) — Peixes de 
couro da fam. Trachycoristideos, mais ou menos semelhan- 
tes ao "Bureva", porém com a cauda não furcada 
como neste, mas truncada e nos machos, às vezes, os raios 
superiores são prolongados. Alcançam mais de um palmo 
de comin-imonto. Segundo Garlos Moreira, o nome se aplica 
a Tr. striutnhi.i. Th. Sampaio diz que "G u m b a c a" desig- 
mi, no Sul, uma rã, sendo sinónimo de "Caço te" 
Uo Norte. Veja-se também a espécie congénere sob 
"Cangatí". 

Cumbé — Na acepção mais restrita, parece referir- 
se às lesmas; mas o caipira ampliou a significação, abran- 
gendo assim qualquer bicho mole, como as sangue-sugas, 
(Amadeu Amaral, Dialeto Caipira) e os próprios mo- 
luscos, caramujos. 

Cunauarú — Na Amazónia é o nome de um pequeno 
batráquio (rã?), de cór bruna, olhos vermelhos e cujo 
^nto diz as duas sílabas "cu-nau", repetidas em voz tris- 
tonha. Prepara seu ninho em forma de panela, no ôco 



294 - 



da almecegueira (Protium). A resina, que aí se acumula, 
é muito procurada, pois à sua fumaça aromática são atri- 
buídas propriedades medicamentosas. 

A respeito dêste batráquio escreve Barbosa Rodrigues 
(Porunduba pág. 197). Para se aninhar, o cunauarú 
ajunta a resina do breu branco (Protium heptaphyllum, 
da fam. Bruscraceus) e com ela faz uns cilindros, que 
dentro são infundibuliformes, nos quais deposita os ovos. 
Pelo furo que fica no centro sobe a água e nela êles se 
conservam. 

A lenda, relatada pelo mesmo autor, é interessante, 
por vários motivos, pelo que a transcrevemos: "Havia 
outrora dois homens, um casado e outro que se enfacei- 
rava com a mulher do irmão. Dizem que era pagé o 
irmão, que i)egou no rabo de uma arara e meteu-o no 
buraco do pau. Disse depois à mulher: — Dize a meu 
irmão para tirar o filho da ai-ara para que tu o cries. 
Logo, então, êle subiu e a cousa má o pegou no buraco 
do pau, começou a gx'itar: Ce mu! Ce mu! (meu irmão! 
meu irmão! frase que arremeda o coaxar do cunauarú) 
e depois disso virou sapo!". 

O Cunauarú figura ainda em uma lenda indígeiui 
como tendo salvo uma mulher perseguida pelo Corupira. 
"A mulher correu para um grosso tronco de árvore, que 
no alto tinha um grande buraco, em que morava o Cuna- 
uarú. A mulher pediu ao sapo que a salvasse. O Cuna- 
liarú a fez subir e depois esfregou sua resina no tronco 
da árvore e quando o Curupira quiz subir, ficou grudado 
e aí morreu". 

Cundunda — Em Pernambuco dá-se êste nome ao 
peixinho registrado sob "M u s s u r u n g o"; veja êste. 

Cupim — A palavra designa tão corrente como am- 
biguamente não só o inseto da ordem iHopteron, fam. Ter- 
mitideos, como o ninho que os mesmos constroem. Assim 
diz-se: "O cupim corrói o madeiramento"; o "cupim en- 
feia os prados". Êstes ninhos são ainda denominados "Ita- 
pecuim" ou "Tapecuim", na Amazónia, e "Itacurú" 
ou "Tacurú" em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul; 
(na Argentina: los itacurues). Para esta última palavra 
Beaurepaire Rhoan indica como forma original a palavra 
"itacurubá". Na campanha riograndense os tacurús são 
temidos, porque, meio destruídos e ocultos entre o capim» 
provocam a queda do animal, que assim facilmente que- 
bra a perna, quando no galope afunda em tais buracos. 



— 295 — 



Os cupins são insetos sociais, isto é, além dos indi- 
víduos dos dois sexos, há castas de asexuados, os quais, 
conforme o ofício a que são destinados, têm o organismo 
adaptado a tal fim, como seja para o trabalho externo ou 
interno ou para a defesa (numti da terminologia cientí- 
fica ou guerreiros). Seus ninhos, característicos para 
cada espécie, têm a parte central feita de madeira mas- 
tigada, verdadeiro "papier maché" e por fora são prote- 
gidos por um invólucro de barro amassado com saliva. 




Cupim : O ninho, a raintiH na forma alada e com 
o abdómen clicio itc ovos, operários c soldado 



Esta parte externa do ninho, em certas espécies, é tão 
desistente como o melhor tijolo e suas dimensões algumas 
Vezes atingem mais de 2 e até 4 mts. de altux'a. Outras es- 
pécies habitam em troncos de árvores ou no madeira- 
^lento das construções. Em certa época do ano os indiví- 
jliios novos dos dois sexos, alados, vôam, (veja "A 1 e - 

i a"), à tarde, depois da chuva e quando baixam à terra, 
^^putam suas longas azas, para dar início ao novo ninho, 
f^ogo nascem os seus auxiliares e daí por diante a rainha 
tem por único trabalho a postura de ovos; seu abdómen 
desenvolve-se de tal forma que, em algumas espécies, pode 
■itingir o tamanho de um dedo polegar. 

Descreve Severiano da Fonseca (Viagem, pág. 353) 

seguinte observação: "Nas cabeceiras do Rio Verde 
(Mato Grosso) vimos certa noite um espetáculo surpre- 
endente. Um desses cupinzeiros, que os índios chamam 
t^curús, apresentava-se todo coberto de pequenas luzes, 



2Q6 — 



quais minúsculas estrelas, semelhando uma torre em mi- 
niatura, brilhantemente iluminada. Vieram convidar-nos 
para partilharmos da surpresa e prazer. Golpeando-se o 
edifício, apairavam-se as luzezinhas, como por encanto, 
para virem surgindo, pouco a i)ouco, a começar dos lu- 
ííares donde o golpe repercutira com menos intensidade". 
Certamente o fenómeno deve ser atribuído, não aos ter- 
mitídeos, mas a microorganismos fosforescentes, incrus- 
tados nas rugosidades da camada externa do cupim. E 
tanto é coisa acidental, que aquele autor só verificou o 
fato em um desses cupinzeiros, quando descreve e evi- 
dencia no desenho a enorme quantidade de cupins, que 
".são os donos do terreno", como êle mesmo o diz. 

No litoral. Rio de Janeii'o e Santos, é Coptotermes 
vastator (cf. Costa Lima) a espécie que causa grandes 
danos nos madeiramentçs das casas. De tal forma êsses 
insetos corroem especialmente as vigas do telhado, que 
chegam a desvalorizar a casa; há algumas madeiras bra- 
sileiras das quais se diz não serem atacadas pelo cupim- 
O combate à praga é difícil, devendo ser utilizados de 
l)referência insecticidas arsenicais; o verde Paris é me- 
nos tóxico para êstes insetos; fluorsilicatos de sódio e de 
bário são eficientes e praticamente inócuos para o 
homem. 

Para exterminar o cupim nessas condições, é preciso 
descobrir primeiro a localização do ninho central; isto 
quasi sempre se consegue, acomi)anhando a marcha dos 
insetos }ios túneis que os mesmos constroem sobre íi 
madeira. Êstes túneis, é inútil destruí-los, jkiís que ser- 
vem apenas de passagem abrigada e, ainda que se os eli- 
mine, no dia seguinte estarão reconstruídos. Limpando o 
ninho central e juntando os insetos numa vasilha com 
água e petróleo, é preciso verificar si também a rainha, 
muito grande e gorda, foi apanhada. Si esta sobreviver, 
ela continuará seu trabalho de máquina poedeira e a pragi' 
se refaz. Outras espécies se dão a conhecer apenas pel<' 
trabalho de destruição a que se dedicam no solo, atacando 
as raízes de um variado número de plantas ou mudas, 
capim, milho, cana, batata, algodão, árvores frutíferas 
e café. Exteriormente, à flor da terra, nada se percebe, 
pois os cupins cavam pequenos túneis no solo a pouca 
profundidade. Nos casos em que é possível fazê-lo, em 
geral basta arar bem, para exterminar a praga. O maior 
mal, porém, êstes insetos causam nos viveiros de mudaf 
e, nestas, ainda depois de transplantadas. Roendo ^ 



casca (Ia raiz, como sempre o fazem, matam infalivelmente 
a plantinha. 

Em Portugal generalizou-se a denominação "For- 
miga branca" (à semelhança do inglês: "white 
ant") e alguns escritores nossos também tentam intro- 
duzir a palavra, ao que parece por ignorarem que o co- 
nhecido "C u p i m" é sinónimo de Tcnnitideo e que esses 
insetos não são formigas. (Veja estampa da pg. 398). 

Cupira — Esta denominação, dada às abelhas so- 
ciais que constroem seu ninho em cupins (abandonados 
ou em simbiose como os Termitídeos) , demanda ainda um 
estudo mais acurado da biologia das várias espécies em 
questão, para que se possa fixar o valor taxonômico do 
vocábulo indígena, de larga divulgação entre os mela- 
dores. A. Ducke, em sua meticulosa "Revisão das Abe- 
lhas" (1916) menciona MeUpona kohli, M. palUda e as 
subespécies desta, cupira e helleri, como nidificadoras em 
cupins; o mesmo autor mostra-se inclinado a reunir M. 
kohli à espécie semelhante M. nrgcntata, e esta, sob a 
denominação pulviventrin (aberr.), também já foi assi- 
nalada como "Cupira". M. paUida é por sua vez, uma 
espécie muito variável, a ponto de Ducke incluir ai vá- 
rias formas que julga serem de transição e que, biologi- 
camente, também variam quanto ao modo de nidificar, 
pois foram assinaladas colmeias construídas em ocos de 
árvores, em interstícios de muros, em cavidades do solo, 
em cupim e também como ninhos livres, dissimulados 
entre bromélias epífitas. (A êste tipo de ninho cabe a 
denominação "Iraxim"). De tal modo discorda esta 
grande variabilidade da habitual restrição, de cada espé- 
cie, a um padrão único, que, prejulgando a questão, nos 
parece haver, além da evidente transição morfológica e 
ecológica, também alguma confusão toxonômica, ainda 
por corrigir. Aos investigadores oferece, pois, esta es- 
pécie interessantes problemas biológicos, acrescidos ainda 
da curiosa simbiose da abelha com os cupins e ainda com 
outros insetos sociais, como, por exemplo, com as formi- 
gas "Sará-sará", Cavipovotiifí riifipes. 

O fato é que o Dr. H. von Ihering examinou uma sé- 
i*ie de ninhos nestas condições; a habitação das abelhas 
achava-se envolvida pela dos cupins ou da formiga; e o 
conjunto todo estava abrigado no interior de árvores ôcas. 
Para que a economia interna das abelhas não seja mo- 
lestada pelos vizinhos, elas mantêm seu ninho rigoro- 
samente apartado por uma camada envolvente e a porta 



298 — 



de entrada consiste em longo tubo, que desemboca fora 
do tronco que agasalha as duas colónias. 

Aos meros apreciadores de mel, as " C u p i r a s " não 
proporcionam iguais atrativos, como aos estudiosos. O 
mel destas abelhas não tem aroma; é, antes, ácido e ruim, 
a ponto de ter merecido o qualificativo "mel de cachorro", 
que abrange tanto esta espécie como outras de pouco 
aprêço. 

Curiango ou " C u r i a v o ", em Pernambuco ou, 
"C a r i a p o n g a" — Aves noturnas, de plumagem mole 




Curiango tesoura 



e, por isto, como as corujas, de vôo silencioso. Pertencem 
à fam. Caprimiãgideos e os vários géneros caracterizam- 
se por ser a unha do dedo médio provida de um verda- 
deiro pente em miniatura. O colorido é semelhante ao 
das corujas, predominando o ferrugíneo e côr de canela. 



— 29g 



sobre fundo cinzento e com ondulaçõetí e desenhos de 
escamas escuras. Muitas espécies têm uma grande mancha 
semi-lunar, branca na garganta ("Bacurau", Nycti- 
dromus aUncollifi) . Contudo, há várias espécies que tam- 
bém são incUiidas na denominação "bacurau", — 
têrmo este que, aliás, é puro sinónimo de "curiango", no 
Nordeste. Veja também "Noitibó" e "Mede-le- 
g u a s". 

Parece que todas as aves pertencentes a esta família 
obedecem a um mesmo plano, quanto ao modo de nidificar. 
Os ovos, em número de dois, sempre brancos e com alguns 
salpicos de côr violeta, são postos, sem mais cuidado, no 
chão, quando muito sob o abrigo de uma moita ou de 
um pé de café. Euler desconfia que a ave, de qualquer 
geito, sabe transportar os ovos para outro sítio, si per- 
cebe que alguém os descobriu ou lhos tocou. 

Curiango tesoura — São as espécies de curiangos que 
têm longas penas caudais, às vezes com quasi o duplo do 
comprimento do corpo; pertencem a dois géneros: Ma- 
cropualis e Hydropfíalis. O primeiro tem verdadeira te- 
soura, sendo as penas exteriores mais longas e as inter- 
nas sucessivamente mais curtas. M. creagra é a única 
espécie dêsse género e suas penas caudais mais longas 
medem até 60 cms. e têm a barba interna branca ; ocorre 
só nos Estados de S. Paulo e Rio de Janeiro. No género 
Hydropmlis as retrizes exteriores formam tesoura mais 
curta (30 cms.) e além disto, as penas medianas são tam- 
bém longas; H. torquatus é do Brasil médio e H. climaco- 
cercifs da Amazónia; aliás, estas três espécies diferem 
Pouco umas das outras. 

Curiantã — O mesmo que "Guriantã". 

Curiavo — O mesmo que "Curiango". Onoma- 
topaicamente Curiá-vô é a denominação que melhor repete 
^ voz dessa ave noturna; mas a pronúncia consagrada é 
C u r i a n go". 

Curica ou " C u r u ca" — Designa na Amazónia 
algumas espécies de papagaios do gên. Aviazona e tam- 
bém a curiosa espécie Pioriopsilta barrabandi, de cabeça 
preta, congénere do "C u i ú - c u i ú", do Sul. Ao contrá- 
^"io dêste último, que tem cabeça vermelha, o "C u rica" 
tem cabeça preta e apenas uma grande mancha amarela 
de cada lado do bico. 

Curicaca — Ave da fam. Ibidideos, Theristicus cauda- 
^ws, caracterizada pelo colorido pardo-cinzento, com 



300 — 



azas quasi brancas, pescoço branco-amarelado, peito e 
vértice pardo-castanho. A garganta é núa, preta, bem 
como uma zona ao redor dos olhos. O bico, longo e curvo, 
é preto na base, verde na ponta. 

Curimã — E' a denominação indígena, em uso cor- 
rente no litoral nordestino e que corresponde à de origem 
portuguesa "Tainha"; abrange as espécies do gên. Mwjil, 
que têm listras escuras longitudinais sobre o flanco e 
cujas nadadeiras dorsal e anal não são revestidas de es- 
camas. (Veja-se sob "Tainha"). As outras espécies 
de Mnijil sem listras e com nadadeiras escamosas, o indí- 
gena distinguia como "Parati". Hoje, a nomenclatura 
usual entre os pescadores é a seguinte : 

Da Baia para o Norte: 

."Curimã": espécies listradas ; "T a i n h a", espé- 
cies não listradas. 

Do Rio de Janeiro paru o Sul: 

"T a i n h a" : espécies listradas ; "Parati", espécies 
não listradas. 

A curimã, no litoral nordestino, é um dos peixes mais 
apreciados, a ponto de ter incentivado, em Recife princi- 
palmente, o desenvolvimento da piscicultura sob forma 
dos "viveiros". Éstes são despescados na Semana Santa, 
alcançando então a curimã o preço máximo, de 8 e lOÇOOO 
por quilo e tendo por competidor apenas a "Cavala". 

Certificamo-nos, lá, que de fato o sabor destes peixes 
justifica tal preferência, que no Sul não teria razão de ser. 
As curimãs máximas atingem 1"\20 de comprimento e 
7 quilos de peso. Estão ovadas em Junho, desaparecendo 
depois, em migração, cujo rumo ainda não foi verificado. 

Curimaí — No Nordeste designa-se assim os filho- 
tes de curimã, quando estão no ponto de serem levados 
para os viveiros; os proprietários destes compram-nos aos 
pescadores a 20 ou 40$000 o cento. 

Curimalã — Pronúncia amazônica e nortista em 
geral, por "C o r u m b a t á" do Brasil meridional. A pro- 
núncia sergipana é "Cr uma tá". Os dois nomes desig- 
nam peixes do mesmo género, mas que diferem especifica- 
mente. E' evidente que a denominação encerra o radica' 
curimã; dê.ste modo a etimologia de "corimbatá" está 
ligada ao nome indígena da tainha, peixe marinho até 
certo ponto semelhante. (Veja estampa da pg. 582). 

Curió — O mesmo que "Avinhado". 



5SCÍELO 9 10 11 1 



— 301 — 



Curuá — Nome indígena dos ratos em geral e que 
às vezes figura também na nomenclatura usada pelo povo, 
em combinação com outros vocábulos. Também "Curu- 
r u á". Montoya menciona a forma guarani "arurú". 
H. von Ihering registrou o nome como sendo aplicado em 
especial aos ratos de espinho (Loncheres). 

Curuaca — Peixe que em Belém do Pará, por lei, 
só deve ser admitido no mercado com 18cms. de dimen- 
são mínima. Não obtivemos outra informação mais po- 
sitiva a respeito deste peixe, que certamente alcançará 
quasi 50 cms. de comprimento. 

Curubixá — O mesmo que "G r u m i x á". 

Curucuciea — Segundo Frei Prazeres, é no Mara- 
nhão "um sapo cuja baba se converte em resina medi- 
cinal". Certamente se trata do mesmo "Cunauarú", 
que também Barbosa Rodrigues menciona como "Cu- 
nauarú-icica" (icica — resina) . 

Curupetê — Êste nome cabe à espécie de "Pacú", 
figurada por Spix sob Mi/letes bidens. E' o que se de- 
preende de uma anotação autografa, a lápis, no exem- 
plar do famoso livro de L. Agassiz (1829), revisto e ano- 
tado pelo autor d' "O Selvagem", general Couto de Ma- 
galhães. 

Curuquerê — Lagarta da mariposa da fam. Noctui- 
deos, Alabamn argilacea. E' praga muito nociva ao al- 
godoeiro e que frequentemente chega a danificar a plan- 
tação, a ponto de diminuir 
em 50 % a colheita espe- 
rada. A lagarta, verde ou 
quasi preta, com desenho 
<ie linhas longitudinais e 
numerosos pontoa redon- 
dos, atinge até 87 mms. de 
Comprimento, alimentan- 
do-se vorazmente das fo- 
lhas do algodoeiro. Destas 
'agartas ou, melhor, das curuquerê 

finfas em que estas se * mariposa e a respectiva lagarta 

transformam, nasce a ma- 
riposa, que por sua vez, renova o ciclo, pondo ovos na pá- 
gina inferior das folhas. Êstes lepidópteros medem 3 a 
4 cms. de envergadura e são de côr azeitonado-cinzenta, 
'^om linhas em pequeno zig-zag e uma mancha oval escura 
6 três outras brancas nas azas anteriores; as posteriores 





— 302 — 



são mais claras, com orla pontilhada, escura. Mas tanto 
na lagarta como na mariposa o desenho é muito variável. 

O tratamento aconselhado é a pulverização das plan- 
tas com verde-París, que envenena os curuquerês, quando 
êstes comem as folhas tenras. Antigamente procedia-se 
da seguinte forma: misturava-se verde-París (não falsifi- 
cado!) com farinha de trigo na proporção de 1 para 20; 
aplicava-se de manhã sobre as plantas ainda orvalhadas, a 
fim de obter boa adesão do pó. Usa-se para esta pulve- 
rização uma vara de comprimento igual à distância que 
vai de cova a cova; nas extremidades da vara colocam-se 
saquinhos de entretela um pouco aberta. Ou a pé ou a 
cavalo, o operário passa pela carreira, sacudindo a vara 
com os saquinhos que contêm o ingrediente, pulverizando 
assim todos os pés uniformemente. As lagartas ingerem 
o veneno ao comerem as folhas e só desta forma, preve- 
nindo em tempo, conseguia-se salvar a colheita. Hoje o 
trabalho tornou-se menos penoso para o operador, apli- 
cando-se com pulverizador o mesmo insecticida, dissolvido 
em água, na proporção de 250 gr. de veneno para 100 li- 
tros de água. 

Cururú — Nome genérico dos sapos em tupí-guaraní. 
De Pernambuco ao Ceará designa especialmente o géne- 
ro Bufo. No Pará, ao que nos consta, designa a gia 
comum ; "Cururú pé de pato"éa Pijya americana. 

Curiosa, porém explicável, é a denominação "Sapo- 
cururú", usada pelos mestiços; deixa de haver tauto- 
nomia, devido ao sentido amplo da palavra sapo, como 
em geral a empregamos no Brasil. Nem por isso acon- 
selhamos a difusão dêsse regionalismo curioso, como, por 
exemplo, o emprega G. Cruls na "Amazónia Mysteriosa", 
pág. 25: "a inflamação cederia mais depressa si fosse 
aplicado sobre a ferida um sapo-cururú aberto pelo meio"- 
Lembraremos ainda a canção, talvez alagoana, que diz: 

"Sapo cururú, da beira do rio. 
Quando sapo canta, cururú tem frio". 

É essa quasi a confirmação de que "sapo" determi- 
na apenas a ordem — Batráquios — e "cururú" as- 
sinala o género — Bufo. 

Cururú — Mamífero roedor da fam. Octodontideos, 
Ctenomys hrusiliensis, do Brasil central e do Rio Grande 
do Sul (sendo aí denominado "Tuco-tuco", como tíO- 
Argentina). Assemelha-se ao arganaz da Europa; mede 



5SCÍELO 9 10 11 1 



— 303 



25 cms. de comprimento, cabendo um terço à cauda, que 
é grossa e provida de poucos pêlos, brancos. A côr geral 
é castanho-amarelada, salpicada de preto. Vive nos cam- 
pos arenosos, onde excava tocas com galerias ramificadas, 
a 5 ou 10 cms. de profundidade e, como frequentemente 
muda de habitação, vai minando a terra, de forma a tor- 
ná-la perigosa para quem anda a cavalo, porque o animal 
facilmente tomba, ao enfiar os pés nestes buracos. Sua 
voz diz mais ou menos as sílabas de seu nome, "tuco-tuco", 
repetidas, do fundo da terra. Veja-se, também, sob "Pu- 
na ré". 

Cururú-bóia — No Ceará designa uma cobra também 
chamada "Cobra-verde"; mas A. do Amaral a iden- 
tifica com Xenodon severus, portanto congénere da 
"Boipe va". 

Cururú-xoré — Entre os índios do Rio Negro de- 
signa o rato de espinhos Loncheres armatus, ao qual nos 
referimos sob "G u a b i r ú". 

Cururuá — Veja-se sob "C u r u á", esta talvez sem- 
pre com significação genérica, ao passo que aquela de- 
nominação se restringia aos ratos Loncheres. 

Cururuca — De Pernambuco ao Pará dá-.se êste nome 
aos peixes que da Baía (inclusive) para o Sul são conheci- 
dos por "Corvi nas". Em Pernambuco distingue-se a 
Cururuca "branca" da "lavrada". 

Curutié — O mesmo que "P i c h o r o r é". 

Cutia — Roedores da fam. Caviideos, Dasyprocta 
(igiiti e D. azarae são as espécies mais comuns no Brasil 




nieridional. Atingem 50 cms. de comprimento ; o pêlo é 
íispero e de côr meio-parda, meio-amarelada, misturada 



— 304 - 



nos pêlos, tornando-se, porém, mais avermelhada no tra- 
seiro. O corpo é grosso e as pernas, finas, são relativa- 
mente altas para um roedor. Os principais distintivos 
da ordem a que pertencem, os dois dentes roedores, longos 
e curvos, são vermelhos. A cauda é tão rudimentar, que 
quasi não aparece. Vive só nas matas, onde faz sua tóca 
e o caçador facilmente a descobre, seguindo o trilho que 
conduz a ela. E' animal de hábitos quasi nioturnos, pois, 
tendo passado a maior parte do dia no esconderijo, somen- 
te à tarde sai em busca de alimento, que consiste em tôda 
sorte de vegetais, tanto sob forma de frutos, como de 
raizes e, podendo ser, o milho, a cana e a mandioca lhe 
sabem bem. E' muito apreciada, não só pelo prazer ve- 
natório que proporciona, como pelo excelente sabor de 
sua carne. Quasi sempre a cutia se entoca quando per- 
seguida pelos cães e o caçador a obriga facilmente a sair, 
fazendo entrar fumaça no buraco. 

Cutia de rabo — No Norte e Nordeste é o mesmo 

que : 

Cutiaiá — Na Amazónia designa a espécie de cutia 
muito menor, Danypfocta acouchy, que tem rabo mais 
desenvolvido, com cerca de 8 cms. de comprimento e uni 
pincelzinho na ponta. Sai em busca de alimento à noiti- 
nha, mais tarde do que a cutia grande. Barbosa Rodri- 
gues grafou em Luccok : "C u t i u á i a". 

Cutimbóia — Na Amazónia êste nome é dado a um 

Colubrideo, Drymobiiis carinutus, que no Brasil meridional 
é uma das muitas "C o b r a s - c i p ó" ou "P a p a - p i n - 
to", como lhe chamam no Rio Grande do Sul. Não sabemos 
si só a esta grande espécie, que atinge quasi 3 metros 
de comprimento, cabe tal denominação, ou si "Cutim- 
bóia" ou, como também se diz na Amazónia, "A c u - 
t i m b ó i a" abrange, ainda mais, várias outras cobras ar- 
borícolas. Frei Prazeres do Maranhão menciona "Cu- 
timbóia papa-ovos". Afrânio do Amaral (Nom- 
vulgares ofid.) diz que na Amazónia o povo crê que esta 
cobra enterre a cabeça no solo, para açoitar os inimigos 
com a cauda. 

Cutipaca — Denominação, ao que parece local, em 
São Sebastião (Est. S. Paulo), do "Camarão" Palae- 
mon jcmaiccnífis, aliás o "P i t ú". 

Cutipuruí — Na Amazónia designa a "C o r r u í r 
do Sul. 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



— 305 — 



Cutucurim — Nome indígena, aliás pouco vulgari- 
zado, da "H a r p i a". 

Cuxiú — Macaco amazônico Pithecia satanás, re- 
forçado de corpo, que mede 60 cms. de altura ; é preto com 
topete em forma de boné bipartido; também cabe o mes- 
mo nome à espécie semelhante P. chiropotes, que difere por 
ter cauda mais curta. Vivem em bandos, mas só aparecem 
de manhã e de tarde; durante o dia estão quietos, escon- 
didos na mata. 

Cuxuíra — Abelha social da fam. Meliponideos, men- 
cionada no "Apicultor brasileiro" por E. Schenk, apenas 
com a seguinte explicação: "Preta, dá muito mél; cons- 
trói uma porta de cêra, de forma tuberosa e saliente". 



D 



Dansador — O mesmo que "Tangará". 

Dentão — Peixe do mar, sinónimo de "Carápi- 
tanga"; por ser, entre as espécies do mesmo género, a 
maior, de colorido vermelho vivo e com dentes grandes, 
parece que se trata de Neomaenis jocu. 

Desdentados — Ordem de mamíferos, que no Brasil 
compreende três famílias, às quais pertencem respecti- 
vamente : os "t a t ú s" (Dasypodideos), as "p r e g u i - 
Ç a s", (Bradypodideos) e os "t a m a n d u á s" (Myrmeco- 
phagideos). Propriamente de todo desprovidos de dentes 
são apenas estes últimos; as espécies das duas outras 
famílias têm dentes, porém apenas do tipo dos molares e 
em número variável (até 100 ao todo, no"tatú canas- 
tra"). Mas êstes dentes não têm nem raiz nem esmalte. 
Formam o grupo dos desdentados Xenurthros (cujas vér- 
tebras têm apófises accessórias) e ocorrem só na Amé- 
i'ica do Sul ; ao mesmo grupo pertencem as célebres for- 
nias gigantescas extintas: Glyptodontc, Mcgatherio, My- 
london, etc. Na África e na índia encontram-se também 
certos desdentados, porém do grupo dos Noynarthros 
(cujas vértebras têm articulações normais), tais como 
Orycteropus e Mamis. 

Diabo marinho — Peixe do mar, da fam. Lophiideos, 
Lophius piscatoriics (mais ou menos semelhante aos pei- 
xes "m o r c e g o" e "s a p o") ; a bôca é larga, com man- 
díbula prognata, a dorsal só atrás forma verdadeira nada- 
'leira, ao passo que os respectivos raios anteriores .são acú- 
leos isolados, distanciados uns dos outros. O primeiro destes 
^'aios acha-se implantado quasi no bordo anterior da cabe- 
Ç'i, é o mais longo de todos e termina em uma sorte de 
ilâmula. Com êste aparelho o "diabo" pesca: enterrando 
o corpo na areia ou no lôdo, deixa aparecer apenas a 
^'íimula, que êle agita para atrair a curiosidade dos peixes 
^ue passam ; é a isca que faz a vítima se aproximar. No 
fomento oportuno, repentinamente, surge do lôdo a gran- 



— 308 — 



de bôca escancarada, na qual se some a preza, às vezes 
de dimensões consideráveis. Êle próprio não tem valor 
algum no mercado e, voraz como é, destrói grande núme- 




DUIio marinho 



i'o de peixes bons; por isso o "Diabo marinho" é, 
com justa razão, considerado péssimo elemento nas zonas 
de boa pescaria. 

Dirirí — Na Amazónia, segundo Alb. Rangel, pa- 
rece ser um peixe grande (?) : "algum "Dirirí" monstro 
ou tarirabóia de respeito" (Liv. de Figui-as, pág. 211). 

Doninha — Mamífero carnívoro da iam. Musteli- 
deos, Putoriiis frenatm pnraeMsis, da Amazónia, aliás 
muito raro. Assemelha-se ao "Furão" e, como êste, o 
nome "Doninha" é de origem portuguesa, .sendo as 
espécies européias correspondentes bastante semelhantes. 

(Donzelo) — Têrmo português, que não é usado en- 
tre nós ; aqui dizemos "Lavandeira" ou "L i b é - 
1 u 1 a". 

Dormião — O mesmo que "João Bôbo". 

Dormideira — Sob esta denominação o povo pi"0- 
cura caracterizar um conjunto de cobras que também íio^ 
zóólogos tem causado dificuldade, na verificação de suas 
afinidades naturais. O nome vulgar provém do fato dc 
serem cobras de hábitos noturnos, que portanto de dia 
parecem estar sempre dormindo; anatomicamente cor- 
responde, a tal fato, a grande dimensão dos olhos, com 
pupila vertical; as escamas mentais são largas, isto é, n^*" 
alongadas como em geral nas outras cobras. 



São dendrícolas e alimentam-se de lesmas. Formam 
estas cobras um grupo a parte, na fam. Colubrideos, como 
subfamília Dipsadineos, com 24 espécies brasileii'as, nas 
quais predomina o colorido branco-amarelado, com man- 
chas pardacentas; o comprimento pouco excede de meio 
metro. De todo inofensivas, interessam particularmente 
ao biólogo, por seus hábitos e sua posição sistemática. 

Dorminhoco — O mesmo que " C a r a n h a de 
tôco". 

Dourada — Peixe de couro Nematognata, da água 
doce, da fam. Pimelodideos, Brnchyplatystoma flavicans, 
congénere da "Piraíba", "Piratinga" e "Pira- 
niutaba", da Amazónia; atinge l'",50 de comprimento. 
Distingue-se da "Piraíba", por ter barbilhões maxi- 
lares muito mais curtos, ultrapassando apenas um pouco 
o comprimento da cabeça. 

Na bacia amazônica não ocorre o peixe de escamas 
"Dourado" (Salminus) ; no entanto vários escritores 
têm afirmado o contrário, equivocados pela quasi sino- 
nímia da presente espécie, que também é grande e côr 
de oui'o, porém do grupo dos peixes de couro. 

Dourado — Peixe de escama da água doce, da fam. 
Characideos, género Salminus. E' o mais popular, por 
ser o mais belo e o mais apreciado de todos os peixes de 
água doce. Realmente merece tal fama, pois além de 
atingir 1"%40 de comprimento, e talvez 30 quilos de peso, 
a carne é das mais saborosas. Além disto é de lindo aspe- 
to, pois, como o diz seu nome, todo êle é côr de ouro claro; 
cada escama é atravessada, no meio, por um pequeno 
traço preto e assim forma-se um leve desenho de numero- 
sas linhas pretas paralelas, que percorrem o corpo da 
cabeça à cauda. No centro desta expande-se uma larga 
faixa preta, ladeada, nas abas, de vermelho-sangue, com 
reflexos dourados. (Veja estampa da pg. 582). 

Trata-se de fato de duas espécies, muito semelhantes 
entre si : Salminus maxillosus, da bacia do rio da Prata 
(com 90 a 105 escamas na linha lateral) e S. hrevidens 
do rio São Francisco (com 77 a 7i) escamas na linha la- 
teral). A tei'ceira espécie dêste género é a "Tabara- 
tta", de dimensões menores. No tempo da desova, o dou- 
i'ado sobe às cabeceiras dos afluentes e, junto aos gran- 
ires saltos, que encontra em caminho, demora-se algum 
tempo, antes de vencer êsses obstáculos. E' um belo es- 
Petáculo, vê-lo, de um salto, galgar vários metros de al- 



— 310 — 



tura, irrompendo violentamente das águas e é fácil ima- 
ginar que força incrível o peixe deve empregar, pois que 
para tal façanha lhe cumpre não só resistir à impetuosi- 
dade das águas revoltas, como ainda imprimir ao corpo 
um impulso suficiente afim de transpor a barreira. A res- 
peito da pesca do "Dourado", Fausto Lex informa o 
seguinte, em seu excelente guia do pescadoi', "A Pesca": 
"As melhores iscas são pequenos peixes (lambaris, peque- 
nas piavas, etc.) ; também se pode iscar com rãs ou pe- 
daços de carne. O dourado costuma frequentar as cor- 
redeiras e cachoeiras, mas passeia pelo rio todo. Não é 
nada arisco. Em percebendo a isca e estando com fome, 
atira-se a ela sem medir o perigo, abocanhando-a e pro- 
curando em seguida o fundo do rio. Sentindo-se ferrado, 
vem incontinenti à tona d'água, saltando mesmo para J'o- 




Dourado 



ra, até um metro de altura e, com movimentos rápidos da 
bôca, procura livrar-se do anzol. Nesse momento é preciso 
não deixar bamboar a linha, pois do conti-ário conseguirá 
escapar". 

O nome indígena dê.ste peixe: "Pirajú" ou "Pi- 
ra j u b a", isto é, "peixe amarelo", foi de todo esquecido 
pelo caboclo e só nos é lembrado pelas denominações geo- 
gráficas que o perpetuam. Veja-se também sob "S a i p é", 
denominação pela qual, nos afluentes do alto rio S. Fran- 
cisco, é conhecida uma "variedade" do Dourado. Outi-a 
denominação, cuja identificação ainda está por esclarecer, 
é "Dourado língua roxa". 

As enormes ovas dêste peixe, que em exemplares de 
18 quilos chegam a pesar 2 quilos, contém para mais de 
2,6 milhões de óvulos. 

Na Amazónia não existe o Dourado (peixe de esca- 
mas, do gên. Salmimis) e a espécie que lá é conhecida 
por "Dourada", é um peixe de couro, portanto muitís- 
simo diverso. 



— 311 — 



Frequentemente os escritores aludem ao dourado, 
dando-Ihe classificação entre os " Salmonideos" ; o erro 
é manifesto, pois que não há no Brasil representante 
dessa família, à qual pertencem o verdadeiro "salmão" 
e a "truta". E' evidente que o nome genérico não indica 
parentesco. 

Dourado (do mar) — Peixe do mar da fam. Cory- 
phaenideos, Coryphaena hippurus, de todos os mares tro- 
picais e sub-tropicais. A gx-ande nadadeira dorsal exten- 
de-se da cabeça até quasi a cauda e a ventral é pouco me- 
nos longa. 

Atingem 2 mts. de comprimento e vivem em bandos. 
Quem esteve embarcado, já os viu, à flor da água, dando 
caça aos peixes voadores, que êles perseguem com tenaci- 
dade. A carne é saborosa. O nome lhe cabe perfeitamen- 
te; seu colorido é não só dourado mas cerúleo no dorso 
e com linda iridescência; a parte inferior dos flancos é 
bem amarela-ouro. 

Com relação a seu nome indígena, veja-se sob 
"Guaraçape ma". 



-o 



Eclipse — O mesmo que "S e c a"; veja êste e "L a - 
gai*ta rosad a". 

Efemérida — Insetos da ordem Ephemerida. Têm 
às vezes um par, mas geralmente dois pares de azas den- 
samente reticuladas; o abdómen termina em 2 ou 3 lon- 
gos fios multiarticulados ; o corpo raro excede 1 cm. de 
comprimento, de modo que os longos fios são duas, três ou 
quatro vezes mais longos que o corpo. O inseto adulto 
vive só um dia ou dois, ou mesmo algumas horas apenas 
(daí a acepção vulgar da palavra) , 
enquanto que a larva aquática le- ', / 

va muito tempo até completar to- 
das as mudas de pele (cêrca de 
vinte vezes ao todo) e assim em- 
prega de 1 a 3 anos para atingir 
a forma de inseto adulto. Essas 
larvas já têm os fios abdominais, 
porém mais curtos e a respiração 
se faz por meio das guerlas abdo- 
minais, que enfeitam cada seg- 
niento como franjas, no lugar dos 
futuros estigmas. Transformada 
em ninfa, sua pele depois se fen- 
de no dorso e em 10 segundos sur- 
ge o inseto adulto, que sai voan- 
do; mas ainda uma vez dá-se uma 
fnuda de pele (caso êste de muda Efemérida 
Post-ninfal que só se observa nas 

Ephemeridas) . O inseto pousa sobre qualquer objeto, aí 
Se fixa e sai do invólucro, que então representa o molde 
exato do seu corpo; é apenas uma casquinha transparen- 
te — porém uma maravilha! 

Os adultos, durante o pouco tempo que vivem, não se 
''Hnientam e por isso nem têm aparelho bucal, nem intes- 
tino. Os machos distinguem-se facilmente por terem 
olhos muito grandes. O casamento se faz às pressas, mo- 
iientos antes da morte. 




.SciELO 



10 11 12 



— 314 — 

Algumas espécies, em certas circunstâncias, desen- 
volvem-se em tão grande número, que chegam a formar 
verdadeiras nuvens. O curioso é que todos nascem no 
mesmo dia — quando a evolução durou alguns anos. Os 
pescadores bem sabem disto, porque a "S i r i r u i a", co- 
mo êles chamam as efeméridas, voando em bandos com- 
pactos sobre o rio, chamam logo a atenção dos peixes. 
"Hoje os peixes não pegam", dizem êles, "estão cevados"; 
é dia de "S i r i r u i a". O Sr. Fausto Lex relatou-nos ter 
visto à margem do Mogí, em Novembro, extensas cama- 
das de efeméridas mortas, formando lençóis de alguns 
metros de extensão e até 5 cms. de espessura. 

Ei-ã — No alto Amazonas é o nome (talvez só usado 
pelos indígenas?) dos "Macacos da noite". 

Eira — Carnívoro da fam. Felideos, Felis eira, gato 
do mato pouco conhecido, do sertão do Brasil e também 
do norte da Argentina e do Paraguai. E' do tamanho do 
"Gato m o u r i s c o", de côr ruiva, amarelo-claro ; em 
cima do beiço superior nota-se, de cada lado, uma man- 
chinha esbranquiçada, da qual nascem as cerdas do bi- 
gode de igual côr. Vive de preferência nas bordas da 
mata e nos capões e sobe em árvores, o que não é dos há- 
bitos do gato mourisco. 

Ema — E' esta a verdadeira denominação da grande 
ave sul-americana, único representante, na América, da 
8ub-classe dos Ratitae (aves cujo osso esternal não pos- 
sua crista lamelar mediana) e à qual também pertence o 
avestruz africano, Struthio camebis. À nossa "Ema", 
que o índio denominava "Nhand ú", o povo também dá, 
impropriamente o nome "Avestruz"; mas zoologica- 
mente os dois tipos distinguem-se a ponto de serem colo- 
cados em famílias distintas, caracterizando-se o avestruz 
por ter o pé apenas 2 dedos, ao passo que nas duas espé- 
cies sul-americanas da fam. Rheideos o pé tem 3 dedos. 

Quanto ao seu valor económico, também há grande 
difei'ença entre as duas espécies: as plumas do avestruz, 
muito delicadas e artísticas, são altamente cotadas no 
comércio, ao passo que a "E ma" fornece apenas material 
para a fabricação de espanadores. 

Como já dissemos, há duas espécies sul-americanas, 
Rhea darwini da Patagônia e a Rhea americana, que ha- 
bita a Argentina septentrional e, daí para o Norte, todos 
os campos maiores, até o Maranhão. Bem menor que o 
avestruz, ainda assim a "Ema" mede 1"',30 de altui'a; 



~ 315 — 



seu colorido predominante é bruno-cinzento em cima, al- 
vacento em baixo ; bruno-denegridos são, em parte, a ca- 
beça e o dorso. E' ave gregária, que vive em bandos de 
algumas dezenas e até de 50 ou mais indivíduos. Sua ali- 
mentação consiste em vegetais, que a ave pasta como qual- 




Ema 



luer herbívoro e também em insetos e vermes e, fortuita- 
•i^ente, outros pequenos animais são devorados com prazer. 
Alem disto vão ao estômago da ave muitas pedrinhas, 
como aliás é hábito de tantos outros granívoros, que assim 
procuram facilitar a trituração do alimento e, ampliando 
êsse hábito, a ema, por extravagância, não resiste à ten- 
tação de engolir também quanto objeto miúdo lhe des- 
perte a atenção, pelo brilho ou pela côr: botões, fivelas, 
Moedas, pregos, etc. 



^ 316 



Ao tempo da procreação, cada macho procura arre- 
banhar várias fêmeas, o que naturalmente dá lugar a 
violentos duelos e certamente tem razão o escritor que, 
depois de ter assistido a êsse empolgante espetáculo, poz 
ao ridículo tudo quanto diz respeito às "brigas de galos" 
dos amadores da rinha comum. 

Depois de ter preparado uma cova ampla no chão, 
o galo vai arrecadando os ovos de suas companheiras, 
para chocá-los e tal é sua dedicação ou ciúme, que nem 
permite à galinha sentar-se no ninho; extondendo o pesco- 
ço, busca o ovo posto no chão e fá-lo rolar para a cova. Me- 
de cada ovo cerca de 138 por 97 mms. e uma boa ninhada 
pode conter de 40 a 60 ovos; estes são chocados durante 
seis semanas. O povo afirma que, muito de propósito, 
a ema deixa gorar alguns ovos, para com êles alimentar 
os pintos recém-nascidos ; o caso é verdadeiro, apenas 
com a seguinte explicação. Em todas as ninhadas um ou 
outro ovo não vinga e, posto para fora da cova, logo su- 
cede quebrar. Serve então ao desenvolvimento de muitas 
larvas de moscas que, a seu tempo, naturalmente não são 
desprezadas pelos pintos. Ao cabo de duas semanas o 
"pintinho" mede '/j meti"o de altura e já então ninguém 
mais o alcança a pé; os adultos nem mesmo bons cavalos 
de corrida acompanham e a caçada torna-se ainda mais 
difícil porque, vendo-se em apuros, a ema sabe desviar 
e enganar o perseguidor. Ao trote, cada passo lhe rende 
mais de um metro e no galope, de azas abertas, cada 
pulo é de l^iTO. Infelizmente a ema vai sendo extermi- 
nada por toda a parte, tanto no Brasil como na Argentina 
e hoje já são raros os bandos maiores. Sua carne é gros- 
seira e não se aproveita; porém os ovos são apreciados 
por causa da gema, que equivale a 15 das de galinhas; 
esvasiada a clara que, por ser grosseira, não se aproveita, 
tempera-se o cozinha-se o conteúdo dentro da própria 
casca. Como já dissemos, as plumas têm alguma aplica- 
ção industrial, porém nem dez libras valem uma das de 
avestruz. 

Embetara — Veja "B e t a r a". 

Embiara — Termo amazônico; significa a presa ou 
tudo que se caça ou pesca. 

Emboré ou "A m b o r é" — Peixinhos do litoral, àa 
fam. Gobndeos, aos quais nos referimos mais detalhada- 
mente .sob "M u s s u r u n g o". No Nordeste a mesnja 
denominação é conhecida nas variantes "Amoré" (veja 



— 317 — 



êste) e outras. A família em apreço, caracterizada pela 
transformação das nadadeiras ventrais em disco adesivo, 
abrange para mais de 20 espécies e desta forma é pro- 
vável que as duas denominações (Amboré e Mussurango) 
devam definir subdivisões, como também foram estabe- 
lecidas em sistemática. 

As espécies da subfam. Eleotríneos (gên. Dormitator 
e Eleotris) encontram-se em qualquer água do litoral, sa- 
lobra ou mesmo doce, ao passo que os da subfam. Gobii- 
neos preferem a água mais batida do mar; ao baixar a 
maré, muitos desses peixinhos ficam presos nas pequenas 
poças, mas podem viver durante algum tempo mesmo em 
sêco, nada sofrendo com isto. Não têm valor económico, 
a não ser como isca. O maior dêles "E m b o r é - g u a s - 
sú" (Chonophorus tajacica) atinge 17 cms. de compri- 
mento ; os demais mal alcançam 10 cms. 

Embuá ou "Amboá" — Veja sob "Piolho de 
c o b r a". 

Encerra — No Vocabulário gaúcho de R. Calage, 
êste têrmo de caça é assim explicado: "Certa armadilha, 
de apanhar avestruzes, veados, animais alçados, etc. e que 
consiste em estreito e longo corredor, que vai desembocar 
em um curral próximo ou dentro do mato, onde ficam 
presos". (Romaguera). 

Encho — Peixe do mar (Neomaenis ou Seriola?). 

Enchova — Peixe do tipo da sardinha; mais geral- 
mente, no Brasil, êstes peixes da subfam. Engraiãineos 
são conhecidos pelo nome de " M a n j u b a s ". Veja- 
se também "A n c h o v a". E' fácil imaginar a confusão 
que resulta desta ambiguidade, tratando-se de espécies 
tão diferentes; felizmente, porém, não triplicámos aqui, 
a acepção, como acontece em Portugal, onde o mesmo 
nome "Anchova" designa ainda o peixe Seriola lalandi, 
que no Brasil é conhecido por "Olho de boi" ou 
"A r a b a i a n a". 

Enchova — Peixe do mar, Pomatomiis saltatrix, co- 
nhecido pelo mesmo nome vulgar também em Portugal. O 
corpo fusiforme é revestido de escamas cicloides; a nada- 
deira dorsal dupla tem a parte espinhosa baixa e fraca; a 
bôca é ampla e a mandíbula prognata; os dentes são for- 
tes, comprimidos e desiguais. O colorido é verde-oliva no 
dorso, branco no lado ventral ; o mento é preto, bem como 
Unia nódoa na base das peitorais. As nadadeiras dorsais e 



— 318 — 



caudal e uma linha ao longo do dorso são escuras; as 
nadadeiras inferiores são brancas. Há exemplares de 1 
metro de comprimento e 12 quilos de peso, mas em geral 
só chegam ao mercado peças de 1/2 a 2 quilos. Como apa- 
rece regularmente em cardumes, é objeto de grande pesca, 
ainda que, por não ser de "1.^ qualidade", não alcance 
maior preço no mercado. (Não confundir com Anchova 
do tipo das sardinhas, subfam. Engraulineos) . 

Da minuciosa descrição que Virgilio Várzea (Sta. 
Catarina, vol. I, Ilha) traçou, relatando o modo como se 
pescam as enchovas, extraímos o seguinte resumo. A 
baleeira que segue para o costão ou para o mar aberto, 
conforme o acon.selha, no momento, a prática do pesca- 
dor, é tripulada, em regra, por um patrão e quatro re- 
madores. Fundeada a pequena embarcação, atiram-se ao 
mar as linhas, que aliás são um meio têrmo entre a linha 
larga comum e o espinhei, pois além do anzol preso à ex- 
tremidade, pendem da linha mestra 10 a 12 linhas secun- 
dárias, de um metro de comprimento cada uma. Quan- 
do o lugar é bom ou há um cardume reunido, bastam al- 
gumas horas apenas, para que a baleeira possa regres- 
sar completamente carregada. Às vezes sucede jogar o 
pescador a linha e poder logo recolhê-la, com o peixe 
pegado. 

Como se depreende desta descrição, a enchova é vora- 
císsima e como prefere ter pouco trabalho, costuma ata- 
car os cardumes de sardinhas, savelhas e outros peixes 
pequenos dêsse grupo. Foi observado que a enchova pode 
ingerir, diariamente, quantidade de peixe igual à metade 
de seu próprio peso. 

Enchú ou "Inch ú" — Pequenas vespas sociais, que 
produzem algum mel, tais como Polybia sylveirae e outras, 
cujos ninhos os índios, e ainda hoje seus sucessores, os cai- 
piras, não deixam de i'evistar em procura do pouco mel, 
pelo qual sempre foram ávidos. A pronúncia original gua- 
rani é "e i j ú", isto é, eir-jú, abelha (mel) de ferrão; hoje 
diz-se "e i ch ú" e "inchú". Advertiu-nos o Dr. Bari-os 
Penteado de que a significação de "ichú", entre os cai- 
piras, se extende antes aos enxames embolados dos hime- 
nópteros melíferos, abelhas ou vespas, sem distinção; não 
se aplica, porém, às espécies que enxameiam voando em 
nuvens menos compactas. 

Enchú da beira do telhado — E' a Polybia scutella- 
ris (que já registrámos sob "C a m o a t i m") . 



— 319 — 



Enchui — Abrange várias abelhas sociais; porém o 
sufixo diminutivo indica que se trata das espécies ainda 
menores, que as precedentes, tais como Polybia sedula 
("Caba mirim"). 

Encontro ou "Soldado do bico preto" — 
Pássaro da fam. Icterideos, Xanthornus pyj-rhopterus, 
preto, com encontros das azas de côr laranja-escuro e 
bico preto. Torna-se muito manso e pode ser mantido solto 
em casa. 

Enguia — Veja-se "Mor eia". As verdadeiras 
enguias da Europa e da América do Norte (Ajiguilla an- 
guilla e A. rostrata), que vivem no mar e cujos filhotes 
sobem os rios, não existem entre nós. Veja-se também 
"Mussum" e "Caramuru". 

Várias vezes tem sido proposto pelos "novidadeiros", 
que a enguia européia deveria ser aclimatada em nossas 
águas e o argumento apresentado em seu favor, de fato 
parece sedutor : — para muitos gastrônomos, a enguia não 
tem rival. Encaremos, porém, a questão pelo seu outro 
aspeto, de muito maior importância económica. Nos rios 
em que se criam as enguias, é inútil estender rêdes, pois 
que durante a noite os peixes emalhados são devorados 
Pelas enguias e o pescador que se contente com as cabeças 
e as espinhas! A pesca de espinhei provavelmente sofre- 
ria consequências idênticas. Valerá a pena, por êste pre- 
Ço, contentar alguns gastrônomos? 

Enrola-cabelo — Veja-se "T o r c e - c a b e 1 o". 

Enxada — O peixe marinho, ao qual cabe êste nome, 
pertence à fam. Ephippideos, representada entre nós por 
Urna só espécie, Chaetodipterus faber, de vasta distribui- 
ção e que atinge quasi um metro de comprimento. O colo- 
rido é prateado, ornado com 5 faixas escuras, a primeira 
^íis quais passa sobre o olho; nos exemplares grandes, 
fiste desenho se confunde com a côr geral. 

A nadadeira dorsal é dividida em duas porções, ai."* 
coni 8 raios ósseos e a segunda com os raios anteriores 
filais longos. 

Por terem feitio geral mais ou menos semelhante, 
isto é ovalado e comprimido, são às vezes confundidos 

esta espécie, duas outras, aliás bem distintas: o - 
. P a r ú" e o "P a r ú da pedra", nomes êstes que já 
jijdicam a aproximação que os pescadores querem sugerir. 
*lus o verdadeiro "Parú" não possue nadadeiras ven- 
dais desenvolvidas, como as duas outras espécies; estas 



320 — 



diferenciam-se bem pelo feitio da iiadadeira dorsal, enta- 
lhada, isto é dividida em duas na "Enxada" e contínua 
no "P a r ú da p e d r a" ; de resto o colorido é bem dife- 
rente, pelo menos nos exemplares pequenos ou de tama- 
nho médio. 

Eratí — Grafia riograndense de "I r a x i m" (abelha 
social). 

Ervacora — Lemos assim, na lista oficial da capita- 
nia do porto da Paraíba, por " A 1 v a c o r a". 

Escaravelho ou "E s c a r a b e u" — Êste último ter- 
mo não tem, na bôca do povo, valor descritivo, a não ser: 
besouro, de preferência os de cores metálicas. "E sea- 
ra beu", como têrmo erudito refere-se aos besouros La- 
melicórneos da fam. Scurabaeideos. Há destes coleópte- 
ros um grande número de espécies bi-asileiras, de feição ca- 
i-acterística, com chifi'es no tórax. A côr é preta, com re- 
flexos metálicos, outros são inteiramente esmeraldinos ou 
cúpreos. A maior das nossas espécies, Phunacna lancifcr, 
verde esmeralda, atinge 5 cms. de comprimento; o género 
mais comum é Pinotiis. Vivem nos excrementos, isto é, 
por baixo dêles abrem canais na terra e para aí transi)oi'- 
tam seu alimento fétido, afim de comê-lo socegadamente. 
Por esta forma tornam-se úteis, auxiliando a boa aduba- 
ção do terreno. Seus ovos criam-se em bolas de excre- 
mento, roladas com especial cuidado pela mãe; a pequena 
larvinha, ao nascer do ovo, encontra-se desde logo rodea- 
da pelo seu alimento predileto e exclusivo. 

Escorpião — Artrópodes da classe Arachnoides, or- 
dem Scorpionida. O corpo caracteriza-se bem por sex' 
o cefalotórax provido de 5 pares de extremidades, isto e, 
4 pares de i)atas e um par anterior de mãos, providas 
de fortes tenazes; o abdómen é representado por unia 
longa cauda composta de 6 segmentos muito bem desta- 
cados uns dos outros e o último dêles termina em foi*te 
espinho curvo e agudo, que é a arma do escorpião, y 
veneno, que êle injeta por meio dêste ferrão, causa do- 
x-es violentíssimas, podendo mesmo determinar a morte, 
principalmente si a vítima fôr uma criança e si a espé- 
cie de escorpião fôr das de maioi-es dimensões. Há i^" 
Brasil, ao todo cêrca de 50 espécies, repartidas por 10 gé- 
neros. A classificação toi'na-se muito difícil, devido ^ 
grande uniformidade desta ordem, do modo que os espe- 
cialistas tiveram de recoiTer a caracteres de somenos im- 



— 321 — 




Escorpião 



portância e que só podem ser reconhecidos pelo exame 
através da lente. Não ocorrem na nossa fauna espécies 
tão grandes como as africanas, algumas das quais atin- 
gem 20 cms. de comprimento ; os nossos maiores escor- 
piões (Rhopalurus, do Nordeste 
árido) alcançam no máximo 10 
cms. No Brasil meridional há 
apenas uma meia dúzia de espé- 
cies. Tijtius bahiensis é a mais co- 
mum em S. Paulo ; tem um espi- 
nho por baixo do ferrão grande e 
uma mancha preta, alongada, no 
meio do antebraço. I.^o))ieíriiH ma- 
ciilatua, mais comum no litoral, de 
côr amarelada e com inúmeras 
manchinhas brunas, irregulares, 
sobre todo o corpo, é espécie im- 
portada, hoje aliás cosmopolita. 
Os escorpiões vivem escondidos 
debaixo das pedras e em cupins e 
alimentam-se de insetos, que, após 
rápida luta, por assim dizer ful- 
minam com o veneno. 

São vivíparos e os minúsculos filhotes, em número 
de 30 ou 50, passam os primeiros dias trepados nas cos- 
tas da mãe. Veja-se também "Lacrau". No Maranhão 
diz-se "Rabo torto". 

Escrivão — Em Paranaguá dá-se êste nome a um 
peixe do mar, que aparece em pequena quantidade no 
mercado. 

Escumana — Segundo Wald. Silveira é, em dialeto 
caipira de certas regiões, o mesmo que "V i t ú". 

Esfalfado — Na Baía, parece ser o "Peixe- 
p o r c o". 

Espada ou "P e i x e espada" — Veja sob "S a - 
rap ó". 

Espadarte — Peixe do mar da fam. Xiphiideos, Xi- 
Vhias ffladins, de todos os mares tropicais. Atinge cerca 
de 4 metros de comprimento; seu corpo é fusiforme e o 
que melhor caracteriza a espécie, é o enorme bico, acha- 
tado, que faz lembrar um longo punhal, de bordos cor- 
tantes e percorrido, tanto em cima como em baixo, por 
Um sulco mediano; essa "espada" perfaz quasi 1/3 do 
Comprimento total. E' conhecido como devastador dos ban- 



— 322 — 




dos de cavalas e sardas; enfurecido, ataca os maiores pei- 
xes e mesmo as baleias. Às vezes encontra-se também o 
seu bico, quebrado, encravado no casco dos navios. E', sem 
dúvida, animal possante; porém há façanhas extraordi- 
nárias que lhe são atribuídas e que certamente são exage- 
radas. 

Espanta-boiada — Em Mato Grosso, Sergipe e Per- 
nambuco, é o mesmo que "Q u e r o - q u e r o", mas nas 
mesmas regiões também é conhecido por "Téu-téu". 

Espanta-porco — Também são conhecidas por êste 
nome as "Tovacas". 

Esperança — Ortópteros da fam. Tettigoniideos (Ve- 
ja-se os caracteres destes sob "Gafanhoto"), assim 
chamados por serem quasi sempre "verdes como a esperan- 
ça". Há porém muitas espécies da mesma família, que não 
são verdes, mas diferentemente coloridos. Os Tettigoyiiideos 

produzem sons variados 
e muitas vezes, quando 
nos parece ouvir um 
grilo com voz diferente 
da comum, é a "E s p e - 
Esperança rança" que está to- 

cando sua gaitinha. 
Haja vista o que Bates conta do "Ta naná" da Ama- 
zónia. 

As "Esperanças", em sua maioria, têm hábitos 
noturnos. Algumas espécies são insectívoras, outras, tal- 
vez em maior número, fitófagas. Não foram até agora 
assinaladas espécies prejudiciais à lavoura, como já se 
verificou nos Estados Unidos. Somente Bondar mencio- 
na estragos nos cacaueiros, causados por um Tettigonii- 
deo, ao qual na Baía se dá o nome de "grilo" (veja êste) . 

A quem procure estudar o complicado capítulo do 
"Mimetismo" dos insetos, oferecem os Tettigoniideos nu- 
merosos exemplos e dos mais típicos. Verifica-se nestes 
insetos sempre o mimetismo (ofensivo ou defensivo?) por 
adaptação homocrômica ao meio em que costumam viver 
— em outras palavras : as "Esper a n ç a s" procuram 
dissimular-se no meio da folhagem, tomando o feitio e a 
côr desta. Há espécies cujas azas, no repouso, imitam m:v- 
ravilhosamente as folhas do galho sobre o qual pousam; 
o feitio e a côr são idênticos e mesmo as nervuras da azíi 
simulam as da folha. Mais curiosa, ainda, é a perfeita 
imitação de folhas sêcas, carcomidas e mesmo atacadas de 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



— 323 — 



fungos, com que outras espécies do mesmo grupo conse- 
guem mascarar-se. Trata-se de insetos predatórios (co- 
mo o "L o u V a - D e u s") e portanto resta esclarecer si o 
mimetismo é defensivo ou si deve facilitar a caça aos inse- 
tos assim iludidos. (Veja estampa da pg. 398). 

Espia maré — Crustáceo da fam. Ocypodideos, Ocy- 
poda arenaria de carapaça quadrada; o colorido é branco- 
amarelado. Vive em buracos, que excava nas praias are- 
nosas. Pertence à mesma família do "Chama-mar é". 

Esponja — No sentido restrito, êsse nome cabe so- 
mente à substância (queratina) que forma o esqueleto 




de Euspongia officinalis, esponjiário marinho estranho à 
nossa fauna. 

Têm o mesmo nome todos os esponjiários, quasi to- 
dos providos de esqueleto, que pode ser calcáreo (Calci- 
spongia), silicoso (Silicospongia) ou queratinoso (Cerao- 
spongia). Além das numerosas espécies marinhas, há tam- 
bém pequenos esponjiários d'água doce, que recobrem 
troncos submersos e entre êstes só tem nome vulgar o 
"C a u i X í". 

Esqualo — Veja sob "Tubarão". 

Esquilo — Veja "C a x i n g u e 1 ê". 

Estrela do mar — Equinodermas, marinhos, da or- 
"^m Asteroides. O corpo destes curiosos habitantes do 
■^ar tem forma de estrelas, com braços mais ou menos 
Srossos ou longos. Em geral a forma é pentagonal, mas 



— 325 — 



conforme o tipo da família, o número de braços é muito 
maior, podendo elevar-se, em certas espécies, até 25. As 
formas geométricas ou bizarras e o revestimento de tu- 
bérculos e espinhos já as tornam interessantes, quando 
apanhadas mortas na praia, arrastadas do fundo do mar 
pelas ondas. Porém muito mais curiosos são êstes seres, 
quando se os pode estudar vivos, para assim se observar 
seus movimentos. Si não houver melhor facilidade para 
obtê-los, basta esperar que os pescadores tirem suas re- 
des de arrastão, as quais sempre trazem Equinodermas. 
O modo de locomoção das "Estrelas do m a r" e em 
parte também dos pindás, é o seguinte, assaz curioso. Por 
uma placa (madrépora) do dorso, que está em comunica- 
ção com um canal que atravessa o corpo, o equinoderma 
faz penetrar água nos vasos ambulacrais da face ventral, 
cujas ramificações terminam em numerosíssimos pedún- 
culos, providos de ventosas. Quando o animal quer andar, 
êle injeta água nos pedúnculos, que assim se distendem 
e logo se fixam por meio das ventosas ; em seguida os mús- 
culos dos pedúnculos se contraem, arrastando o corpo na 
direção desejada. É ainda com êstes pedúnculos que êles 
seguram suas prezas, às vezes consideráveis. Aos equi- 
noides as creanças costumam quebrar o esqueleto adjacen- 
te à bôca, para tirar uma linda e complicada jóia calcá- 
rea, a chamada "lanterna de Aristóteles" dos compêndios 
zoológicos, que constitue o aparelho mastigatório desses 
animais. 



(Fataça) — Sinónimo de "Tainha", porém usado 
só em Portugal, da mesma forma que "Mugem". Em 
rigor, o têrmo não deveria figurar no presente vo- 
cabulário e só o mencionámos para assinalar o fato, 
que não deixa de ser curioso: pois se existe no Brasil a 
espécie perfeitamente correspondente à de Portugal, por- 
que não se generalizou entre nós o nome? 

Fava ou "F a v i n h a" — ■ No Maranhão, segundo W. 
da Costa, é um peixe miúdo, do alto mar, menor que a 
sardinha e semelhante ao lambari. E' muito abundante, 
mas não tem valor no mercado. 

Feixe fradinho — O mesmo que "Pomba do 
c a b o". 

Fem-fem — O mesmo que "Saci". 

Ferreirinha — Nome bastante impreciso, que no Bra- 
sil meridional designa certos peixes da fam. Characideos, 
subfam. Anostomatineos, semelhantes às "Piavas", po- 
rém menores, ornadas por um maior número de faixas 
transversais e em geral com nadadeiras inferiores de viva 
côr rubra ou coralina. Pertencem ao género Leporinus 
e as espécies variam de acordo com as bacias hidrográfi- 
cas. Não têm verdadeiro valor mercantil, devido as suas 
proporções, que raro ultrapassam um palmo de compri- 
mento. 

E' preciso ter em mente que os exemplares juvenis 
das Piavas grandes, têm, inicialmente, colorido mais abun- 
dante, que se torna difuso com a idade e assim a Piava 
enquanto nova se parece com a Ferreirinha; nesta, po- 
rém, o colorido sanguíneo das nadadeiras é característico. 

Ferreirinho — Denominação amazônica, dada aos 
passarinhos da fam. Tyranniãeos, do gên. Todirostrum, 
semelhantes aos "P a p a -s e b o s", porém com bico mais 
desenvolvido. O colorido é verde-azeitona no dorso e ama- 
relo vivo no lado inferior; a cabeça em geral é preta ou 
pelo menos escura, o que distingue as várias espécies. 
Seu nome parece que alude à voz dêstes passarinhos, cujos 



— 328 — 



representantes no Brasil meridional são conhecidos em 
algumas regiões do Estado de São Paulo por "Téque- 
t é q u e". 

Ferreiro — Batráquio da fam. HyUdcos, talvez Hyla 
fuber ou H. laníjadorffi, que são as espécies mais comuns 
no Brasil meridional. A primeira delas atinge 8 a 9 cms. 
de comprimento; sua côr é amarelo-suja, com uma lista 
escura ao longo do dorso e algum outro desenho irregular 
e faixas pretas nas pernas traseiras. Sua voz correspon- 
de bem ao nome que lhe foi dado e à noite são as suas 
hordas que muito contribuem para a intensidade do con- 
certo vocal nas lagoas e nos brejos. Goeldi observou mi- 
nuciosamente como este batráquio apronta o aposento 
dentro do qual criará seus filhos. "A margem de uma 
grande poça d'água, o "ferreiro" juntou aos poucos 
um montículo de lama, ao qual ia dando feitio de cratera, 
com 30 cms. de diâmetro. Utilizando-se habilmente das 
mãos como colher de pedreiro, alisava a parede interna 
da bacia e também a barriga e o papo lhe serviam para 
igual mistér. Na água tranquila dessa incubadeira fo- 
ram postos os ovos, dos quais 4 dias depois nasceram os 
girinos; estes só depois de terem atingido 3 cms. de com- 
primento perdem a cauda". 

Ferreiro — O mesmo que "Araponga". 

Fidalgo — Denominação matogrossense (foz do 
Jaurú) de um bagre, Lnciopimclodus platmnis, cujos 
acúleos das nadadeiras dorsal e peitorais não têm serrilha. 
E' espécie de vasta distribuição no sistema fluvial do Pa- 
raná, porém não lhe conhecemos nome especial no Est. de 
S. Paulo. 

Igual nome foi registrado por Natterer, também em 
Mato Grosso, para um outro bagre, CaJlophyms macrop- 
te.riís, que na Amazónia é chamado "Piranambú 
amarelo". No Piauí o "Fidalgo" é, com justa ra- 
zão, considerado um dos peixes mais saborosos. 

Filhote — Designam assim, no Pará, os espécimens 
novos, semiadultos, da "P i r a i b a". 

Filoxera — Inseto da ordem dos HomópteroH, sub- 
ordem Phytophthircos, fam. AphideoR, à qual também 
pertencem os "pulgões das roseiras". Pelo nome genéri- 
co designa-se vulgarmente o parasita da raiz da videira, 
mais conhecida por Phylloxera vasitairix Plan., 1868 (cujo 
nome específico foi alterado pai-a Ph. vitifoliae Fit., 1855) 



espécie de tal modo nociva a estas plantas, que chegou 
a aniquilar a viticultura de zonas extensas de Portugal 
e da França. Importada para o Brasil, também aqui 
já tem causado sérios danos. Sua pátria de origem é o 
sul da América do Norte. O ciclo evolutivo destes inse- 
tos é bastante complicado. A fêmea alada é partenogené- 
tica, isto é, põe ovos sem que tenha sido fecundada; dês- 
tes ovos, que são depositados na face inferior das fo- 
lhas da videira, nascem machos e fêmeas, que porém, não 
só são ápteros, como também não têm aparelho bucal ou 
tromba suctória; tais fêmeas, depois de fecundadas, põem 
um único ovo, grande, do qual na primavera seguinte nas- 
ce a geração áptera, propriamente nociva à planta. São 
como que formas larvais, que vivem na raiz da planta 
e aí provocam a formação das nodosidades característi- 
cas da moléstia. Cada um dêstes insetos põe 30 a 40 ovos 
e durante o verão sucedem-se várias gerações, sempre par- 
tenogeneticamente, até que surja outra vez uma gera- 
ção alada, a qual recomeça o ciclo aqui descrito e é por 
esta ocasião que o mal se pi-opaga de um vinhedo a outro. 
Para evitar a importação do mal, é preciso examinar as 
raízes e inutilizar as plantas que apresentam as nodosi- 
dades doentias. A melhor defesa contra êste mal é for- 
mar todo o vinhedo utilizando "cavalos" rústicos, que se- 
jam refratários ao ataque da filoxera. 

Fincão (no Rio Grande do Sul) ou "Fineu d o" — 
O mesmo que "Barbeiro" (percevejo). Porém no li- 
toral, do Espírito Santo ao Sul da Baía, designa somente 
os "Mosquitos pernilongos". Contou-nos o Dr. 
Florence que, viajando pelo sertão dessa zona e queixan- 
do-se de ter sido molestado por inúmeros pernilongos, não 
foi compreendido pelos habitantes da região, que acharam 
muita graça no vocábulo, quando lhes foi explicado como 
sinónimo de "Fineu do", único nome dado aos Culici- 
fleos nessa região. 

Flamengo — Aves da fam. Phocmcopterideoa, do 
eên. Phoenicopterus, que na Amazónia são conhecidas 
também por "Ganso côr de rosa" ou "G. do 
Norte" e "M aranha o". Ave curiosíssima, não é ela 
Contudo tipo peculiar à nossa fauna, nem mesmo à América. 
Existem ao todo 8 espécies dêste género, espalhadas pelo 
mundo, diferindo as espécies da Europa ou da África 
'ipenas por alguns detalhes de colorido. Em Portugal diz- 
" F 1 a m i n g o". Os nossos "Flamengos" perten- 



— 330 — 



cem a duas espécies, Ph. ruber, que habita a Amazónia e 
daí se extende para o Norte até a Flórida, e Ph. chUensis 
que é do Sul, estendendo-se à Argentina e ao Paraguai; 
em nosso país parece que até agora só foi assinalado no 
Rio Grande do Sul, onde aliás lhe coube o nome vulgar 
de "Guará". (Note-se que no Rio Grande do Sul não 
ocorre a outra ave vermelha, o "Guará" — Eudocinms 
ruber que, ao Sul, só alcança o Paraná — e assim, do 
ponto de vista local, a confusão cá e lá limita-se a ter 
cada região apenas dois Guarás: um lobo e uma ave. 
Ainda bem!). Quanto ao feitio destas aves, para quem 
não as conhece, a melhor descrição é a seguinte: um 
enorme corpo de ganso ou de cisne, montado sobre pernas 
de pau, imensamente longas e com um pescoço muito fino, 
quasi tão comprido como as pernas. Como a ave gosta 
de andar com a cabeça erguida, talvez para pôr em me- 
lhor evidência sua altura de 130 cms., êste esguio rival 
do avestruz é o que se possa imaginar de grotesco no mun- 
do aviário. Esquecíamos ainda que o bico é abrutalhado 
e curvado para baixo, como um formidável "nariz de pa- 
pagaio". Apenas o colorido faz por atenuar a má im- 
pressão: a plumagem de Ph. ruber é de linda côr ver- 
melha, rutilante; somente as rêmiges são pretas. Ph. chi- 
lensis lhe é em tudo semelhante, mas o colorido geral não 
é tão vivo, porém encarnado pálido ou róseo e as azas não 
são pretas, mas de um lindo vermelho-carmim. 

Gostam de andar aos bandos, às vezes tão numerosos, 
que Chapman avistou uma tropa de mais ou menos 700 
indivíduos em uma ilha das Baamas e lá mesmo contou 
perto de 2.000 ninhos em uma várzea. Mas o ninho de 
uma ave tão singular não pode deixar de ser curioso tam- 
bém; e, de fato, é um grande monte de barro, que a ave 
juntou com os pés e depois, sentando-se em cima, conse- 
guiu dar-lhe a necessária concavidade em que coubessem 
os ovos. A idéia foi engenhosa, pois desta forma a ave, 
a cavaleiro sobre o montículo, sempre encontrou geito para 
acomodar as longas pernas que, meio estiradas, meio bam- 
boleantes, lhe pendem para um e outro lado. Os ovos, em 
número de dois, são azulados, mas cobertos de uma ca- 
mada branca, calcárea; medem 85 por 55 mms. 

Depois de citar igual descrição do curioso ninho, 
como primeiro o observou Ferreira Penna, Goeldi declara 
errónea "tal lenda, em voga entre o povo". Baseia-se o 
autor da Monografia das Aves, pág. 558, em fotografiiis 
tiradas nas regiões pantanosas da Hespanha, e aí a pO" 



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sição da ave no ninho é a normal. Contudo o autor se 
esqueceu que as duas espécies são diferentes e que, portan- 
to, a diversidade assinalada tem cabimento. O velho na- 
turalista brasileiro A. Ferreira Penna sempre foi um ob- 
servador conciencioso e, além disto, temos hoje a con- 
firmá-lo o proveto ornitólogo americano Chapman, em 
cuja descrição, referente à nossa espécie, nos baseámos. 




E' característica a posição em que essa ave dorme: 
curvando o pescoço, disposto em laço sobre o dorso, es- 
conde a cabeça entre as i)enas umerais; além disto en- 
colhe uma das pernas, à moda dos gansos e assim o vo- 
lumoso corpo, embolado, equilibra-se apenas sobre a outra 
perna, tão delgada e comprida, que parece ser de aço, para 
não vergar. Voando, o Flamengo apresenta exatamente 
a configuração de uma cruz e o bando todo, ao empre- 
ender vôos prolongados, costuma dispôr-se cm linha oblí- 
qua ou em cunha, cujos lados mudam de contínuo, pois a 
^ve da frente é a cada momento substituída por outra. 



— 332 — 



Sua alimentação é adequada ao meio em que vive; 
andando pelos brejos e banhados, seu bico procura tôda 
soi'te de pequenos animalejos xlo lôdo, tais como vermes, 
crustáceos e mesmo algum peixinho e ainda alguns vege- 
tais. No cativeiro contentam-se com restos de cozinha, 
mas com isto perdem o lindo colorido da plumagem; po- 
rém, ao que se diz, êste volta ao seu natural, desde que 
a alimentação seja adequada. Aliás o fato em si, quanto 
ao desbotar das penas, também é conhecido com relação 
ao "Guará" e ao "C o 1 h e r e i r o". Apezar de todos os 
cuidados que lhes tem dispensado, inclusive a alimentação 
possivelmente natural, o Dr. Sergio Meira F." não conse- 
guiu, em seu aviário, manter tais aves em seu lindo colo- 
rido original. 

Flor das pedras — Celenterados Anthozoarios, da fam. 
Actiniideos (também conhecidos por "anémona s", têr- 




Flor das pedras 



mo êste que porém é só dos compêndios). Assemelham-se 
em sua organisação ao pólipo dos corais, mas, além de 
serem incomparavelmente maiores — aqueles são quasi 
microscópicos e êstes atingem o tamanho de um grande 
cravo, com que vagamente se parecem, — vivem isolados 
e são desprovidos de esqueleto. E' fácil encontrá-los nas 
pedras onde as marés não sejam muito fortes; debaixo da 
água o animal expande os numerosos tentáculos, e assim 
bem lhe cabe o nome de "flor", de belíssimas côres: ver- 
melha, amarela, esverdeada, purpúrea ou rajada, confor- 
me a espécie. Mas basta tocar-lhe para que se encolha, 
ficando tudo reduzido a uma bola de gelatina; ao mesmo 
tempo, para se defender, o animal esguicha um líquido 
cáustico e só muito mais tarde expande de novo a coroUi. 
por onde devem penetrar as substâncias orgânicas de que 
se alimenta. 



— 333 — 



Florete ou "Pe i xe flor" — Veja-se sob "Mus- 
s u r u n go". 

Foboca — Denominação paraense do pequeno veado 
Mazamu rondoni. Ve,ja-se sob "Veado bororó." 

Fogo-apagou (nome onomatopaico) ou "Pomba 
cascavel" — Pomba rôla da fam. Peristerideos, Scar- 
dafella síiuxmwua. E' de côr pardo-cinzenta em cima, bran- 
ca em baixo ; todas as penas são orladas de preto, forman- 
do um mosaico de desenhos semilunares, o que aparenta 
uma belíssima couraça de escamas. Extende-se em sua 
distribuição de S. Paulo para o Norte e, nas regiões que 
lhe agradam, torna-se bastante comum. 

Gosta dos descampados e, andando garbosamente pe- 
lo chão, abana de contínuo com a cauda. Ao voar, produz 
um som chocalhante, que sugeriu ao povo seu nome "Po m- 
binha cascavel"; é entretanto mais conhecida pelo 
nome onomatopaico e as quatro notas de sua voz pai'ecem 
realmente dizer as sílabas "Fogo-a pagou" (fogo — 
pa-gou) ou "Fogo pagou", como o povo diz em Ser- 
gipe. 

Fogo selvagem — O mesmo que "Potó", inseto ve- 
sicante. 

Fogueira — Peixe da fam. Holoccntrideos, Myripris- 
tis jacobus, semelhante ao "J a g u a r e s s á", em compa- 
nhia do qual é pescado; mas não tem os grandes acúleos 
no preopérculo. A côr é carmim-rubro no dorso, mais pá- 
lida nos lados e com estrias longitudinais; ornam-no ain- 
da uma faixa do opérculo à base da peitoral e manchas 
negras, que pai-ecem sangue coagulado. A dorsal é rubra, 
com base branca; as outras têm orlas externas brancas. 

Folha de mangue — O mesmo que " J u v a". 

Formiga — Abrange tôdas as espécies dos himenóp- 
teros da fam. F<rnnicideo.s; só poucas, as mais prejudi- 
ciais, merecem denominação especial por parte do povo 
e algumas têm nomes indígenas. Tôdas as formigas vi- 
vem em ninhos nos quais, além de indivíduos sexuados, há 
íis obreiras, assexuadas, estas em geral ainda diferencia- 
das em castas com determinadas atribuições. Em certa 
época do ano surgem os machos e as fêmeas, ambos ala- 
dos; depois do vôo nupcial, a fêmea desfaz-se das azas 
e dá início a um novo ninho, ao passo que o macho logo 
morre; as obreiras uunca têm azas. Não podemos aqui 
entrar em detalhes, pois que o estudo completo das for- 



^ 334 — 



migas, sem mesmo falar em sua classificação, sua biolo- 
gia apenas, atendendo também à inegável astúcia ou pers- 
picácia das mesmas e, diríamos, quasi inteligência!, aliada 
a incríveis capacidades de orientação, faro, tenacidade e 
força, daria assunto para muitos capítulos. Devemos po- 
rém chamar atenção para enganos muito eni-aizados na 
opinião do povo. Quando se abre qualquer ninho de for- 
miga, vê-se logo que a preocupação máxima dos habitan- 
tes é esconder os "ovos". Mas êsses fardos brancos e ro- 
liços, que as formigas carregam entre as mandíbulas, já 
não são mais ovos, que aliás são minúsculos; são os casu- 
los, dentro dos quais se acha a ninfa, a qual já passou pela 
fase de larva e que agora esboça, ainda que imperfeita- 
mente, a feição do indivíduo adulto. 

Outro erro muito generalizado é o de supor o povo, 
que todas as formigas sejam nocivas — tal qual como su- 
cede às cobras, que todas elas são tidas como venenosas, 
porque se parecem com as serpentes. Um exemplo típico: 
quando o dono do pomar percebe que muitas das suas ár- 
vores estão definhando, êle as examina em busca da pra- 
ga, à qual possa atribuir o mal. Vê então que há muitas 
formigas que sobem e descem de alto a baixo: ei-lo con- 
vencido de que são elas as culpadas! No entanto as ár- 
vores estão definhando por uma razão muito diversa; há 
falta de alimento ou a terra está mal preparada ou há umi- 
dade demais e, assim enfraquecido, o vegetal é vítima dos 
pulgões e dos coccídeos, que de fato agravam o mal, su- 
gando a seiva. Mas aquelas árvores morreriam com ou 
sem a presença dos insetos. E, como é de seu costume, as 
formigas procuram os pulgões para lamber-lhes as excre- 
ções e certamente peioram a situação, favorecendo a vida 
dos insetos-pragas, que são suas vacas leiteiras. Elimi- 
nem-se os piolhos vegetais e logo as formigas deixarão de 
visitar as árvoi'es. 

Diretamente nocivas às plantas são unicamente aque- 
las formigas que se ocupam em cortar os vegetais; e estas 
são apenas as da subfamília a que pertencem a saúva, as 
quem-quems e afins. 

Formiga assucai'eira — Abrange esta denominação 
todas as formigas que invadem as casas em procura de 
alimento, não só assucarado, como ainda tôda sorte de 
outros comestíveis. Tais são: Monomormm phurao^ns, fi- 
na, de corpo alongado e Irijdomirmcx humiUa, que nos Es- 
tados Unidos chamam "Formiga argentina", quan- 
do de fato fomos nós que exportámos a praga par^ 



— 335 — 



os dois países ; por nossa vez, querendo negar-lhe a pátria, 
cognominamo-la também "P a r a g u a i a" e "Cigana" ; 
Prenolepis fulva (a "c u i a b a n a") , quando dá para inva- 
dir as casas, não fica a dever àquela, como praga incómoda ; 
e ainda vários Camponotns, como C. riifipes, cingulatus, 
chamados "Sará-Sará", que também atacam as col- 
meias. 

Formiga de aza — Além de designar as formigas se- 
xuadas, que voam na época da reprodução, essa denomi- 
nação abrange, erroneamente, também os Termitídeos ala- 
dos, aos quais cabe, em rigor, o nome de "A 1 e 1 u i a". 

Formiga de bode — Na Baía designa-se assim a es- 
pécie Dolichoderus attclaboidefi que, como a " Caçar e- 
m a", indiretamente prejudica os cacaueiros. 

(Formiga branca) — Vocábulo português (ou ape- 
nas tradução do inglês: "ivhite ant"). No Brasil alguns 
escritores empregam tal denominação por pedantismo, 
fingindo ignorar a denominação sinónima, genuinamente 
nossa, "Cupim", que designa os Termitídeos, 

Formiga chiadeira ou "Oncinha" — Designa os 
Himenópteros da fam. MutilUdeos. Veja-se também "F o r- 
miga feiticeira". Ainda que pelo aspeto geral da 
conformação do corpo muito se pareçam com as verdadei- 
ras formigas, contudo delas diferem por vários carateres. 
Já ])elo colorido variegado destacam-se muito daquelas, 
que sempre são de colorido sombrio e uniforme. As 
"Chiadeiraa" são vestidas quasi sem- 
pre de veludo preto ou de côres vivas, ver- 
melho ou amarelo e em geral têm man- 
chas redondas, de uma ou várias côres, 
sobre o abdómen ; o desenho e o tamanho 
são bastante variáveis dentro da mesma 
espécie, o que muito dificulta a classifi- 
cação. Os machos são alados e inermes; 
porém as fêmeas, sempre ápteras, têm 
Um agulhão com o qual fazem "vêr estre- Formiga chiadeira 
las" aos incautos. São chamadas "chia- 
deiras" porque, quando .se as segura, emitem um som 
sibilante. Não são .sociais. 

A biologia destes interessantes himenópteros muito 
Pouco foi estudada, em nos.sa fauna. Certa vez encontrá- 
ttios uma das espécies mais comuns, Ephuta tcmperalifi, 
tlesenvolvendo-se como parasita nas células de barro de 
^niii pequena abelha solitária, Augochlora gramminea. É 




— 336 — 



êste, aliás, o costume de todos os Mutillideos, que parasi- 
tam os ninhos de Bombiis ("M amangaba s") e de tôda 
sorte de abelhas solitárias. 

Formiga correição — Veja-se sob "Correição". 

Formijía cortadeira — O mesmo que "Saúva". 

Formiga de defunto — Veja "G i q u i t a i a". 

Formiga doida — Na Amazónia, Prenoleiris lovf/i- 
co7'nis à qual coube tal nome por correr sem cessar de um 
ludo i)ara outro, sempre apressada e como doida. Entra 
nas habitações, mas não morde nem prejudica. 

Formiga feiticeira — Em certas zonas do Sul de Mi- 
nas, é êste o nome dos Hymenapterof! da fam. MutilUdeoíi, 
mais geralmente conhecidos por "Oncinha" ou "For- 
miga chiadeira". 

Formiga de fogo — Segundo Bates e outros autores, 
estas formigas na Amazónia tornam-se às vezes tão in- 
cómodas, que chegam a tomar conta de certas regiões, a 
ponto de expulsarem a população, como se deu no Xingu 
(Veiros) em 1850. As ferroadas são muito dolorosas e 
tudo elas atacam, homens e animais. Trata-se da mesma 
"Lava pés" do Sul (Solenopsis gemimita); veja esta. 
A mesma espécie, no entanto, no Pará, ao que se diz, 
presta algum serviço, atacando a "1 a g a r t a r o s a d a". 

Formiga de mandioca — Na Baía é o mesmo que 
"Saúva". 

Formiga mineira — Faz parte do conjunto de espé- 
cies conhecidas, genericamente, por "Quem-quem" 
(veja esta) ; talvez designe em especial a Acromyrmex 
subterrânea. 

Formiga mole — Veja sob "C a ç a r e m f 
g r a n d e". 

Formiga de novato — A seu respeito se encontra a 
seguinte informação em Severiano da Fonseca (Viagem- 
pag. 32.5), quando descreve o "Pau de novato" do Mato 
Grosso ou "Taxizeiro" do Pará, também chamado "Pa^' 
formigueiro". "E' notável por criar em seu âmago uma 
espécie de formiga, aqui chamada "Novato", amarela» 
do tamanho da saúva e de dentada dolorosíssima. Vivem 
aí aos milhões e são o desespero dos viajantes inexperien- 
tes que, vendo as hastes do "pau novato", altas e direitas, 
vão imprudentemente cortá-las para zingas (vai'as de q^e 
se servem na navegação, para dar impulso às embarca- 
ções) . Veja-se também sob "T a x u í". 



Formiga de rabo — Na Baía, segundo Pe. J. Tava- 
res, êste nome é dado à formiíía Neoponera villosa, que 
vive principalmente nos gravatas; sua picada é muito do- 
lorosa. 

Formiga raspa — Denominam assim, na Baía, uma 
espécie próxima à "Q u e n q u e m", um tanto menor que a 
saúva, de côr avermelhada: Acromyrmex landdolti. O for- 
migueiro é relativamente pequeno e abrange, quando mui- 
to meia dúzia de panelas, do tamanho de uma laranja. So- 
bre a entrada, as formigas acumulam um cone ou antes 
uma cratera de capim cortado; êste é o material que já 
serviu no interior das panelas, como meio de cultura dos 
cogumelos, de que unicamente se alimentam também êstes 
parentes das saúvas. À "Raspa" cabe bem tal nome, 
pois que, estabelecida em numerosas colónias no pasto, aí 
seu serviço de raspagem do capim é tal, que não sobra 
alimento para o gado. Cada colónia explora apenas um 
raio de dois metros ao redor do olheiro, mas como os for- 
migueiros às vezes são quasi contiguos, causam sério da- 
no no pasto (Gregorio Bondar, Boi. Agricult. Baía, n.° 7, 
1924). 

Formiga de roça — Em Pernambuco, a "Saúva". 

Formiga tapií — Espécie amazônica, semelhante à 
"Toe and ir a", porém um pouco menor e de côr ne- 
gra, brilhante, não aveludada. Marcham em fila. de 10 
em 20 e a sua picada também é muito dolorosa, mas não 
são tão agressivas como a famigerada tocandira. 

Forneiro — O mesmo que "João de bar r o". 

Forquilha — Verme Nemathelminto (Syngamus 
trachealis) que se aloja na traquéia das aves, princi- 
palmente das galinhas, produzindo a moléstia conhecida 
por "bocejo". O ovo do verme completa o ciclo evolutivo 
só quando é ingerido pelas aves. Perfurando o intestino 
do novo hospedeiro, a larva do Syngamus aloja-se no pul- 
mão, para depois passar para a traquéia da ave. Uma 
Vez localizado neste ponto, o verme atinge desenvolvimen- 
to completo, sendo que a fêmea mede 15 a 20 mms. e o ma- 
cho apenas 2 a 6 mms. ; só então adquirem a côr vermelha 
característica, à medida que sugam sangue (daí o nome 
'ver rouge" em francês) e depois passam a viver aos ca- 
sais ligados definitivamente uns aos outros, isto é, o pe- 
queno macho fixa-se ao terço anterior da fêmea muito 
iTiaior, formando assim um Y ou a "foquilha" que lhe deu 
o nome. 



— 338 — 



Sintomas: as aves entristecem, não comem e tossem 
continuamente; é característico também o bocejar repe- 
tido da ave parasitada. Havendo só um casal de "forqui- 
lhas" na traquéia, a ave suporta o mal, que desapai-ece 
com a morte do verme; mas sendo muitos os parasitas da 
traquéia, de modo a dificultarem a respiração, sobrevem 
a morte por asfixia. Ao se perceber que a praga tende a 
generalizar-se, é preciso passar as galinhas para outro 
terreiro, não infectado por ovos do parasita. 

Forreca — O mesmo que "Pão de galinha". 

Fosforescência — ou "A r d e n t i a" ou, como se diz 
no Rio Grande do Sul, " A r d ê n c i a", é um fenómeno que 
só se observa na água do mar, em certas circunstâncias.^ 
O movimento brando das ondas ou dos remos provoca o re- 
luzir fosforescente de miríades de partículas mínimas; 
cada ponto luminoso brilha durante uma fração de segun- 
do apenas, mas com isto se repete sem cessar e em grande 
extensão, o efeito c gei'al e de uma delicadeza deslum- 
brante. 

Determinam a fosforescência certas espécies de Pro- 
tozoários de 0,5 a 1,5 mms. de diâmetro, entre os quais o 
mais citado é a Noctilnca milinris da subclasse dos Cys- 
toflagellados, mas também muitas outras espécies têm 
igual propriedade, notadamente as Dinoflagellados (Pyro- 
cystis, Pyrodinium, etc). 

Como no plasma de todos êsses organismos há gotí- 
culas de óleos ou gorduras, atribue-se o fenómeno à oxi- 
dação dessas substâncias. 

Certa noite, em pleno Atlântico, vimos o mar todo, de 
um extremo do horizonte ao outro, como que ardendo, 
pois as pequenas ondas não cessavam de provocar a rea- 
ção luminosa, e na quilha do navio e em sua esteira a inten- 
sidade da fosforescência elevava-se ao máximo. Colhemos 
um balde de água e depois de filtrá-la através de um pa- 
no, obtivemos quasi uma colher de sopa de Noctilucas. Ha- 
bitualmente êsses protozoários permanecem em camadas 
mais profundas do oceano, mas em certas circunstâncias 
vêem à tona, determinando então a fosforescência, visí- 
vel à noite; de dia às vezes o mar apresenta colorido aver- 
melhado, devido à concentração daqueles organismos. 

Frade — Veja-se sob "Parú da Pedra". 

Frade — Em certas regiões denominam assim os 
"Grilos toupeiras". 



Framingueta — Nome dado, no Est. do Rio de Ja- 
neiro, a um peixe do mar de qualidade ínfima, cujo peso 
médio é de 2 kilos (Provavelmente teremos registrado o 
nome pelo qual mais geralmente é conhecida esta espécie, 
restando assim fixar a respectiva identificação). 

Franciscano — Designa, no Rio da Prata, o bôto Ste- 
nodelphys blainvillei. 

Frango d'água — Várias espécies de aves da fam. 
Rallideos, gêns. Creciscus, Gallinnla, lonornis; caracteri- 
za-os bem a calosidade núa da testa, de côr vistosa; lo- 
nornis martinica, que habita o Brasil, de S. Paulo para o 
Norte, é ave lindíssima, de cabeça, pescoço e peito azul- 
brilhante, dorso verde, venti'e escuro e dorso inferior bem 
como cobertciras inferiores da cauda de côr branca; o bi- 
co é amarelo esverdeado na ponta, vermelho no meio e a 
testa violeta-azulada ; tem os pés conformados como os das 
"Jaçanãs". GaUimãa galeata, ao contrário, veste rou- 
pagem modesta, cinzento-escura, bruno esverdeada no dor- 
so e branca no meio do abdómen; o bico é vermelho, com 
ponta amai'ela; as pernas são verdes, tendo porém uma 
faixa vermelha na tíbia. Creciscus melanophaius é espé- 
cie bem menor, pois mede só 18 cms. de comprimento; a 
côr é bruno-azeitonada em cima, com rêmiges e retrizes 
niais escuras; o lado inferior é branco, porém castanho 
nos lados e a barriga é preta com faixas brancas trans- 
versais; o bico e as pernas são bruno-esverdeados. 

Frecheira — Abelha social, Melipona (Trigona) ti- 
'niida, de 3 a 3,5 mms. de comprimento, preta, com parte 
das pernas, antenas e abdómen mais ou menos avermelha- 
dos. Nidifica em pequenas cavidades de árvoi-es, com en- 
trada tubular de céra. À semelhança de poucas outras espé- 
cies pequenas (T. Silvestri, "Moça branca", "Lam- 
be - o 1 h o s" e "M irim preguiç a") as células não 
formam favos, encontrando-se isoladas ou sobre peque- 
los pedúnculos. Estas abelhas pousam frequentemente so- 
bre a pele suada, mas não incomodam tanto como a 
L a m b e - ol h o s". É espécie da Amazónia, Mato Gros- 
so e Norte de Minas Gerais. 

Friganídeos — Nome da família de insetos da ordem 
dos Tricópteros, cujas larvas aquáticas constróem os 
chamados "G r u m i x á s", ou "C u r u b i c h á s". (Ve- 
Jít êste). O inseto adulto assemelha-se às traças, e, como 
*^stas, tem as azas cobertas de escamas ou pêlos; as azas 
posteriores em muitas espécies dobram em forma de le- 



— 340 — 



que. As antenas são longas, filiformes; o apai-elho bucal 
consta de uma tromba, o que reforça sua afinidade com os 
lepidópteros. 

Fuá — Registrado por Beaurepaire Rohan como si- 
nónimo de "Uruá" ou "Aruá". Sem dúvida, porém, 
são estas últimas as formas mais geralmente usadas pelo 
povo. 

Fura-barriga — É, em Pernambuco, o nome dos pás- 
saros da fam. Galbulideos, conhecidos em outros Estados 
por "Cuitelão". Não sabemos se o nome se baseia em 
algum fato biológico interessante ou se apenas lembra que 
o longo bico da ave poderia furar a barriga do inimigo, 
caso fosse usado como arma. 

Furão — Grison vittatm (que se assemelha à "mar- 
ta" européia), de corpo baixo, alongado, medindo 55 cms. 
de corpo e mais 20 cms. de cauda; a côr geral é cinzento- 
amarelada, os pés e a cara são pretos e caracteriza-os bem 
a faixa amarelada que vai da testa, por cima dos olhos e 
das orelhas, ao ombro. Tem vasta distribuição por quasi 
toda a América do Sul ; vive no mato ou antes nas capoei- 
ras, dando caça a pequenos mamíferos e aves, aos quais 
chupa o sangue do pescoço e quando o pode, penetra nos 
galinheiros, o que equivale a hecatombes. Outra espécie 
do mesmo género, G. allcmandi, é mais rara, uni pouco 
maior e mais escura. O povo em geral confunde estas es- 
pécies com a "Irara". 

Furriel — Caryothrumtes canodensis, da fam. Frin- 
gillideos, do grupo dos "Bicudos". O colorido é ver- 
de-azeitona em cima, amarelo em baixo e com a região 
da cara preta, compreendendo os olhos e a garganta. O 
nome é amazôiiico. Desconhecemos o nome vulgar da sub- 
espécie C. c. brasiliensis, que se extende até o Rio de Ja- 
neiro. 



■o- 



o 



Gafanhotão — Espécie que em certas regiões tam- 
bém constitua "P r a g a" (veja esta) ; gên. Tropiãacris. 

Gafanhoto — Abrange todos os insetos Ortópteros 
cJas fams. Tettigoviidcos e Acridiideos. As espécies da pri- 
meira destas famílias caracterizam-se por terem azas an- 
teriores mais largas, as antenas são muito longas e finas 
e a fêmea tem ovipositor longo e curvo, (só conhecemos 
a palavra "Esperança" designando particularmente 
tais espécies). Aos Acridiideos pertencem os gafanhotos 
propriamente ditos, com azas anteriores estreitas, ante- 
nas curtas e as fêmeas não têm ovipositor longo. Veja 
no seguinte sob "Gafanhoto da p r a g a", a parte 
biológica, que é bem a típica para tôda a família. 

Em nossa fauna há talvez um milheiro de espécies 
pertencentes a êste grupo, algumas ápteras, outras com 
aza curta, mas a maioria vôa bem, ainda que em geral 
gostem de utilizar as longas e fortes pernas trazeiras pa- 
i'a saltar. 

Nestas espécies os órgãos auditivos estão situados no 
segmento basal do abdómen, enquanto que nos demais 
ortópteros os tímpanos auditivos se localizam nas tíbias 
íinteriores. 

Há exemplares enormes, de corpo grosso e 15 cms. de 
comprimento e há também foi-mas minúsculas e delicadas; 
^m muitas espécies o 2.'^ par de azas mostra lindo colo- 
rido, variegado e vivo ou delicadamente matizado. 

Ilá espécies que, sem formar grandes bandos, se tor- 
íiam nocivas à lavoura, tais como Tropidacris, Chroma- 
'"■ís (veja "Soldado") e espécies sedentárias do gên. 
Schistoccrcu. 

Pertence ainda a êste grupo a fam. Proscopiideos, que 
tem perfeitamente o aspeto do "Bicho- pau", mas as 
'intenas são muito curtas; parece que pertencem pela 
^aior parte a esta família, as espécies conhecidas no Nor- 
deste por "M ané-magr o". 

Gafanhoto da praga — Nuvens de gafanhotos da 
espécie Schit;t acerca parancnsis, de tempos em tempos, in- 
vadem os Estados meridionais do país, vindas do Chaco 



— 342 — 



boliviano (e não diretamente da Argentina, como se cos- 
tuma dizer). Os Estados do Brasil mais frequentemente 
assolados pela praga são o Rio Grande do Sul e Paraná 
e daí ela se extende às vezes até S. Paulo, Mato jGlrosso 
e também Minas Gerais. São conhecidos os estragos enor- 
mes que essas nuvens de milhões de indivíduos causam a 
tôda a lavoura e aos pastos; onde pousa a nuvem compac- 
ta, desaparecem as folhas e só restam os talos. As fê- 
meas, um pouco maiores que os machos, põem os ovos na 
terra, para o que enterram o ovipositor e no fundo do 




Oafanboto e sua metamorfose 



canal que assim preparam, arrumam os ovos em forniíi 
de cacho, segregando também mucosidade. Conforme í» 
temperatura, a incubação dura 30 a 40 dias. Nascem os 
"saltões" com 7 a 9 mms. de comprimento; sua côr e 
cinzento-escura e ainda não têm azas; estas aparecem na 
terceira muda da pele, mas só na quinta e última as azas 
atingem todo desenvolvimento, permitindo o vôo. A oca- 
sião mais propícia para extinguir os gafanhotos é quando 
êstes ainda são "saltões". Abrem-se fóssos e por meio 
de barreiras, feitas com folhas metálicas, encaminha-se o 
bando para aí, onde é fácil enterrar os saltões; empregani- 
se "vassouras de fogo", aparelhos que projetam forte cha- 
ma de petróleo sobre os mesmos, quando pastam no cam- 
po; há ainda aparelhos coletores ("carcaranha" dos argen- 
tinos), rôlos compressores, etc. Infelizmente a aplicação 
de cultui*as do bacilo da diarreia contagiosa do gafanhoto 



— 343 — 



Jião corresponde, na prática, aos resultados obtidos em 
laboratório. Êsse Coccohacillus acridiornm, estudado por 
d'Herelle, mata o gafanhoto em 6 a 7 horas e seria pois 
êste o modo ideal de exterminar a praga de vez. Porém, os 
ensaios práticos realizados na Rep. Argentina não têm 
sido favoráveis. 

Há no Brasil outros gafanhotos do género Tropida- 
cris, semelhantes, e que também causam algum dano; ou- 
tra espécie vive sobre os coqueiros da Baía, porém não 
forma "nuvens", nem é migradora. Os gafanhotos que 
constituem igual praga nos Estados Unidos, na África e 
na Ásia pertencem a outros géneros. 

Gaipapa — É, na baixada do Rio de Janeiro e em San- 
ta Catarina, segundo A. Neiva, o nome dado à fêmea dos 
"Gaturamos". São de colorido mais uniforme, es- 
verdeado, sem os ornatos vivos dos machos. 

Gaivota — Compreende as várias espécies de aves 
oceânicas (ou dos grandes rios) da fam. Larideoa, gên. 
Larus. São seus companheiros e parentes da mesma fa- 




Caivota 



mília, as espécies do gên. Sterm, mas distingue-os pron- 
tamente o feitio do bico e da cauda: esta é truncada no 
Sên. Larus e o bico tem a ponta do maxilar superior cur- 
sada para baixo, ao passo que Sterna, os "Tri n ta- 
leis", têm cauda bifurcada e bico direito. Larus maciili- 
Pennis é a nossa gaivota mais comum do Brasil meridio- 
'^íil; no inverno o macho não tem a cabeça e.scura, como 



— 344 — 



no tempo da procreação; o bico e os pés são vermelhos. 
Mais para o Norte aparece L. utriciUa. Será preciso lem- 
brar que não há quadro do género dito "marinha", que se 
possa dizer completo, sem uma ou algumas gaivotas? E 
é no vôo, com as azas graciosamente curvadas, que elas 
melhor se apresentam, porque, pousadas, não têm os mes- 
mos atrativos estéticos; nem se queira ouvir-lhes a voz, 
porque seus gritos são ásperos, estridentes, principal- 
mente quando excitadas. São aves costeiras e é sabido que 
para o marujo elas são indício da proximidade de terra 
firme ; quando se afastam da terra e vão para o mar aber- 
to, não tardam a voltar. Não que a isto sejam obrigadas, 
para descansar do vôo prolongado, porque a qualquer mo- 
mento, mesmo com mar revolto, podem pousar sobre as 
ondas, deixando-se embalar. Seu alimento consiste em 
tôda sorte de animais, vivos ou mortos e detritos. Acom- 
panhando a esteira dos navios, sabem elas muito bem que 
sempre irão apanhando coisas que lhes possam ir ao bu- 
cho e se não fazem questão da qualidade, também estão 
dispostas a se adaptar à quantidade existente: havendo 
pouco, com pouco se contentam e havendo muito, também 
tão cedo não se fartam. Por um nada, brigam ; mas quan- 
do querem, unem-se para afugentar outras aves que lhes 
venham fazer concurrência. Não raro são vistas também 
terra a dentro, acompanhando o curso dos grandes rios. 

Gaivota — Em Minas, erradamente, dão êste nome 
aos "T a p e r u s s ú s". As verdadeiras gaivotas oceâni- 
cas sobem os grandes rios até Mato Grosso, mas não che- 
gam até Minas. 

Gaivota rapineira — Aves da fam. Stercorariideos, 
gên. Megalcstris e Stcrcorariua. São aves raras e do alto 
mar, principalmente das regiões frias, e por isto pouco 
conhecidas, mesmo no Sul do país. São um pouco maiores 
que o "Gaivotão" e de côr escura. Não chegam a ser 
aves de rapina, no sentido próprio da palavra, contudo 
são temidas pelas outras aves do mar, porque, abusando 
de sua força, gostam de arrebatar as i)rezas das garras 
de quem teve o trabalho da caçada ou pescaria, realizando 
o que adverte o ditado de que "o bocado não é para quem 
o faz". Aliás é mal de família: veja-se neste sentido até 
onde chega a audácia e o pouco escrúpulo do "Alca- 
traz". 

Gaivotão — O mesmo que "Albatroz". 



— 345 - 



Galhuda — Peixe do mar da fam. Carangideos, Tra- 
chinotns pidometa, semelhante à "Pa lo meta", mas o 
corpo tem cinco barras denegridas verticais, equidistan- 
tes, sobre os flancos. Ao mesmo género pertence o "T i m - 
b ó". Evidentemente os pescadores, conforme a região, 
compreendem a "Galhuda" sob o nome de "P a m p o", 
(veja êste), nome que parece antes ter acepção genérica. 
A. Neiva nos menciona, da Baía, um Pampo de "espinha 
mole" e outro de "espinha dura"; aquele é mais saboro- 
so e seria assim a própria "G a 1 h u d a", o que porém não 
nos explica a significação daquele nome. Não deve ter re- 
lação com "P a m p o de cabeça m o 1 e", si êste é de 
fato sinónimo de "Piraroba". 

Galinha de bugre — No Norte de Mato Grosso, se- 
gundo Pe. Badariotti, é o nome de uma ave da mata. 
Talvez seja o "J a c a m i m". 

Galinha do mato — O mesmo que "Pinto do 
mato". 

Galinhola — Ave da fam. Charadriideos , Gallinago gi- 
gantea, semelhante às "Narcejas", porém maior, me- 




Oalinbola 



dindo quasi 50 cms. de comprimento; só o bico mede 13 
cms. A côr geral é bruno-denegrida no lado dorsal, com 
grandes manchas e faixas transversais castanho-amarela- 
das; a cabeça é amarela, com duas largas estrias pretas 
sobre o vértice, outra passa do bico ao olho e outra por 
baixo dêste. O lado ventral é alvacento, com largas fai- 



— 346 — 



xas escuras. E' ave do Brasil meridional e que ao Norte 
se extende até Mato Grosso e Minas e ao Sul até Buenos 
Aires. 

Galo — Veja sob "Peixe-gal o". 

Galo bandeií-a — Veja sob "A r a c a n g u i r a". 

Galo de campina — Pássaros da fam. Fringillideos, 
do género Paroaria, e portanto congénere do "C a r d e a 1" 
do Sul. Na Amazónia também é chamado "Tangará" 
(aliás diferente do verdadeiro "D a n s a r i n o"). Êsse, 
"Galo de campina" (Paroaria gularis) é um belo 
pássaro preto-azulado coni lado ventral branco, gargan- 
ta preta com tons vermelhos e cabeça vermelha-púrpura, 
a exceção de uma estria preta que passa sobre os olhos. 
No Nordeste, em cujas caatingas é muito frequente en- 
contrá-lo aos bandos (Paroaria larvata) è, juntamente 
com o "Concriz", o mais belo ornamento vivo da i'e- 
gião. Em Alagoas êste pássaro tem fama de cantor e há 
exemplares ensinados que realmente cantam bem, alcan- 
çando preço elevado. Lemos em Ant. Bezerra — "Viagem 
ao Norte do Ceará" — uma referência ao "Galo de 
c a m p i n a", em que vem mencionada a interessante dan- 
sa do pássaro, que não pode ser o Fringillideo acima des- 
crito; porém, como também se depreende da denomina- 
ção amazónica, há um "Galo de campina" dansari- 
no, cuja classificação zoológica ainda precisa ser auten- 
ticada. E' a seguinte a descrição da curiosa dansa ob- 
servada por Antonio Bezerra: "Eram três, dos quais 
dois, os amantes, ostentavam suas habilidades, desdobra- 
vam a mimosa plumagem, tomavam atitudes estranhas, 
acompanhando êstes movimentos com a mais esplendida 
variabilidade de cantos, trinados magisti-almente. Ter- 
minava um, o outro começava o veemente desafio. A prin- 
cípio a fêmea parecia indiferente; mas depois deu a um 
a preferência, esvoaçando para êle com arroubos de en- 
feitiçada paixão". 

Mais adequada é a explicação que o Sr. João L. Lima 
nos deu a respeito do comportamento dos machos, que 
assim fazem juz à denominação de "galos": "Na época do 
acasalamento, de Setembro a Dezembro, os machos brigam 
muito entre si e, valendo-se das unhas e do bico, maltra- 
tam-se mutuamente, até que o mais fraco se dê por ven- 
cido e fuja. Então o vencedor, subindo ao galho mais al- 
to e levantando a linda crista, entoa seu hino, que é um 



— 347 — 



chiado compassado, de alguma forma comparável ao can- 
tar do sabiá larangeira". 

Há um pássaro, Antilophia galeata, da fam. Pipri- 
deos, que talvez possa ser dansarino, como seu parente 
próximo, o "Tangará". E como pelo coloi-ido e pelo 
penacho, talvez seja confundido com o "Cardeal", es- 
sa espécie, do gên. Aiitilophia, quem sabe venha a ser o 
"Galo de campina", êsse dansarino ainda não 
identificado. São os seguintes os seus característicos: o 
macho tem uma bela crista na fronte, que é de viva côr 
vermelha, bem como o alto da cabeça, a nuca e a parte 
anterior do dorso; o i-esto do corpo é preto brilhante. A 
plumagem da fêmea é verde, pálida, mais clara no lado 
inferior. 

Galo do mato — Na Amazónia é o mesmo que "T i - 
c o - t i c o rei". 

Galo do Pará ou "Galo da serra" — Pássaros 
amazônicos da fam. Cotingideos, de tamanho mais que 
meão, corpo reforçado, cauda curta e linda plumagem ver- 
melho-laranja. Há duas espécies: Rupicola nipicola da 
Amazónia inferior, com azas e cauda pardas, mai'ginadas 
de alaranjado pálido. R. peruviana é do Alto Amazonas 
e diferencia-se das outras por ter azas e cauda pretas. 
Distingue estas aves um curioso topete formado pelas 
plumas do alto da cabeça, como que penteadas dos lados 
para cima, de forma a terminarem em crista semicircular. 
As fêmeas são muito menos vistosas, pardas, apenas com 
alguns tons alaranjados. A bela cór das penas dos ma- 
chos assemelha-se à de certos tucanos e daí a afirmação 
de alguns escritoi-es, de que era com as peles dêste "Ga- 
lo do Pará" que se confecionava o manto de gala, 
usado pelos monarcas brasileiros o ao qual nos referimos 
ao descrever os tucanos. Não sabemos si esta questão hi.s- 
tórica está definitivamente deslindada, porém, além de 
mencionar o fato, Brehm o corrobora, afirmando, com 
Schomburgk, que os índios eram obrigados a pagar certo 
tributo em peles destas aves. 

Ainda que a averiguação feita ou por fazer neste 
sentido venha a roubar aos galos do Pará êste título de 
glória, rosta-lhes, contudo, outra particularidade, que os 
notabiliza no mundo aviário e os torna êmulos dos "Tan- 
garás", tão justamente decantados. São dansarinos, 
também, os galos do Pará e a êles tanto Humboldt co- 
nio os irmíTos Schomburgk dedicaram belas páginas em 
suas famosas narrativas de viagens. 



— 348 — 



Infelizmente não temos, ao que nos conste, outras 
descrições, de escritores nossos, que tenham relatado o 
espetáculo, de acordo com observações próprias. Seria, 
no entanto, tema dos mais dignos de ser desenvolvido pe- 
los poetas verdadeiramente apaixonados pelos segredos 
das nossas florestas. Embrenhando-se pela mata cerrada, 
talvez junto a um córrego, encontrará o artista, na cla- 
reira, um pequeno taboleiro de rocha, atapetado pelo 
musgo. Escondido em meio da folhagem, imitará os gri- 
tos quasi miados do galo da rocha e terá logo a resposta 
de várias dessas aves, que assim se consideram convida- 
das para o bailado. Aos poucos talvez vinte pássaros aí 
estão reunidos, os machos em seu traje de belíssima cor 
dourada. Um dêles dá inicio à função, voando para o 
meio do tablado. A princípio seus passos mesurados ape- 
nas chamam a atenção dos espectadores; depois os movi- 
mentos mais requebrados e pulinhos graciosos põem em 
evidência sua habilidade de dansarino, ao mesmo tem- 
po que, desfraldando em leque sua plumagem, como um 
pequeno pavão cor de ouro, faz valer a beleza de seu ador- 
no. Por fim, intimamente satisfeito, o mimoso artista dá 
por terminada sua exibição e, com um gritinho, vôa para 
o círculo dos espectadores, de onde outro macho vem, por 
sua vez, para o palco. E assim, sucessivamente, todos os 
artistas, um por um, passam a executar seu número do 
programa — e ao artista da palavra ou da aquarela, resta 
a grande dificuldade da escolha dos momentos mais pito- 
rescos a serem reproduzidos e fixados na poesia ou na 
tela. O zoólogo, com sua fria preocupação de classificar 
os dados biológicos, interpreta a arte do "G a 1 o do P a - 
r á" como uma manifestação compai-ável, em sua essên- 
cia, à exibição do "tetraz" da .serra, da Europa; porém 
quanto à feição peculiar do "programa" executado peran- 
te numerosa assistência, impõe-se o confronto com a dan- 
sa do "Tangará". Em última análise, o psicólogo, 
que definiu a origem das nossas dansas, quasi com as 
mesmas palavras explicará também estas manifestações de 
amor entre as aves. 

Gaio da serra — O mesmo que "Galo do Par á", 
ou talvez a espécie afim, Rupicola peruviana, já men- 
cionada. 

Gambá — No Brasil meridional ou "M u c u r a" (na 
Amazónia) ou "Sarigué", 'iSaruê" ou "Sari- 
gueia" (na Baía), "Timbú" ou "Cassaco" (de 
Pernambuco ao Ceará). "Mi cure" é a denominação 



paraguaia e ao que parece também mato-grossense, nas 
regiões limítrofes. Tôdas estas denominações aplicam-se 
às 4 espécies muito semelhantes entre si do gên. Didelphis, 
os representantes americanos de maior porte da ordem 
do Polyprotodontes, sub-classe Marsíipiais. O tipo mais 
geralmente conhecido dos mai'supiais é o Canguru austra- 
liano. (Êste porém, representa uma ordem estranha à 
nossa fauna, dos Diprotodontes , herbívoros, com dentição 
reduzida). Os gambás são, como já dissemos, mamíferos 
aplacentários, por não serem os embriões alimentados pela 




placenta e mursupiais, por ter a fêmea uma bolsa mar- 
supial ; esta porém atrof iou-se nus espécies menores 
("Quicas" e "Jupatís"), de modo que, para sua 
boa caracterização zoológica, é preciso recorrer aos dados 
fornecidos pela dentição: os mursupiais têm 18 dentes 
incisivos, 10 superiores e 8 inferiores, ao passo que os 
outros mamíferos têm no máximo 12. 

Dentro da bolsa marsupial acham-se as tetas, às quais 
se agarram os 10 ou 18 filhotes recém-nascidos e onde 
os embriões, larvas de pouco mais de um centímetro de 
comprimento, crescem e se desenvolvem até poderem su- 
portar as condições variáveis do meio exterior. Ainda 
íissim, depois de bem mais crescidos, os filhotes, em caso 
de perigo recolhom-se à bolsa e é interessante observar 
como alguns, mais curiosos, vem espiar à janela, querendo 
Ver o que se passa aqui fora. 

As quatro espécies brasileiras pouco diferem uma 
"«is outras. Seu porte é o de grandes gatos, com 70 a 



— 350 — 



90 cms. de comprimento, cabendo metade à cauda, que é 
preensil, com uma parte terminal núa e escamosa. O 
pêlo compõe-se de cerdas longas, pretas e brancas, mes- 
cladas, e entre estas há uma lanugem mais curta e clara. 
A espécie de mais vasta distribuição, do Norte do Rio 
Grande do Sul à Amazónia, é Didelphis mirita. A espé- 
cie do Rio Gi'ande do Sul, D. paragnayensis tem cabeça 
e pescoço brancos, còm três listas escuras na cara ; D. viar- 
supialis, da Amazónia, é de côr amarelada; D. albiventris 
do Brasil central é semelhante à espécie riograndense, po- 
rém menor e tem orelhas maiores. 

Na América do Norte as espécies congéneres, corres- 
pondentes, são conhecidas pelo nome "Opossum". À 
mesma família pertencem também vários géneros, cujas 
espécies, porém, alcançam apenas as dimensões de um 
rato, as guaiquicas e os jupatís; veja-se também sob 
"Quica d' á g u a". 

Apezar de os gambás serem animais muito lerdos, 
pouco ágeis e francamente estúpidos, há muito que contar 
da biologia dêles e também o folclorista deve consagrax*- 
Ihe alguma atenção. 

São animais de hábitos noturnos e sua alimentação 
consiste, conforme a oportunidade que se lhe oferece, em 
tôda sorte de frutos e de preferência em animais, desde 
vermes e larvas, até todo e qualquer vertebrado que possa 
subjugar. Trepa em árvores com muita segui-ança, pois 
sua cauda, com a porção terminal núa, enrola-se em redor 
dos galhos, talvez com igual firmeza como o fazem cer- 
tos símios. 

Por vários motivos o gambá é visto, por toda a pax*te, 
com franca antipatia. Como se não bastassem o simples 
aspeto desgracioso, com seus movimentos tardos e seu 
hábito de rosnar, mostrando os dentes, o gambá também 
nos aborrece o olfato, pois é suficiente irritá-lo, para que 
logo suas glândulas segreguem um cheiro bastante desa- 
gradíivel. Além disto todos lhe conhecem os hábitos san- 
guinários e quem tem galinheiro, sabe que os gambás dão 
grande prejuízo; matam i)elo prazer de derramar san- 
gue e quasi só com êste saciam a fome, quando o podem. 
Repletos, positivamente embriagados, deixam-se ficar no 
galinheiro e é natural que então se o mate não só com 
prazer, como com toda facilidade, a cacetadas. 

Em nossa casa de cami)o um casal de gambás habi- 
tuou-se a passar o dia no telhado e muitas noites, quando 
não saiam à caça, os bichos faziam um barulho infernal 



— 351 



no fôrro, a ponto de não acreditarmos que fossem "ape- 
nas" gambás. Para sair, utilizavam-se dos fios isolados 
da eletricidade, ligados h lâmpada do caramanchão. Va- 
garosamente o gambá marinhava pelos fios, utilizando-se 
também da cauda, à moda dos macacos; bastava, porém, 
assustá-lo, para que muito mais depressa chegasse à fo- 
lhagem, onde rapidamente se ocultava. Vedada essa pas- 
sagem, ainda assim souberam os bichos subir por um pe- 
cegueiro e, após difícil manobi*a nos galhos flexíveis, al- 
cançar o telhado. 

Basta saber tirar, com a necessária cautela, as glân- 
dulas de secreção fétida, para poder aproveitar a carne 
do gambá, que aliás é tenra e saborosa como a da galinha. 
Há muita gente que tem tal prato em muita estima e po- 
demos acrescentar que também nos Estados Unidos há 
quem compartilhe igual opinião com o conhecido ex-pre- 
sidente e gourmand Taft, para quem um "opossum" era, 
como hoje dizemos, "um caso sério". 

Não nos consta, porém, que o nosso gambá use de 
uma esperteza que o "opossum" norte-americano in- 
ventou para, à última hora, escapar ao caçador: vendo-se 
perdido, finge-se de morto e mesmo pancadas bem rijas 
não o demovem dessa simulação; basta, porém, que o não 
vigiem por um momento e rápido êle procurará escapulir. 
Tão conhecido é êsse fato nos Estados Unidos, que deu 
origem à locução: "playing opossum" (fingir de gambá 
morto). 

Contudo, em uma interessante lenda dos nossos ín- 
dios, o mesmo ardil é atribuído ao gambá da América do 
Sul. "A onça queria pegar o gambá c por isto ficou de 
tocaia no poço onde todos os animais vinham beber. De 
longe, o gambá viu a onça e fugiu, pensando como havia 
de beber. 

Vinha uma mulher pelo caminho, com um pote de mel 
lia cabeça. O gambá deitou-se no caminho e fingiu-se de 
iiiorto. À mulher arredou-o e passou. Então o gambá 
correu pelo cerrado, saiu adiante no caminho e fingiu-se 
outra vez de morto. A mulher arredou-o também e pas- 
sou. Mais adiante a mesma cousa. A mulher chegou e 
disse: Si eu tivesse apanhado os outros, já tinha três. 

Pôs o pote de mel no chão, deitou o gambá no panei- 
|"o e voltou atrás para buscar os outros. Então o gambá 
^íimbusou-se de mel, rolou-se nas folhas secas e foi para 
° poço. A onça, depois de conversar com o exquisito 



352 — 



"amigo Folharada", permittiu-lhe que bebesse, sem per- 
ceber que era o seu desafeto que assim a iludia". 

(E' preciso que a observação das nossas espécies 
confirme semelhante hábito de simulação, ao qual, na 
lenda, recorreu o gambá, para que possamos aceitar todo 
o enredo da história como etnicamente puro. Do contrá- 
rio, si os dados biológicos não conferem, é evidente que 
houve apenas uma adaptação, muito menos interessante). 

Muito conhecida é a locução popular: "bêbado como 
um gambá" e a comparação baseia-se na fama que têm 
êsses bichos de gostarem extraordinariamente de cacha- 
ça; é voz corrente que basta apresentar-lhes um prato com 
aguardente, para que se embriaguem. Devemos confessar 
que, apezar das várias tentativas feitas, não nos foi pos- 
sível verificar a exatidão desta afirmação popular, que 
também se encontra registrada, às vezes com certa reser- 
va, em vários livros de zoologia. 

Amadeu Amaral (Dialecto Caipira) registra a pega 
infantil popular: "Sabe de uma coisa?... Filho de gam- 
)já é raposa". Justifica-se o brinquedo, si lembrarmos 
que erroneamente, para muitos, "raposa" é sinónimo de 
gambá, da mesma forma como "corvo" é urubu. 

Ganso côr de rosa ou "do Norte" — Na Amazónia 
é o mesmo que "Flamengo". 

Ganso do mato — No Sul registrámos sob êste no- 
me o "Marrecão" (Alopochcn jubatvH), assim conhe- 
cido na Amazónia. No Álbum das Aves Amazónicas de 
Goeldi, Estampa 8, vê-se representada esta espécie, bran- 
ca na metade anterior, vermelho-ferrugínea no dorso e 
na barriga, e com azas e cauda de côr preta, com brilho 
metálico azul. No Rio Grande do Sul o "Marrecão" 
é outro (Mctopiana peposaeu). Gansos selvagens, pro- 
priamente ditos, não há no Brasil. Veja-se sob "Pato" 
e "M a r r e c a s". 

Gapororoca — Segundo nos informou o Dr. Barros 
Penteado, os caipiras pronunciam também dêste modo o 
nome de pequeno veado "Bororó". 

Garaçapé — Peixe do mar, que poucas vezes figm*'''' 
na lista do pescado do Rio Grande do Norte (com 12 quilos 
ao todo, quando o total dos peixes montava, no mês, a 
6.500 quilos). 

Garajuba — Peixe do mar registrado com êste nome 
na lista do pescado do Rio Grande do Norte. (Vej^i 
"Guajuba"). Trata-se provavelmente de uma corrup- 



tela ("C ará - j u ba"?) designando espécie mais geral- 
mente conhecida por outro nome. (Veja-se o caso aná- 
logo "Ga raça pé"). Talvez se trate do "Gua- 
rá j u b a". 

Garapau — O mesmo que "Carapau". 

Garapú — O mesmo que "G u a r a p ú". 

Gararú — O mesmo que "G u a r a p ú". 

Garassuma — Veja "Guarás suma" e "Gua- 
rá ç a í m a". 

Garaximbola — Peixe do mar do Rio Grande do Nor- 
te. Pela estatística da "Voz do Mar", nos meses de Ja- 
neiro e Fevereiro parece que é pouco abundante. A for- 
ma etimológica parece que deve ser procurada sob cara- 
ximbola. 

Garça — Denominação genérica, que compreende 
várias aves da fam. Ardeideoi^, família esta que abrange 
também os "S o c ó s" (veja êstes) ; destes últimos as gar- 
ças diferem por levarem vida diurna e por terem pesco- 
ço fino. Alimentam-se de batráquios e peixes, que pes- 
cam em águas rasas, razão pela qual seu habitat prefe- 
rido são as lagoas, praias de rio e regiões pantanosas. 
Seu bico longo e aguçado raro erra a presa, quando a 
ave, num movimento rápido, estica o pescoço, que ela em 
geral mantém curvado em forma de S. 

Nem todas as garças são brancas, como o fazem crer 
os poetas; há garças azuis ou morenas (veja estas), outras 
são brancas com cabeça preta. Alvíssima, sem uma úni- 
ca pena de outra côr, é a "G a r ç a branca menor" 
(Leucophoyx cmididissima) , tão perseguida pelos ho- 
mens, por ser a principal fornecedora de "aigrettes". 
Estas plumas, verdadeiras maravilhas pela delicadeza de 
sua estrutura, são ornatos da região dorsal, que as aves 
adquirem no tempo da procreação — e por isto os ca- 
çadores, que vão satisfazer as exigências cruéis da moda 
feminina, devem abater as garças justamente no tempo 
em que estas criam os filhotes. Com menos crueldade, 
poderiam os caçadores de "aigrettes" procurar as penas 
caídas, que se encontram, até em certa abundância, nos 
"ninhais"; tais penas nem sempre, porém, conservam a 
frescura do ornato da ave viva, nem alcançam no mer- 
cado o valor das penas intactas. 

Daí a razão de ser da carnificina desapiedada. Fe- 
lizmente, os legisladores de quasi todos os países ame- 
ricanos, em que se encontram essas garças preciosas, es- 



— 354 — 



forçam-se por protegê-las contida o extermínio, ao qual 
os condenara a moda. 

"Os Estados Unidos, onde ao mais claro espírito prá- 
tico se alia o mais alevantado idealismo, estabeleceram ul- 
timamente leis rigorosas, não só coibindo a destruição das 
aves no seu território, mas até a importação nelas de dea- 




Qarça 



pojos animais, cuja aquisição importe na destruição bár- 
bara de espécies inteiras. E as elegantes norte-america- 
nas, "retour de Paris" viram arrancadas pelas mãos bru- 
tais dos empregados do fisco, as lindas "aigrettes", dos 
seus custosos chapéus. Aqui mesmo, no Pará, satisfa- 
zendo ao reclamo do sábio zoologista I)r. E. A. Gooldi, o 
congresso estadual votou há anos uma lei regulando 
caça das garças e outras belas aves, que são a glória dos 
lagos e igarapés paraenses" (José Veríssimo, prefácio 
do "Livrinho das Aves", R. v. Ihering). 



355 



A êste modo de ver, regulado pelo amor à natureza, 
tivemos de opôr outro, ditado por considerações de ordem 
económica. Durante nossas excursões pelo Nordeste, fize- 
mos indagações, referentes aos inimigos dos peixes e, en- 
tre êstes, sobresaem as garças. Na autópsia de uma de- 
las verificámos que essa ave havia pescado pelo menos 
150 peixinhos durante o dia. Outra cena nos demonstrou 
a intensidade do trabalho destruidor das garças nos po- 
ços do rio S. Francisco: talvez mais de uma centena de 
várias espécies de gai-ças aí se banqueteava às 5 horas 
da manhã, bicando facilmente os peixes na água rasa. 
Belíssimo espetáculo, que porém, economicamente, signi- 
ficava a destruição, em massa, de peixes úteis. 

Garça azul ou "G. morena" — Florida caerulea. 
E' ave de vasta distribuição por toda a América. Mede 
50 cms. de comprimento. A plumagem é azul, cm alguns 
pontos com tom mais vivo, em outros mais cinzento; na 
cabeça e no pescoço entx*emeiam-se plumas rôxas ou cas- 
tanhas. Também o bico é azul, mas as pernas são pre- 
tas. A ave nova é inteiramente branca e só aos poucos, 
com as sucessivas mudas de penas, vem aparecendo man- 
chas azuis, até que, ao completar o crescimento, atinja 
o colorido definitivo. Em criança, quando nos mostra- 
vam uma garça branca, explicando que era a chamada 
"Garça azul", parecia-nos incrível tal absui*do. E 
ainda hoje nos parece desarrazoado que a ave nova, de 
todo inexperiente, deva vestir roupagem que atraia ime- 
diatamente a atenção dos inimigos, quando justíimonte 
nessa idade lhe deveriam valer, com seu efeito protetor, 
as côres que melhor a dissimulassem entre a folhagem 
do ambiente. Dá vontade, até, de lembrar à Natureza as 
sábias leis, que os naturalistas a tanto custo interpreta- 
ram, do "colorido homócromo". Mas não será preciso 
tanto, para que a bela garça azul continue a proliferar; 
o melhor conselho que temos a dar, deve ser endereçado 
aos caçadores . . : 

Garça branca grande — Hcrodias egretta, da f am. Ar- 
dcideos. Mede 82 cms. de comprimento. A côr é inteira- 
mente branca, nívea; as pernas são pretas, o bico é ama- 
•"Çlo. E' ave de toda a América, do Norte até a Patagô- 
Jiia. Também esta espécie, na Amazónia, é conhecida por 
" G a r ç a r e a 1 ". 

Garça branca pequena — Lcucophoy candidissima; 
distingue-se da i)recedente pelo tamanho, pois mede ape- 



35Õ 



nas 56 cms. de comprimento; as pernas são pretas, po- 
rém os pés são amarelos e da mesma forma o bico preto 
tem base amarela; características são as penas alonga- 
das na nuca. No mais, compartilha com sua parenta 
o infortúnio de ser linda, a ponto de ir sendo extermina- 
da pelos caçadores de "aigrettes". Referem os autores 
norte-americanos que em tempos idos, a um tiro de es- 
pingarda, nos "gai-ceiros" da Flórida, levantava-se ver- 
dadeira nuvem destas lindas aves e as savanas, às vezes, 
"estavam brancas". Hoje em dia, nem para os jardins 
zoológicos se pode mais obter quantidade suficiente des- 
tas aves. Também entre nós, nas zonas mais povoadas, 
tem-se feito o possível para levar a destruição a tal 
ponto. 

Garça real — Pilherodius inleatus, da fam. Ardei- 
deos. O título de realeza foi dado a esta linda garça, por 
causa do aristocrático penacho de plumas alongadas da 
nuca. O colorido é todo alvo, com exceção da cabeça, que 
é preta em cima. O bico e a parte núa da cara são azuis; 
as yjernas .são cinzentas. Extende-.se, em sua distribui- 
ção, da América Central até Santa Catarina. 

Na Amazónia esta espécie é mais conhecida por 
"Garça de cabeça preta", pois lá o nome de 
"Garça real" cabe à garça branca, do gên. Herodiax. 

Gargaú — No Ceai'á diz-.se a.ssim por "Guarú- 
g u a r ú 

Garoupa ou também "G. verdadeira" ou "G. 
creoula" — Peixe do mar da fam. Serranideos, gên. 
Epinephelus. Há diversas espécies, que se distinguem prin- 
cipalmente pelo colorido. A espécie dita "G. verda- 
deira" (E. [luaza) e que atinge um metro de compri- 
mento, é côr de chocolate, com diversas manchas irregu- 
lares verdes, esparsas pelos lados do corpo; além disto 
nota-se uma estria negra atrás dos maxilares; as nada- 
deiras são denegridas, orladas de branco. E' indiscutivel- 
mente um dos melhores peixes, que o mercado oferece 
com certa abundância. Em Portugal o mesmo nome de- 
signa espécies afins. 

Garoupa gato — ou simplesmente "Gato" na Baía: 
pertence a um género a parte entre os Scrranideos, poi^ 
o ângulo do preopérculo forma um espinho curvo pai"'^ 
a frente e a margem é denteada; uma só espécie: Alphe^- 
tes afer, de côr rubra, com manchas pardas e pontilha- 
do de vermelho; algumas máculas são oceladas; nadadei- 



5SCÍELO 9 11 12 



— 357 — 



ras com zebruras irregulares. No Brasil meridional é 
espécie mais rara. 

Garoupa S. Tomé — E' do mesmo género da prece- 
dente, Epinephehis morio, distinguindo-se por ser o 2." 
acúleo da dorsal igual ou maior do que o 3." (nas outras 
espécies é ele mais curto). E' côr de tijolo, ponteada de 
negro em baixo dos olhos; os exemplares grandes, de 
meio metro de comprimento, são mais escuros, com na- 
dadeiras fimbriadas de negro azul. E' bastante comum 
e também muito apreciada. 

Garrião ou "Garriam" — Peixe da Baía. O. 
Monte registra como sendo "Peixe pequeno com as varieda- 
des "G. m a c a c o", todo preto, e "G. de papo verme- 
lho", tendo a parte entre a garganta e a barriga ver- 
melha". 

Garricha — Pronúncia mineira por "Carriça"; 
veja "C o r r u í r a" ; "G a r r i ç o", é como se diz na 
Baía. 

Gato — Veja sob "Garoupa g a t o". 

Gato do mato ou "Maracajá" — E' nome co- 
letivo, que abrange as várias espécies menores do gêne- 




Oato do inalo 

ro Felis, cujo comprimento total não exceda de 1 metro; 
tais são F. nicdi, cuja cauda iguala quasi a metade do 
comprimento total ; F. iiíjrina, o menor déles, do tamanho 
dos gatos domésticos; F. geoffroiji, pouco maior, com 



.SciELO 



10 11 12 



— 358 — 



manchas menores e mais numerosas. E' difícil a identi- 
ficação destas espécies de gatos, todos éles pintados à 
maneira da onça. Habitam de preferência a mata, onde 
se alimentam de pequena caça; são inofensivos ao ho- 
mem, mas defendem-se violentamente à moda dos outros 
gatos, quando encurrahidos. 

Gato do mato grande — Veja "J a g u a t i r i c a". 

Gato mourisco — Veja "J a g u a r u n d í". 




Oato mourisco 



Gato dos pampas — Felis pajeron, dos campos do Bra- 
sil meridional e dos pampas, de 60 cms. de corpo e mais 
30 cms. de cauda. A còr é cinzento-amarela, com largas 
faixas ruivas, pouco distintas, que passam obliquamente 
do dorso aos flancos; a parte terminal da cauda mostra 
5 ou 6 anéis escuros. Vive de preferência nos sapezais e 
lugares úmidos, caçando pequenos roedores e "também 
aves, inclusive algumas domésticas. 

Gaturamo — Passarinhos da fam. Tanngrideos. A 
terminologia vulgar não faz distinção exata entre "Ga- 
turamos" e "Ti és". Na Amazónia dão-lhes o no- 



— 359 



me de "Tem -tem"; em Alagoas e Baía: "Guria- 
tã". Trata-se do gên. Enphonia, que abrange 14 espécies 
brasileiras; é também um gaturamo a Hypophaea chalybea. 
São de bela côr azul escura, brilhante, às vezes com pe- 
quenos ornatos; o lado inferior, a partir da garganta, é 
amarelo vivo; as fêmeas são em geral de côr esverdea- 
da, mais amarelada na barriga, mais escura no dorso. 
(Veja "G ai papa"). São muito apreciados como pas- 
sarinhos de gaiola. Abundam junto das casas da roça que 
tenham pomar; laranjas, goiabas ou bananas picadas, é 
quasi certo que foram êles e as "Saíras" que sa- 
borearam. Mas por tão pouco não há quem os condene, 
mesmo porque todos lhes apreciam o colorido belíssimo 
e o canto .suave. São como as rosas nos jardins: não lhes 
descobrimos utilidade e quando seus espinhos nos ferem, 
perdoamos o pequeno mal por amor à sua beleza. 

Gaturamo verdadeiro — Enphonia violácea, azul, côr 
de aço no dorso e na cauda; as pontas das azas são côr 
de havana. O lado inferior é amarelo vivo e de igual côr 
é uma parte da fronte (o que na Amazónia lhe valeu o 
nome de "T e m tém de estrela"). 

Gaudério — ou "G o d é r o" na pronúncia pernambu- 
cana. Veja sob "Chopim". São, em geral, as aves que 
não querem se dar o trabalho de chocar seus ovos e por 
isto os põem nos ninhos de outras espécies, cujas fêmeas 
criam os filhos do parasita juntamente com a própria pro- 
le. São gaudérios o "S a c í" e outros CucnJideos e vários 
leterideos, entre os quais o mais conhecido é Molothrns 
honariensis. Como èste em São Paulo tem o nome de 
"Chopim", esta última denominação também já adqui- 
riu igual sentido de gaudério ou vivedor, como a palavra 
vernácula. 

Gavifio belo — BiisareUus nigricoUis, heln ave de ra- 
pina, côr de ferrugem, de cabeça quasi branca e uma man- 
cha preta na garganta; as pontas das azas e da cauda 
também são pretas. Igual nome tem ainda o gavião que 
registrámos sob "Casaco de c o u r o", nome este que 
aliás cabe também à j^resente espécie e certamente com 
maior razão, pois em quasi toda sua plumagem predomi- 
na a côr das vestes de couro, usadas pelos vaqueiros nor- 
destinos. 

Gavião caboclo ou "C a s a c o de c o u r o" — E' o 
«avião Heterospizias meridionuUs, de plumagem averme- 
lhada, dorso pardo e cauda ornada com faixas brancas. 



— 360 - 

Gavião caipira — Veja-se sob "C a ii c ã". 

Gavião carijó ou "P e g a - p i n t o" ou "I n cl a i é" — 
(Rupornis magnirostris) , cinzento no lado superior; a 
cauda é atravessada por três faixas pretas; a barriça 
avermelhada é listada de branco. E' o terror dos gali- 
nheiros. 

Gavião pato — Spizastur melanoleucus. Tem um 
penacho curto, preto, bem destacado da cabeça branca; 
brancos são também o pescoço e o lado inferior; o dor.so 
e as azas são escuros, bem como a cauda, que é atraves- 
sada por quatro faixas pretas. 

Gavião pega macaco — Veja sob "Harpia" e 
"Apacanim". 

Gavião pega pinto — Veja-se "Gavião c a r i j ó". 

Gavião de penacho ou "G a v i ã o real" — Veja sob 
"H a r p i a". 

Gavião pombo — Nome das várias espécies do gé- 
nero Leucoptemis, todas elas de fato um tanto semelhan- 
tes aos pombos, de plumagem cór de ardósia, peito claro 
e com desenhos de faixas brancas. Também tem este no- 
me o "S o v i" (Jctinia plúmbea). 

Gavião-tesoura ou "Tapem a" — Elanoides for- 
ficutus, cinzento, com cabeça e parte anterior do corpo 
branca e azas negras; as retrizes exteriores são muito 
longas e assim a cauda, durante o vôo, lembra, como o 
diz o nome, uma tesoura aberta. São aves muito úteis, 
porque dão caça aos içás, aos gafanhotos e a outi*os in- 
setos que possam pegar no vôo. 

Além disto, não é raro vê-los às voltas com peque- 
nos lagartos e cobras (porém geralmente só das menores 
e inofensivas) e também esta preza o gavião tesoura devo- 
ra no vôo. Êste é sobremodo elegante e magistral e é lin- 
do espetáculo que oferecem as evoluções de um pequeno 
bando destes gaviões. 

E' verdade que tôdas as aves de rapina são exímias 
voadoras, mas esta espécie faz questão de aliar verdadei- 
ra arte ao exercício. Quasi sempre voam em esquadri- 
lha, de uma dezena de indivíduos ou mais, cada um, po- 
rém, voltigeia a seu prazer, traçando círculos, parábolas 
ou espirais com a leveza, quasi, das andorinhas e como 
estas, de vez em quando baixam o vôo e, rente com o chão, 
comprazem-se em acompanhar as ondulações do campo» 
tão de perto que por pouco o tocam. 



— 361 — 

Gavião de uruá — N.a Amazónia e em geral nos Es- 
tados do Nordeste, onde "uruá" é usado como sinónimo 
de "caramujo", o gavião conhecido no Sul por "Cara- 
mujeiro" é conhecido por gavião (comedor) de aruá. 

Geréba — E' o urubu novo ou a espécie de cabeça 
vermelha. (Veja sob "U r u b ú caçador"). Não deixa- 
remos de registrar, por ser de fonte sempre tão segura, a 
nota de Barbosa Rodrigues (Poranduba, pag. 289) : "Es- 
pécie de gavião preto, que vive pelas margens dos rios". 

Custa-nos atribuir tal identificação a um engano. De 
resto, no gavião amazônico Ibicter ater, (veja sob "Cã- 
c ã", isto é, "Caracará preto") de côr preta, com 
a parte basal da cauda branca, a pele núa da cabeça é 
encarnada; assim talvez "Geréba" seja aplicado a am- 
bas as aves em questão. 

Gericuá — Em suas coletâneas de Brasileirismos, a 
Academia Brasileira de Letras (Rev. XIII, 22) acolhe, 
baseada em Vasconcellos Galvão, tal denominação, atri- 
buída a "uma das cobras mais citadas de Pernambuco". 
Nunca vimos, em registros modernos, nem sabemos o 
que possa ser em zoologia. 

Gerupóca — O mesmo que " J u r u p ó c a". 

Gervão — O Dr. Arthur Neiva ouviu chamarem as- 
sim, em Santa Catarina, uma lagarta que ataca a man- 
dioca, fazendo estragos. 

Gia — Na Amazónia e no Nordeste em geral, até a 
Baía, designa as rãs maiores (gên. Lcptodactyliís e ou- 
tros). E' curioso que êste vocábulo da língua indígena te- 
nha adquirido a significação de rã no sentido amplo, 
quando designava apenas um determinado grupo de es- 
pécies, ao passo que a forma "J u í" que significa propria- 
mente rõ em tupi, não entrou para o vocabulário brasileiro. 
O índio dizia: "Jui ponga", isto é, rã barulhenta, que 
tem voz forte; "J u i p e r e r e c a" veja "Perereca". 

Gibão de couro — O mesmo que "Casaco de 
c o u r o". 

Gíbóia — Veja " J i b ó i a". 

Gijú — José Veríssimo grafou também desta forma 
o nome do peixe, que no mesmo livro (Pesca na Amazó- 
nia) foi escrito com ./ inicial. Veja-se sob " J e j ú". 

Gimbúia — Pronúncia regional paulista por "Nim- 
bú i a". 



— 362 — 

Giquítaia — Na Amazónia, segundo Barbosa Rodri- 
gues, (Dic. Lucock, pag. 66), é o mesmo que "Formi- 
ga de defunto", formiguinha branca, muito mole, 
que dá em casa (o que aliás parece indicar Termitídeo). 
Segundo Chermont Miranda, porém, é "pequena formigu 
de dolorosa pica". Êsse mesmo autor lembra que tem 
igual nome a malagueta seca e reduzida a pó. Confere, 
pois, melhor com a formiga, cuja picada arde como pimen- 
ta (ou talvez vice-versa). Portanto não podemos aceitar 
a identificação sugerida por Barb. Rodrigues, pois não 
há cupim (termitídeo) que morda. 

Giribana ou "Xiripana" — Veja sob "Pro- 
m o m b ó". 

Girino — Denominação erudita, mas bastante gene- 
ralizada, que designa as formas larvais dos batráquios. 
aliás bem diferentes dos adultos, principalmente nas pri- 
meiras fases. 

A princípio os girinos são apodes, depois crescem- 
Ihes as extremidades posteriores e mais tarde as anterio- 
res; por fim começa o atrofiamento da cauda, até comple- 
to desaparecimento da mesma, com o que o Ijatráquio ad- 
quiriu a feição dos adultos. Vivem na água, como peixes 
e alimcntam-se de substâncias vegetais bem como de lar- 
vas e outros pequenos animais; mas a maioria das espé- 
cies enche o tubo digestivo com lôdo, do qual é extraída 
a substância orgânica aproveitável. Durante a fase inicial, 
sua respiração é branquial, para o que tem dois pares de 
ramos externos do aparelho respiratório, equivalentes às 
guelras dos peixes; quando êstes oi-gãos larvais desapa- 
recem, a respiração passa a ser a normal, pulmonar. 

O índio os denominava "guarás" confundindo-os, 
sob o mesmo nome, com os "Ba r r i g u d i n h o s"; de fa- 
to, enquanto novos e ápodes, realmente se parecem mui- 
to com os minúsculos peixinhos viviparos que habitam as 
mesmas águas. O povo, tanto em Portugal como aqui, in- 
troduziu as denominações "Cabeçudo" ou "Cabe- 
ço t e", o que condiz bem com o asjjeto do corpo volumo- 
so, ápode, que aparenta ser uma grande cabeça com uvn^ 
cauda anexa; também em francês "têtard" tem igual eti- 
rtiologia. 

Godero — Em Pernambuco é pronúncia mais usada 
do que "G a u d ér io". 

Goete — Veja sob "Guete"; também .se pronun- 
cia "Gorete" e "Gorrcte". 



Goiá — O mesmo que "G u a i ú". 

Goiá-unu — Veja "G u a i a ú n a". 

Goiamú — O mesmo que "G u a i a m ú". 

Goirana — Veja-se sob "Bicuda" (peixe). 

Golfinho — Denominação portuguesa, pouco usada 
entre nós e que cori"esponde ao vocábulo grego, latiniza- 
do, do nome genérico do Cetáceo odontoceto, Delphinus 
delphíK. (Veja-se também sob "Bôto"). Habita todo o 
Atlântico; seu tamanho pouco excede a 2 metros. A ca- 
beça é pequena, o rostro longo e fino, o corpo roliço. O 
colorido é ardósia-escuro em cima, claro na metade infe- 
rior. Vivem em pequeno.s cardumes, alimentando-se de 
peixes menores; ao contrário dos botos, mais ligeiros, os 
golfinhos são vagarosos, tanto ao nadar como nos pulos, 
quando emergem espaçadamente, para respirar. 

Gongôlo — Veja "Piolho de cobra". 

Gonguito — Pequeno bagre do mar, cuja carne é 
muito apreciada, porque lembra o gosto do camarão; com 
êles se preparam as melhores muquecas (Baía de Parati) , 

Gordinho — Peixe do mar (Rio de Janeiro). Veja 
"Par ú". 

Goré — Nome de um carangueijo em Sergipe. 

Gorgulho — São os besourinhos da fam. Curculio- 
tdcleos; dislingue-se pela tromba relativamente comprida 
e muitas vezes curvada 

para baixo, formada pelo k. í ^ / 



O i)ovo, porém, nem sem- 
pre faz distinção exata entre carunclio e gorgulho, exten- 
dendo esta denominação de acepção restrita (derivada 
fio latim curculio), a todos os besourinhos carunchadores. 

Graçaini — Na Baía (Voz do Mar, n." 78) é uma das 
Variedades do "Cabeçudo", que por sua vez ó uma das 
formas do Charéu. 

Graçapé — Veja "G u a raça p é". 



prolongamento da cabeça. 
Em particular designa os 
besourinhos que atacam 
o arroz, milho, feijão e 
outros cereais e portanto 
são "carunchos". Calan- 
dra gravaria, C. oryzae' 
são as espécies mais co- 
muns, aliás cosmopolitas. 




364 — 



Grachaim ou "G u a a c h a i ni" — Canis brasi- 
liensis, semelhante ao "Cachorro do mat o", porém 
um pouco maior, pois o corpo atinge 70 cms. de compri- 
mento, além de 40 cms. que mede a cauda. A côr geral é 
cinzento-amarelada, com algum desenho preto no queixo; 
a ponta do beiço inferior e tôda a margem do superior 
são brancacentos, assim como a garganta e parte do pes- 
coço. E' um tanto difícil distinguir esta espécie da "R a- 
p o s a do campo" (C. vetiihii^) e, como esta, é animal 
dos campos; quanto à distribuição geográfica, pode-se di- 
zer que o "Grachaim" vem do Rio Grande do Sul até 
S. Paulo e deste Estado para o Norte até o Pará é substi- 
tuído pela "R a p o s a do campo". De dia, o Grachaim 
se esconde e dorme, saindo de noite para a caça e então 
ouve-se sua voz "Guô-a", principalmente no inverno, no 
tempo do cio. Chega-se às casas, tanto para roubar ga- 
linhas como para comer melões, etc. Além de pequenos 
mamíferos e aves, come também anfíbios e lagartos. 

O povo raramente pronuncia a palavra na sua forma 
original, que é Guará (cão)-chaim (crespo). 

Não se confunda esta espécie com o "Guaxinim" 
que, apezar de pertencer a outra família, é carnívoro um 
tanto semelhante. 

No Rio Grande do Sul é também usada a denomina- 
ção platina "Zorro", radical este que também figura na 
denominação "zorrilho". 

Gralha — São as diversas espécies de pássaros da 
fam. Corvideos. Algumas têm plumagem de cores belíssi- 
mas, azul de vários matizes, com branco, preto e crême; 
pertencem ao gên. Cyonocorax, que abrange 8 espécies e 
Uroleuca cyanoleiíca, a "G r a 1 h a do c a m p o", de pei- 
to branco e cabeça e dorso negro-fuscos. Pela beleza do 
colorido, bem poderiam ser incluídas na lista das nossas 
aves ornamentais de viveiros; mas sua voz horrível ao 
710SSO ver ao menos, as priva de tais honras. 

Em todo caso, entre nós, as gralhas quasi não des- 
pertam interesse e si o nome nos é corrente, é devido so- 
mente ao fato de ser muito popular na Europa a espécie 
correspondente da mesma família, ainda que seu renome 
não seja dos melhores, ao passo (pie das nossas espécies 
nada conta em desabono. (Veja estampa da pg. 742). 

O Snr. Trajano Camargo relatou-nos ter observado 
várias vezes a grande gralha azul (C. coerulea) quando 
se esforçava por descascar pinhões; como não o consegue 
por meio de bicadas, a gralha bate a semente repetidas 



365 



vezes contra um pau, até amolecer ou esfrangalhar a cas- 
ca. Desta fórma, porém, muitas vezes acontece que o pi- 
nhão, ainda intacto, lhe salta do bico e, caindo onde não 



mais possa ser achado, germina, tornando-se assim as 
gralhas os agentes naturais da difusão dos pinheiros. 

No Nordeste brasileiro a denominação vulgar para 
estas espécies é "C ã - c ã" ou "P i o m - p i o m". 

Grapira — O mesmo que "Alcatraz". Veja-se 
também " C a r a p i r á ". 

Grauçá — Corruptéla de "G u a r u s s á". 

Graúna ou "Araúna", "Iraúna", e, em Ala- 
goas e Pernambuco: '•Aramará". Além dêstes, tam- 
bém "Pássaro p r e t o", "Chico p r e t o", "M e 1 - 
ro", "Ar r a n c a - m i 1 h o", "Rechenchão" — são 
nomes dados às vezes a várias outras esi)écies de Icteri- 
deos pretos (veja sob "C h o p i m") ; porém de preferên- 
cia o nome "Graúna" cabe a Cassidix oryzivora, cuja aza 
mede 18 cms., com 35 cms. de comprimento total; o colo- 
rido preto tem brilho violáceo e no macho as penas alon- 
gadas ao redor do pescoço formam uma espécie do colei- 
ra. O feitio geral é bem o dos " J a p ú s" e tal parentesco 
é explorado pela "Graúna", que é um gaudério, como 
Goeldi observou. Em Mato Grosso, (segundo o Vise. Tau- 




Oralha 



366 



nay, Inocência) " G r <i ú n a "' é sinónimo de "Vira- 
bosta" CM olothrus) . 

Graúna do bico branco — Veja sob "Iraúna". 
Grilo — Abrange todas as espécies de Orthopteros 
da fam. GrilUdeos. As espécies que coniumente se encon- 
tram ao redor das casas, escondidas na terra solta junto 
às pedras, iiertencem ao gên. Grillns. O "G . toupei- 
ra" ou "Faquinha" ou "Macaco" ou "Fra- 
d e" vive, como o mamífero de que tira o nome, em bura- 
cos na terra (gên. GriUoidlpa) e, de acordo com seu mo- 
do de viver, tem as pa- 
tas anteriores alardea- 
das em cavadeiras. Só 
o grilo macho canta, 
para atrair a comjia- 
nheira; o órgão estri- 
dulante está nas azaa e 
consiste em uma lima 
de nervuras, que é fric- 
cionada contra um den- 
te ou placa serrilhada. 
Em geral os grilos são 
prejudiciais às plantas, 
brotos, sementeiras ou 
porque comem folhas e 
raizes ; algumas espé- 
cies são carnívoras. 
Como o a.ssinalnu 
na Baía, os cultivadores de cacau dão erro- 
nome de "grilo" a várias espécies de Tet- 
tigoniideos (veja sob "Gafanhoto" e "Esperan- 
ça"), que se tornam nocivos às árvores, por depositarem 
seus ovos nos galhos. A fêmea, utilizando-se do seu ovi- 
positor, serra, para tal fim, várias fendas, que lesam pro- 
fundamente os tecidos e aí depõe até 200 ovos ; isto deter- 
mina a morte da parte distai do galho. (Veja estampa 
da pg. 398). 

Grongo — Provavelmente é corruptéla de "Gon- 
g o 1 o". 

(irumará — Veja-se sob "A rumar á". 

Grumatã — No Rio Grande do Sul é o mesmo que 
"C o r u m b a t á". 

Grumixá ou "Cu rubi xá" — E' o casulo das lar- 
vas de insetos da ordem dos Trichopteros, semelhantes a 




Orilo 



G. Bondar, 
neamente o 



- 367 



pequenas mariposas, porém suas azas são revestidas de pê- 
los e não com escamas e as azas posteriores dobram-se 
em forma de leque, como nos ortópteros. Tais casulos, 
que encerram as larvas, encontram-se nas águas dos rios 
e têm feições típicas, peculiares às muitas espécies. Al- 
ííuns são simples canudinhos, outros são perfeitos chifres 
em miniatura ; os mais interessantes dêsses grumixás são 
os dos pequenos artistas que procuraram enfeitar o ca- 
sulo com os recursos que o meio lhes proporciona: pedri- 
nhas facetadas, malacachetas, conchinhas minúsculas, 
musgos, gravetos, etc. ; outras espécies imitam caracóis, 
semelhantes aos do gên. Planorbis. 

Os índios acham muita graça nestes produtos artísti- 
cos das larvas e assim muitas peças da indumentária in- 
dígena são enfeitadas com tais casulos. Em nosso voca- 
bulário geográfico há vários nomes de rios compostos com 
éste vocábulo : Curubixá, Curubixatiba, etc. 

Guabirú — Por longo tempo não nos foi possível iden • 
tificar a espécie de rato assim chamada no Nordeste (Per- 
nambuco ao Ceará). Paulino Nogueira o mencionou, di- 
zendo ser espécie maior que o "Catita" e menor que o 
"Punaré" do mato. Certa vez, perambulando à noite 
com o distinto folclorista cearense, Dr. Leonardo Motta, 
pelas ruas desertas do centi'o da Paulicéia, nosso amigo 
nortista de repente apontou para a sargeta, dizendo: "Ve- 
ja que grande guabirú" — Estava identificado o roedor; 
no Nordeste não se diz "ratazana" (Mvs dcciimanm) . 
pois lá prevaleceu a denominação indígena, já registrada 
por Marcgrave com a seguinte definição: "Rato de casa" 
hisitayíiis, quem rattum vocainm. Barbosa Rodrigues gra- 
fa a mesma palavra, ouvida dos índios da Amazónia co- 
mo "U a u i r ú". 

Guabirú-iú — Segundo Goeldi, é o rato do mato Lon- 
cheres armatus (veja-se "To ró"). 

Guacarí ou "Acari" — Peixes cascudos, fam. Lori- 
cariideos, do gên. Plecostomus, Rhinelepis, etc. Veja 
"Cascudos". (Não confundir, porém, com "Cari" 
que se refere a outro género). 

Guacarí-guassú — Peixe cascudo, Psevdacavthiciis 
histrix, certamente uma das mais curiosas espécies dêste 
yrupo. Não é tanto pelas dimensões, aliás grandes (80 cms. 
de comprimento) que êle se impõe; são as nadadei- 
rjis peitorais muito longas que, pelo desusada e formidá- 
vel revestimento de espinhos, dão ao peixe um aspeto ver- 



368 - 



dadeiramente terrível. Todo o bordo anterior do primei- 
ro raio dessa nadadeira é densamente guarnecido de cer- 
das, as maiores das quais alcançam 1/3 do comprimento 
da nadadeira peitoral. A esta espécie da Amazónia cor- 
respondem, em águas do Paraná e afluentes, as do gên. 
PterijgopUchfhys, principalmente P. aculeatus, pouco me- 
nor e quasi igualmente cerdoso. 

Gaúche ou " J a p u í r a", " J o n c o n g o" ou "João 
congo" ou, em Sergipe: "João conquinho" 
— Pássaro da fam. Icterideos, Cnssicus haemorrhoin^, 
de côr preta, com o dorso inferior escarlate e bico ama- 
relo. O ninho é do mesmo tipo curioso como o do " J a - 
pú". No Pará é conhecido por "Japiim da mata". 
Vivem aos bandos e gostam de frequentar as lavouras 
e pomares, onde causam certo dano. Sua voz é um grito 
repetido, áspero e do qual o nome vulgar guache, é por 
certo a onomatopéia. 

No Rio Grande do Sul (veja R. Callage) "g u a c h o" 
tem quasi a significação de "ga u d é r i o", pois é também 
aplicado às aves que põem seus ovos nos ninhos de outras 
espécies ; mas guacho tem também acepção mais ampla, co- 
mo por exemplo quando aplicado a animais que foram 
criados com leite outro que não o da própria mãe. Certa- 
mente a base biológica da acepção é interessante. 

Guachinim ou "Guacinim" — Denominação indí- 
gena ainda hoje frequentemente usada pelo povo, como si- 
nónimo de "Mão pela d o". 

Guacucuia — Peixe do mar de Pernambuco (segundo 
Rod. Garcia: Malthca longiroHtriti, que de fato pertence 
à sinonímia científica do "Peix-e morcego"). Não 
sabemos si hoje em dia ainda é u.sada tal denominação: 
registrou-a primeiro Marcgrave, aplicando-a ao "Pei- 
xe morcego" C Ogcocephalus). 

Guaiá ou "Goiá" — Nome genérico dos caranguei- 
jos em geral, na língua tupi. Assim também foi conser- 
vado na linguagem dos praieiros e só os vocábulos com- 
postos, como os abaixo mencionados, têm valor específica- 

Guaiá das pedras — Denominação vulgar, de senti- 
do amplo, pois abrange um maior número de Crustáceos 



— 369 — 

marinhos, da fam. Concrideos, comuns nas costas pedre- 
gosas, no interior das baías ou pequenas enseadas. Men- 
cionaremos as espécies mais frequentemente encontradas: 
Eriphia ganagra, Pilumnus aculeatus, Panopaeus herbsti 
e Menippe rumphi. 

Guaiamú ou "G o i a m ú" — Crustáceo marinho, De- 

cápode, Braquiuro, da fam. Gecarcinideos, Cardisoma qua- 
nkiimi. De corpo abrutalhado, atinge 9 por 11 cms. só a ca- 




rapaça; o braço maior alcança 30 cms. No macho sempre 
uma das pinças é muito maior que a outra; a fêmea é co- 
nhecida por "Pata-choc a". O colorido é azul intenso, 
apenas mais acinzentado na parte central do corpo e as 
pontas das extremidades são esbranquiçadas. Vivem de 
preferência nas praias do interior das baías e enseadas; 
quando a maré baixa, refugiam-se em buracos que esca- 
vam na areia ou no lôdo. (Ve.ja-se a êste respeito a 
observação do Dr. Adolfo Lutz, sob "M o s q u i t o 
p ó 1 V o r a"). 

Guaiaúna — E' o maior dos carangueijos d'água do- 
ce de nossa fauna (Trichodactyliis) ; veja sob "C ar a n - 
g u e i j o d o r i o ". 

Gunibica — Peixe do mar. 

Guaibira — Peixe do mar da fam. Carangideos, OU- 
gopUtes sauriis. As escamas são cobertas pela pele; a côr 



— 370 — 



é cinzenta em cima, prateada em baixo. Esta espécie vive 
tanto no Atlântico, do Rio de Janeiro para o Norte, como 
também no Oceano Pacífico. Veja-se também : "G u a r i - 
vira", "Guajuvira" e "Gu ar a vira", mas êste 
último designa peixe muito diferente. 

Guainambé — A. E. Goeldi (Aves, II, pag. 341) re- 
gistra esta variante de " A n a m b é", aplicando-a, porém, 
a uma espécie do gên. Chasmoi-hynchus, vizinha da 
"Araponga" ou "Ferreiro", nomes êstea que não 
foram registrados no Catálogo das Aves Amazônicas da 
Dra. Snethlage, certamente por não serem tais denomi- 
nações usadas pelo povo nessa região. Contudo o género 
se extende do Rio Grande do Sul até Costa Rica e a 
ornitologia tem registrado na Amazónia a espécie Ch. 

niveus, que porém não 
figura na lista do fun- 
dador do Museu Goel- 
di, do Pará. 

Guaiquica — Ve- 
ja "Q u i c a". 

Guaiúba ou "G u a- 
j u b a" — Segundo as 
informações que obti- 
vemos do Ceará, é co- 
nhecido por êste nome 
um peixe de escamas, do mar, de côr vermelha (porém 
"juba" em tupi significa amarelo) com listas esverdea- 
das e do tamanho da "Garoupa". No Rio Grande do 
Norte a estatística da pesca registra em certos meses 
(Março) grande quantidade dêste peixe. Notámos que 
na mesma lista do pescado de um mês figuram conjunta- 
mente, representando duas espécies distintas, a "G u a j u - 
ba", (535 quilos) e a "Garajuba" (100 quilos). O 
mesmo se verifica na estatística do Pará, com a diferença 
de pesar a Guarajuba 6 V-j quilos em média, ao passo que a 
Guajuba pesa 4 quilos. Contudo aguardamos melhores in- 
formações. Segundo Alb. de Vasconcellos seria sinónimo da 
espécie aqui mencionada .sob "M ula ta"; mas de acordo 
com nossos apontamentos, a "G u a i ú b a" em Recife é de 
bom sabor, o que A. Mir. Ribeiro nega com relação ao pei- 
xe Ocjjiirus chryHurm ou "Mula ta", do Rio de Janeiro. 




371 



Guajú-guajú — Vimos esta denominação usada como 
sinónimo de "F o r m i g a c o r r e i ç ã o". 

Guajuvií-a — Provavelmente o mesmo que "Gua- 
rá vira" ou "Guaibira". 

Guandira — Veja "A n d i r a - g u a s s ú". 

Guandu — Em seu livi-o sobre o Norte de Mato Gros- 
so, o Pe. Badariotti dá êste nome a uma ave do campo, 
à qual também atribue o nome de "ema preta". Tal- 
vez seja denominação local da "A n h u m a" e corruptela 
de "Nhandú". 

(Guanumbí) ou "G u a i n u m b 1" — Denominação in- 
dígena dos beija-flores; parece que êsse nome em parte 



alguma foi adotado pela população brasileira, ao contrá- 
rio do aumentativo — veja o vocábulo seguinte. 

Guanumbí-guassú — Veja "Cuitelão". A denomi- 
nação indígena logrou foros de palavra brasileira, pois é 
do vocabulário dos caçadores. 

Guará — (ou erradamente "lôbo"). E' a maior 
(5as nossas espécies da fam. Canideos, Canis jubatus, que 
ftinge 1"%45 de comprimento, cabendo 45 cms. à cauda; 




~ 372 ^ 



é desproporcionadamente alto, devido ao comprimento ex- 
cessivo das pernas, muito finas. A côr é pardo-averme- 
Ihada, mais escura no dorso; o focinho e os pés são pre- 
tos ; na garganta destaca-se uma mancha branca ; a cauda 
é amarelada; na nuca os pêlos são longos e formam uma 
pequena juba. Vive nos campos e assim seu "habitat" 
extende-se desde a Argentina, por todo o nosso sertão, 
até o Norte do Brasil. E' animal arisco e covarde e por 




Ouará 



isso as suas caçadas se limitam a pequenos animais e aves; 
alimenta-se também de vegetais (lembramos a Solanacea 
chamada "Fruta de lobo"), bananas, cana de assucar, etc. 
E' animal raro e no sertão quasi que só é conhecido pelo 
aspeto à distância. Visto assim de longe, seu corpo imita 
mais ou menos os contornos de um poldro novo. Foi o 
que nos contou um caçador que, devido ao tal engano, so 
aproximou despreocupadamente, intrigado apenas por não 
ver também a égua junto ao filho — e só quando o gui*' 
rá deitou a correr, percebeu o logro. 

Si o verdadeiro lôbo europeu soubesse que aqui o 
confundem com esse seu parente degenerado! Mesmo ^ 
um cão, deve doer, quando o confundem com um covar- 



— 373 



de ; e o lôbo verdadeiro, aliás de porte sensivelmente igual 
ao Guará, talvez apenas um pouco mais corpulento, é um 
animal afoito. Instigado pela fome ataca qualquer ani- 
mal doméstico, mesmo o cavalo e o boi; x-eunidos em al- 
catéias, sua temeridade chega a ponto de não respeitar 
nem o próprio homem. E se nós aqui não invejamos a 
ferocidade dêsse animal, porque usurpar-lhe o nome, 
quando, além disso, temos em nosso vocabulário a deno- 
minação própria e bem divulgada — Guará". 

Guará — Ave da fam. Ibidideos, Eudocimus ncber. 
(Tem sido também registrado sob êste nome o Phoenicop- 
fevHs, aliás "Flamengo"). E' belíssima a cor verme- 
Iho-carmin, que a reveste tôda inteira, à exceção apenas 
de uma pontinha preta das azas; mesmo as pernas e as 
partes núas da cabeça são vermelhas; exceptua-se ape- 
nas o bico, aliás um pouco curvo, de côr pi-eta. Como ave 
dos trópicos, só se procria na Amazónia, Guianas e An- 
tilhas. Outrora também na Flórida foi vista e caçada; 
hoje porém, lá já não existe mais. No Brasil o Guará ex- 
tende suas migrações até o Est. de São Paulo e mesmo 
em Paranaguá foi êle caçado por Natterer; contudo não 
se demora no Sul e sempre volta para a Amazónia, onde 
é um dos elementos predominantes dos chamados "n i- 
nhais". Quem não teve ainda oportunidade de admi- 
rar o efeito sobremodo artístico que a natureza alcança, 
enfeitando com tal ave rutilante a vegetação ribeirinha 
ou um taquaral, onde centenas ou milhares desses Guarás 
pousam, revoam, brigam e se aquietam, sempre enchendo 
o ar de reflexos carmins, contemple ao menos a estampa 
10.^ do "Álbum de Aves Amazônicas" de Goeldi (obra 
infelizmente quasi esgotada), que reproduz em côi-es a 
fotografia de um "ninhal" de guarás, da ilha Mai-ajó. Diz 
um bom autor de ornitologia que é êste um espetáculo 
que por si só vale uma viagem à ilha Marajó. Mas esta 
joia viva do grande quadro da natureza, não suporta o 
cativeiro e logo demonstra, no colorido da plumagem, 
a nostalgia do ambiente, para o qual foi criada; em pou- 
co tempo a côr desmerece, perdendo o brilho e a intensi- 
dade. Veja-se o que sobre o mesmo assunto foi dito sob 
"F 1 a m e n g o". 

(Guará) — Como se não bastasse o duplo emprego 
do radical "guará", para estabelecer certa confusão na 
nomenclatura zoológica, o índio designava ainda como 
"guára" os peixes marinhos que em sistemática são co- 
nhecidos como Canmghleos. A espécie tipo, o "guará- 



- 374 



e t ê" poderíamos dizer, é o charéu, que Marcgrave descre- 
ve e figura sob o nome "Guará tereba". Além de outra?; 
espécies abaixo mencionadas, lembramos "Guaibi- 
ra" e "G u a j u v i ra". 

(Guarabá) ou "Guaraguá" — Registrado como 
sendo o nome indígena do "Peixe boi"; contudo não 
pudemos obter melhores esclarecimentos, nem quanto à 
origem nem quanto à divulgação do vocábulo. 

Guaraçapé — Assim registrou Alb. Vasconcellos 
(Peixes de Pernambuco) o nome do peixe do mar que 
também é pronunciado, segundo o mesmo informante, 
simplesmente "S a p é" e foi desta forma que também nós 
o anotámos. 

(Guaracapema) — Assim foi impre-sso o nome que 
Marcgrave registrou em 1640 como "guaraçapema", pura 
o peixe hoje conhecido por "Doura d o" do mar. Como, 
porém, durante a impressão do livro, na Holanda (1648), 
por falta do tipo correspondente, fosse substituído o ç 
por c, e como a palavra assim modificada não soasse de 
todo mal, generalizou-se a transcrição nessa forma, 
quando de fato a pronúncia é "guaraçapema", ou, como 
o pronunciam hoje os pescadores, "Gr as sapé". 

Guaracava ou "G u r a c a v a" — Nome genérico de 
vários passarinhos da fam. Tyrainiideoíí. Como no caso 
dos "Caga-sebos" seus parentes, não é possível dizer 
ao certo qual o característico predominante dos passari- 
nhos dêste nome. Pertencem ao gên. Elaenia, que abran- 
ge 15 espécies de colorido bruno com pálidos ornatos ama- 
relados e barriga clara. São passarinhos utilíssimos, 
cujo trabalho consiste na destruição diária de um sem 
número de pequenos insetos. Tem nome especial a "Ma- 
r i a - j á - é - d i a", pertencente ao mesmo gênei'o. 

Guaracema — ou as variantes "Guaricema"» 
"G u r i c e m a", e "G u a r a s s u m a" (?) roferem-se, 
no vocabulário herdado do índio, aos peixes para os quais 
prevaleceram as denominações portuguesas "Charéu 
e "C h e r e 1 e t e". Também "G u a r a j u b a" (veja ês- 
te) pertence tanto pela etimologia como pela sistemáti- 
ca, ao mesmo gi'upo. E ainda "A r a c a n g u i r a" ^ 
"A r a c a r o b a" (êste, segundo a indicação rob, deve sei" 
amargo) originalmente eram pronunciadas com Gv i''/,' 
ciai. Também se diz "Garacema", "Ga r assa pé ■ 

Guarachaim — O mesmo que "G racha im". 



Guaracimhora ou "A r a c i m b o i" a" — Em Per- 
nambuco e na Paraíba é uma espécie aliada ao "C h a r é u" 
do qual se distingue pelo feitio da 2.'* nadadeira dorsal 
e da anal, que ambas não formam lóbulos distintos, isto 
é, os respectivos primeiros raios são apenas pouco mais 
longos que os seguintes. Caranx dentex (C. guará Mir. 
Rib.), também chamado "Charéu branco". 

Guaracorana — Veja " A r a c o r a n a". 

(Guaraguá) — Veja "P e i x e - b o i". 

Guaraípo — Pronúncia caipira por "Guarupú". 

Guarajuba ou "G u a r u b a" ou "T a n a j u b a" — 
Na Amazónia é o papagaio ou antes periquito Coniirus 
guarouba, que difere das outras espécies congéneres por 
ser quasi inteiramente amarelo (como aliás o diz o nome 
indígena), com ligeiros reflexos avermelhados e com as 
rêmiges verdes, recobertas porém, até a metade, por pe- 
nas amarelas, de modo que só a metade da aza mostra a 
côr verde, quando as penas estão na posição natural de 
repouso. 

Guarajuba — Denominação indígena, ainda hoje em 
uso entre os praieiros nordestinos, aplicada a um dos 
peixes do grupo do "C h a r é u", "Guará" é o radical que 
designa os peixes da fam. Carangideos e o qualificativo 
"juba" (amarelo) restringe o nome a espécies dessa côr. 
Miranda Ribeiro indica a espécie Xnrel lata (Caranx la- 
tus), aliás como "Guará mb a"; veja-se abaixo. Tam- 
bém Martins assim o determinou, indicando Caranx fal- 
lax, que é sinónimo de A', lata. Esta espécie difere do 
"Charéu" por não ser sinuoso o bordo das nadadei- 
i-as anal e 2." dorsal. A nós parece que "G u a r a j u b a" 
deve ter sido primitivamente o sinónimo indígena de "X e- 
r ele te", o "guará amarelo", pois é semelhante ao "gua- 
rá" por excelência o "charéu", porém, de colorido áureo 
tão pronunciado que também os cientistas o cognomina- 
ram "chrysos". O nome vulgar que hoje prevalece para 
esta espécie menor que o "charéu" é "Cherelete" 
(veja êste). 

A sistemática dos peixes Carangideos brasileiros ain- 
da está muito mal conhecida e assim devemos aguardar 
a boa classificação das numerosas espécies, para então ve- 
rificar a qual delas cabe o nome "G u a ra j u ba" ainda 
em uso. 



376 



(Guaramba) — Êste nome, registrado por A. Miran- 
da Ribeiro em sua Monografia dos peixes (vol. XVII do 
Arch. do Museu Nacional) e posteriormente copiado por 
outros autores, deve ser eliminado dos vocabulários e 
substituído por "Guará juba". Aliás o meticuloso 
ictiólogo havia advertido que copiara tal nome de um ró- 
tulo de Rathbun (1875) no qual se lia "indistintamente 
o nome vulgar Guaramba"; certamente em vez de ?» es- 
tava escrito «í (por ju) e assim o colecionador estrangei- 
ro, auxiliar de J. C. Branner, havia de fato ouvido o no- 
me vulgar. Na espécie em questão, Caranx latus Mir. Rib., 
nec Agassiz, a fórmula ( D.VIII -{- 27 ; A II -f 23 ; Escu- 
dos 19 — de M. Rib.'') não confere com a de "C. latiiti" 
Agass. aliás Xurel lata — (D. VIII -{- 1-21; A. II + 1-17; 
Escudos 35). 

Guarapií ou "Guará pau" ou "Garapú" — 
Designa no Norte do Brasil as espécies pequenas de vea- 
dos do gên. Mazama. Na nomenclatura do caçador cea- 
rense, "Garapú" designa o menor de todos os veados 
(M. rufina), que pesa apenas 25 kls. e é mais escuro que 
o "V eado capoeir o", cujo peso é de 60 kls. Êste vive 
nas serras e caça-se como os outros veados, porque sem- 
pre passa pelos mesmos lugares; por isto cada caçador fi- 
ca junto de uma timbauba ou "comida". O Garapú, po- 
rém, corre pulando para todos os lados, "corre adoidado", 
e não tem destino certo. A "caçada de sombra" consiste 
em procurar o garapú no mato, onde passa o dia, em geral 
deitado. Pode-se chegar até 10 metros de distância, sem 
que o veado se assuste, contanto que seja contra o ven- 
to; com êste a favor, o animal percebe o caçador de lon- 
ge e foge. A êste propósito nosso informante contou-nos 
ainda o seguinte: Para que na "caça de espera" o vea- 
do não desconfie da presença do caçador, que está ti-epa- 
do num girau, é preciso levar consigo uma lata suficien- 
temente grande, para cuspir e urinar; por vezes a espera 
se prolonga por 2 ou 3 horas e bastaria cuspir ou molhar 
o chão, para que o veado de longe desconfiasse, tomando 
então outro rumo. 

Afirmou-nos ainda o Sr. Manuel Pedro, aliás bom co- 
nhecedor da vida dos veados, que no Ceará tanto entre os 
garapús como entre os capoeiros há exemplares que con- 
servam os chifres encourados a vida tôda; curioso é que 
êstes cruzam os rios nadando contra a correnteza, ao pas- 
so que os de chifre nú atravessam o rio descendo com 
águas. 



377 — 



Infelizmente a melhor época para as caçadas é o in- 
verno, pois só com o chão úmido se percebe o rasto, mas 
a êsse tempo os veadinhos ainda estão mamando. E' pois 
evidente o conflito entre as facilidades naturais e o espí- 
rito da lei de proteção à caça. 

Alipio Miranda aproxima esta denominação de "Ca- 
riacú" (o veado grande, de ai'mação ramificada, da 
Guiana — Odocoehis gymnotis) ; isto, porém, de modo 
algum concorda com o confronto das espécies. Será mais 
razoável lembrar a semelhança do nome "Guata-pa- 
rá", o que aliás também confere zoologicamente. Veja-se 
"Guazú". 

Guai'assú — E' o mesmo "Cherelete", quando 
velho. 

Guarassuma — Peixe do mar (Rio de Janeiro) com 
cerca de 2 kilos de peso; no mercado é tido como qualida- 
de média. Na lista do pescado de Alagoas figura, porém, 
com 9 kilos de peso médio (Garassuma). Veja-se "G u a- 
r a c e m a". Em Recife é o equivalente indíg^ena de Chi- 
charro; verificamos que ambas as denominações são usa- 
das pelos pescadores. 

Guaratã — Veja sob "G u r i atã". 

Guaraúna ou "Caraúna" ou "Graúna" — E' 
têrmo conhecido da Baía ao Ceará. Abrange várias es- 
pécies de aves, como por exemplo a da fam. Ibídideos, Ple- 
gadis guarauna. Pelo feitio é comparável ao "Guará" 
vermelho; o colorido, porém, é bruno com reflexos metá- 
licos roxos e verdes. As penas da cabeça e do pescoço são 
orladas de branco. Sua distribuição extende-se da Pata- 
gônia à Florida. E' conhecido também por "Tapicu- 
ru" e "Curicaca"; veja-se porém sob êstes nomes, que 
abrangem várias espécies. "Tapicuru" inclue a espé- 
cie Harpiprion cuijenevsis, conhecida por "Graúna" na 
Baía, onde as outras denominações aqui registradas são 
desconhecidas. 

Guaravira — No Maranhão designa um peixe do mar, 
semelhante ao "P e i x e espada". Também no Rio de 
Janeiro êsse nome é conhecido. 

Guariba — O mesmo que "Bugio". 

Guariba de mão ruiva — Alloiiata belzehvl, da Ama- 
zónia. 

Guai'icema — Veja "G u a r a c e m a". 



— 378 — 



Guarinhatã — Veja sob "G u r i a t ã". 

Guaruba — Veja "G u a r a j u b a". 

Guarú-guarú — "Barrigudo", "Barriga 
tim-tim" ou "Barrigudinho"; na Baía: "Bo- 
bó" e no Ceará : "G a r g a ú". Peixinhos de água doce, da 
fam. Cyprinodontideos, compreendendo umas 40 espécies, 
quasi todas minúsculas, pois raro excedem 4 cms. de com- 
primento, quando bem crescidas. Podemos até apontar 
entre êles o menor de todos os vertebrados, pois há um 
"guarú" que não cresce mais de 2 Yi cms. (*). Entre 
os numerosos géneros desta família, até há pouco chamada 
Poecilideos, mencionaremos Heterandria, ornado com vi- 
vas cores e Poecilia, o género mais abundante em todo li- 
toral brasileiro; a espécie mais comum em S. Paulo é 

Phalloptyckm candimaculatus e 
várias outras têm, como esta, 
uma mancha ou antes um traço 
vertical preto no meio do corpo. 
A classificação torna-se bastan- 
onarú-guarú te difícil, dcvido à grande uni- 

formidade geral das espécies, que 
todas elas apresentam o mesmo feitio comum. Porém o 
exame, ao microscópio, da nadadeira anal do macho, trans- 
formada em longo órgão copulador, permite a identifica- 
ção exata das espécies. 

Basta examinar qualquer córrego, mesmo dos meno- 
res, para encontrar um bom número dêles, geralmente 
constituindo pequenos bandos; qualquer caboclinho sabe 
como pegá-los, com uma peneira, passada rapidamente 
pela água. Como são os únicos vivíparos entre todos os 
nossos peixes da água doce, são êles também os que mais 
rapidamente proliferam; coube-lhes o nome de "barri- 
g u d i u h o s" porque a fêmea, quasi normalmente, traz 
um grande número de filhotes no ventre e não raro nas- 
cem 50 ou mesmo 90 peixinhos de uma vez, medindo en- 
tão apenas 5 mms. Devemos mencionar, ainda, que du- 
rante algum tempo êstes peixinhos tiveram fama de se- 
rem úteis no combate às moléstias transmitidas pelos mos- 
quitos (febre amarela e maleita). Demonstrámos, porém, 
que os guarús, em seu regimen natural, só excepcional- 
mente se alimentam de larvas de Cnlicideos. Muito supe- 
riores a êstes e outros peixinhos, são os lambaris (oU 




(■) Não será èsle o menor dos vertebrados, si como afirma A. Miranda RlbcirOt 
o interessante batráqiiio Drachyceplialum ephippium, de viva cõr amarela e qiic habin 
as bromélias da mata virgem, de fato não cresce mais do que um ceiíllmelro e pouco- 



— 379 — 



"piabinhas" no Nordeste) e que prestam ótimo ser- 
viço como larvófagos. 

Do ponto de vista dos amadores de aquários, aos 
"g u a r ú s" coube especial apreço, pois que resistem bem 
ao mau trato, não crescem muito, multipiicum-se facil- 
mente e muitas espécies são deveras ornamentais; quan- 
to a êste último requisito, merecem menção especial as da 
Amazónia e da América Central. 

Guarundí ou "G u r u n d í" — Passarinhos da familia 
Tunagrideos, Tachyphonns coronatus e outros semelhan- 
tes. A espécie mencionada, no sexo masculino, é preta, 
com vértice vermelho, ao passo que a fêmea é parda, com 
lado inferior amarelo. T. cristatus é semelhante, mas tem 
o dorso amarelo. 

Guarundí azul — O mesmo que "Azulão" (Cya- 
nocompsa cyanea). 

Guarupú ou " G u a r aipo" — Abelha social da 
fam. Mcliponideos, Melipoiía vigni, de 8 a 9 mms. de com- 
primento, caracterizada pela pilosidade erecta, uniforme, 
do abdómen, tão densa como a do tórax; só a cabeça 
mostra fortes desenhos amarelos. Faz ninho em árvores 
ócas, especialmente na base, de modo que muitas vezes 
se extende também pelas raizes. A porta do ninho con- 
siste em um tubo de barro, enfeitado por cristas dispostas 
em sentido radial. O mel é apreciado e parece que é esta 
a espécie mais rendosa, pois já houve quem tirasse 15 
litros de mel de um só ninho de guarupú. 

Guarupú do miúdo — Veja "Mandurim". 

Guarussá — Também "Graussá", crustáceos m;i- 
rinhos, do grupo dos "G u a i á s". 

Guatapará — O mesmo que "Veado p a r d o". 

Guatapí — O mesmo que "A t a p ú". 

Guatinhuma — Pi-onúncia (ou grafia?) aberrante 
do nome dos "G u r i n h a t ã s", que são os mesmos 
"G a t u r a m o s" do Sul. 

Guaxupé — Veja-se sob "I r a p o ã". 

(Guazú) — "Guazú-pitã" e outros compostos, 
são nomes indígenas referentes aos veados. E' a forma 
mais próxima à pronúncia original guarani; mas o povo 
pronuncia "S n a s s ú", como em tupi puro: "coóaçú". 

Gudião — O mesmo que "Bodião"; também eni 
Portugal coexistem as duas modalidades déste nome. 



— 380 — 



Gudunho — O mesmo que "Peixe p o r c o". 
Gueba — Peixe do mar. 

Guebussú — Esta última espécie é identificada por 
A. Miranda Ribeiro com o "A g u 1 h ã o b a n d e i r a". 

Guensa — ou "Maria G u e n s a", no Mato Gros- 
so ; o mesmo que " J a c u n d á". 

Guete — Certa "P e s c a d a branca", assim co- 
nhecida no Rio de Janeiro, ou também "Goête". Em 
outras localidades pronuncia-se "Gorete" e em Para- 
naguá: "Gorrete". Na estatística do pescado de Pon- 
ta Negra (Estado do Rio de Janeiro) vimos o "Goête" 
identificado com "M a r i a mole" (veja esta Pescada). 
Porém Alipio M. Ribeiro reserva o nome à espécie Ar- 
choscion lietranus, descrito recentemente por este operoso 
ictiólogo patrício. Não temos documentação suficiente pa- 
ra afirmar que o nome "G u ete" (ou suas variantes) se 
aplique, como parece, às várias espécies da subfam. Otoli- 
thineos, com exclusão dos gên. Cynoscion e Eriscion (que 
abrangem as verdadeiras "Pescada s") . Assim seriam 
"G u e te s" as "P escada s" cujas mandíbulas são pro- 
vidas de caninos laterais (gên. Archocyon. e Isoprifithus) , 
e talvez também as espécies de Synvhysooluphvs e Macro- 
don (antigo Sagenichthys), que também tem dentes cani- 
nos anteriores. Note-se que para estas espécies, providas 
de caninos, não conhecemos denominações vulgares, as 
quais, aliás, elas bem mereceriam, por se tratar cie peixes 
valiosos e que diariamente figuram nas bancas do mer- 
cado. 

Guigó — E' o nome de um macaquinho baiano, da 
fam. CebideoK, CaUicehuíf mcUmochir, de corpo delgado e 
cauda muito longa, parecendo pois um saguí grande; o 
costado é castanho, o resto do corpo cinzento. Pertence ao 
mesmo género que os "Japussás" da Amazónia e o 
■*S a u i m - g u a s s ú" da Paraíba. Contudo, observare- 
mos que Varnhagen, em seu excelente "Manual do Caça- 
dor" de 1860, diz : "G u i g ó s" ou "bugios ruivos 
barbados". Assim, ao menos naqueles tempos, a de- 
nominação tinha significação mais ampla do que hoje 
em dia. 

Guirachué — Veja sob "C a r a c h u é". 

(Guiramembí) ou "G u i r a m o m b u c ú" — Denomi- 
nação indígena do curioso pássaro "Pavão do M a t o". 

Guirapurú — O mesmo que "U i r a p u r ú". 



— 381 — 



Guirussú — O mesmo que "Irussú" ou "Urus- 
s ú". O radical indígena é ira = mel, ou abelha; porém da 
bôca de caipira melador, portanto autoridade competen- 
te, ouvimos pronunciar indiferentemente irussú e giiirv.'^- 
sú, designando a mesma espécie. Da mesma forma tam- 
bém dizem "G u i r u s s ú m i n e i r o" — aliás puro pleo- 
nasmo — veja-se sob "I r u s s ú". 

Gurerí — No litoral de Iguapé denominam assim a 
grande ostra das embocaduras dos rios, onde vive no lôdo, 
(Ostrea brasiliana). "Rerí" é a denominação genérica 
das ostras na lingua geral. 

Guri — No Rio Grande do Sul designa os bagres no- 
vos (e daí também a acepção de rapazola, lá emprestada 
ao mesmo vocábulo). Porém o mesmo radical, no Norte, 
entra na composição de vocábulos como "Guri juba", 
que se referem a peixes crescidos. "Uri" e "Uritin- 
ga" são apenas corruptelas, usadas na Amazónia e no 
Maranhão. 

Guriatã — Em Pernambuco e na Baía, com as va- 
riantes "Curiantã", "Gurinhatã" e "Gua- 
rinhatã", designam-.se os passarinhos que no Brasil 
meridional são chamados "Gaturamos". Algumas es- 
pécies de Euplionia são idênticas, no Norte e no Sul; ou- 
tras apresentam ligeii'as variantes de colorido. Não te- 
mos informações que permitam verificar si de fato, como 
Goeldi o diz, "G u a r a t ã" (evidente corruptéla de "Gu- 
riatã") é aplicado também a Coereba chloropyga, a 
"C a m b a c i c a" ou "Mariquita" do Sul, pertencen- 
te à família dos pequenos "S a í s", Cocrebideos. 

Guribú — No Maranhão, (.segundo Wilson da Cos- 
ta), designa um bagre marinho; à semelhança da etimo- 
logia de guri-juba (bagre amarelo), guri-bâ aplica-se a 
um bagre de côr escura. 

Guricema — Veja "G u a r a c e m a". 

Gurijuba — Bagre do mar, do gên. Tachysurus, que 
tem sido identificado como T. luniscutis. Encontra-se nas 
costas do Brasil, de Norte a Sul, mas é na Amazónia que 
atinge maior valor económico, bem como no Maranhão, 
onde o chamam "C a n g a t á". Por ocasião da desova en- 
tra nos rios, principalmente no Amazonas. Atinge um 
metro ou mesmo metro e meio de comprimento. (Má uma 
contradição que não sabemos explicar: T. bmiscutis é es- 
pécie de colorido azulado em cima, alvadio inferiormen- 



— 382 — 



te; no entanto o peixe, ao qual coube o nome guri-./»/;», 
isto é, "amarelo", deveria ser, pelos menos em parte, desta 
côr). Conquanto a carne do "G u r i j u b a" seja de qua- 
lidade inferior, o mesmo concorre grandemente para a 
alimentação da população ribeirinha e da própria cidade 
do Pará. Além disto foi'nece a "grude" (subst. fem.), co- 
la animal que, depois de sêca ao sol, constitue artigo de 
exportação. Note-se que o povo da Amazónia emprega (só 
neste caso, na acepção de íctiocola?) o vocábulo "grude" 
no feminino, usando aliás a forma erudita, quando no Sul 
do Brasil sempre se dá género masculino a êste subs- 
tantivo. 

A época da pesca da Gurijuba, diz J. Veríssimo, é o 
verão amazônico, na última quadra do ano, sendo a "foi"- 
ça da pesca" nos meses de Setembro e Outubro. Nas gran- 
des canoas, chamadas vigilengas, talvez porque na ribei- 
ra da Vigia fossem de primeiro construídas, saem êles, ca- 
noeiros habilíssimos e ousados, ao alto mar. A vigilenga 
é a canôa mestiça, o resultado da combinação, para não di- 
zer do cruzamento, entre o barco de pesca português e 
a igaritê, a canôa grande do indígena brasileiro. E' em 
geral pintada de escuro, roxo-terra, com as tintas do mu- 
ruxí, de outros vegetais e o lôdo rico em matérias coran- 
tes, com que os missionários primitivos, como nos informa 
o padre Antonio Vieira, tingiam as roupetas. A lotação 
é de 7 a 12 toneladas — quasi um navio. Armam-nas a 
hiate, com dois mastros com velas latinas ou de "azas de 
morcego", na sua tecnologia. Por temperamento nómades, 
levam a estas expedições, que duram uma semana ou 
mais, toda a família e além dos apetrechos da pesca e 
os peneiros de sal, com que hão de salgar o pescado, os 
baús e cestos com tudo quanto a família necessita. Des- 
fraldadas as velas, em geral tintas também de muruxí, 
vermelho escuro, saem em direção dos "viveiros" ou pon- 
tos dêles já conhecidos, em que sabem mais abundantes 
as gurijubas. 

A pesca é feita com o espinhei. E' uma longa linha 
ne 200 a 330 metros, da qual pendem, de metro em meti-o, 
outras linhas curtas de meio metro, os anzóis. Chamam- 
Ihes "anzóis de tenda", por serem batidos nas suas foi'- 
jas rudimentares e não fundidos, que não aguentariam o 
corpulento peixe. A linha fica estendida com uma extre- 
midade no fundo do mar, segura por uma pedra; a outi'a 
ponta fica presa a uma grande bola de matutí, espécie de 
cortiça indígena ou substitue-a a volumosa cucurbitácea, 
o jamarú. 



— 383 — 



Prepar.ida a linha, são os anzóis iscados e colocados 
regularmente nas bordas da canôa, pendendo para fora, 
já na água, a linha principal e dando uma ou mais voltas 
à embarcação. Feito isto, os pescadores deitam ao fundo 
a extremidade amarrada à poita, ao mesmo tempo que 
são desfraldadas as velas ao vento e a vigilenga abre veloz 
a correr mar em fora. O pescador encarregado de lançar 
os anzóis corre ao longo das bordas, rápido os desengan- 
chando da beira e deitando-os ao mar, um a um, metodi- 
camente, mas presto e ligeiro. A canôa, velas enfunadas, 
corre. E' preciso que na rapidez a acompanhe e exceda 
êle, sem o que se partiriam os anzóis ou a corda. Às ve- 
zes, de súbito, um ai ! doloroso corta o ar. Foi um daque- 
les anzóis que pegou a mão que aceleradamente os ia le- 
vando da borda e lançando ao mar. . . 

De manhã levantam ferro e vão a busca da boia, pa- 
ra "despescar" o espinhei, pesadíssimo agora, com a car- 
ga do peixe. As gurijubas que encontram presas nos an- 
zóis são mortas a cacete na borda da canôa. Chegado ao 
último anzol, si a pesca foi bôa, o "poço" da vigilenga está 
cheio. Começa então a faina de "beneficiar" o peixe. 

Abrem-no pelo peito e retalham-lhe longitudinalmen- 
te as co.stas e assim o reduzem a bandas ou mantas, como 
as do pirarucú ou do bacalhau. Ali mesmo as salgam e 
secam, estendidas sobre a tolda e dependuradas de varas 
atravessadas entre os mastros, ao sol ardente. 

Ao cabo de oito, dez e doze dias daquele rude e áspe- 
ro labor, recolhem à casa, quando não seguem diretamente 
rumo da capital, onde venderão o pescado. (Pesca na Ama- 
zónia, José Verissimo). 

Gurundí — O mesmo que "G u a r u n d í". 



H 



Harpia — Lineu serviu-se do nome dos monstros ala- 
dos da mitologia para designar a mais bela espécie dos nos- 
sos "Gaviões de penacho", o "Gavião real" 
ou, na denominação indígena: "Uirussú" (uira-gvas- 
sú, isto é ave máxima) ou "C u t u c u r i m". Hoje a de- 
nominação "Harpia", aplicada à ave de rapina de nos- 
sa fauna, já adquiriu certa divulgação nas letras. Zoolo- 
gicamente "Gavião de penacho" abrange as se- 
guintes espécies: duas do gên. Spizaetus (mais conhecidas 
por "Gavião p e g a - m a c a c o" ou "A p a c a n i m") , 
providas de penacho pequeno; Morphniis guianensift é bem 
maior e rivaliza quasi com Thrasaetus harpyia. Esta é a 
espécie mais vistosa do grupo, pois alcança 2 metros de en- 
vergadura e pelo colorido distingue-se da precedente por 
ser mais cinzenta e por ter uma sorte de colarinho claro, 
como não tem Morphnus, que é todo êle mais denegrido. 

Na Europa o mais belo tipo de águias é o do género 
Áquila, que figura nas armas lieráldicas e seu represen- 
tante norte americano é o "Bald Eagle" (águia calva — 
veja "Águia"), assim chamada por ter a cabeça intei- 
ramente branca; também essa ave teve a honra de ser 
incluída no brazão de sua terra. Nós teríamos Jia "H ar- 
p ia" o tipo de ave majestosa si, contrariando a índole 
da nação, quizéssemos gravar nas armas nacionais a fi- 
gura de uma águia ou, digamos melhor, uma ave de rapi- 
na. Abstração feita, porém, dessa interpretação heráldica, 
mereceria a bela ave ser muito mais amplamente aprovei- 
tada como motivo de arte. Temos conhecimento de apenas 
um bom exemplo: o Dr. A. Neiva colocou a Harpia, em 
desenho ligeiramente estilizado, no "Ex libris" do Museu 
Nacional e, realmente foi feliz a escolha, pois assim con- 
seguiu consubstanciar em um tipo genuinamente nosso, 
a beleza e a pujança de nossa fauna. 

Também os índios, empolgados i)ela beleza e tama- 
nho desta ave de rapina, tributam-lhe admiração e res- 
peito bem merecidos. D'Orbigny e Tschudi, em suas via- 
gens pelas regiões do Alto Amazonas, constataram o 
quanto é estimada a ave, tanto que, "um índio, que pos- 
suo uma harpia viva, é personagem muito feliz". Duas 



— 386 — 



vezes por ano o rico proprietário arranca todas as penas 
das azas e da cauda do gavião e, depois de ter enfeitado 
suas flechas e preparado vistosos cocares com tais penas, 
permuta as demais em troca de coisas de valor: alimen- 
tos, utensílios, adornos. Também no Xingu e no Araguaia 
os índios frequentemente mantém harpias vivas; a carne. 




Harpia 

a banha e até o excremento passam por ser excelentes re- 
médios. 

No Museu Paulista, durante muitos anos mantivémos 
viva uma harpia, acostumada à gaiola desde pequena. Pos- 
tada, habitualmente, de costas para o visitante, nada lhe 
escapava, no entanto, à observação, pois a cabeça girava 
de tal forma .sobre os ombros, que não i-aro descrevia três 
quartos de círculo. Si alguém lhe acenava com um pano 
vermelho, si um cão gania, ou quando o guarda se apro- 
ximava com uma galinha viva, imediatamente a bela ave 
armava o penacho em leque e, com demonstrações de viva 
excitação, tentava como que dominar a cena. Si lhe pu- 
nham um simples peso de carne no viveiro, sem muita 
pressa vinha buscar o alimento; mas um animal vivo, 



SciELO 



10 11 12 



— 387 



ainda que pequeno, excitava-lhe o instinto de rapina e, 
talvez com prazer indizível, preparava o bote certeiro. A 
mísera vítima morria no mesmo instante em que a atin- 
giam as garras e o bico do algoz. Só depois de cuidadosa- 
mente preparada, depenada e limpa das vísceras, era a ga- 
linha devorada, com todos os ossos. 

Em Goiaz relataram ao Dr. A. Neiva (Viagem cien- 
tífica) que êste valente gavião não se limita a matar e car- 
regar, facilmente, animais do porte de filhotes de veado, 
bem como mutuns, seriemas e tatus; ataca também be- 
zerrinhos novos e foi registrada mesmo uma investida do 
gavião de penacho contra um menino, o qual foi salvo ape- 
nas devido à intervenção de adultos. 

Hudú — Ave amazônica, Momotns paraensis, aliás 
muito semelhante às outras congéneres, conhecidas por 
" J u r u V a s". 

Humaitá — Parece que ainda subsiste esta forma pri- 
mitiva do vocábulo, que evoca a pronúncia indígena ou 
"Mbaitaca", hoje pronunciada à brasileira: "Baitaca" 
ou "M a i t a c a" (veja êste vocábulo) . 



I 



(Ibiboca) — Tanto Marcgrave como o P. Anchieta re- 
gistx-am êste nome indígena, aplicado à "Cobra co- 
ral". Não sabemos, porém, si ainda hoje é têrmo usado 
pelo povo. A etimologia, atribuindo hábitos subterrâneos 
às corais, é acertada, pois essas cobras encontram-se de 
preferência nas perfurações do solo ou então nos cupins, 
onde procuram seu alimento predileto, os reptis vermifor- 
mes e os anfíbios também apodes: "Cobra cega" e 
"Cobra de duas cabeças". Tivemos ocasião de 
verificar que uma coral, Mícrurus lemniscatus, de 95 cms. 
havia engolido, todo inteiro, um Lepidosternon microce- 
phaluni de 38 cms. de comprimento. 

Ibijara — O mesmo que "Cobra de duas ca- 
beça s". 

Ibijáu — Em Pernambuco, é o mesmo que "Ba- 
curau ". 

Içá — E' a fêmea da "S a ú v a", a rainha do sauvei- 
ro, conhecida por "T a n a j u r a" no Norte do Brasil. Em 
certo tempo do ano, 
de Outubro a Dezem- , 



(veja sob "Sabi- f- \J 

tús"), também ala- ká 
dos. Depois, cada 

fêmea, tendo escolhido o local onde vai fundar o novo ni- 
nho, desfaz-se das azas, por auto-amputação e cava a pri- 
meira "panela", o início do futuro .sauveiro. Enclausuran- 
do-se então para tôda a vida, fecha a porta de entrada e 
seu primeiro cuidado é iniciar o horto de cogumelos, de 
que única e exclusivamente se alimenta esta espécie de 
formigas. 

A ê.ste respeito o Prof. H. von Ihering fez a seguinte 
verificação, muito interessante porque documenta o alto 
gráu de previdência dêstes insetos. O içá tem o cuidado de 



bro, os içás virgens 
saem dos ninhos e, 
voando, encontram- 
se com os machos 




— 390 — 



levar consigo, antes do vôo nupcial, uma partícula do fun- 
go, como semente, guardando-a em um recanto especial 
da cavidade bucal. Os primeiros ovos que o içá põe, ao 
que parece, destinam-se a ura fim todo especial — e certa- 
mente será êste um caso raro em toda série animal : a pró- 
pria mãe os desmancha, espalhando a preciosa substância 
sobre o chão, para servir de meio de cultura aos cogume- 
los. De fato, o içá precisa cuidar com todo carinho da se- 
menteira, pois nesta primeira fase êle não conta ainda com 
o auxílio da prole, que ao depois se encarregará destes 
trabalhos, trazendo continuamente vegetais frescos para 
as "panelas"; é sabido que toda a folhagem que as saú- 
vas carregam para o ninho, tem unicamente a serventia de 
meio de cultura para o cogumelo, alimento de tôda a po- 
pulação do sauveiro. 

Logo após começa a postura de ovos, dos quais, cêrca 
de mês e meio depois do início do ninho, provém as pri- 
meiras formigas operárias e com elas o sauveiro começa 
a funcionar, isto é, a depredar a vegetíição circunvizinha 
6 principalmente a lavoura. 

Lembraremos, apenas de passagem, a "paçoca", pre- 
parada com os abdómens roliços dos içás; mas a verda- 
deira guerra a êstes disseminadores da praga máxima de 
nossas lavouras incumbe aos pássaros, que avidamente 
perseguem o gordo pitéu. Por isto o agricultor, para evi- 
tar futuras despesas avultadas com formicida, deve fazer 
o possível por ter numerosos bandos de pássaros em suas 
terras. Que prazer, para todo lavrador, vêr como o caça- 
dor plumado apanha o içá no ar, lhe saboreia a bola de 
ovos e solta o resto, que não lhe sabe, por ser apenas qui^ 
tina. Assim mutilada, a formiga ainda tem vida por al- 
gum tempo e já vimos um içá nessas condições ocupado 
em cavar sua panela, quando, claro está, nada mais havia 
a temer dêase seu esforço inútil. Seja mais uma vez lem- 
brado o seguinte, como melhor recursos na roça, para ex- 
terminar os içás nessas poucas horas em que vôam. Nas 
escolas i-urais, as crianças serão dispensadas pelo profes- 
sor, no momento em que começarem a aparecer os içás, 
mas com a recomendação de catarem, na roça, quantas des- 
sas formigas puderem encontrar. No dia .seguinte, à vis- 
ta do resultado obtido, serão conferidos prémios aos cole- 
giais mais ativos e a.ssim, além do estímulo e do proveito 
direto, as crianças sempre mais se compenetrarão dessa 
necessidade absoluta de combatermos os içás, para impe- 
dir a formação de outros tantos sauveiros novos. 



SciELO 



10 11 12 ; 



— 391 — 

Icanga — Corruptela de "Saicanga". (Veja-se 
"Peixe-cachorr o") . 

Iguana — Èste vocábulo, de origem indígena das 
Guianas, é antes têrmo erudito, pois o nosso povo diz 
"Camaleão" ou "S i n i m b ú". 

Iguanara — Têrmo amazônico que, segundo infor- 
mação, que aliás não vimos melhor confirmada, designa 
o "Mão pelada". Talvez sua etimologia se explique 
como jaguanara (jaguar — diversos carnívoros). 

Imbucurú — No litoral paulista parece que é sinó- 
nimo de " C u r u r u á" ou "R a t o de e s p i n h o". 

Imerí — Vimos registrado como nome de abelha so- 
cial, do Paraná e Mato Grosso; não sabemos a que espécie 
mais conhecida possa corresponder. 

Imundícia — Emprestando acepção zoológica ao têr- 
mo, o povo lhe dá significação equivalente a "s e v a n d i - 
j a". Amadeu Amaral (em "Dialecto Caipira") o regis- 
tra como: caça miúda; Chermont Miranda, na ilha Ma- 
rajó, diz que os criadores designam assim, coletivamente, 
todos os insctos e ácaros que flagelam o gado. 

Inajá ou "I n a j é" — Ave de rapina, do Brasil cen- 
tral ; provavelmente é a mesma espécie mais geralmente 
conhecida por "I n d a i é". 

Inambú — também "Nambu". Aves da fam. Ti- 
namddeos, gên. Cryj)turus (veja também "Sur urina" 
assim como "Ma cuco", pois as espécies do gên. Tina- 
mus na Amazónia também são "I n a m b ú s"). As 14 es- 
pécies brasileiras dêste género representam um tipo ho- 
mogéneo quanto ao feitio, variando apenas de tamanho 
e um tanto no colorido. Algumas espécies são de côr uni- 
forme, outras têm abundantes desenhos de linhas escuras 
no dorso e sobre as azas. A cauda ou falta ou é represen- 
tada por penas tão curtas, que as coberteiras as escondem. 
Os dois sexos quasi que não se diferenciam. São aves que 
vivem no chão, alimentando-se de frutos e sementes; 
voam pouco. Os ovos são lisos e lustrosos, de cores verde- 
azulada ou branco-chocolate. 

Conquanto, pelas suas dimensões menores, estas aves 
não proporcionem ao caçador tanta carne como os mu- 
tuns e jacús, a caça aos inambús é das mais apreciadas. 
E onde ainda haja matas, nas quais ao menos nos meses 
da procreação seja proibido perseguir as aves, é fácil aba- 



5SCÍELO 9 11 12 



— 392 - 

ter pelo menos alguns inambús em uma manhã. Quem 
souber "piar" (ou com o pio apropriado ou simplesmente 
soprando no côncavo das mãos, de modo a produzir o som 
adequado), consegue atrair a caça, escondida no mato. 
Aproximando-se aos poucos e respondendo sempre ao su- 
posto companheiro, a ave chega a pousar tão perto do 
caçador que êste às vezes fica sem saber como deve ati- 
rar. Cada espécie de inambú pia de modo diverso, porém 
todas elas emitem apenas assobios curtos, cheios e sono- 
ros, repetidos no mesmo tom ou formando escala ascen- 




Inambú 

dente ou descendente. Os pios das duas espécies mais co- 
muns no Sul, o "g u a s s ú" e o "c h ó r ó r ó", imitam-se 
bem assobiando e mantendo um pouco de saliva na ponta 
da língua encurvada, para assim emitir som trinado. A 
espécie maior assobia uma escala ascendente, a menor, ao 
conti-ário, desce a escala cromática e ambas apressam os 
intervalos e a duração das notas finais. Conquanto piem 
principalmente de manhã e à tardinha, também durante 
o dia se lhes ouve a voz. O "J a ó", que pertence ao mes- 
mo género, emite apenas 4 notas, também apressadas no 
final. As crianças facilmente apanham os inambús, ar- 
mando laços em lugares previamente cevados. Alguns 
grãos de milho conduzem a ave para o laço, armado um 
pouco à margem do trilho, para que fique ao abrigo dos 
transeuntes. Uma varinha flexível mantém distendido o 
fio, armado como uma ratoeira comum e basta a ave bicar 
o primeiro grão, para que o laço lhe aperte o pescoço. A 



SciELO 



10 11 12 ; 



quem souber armar bem tais laços, raramente escapa a 
descuidosa avezinha. 

O povo achou tão singular a falta de penas caudais 
nestas aves, que aproveitou o fato para um provérbio: 
"Inambú, de tanto fazer favor, ficou sem rabo"; assim o 
caipira confirma o conceito do ditado mais em voga na 
cidade: "Quem empresta, não melhora". 

Inambú anhangá — ou "I. sara cu ira". 

Inambú chintã — Esta espécie ocorre da Baía para 
o Sul até a Argentina (C. tataupa). Mede 25 cms. de com- 
primento. O colorido do dorso é bruno-castanho, a cabe- 
ça e o pescoço são cinzento-escuros, a garganta e o meio 
da barriga brancos, o resto do lado inferior cinzento; os 
lados da barriga e as coberteiras inferiores da cauda são 
pretas com largas orlas brancacentas. O bico é vermelho, 
as pernas são roxo-encarnadas. Esta espécie, aliás muito 
semelhante ao "I. chororó", habita só as matas. 

Inambú chororó — C. 'parvirostris, tem a mesma dis- 
tribuição geográfica do "I. c h i n t ã" e com êle se parece 
muito, sendo apenas um pouco menor e o colorido é um 
tanto mais pálido no lado dorsal ; as pernas são franca- 
mente escarlates. Não é da mata, mas das capoeiras das 
regiões de campo. O pio do inambú chororó pode ser re- 
])resentado facilmente por meio de quatro notas iguais, 
cuja duração é, sucessivamente, mais apressada. São qua- 
tro pios sêcos, não trinados, sem sonoridade harmónica e 
que a ave faz ouvir de vez em quando, espaçadamente. 

Inambú coá — O mesmo que "I. s u j o". 

Inambú-guassú — Do Rio Grande do Sul até Minas 
tem êste nome Crypturus obxoletvs; na Amazónia, onde 
essa espécie não ocorre, tem igual nome o "I n h a m b ú - 
t o r ó", Tmmnus tua, espécie que corresponde a Thiamus 
solitarius do Sul, conhecida aqui por "M a c u c o". Cryp- 
turus obsoletns é, como diz o nome indígena, a nossa maior 
espécie, medindo 30 cms. de comprimento. O colorido do 
lado dorsal é bruno-avermelhado ; a cabeça e o pescoço são 
denegridos, a garganta cinzenta, o peito castanho escuro, 
a barriga amarelenta, com largas faixas pretas na parte 
posterior. E' ave da mata. 

Inambú-i — O mesmo que "Codorna". 

Inambú pixuna — O mesmo que "Inambú suj o". 

Inaml)ú relógio — Na Amazónia Crypttirus striyn- 
loNiiK, assim chamado porque, tanto desta ave como da 



— 394 — 



"S u r u r i n a", o povo afirma que seu canto marca as 
horas. Difere do "I . s a r a c u 1 r a" por alguns caracte- 
res sutís de colorido, como seja o tom menos avermelhado 
de todo o lado dorsal. 

Inambú saracuíra ou "I. anhangá" — E' espécie 
do Norte do Brasil (Baía à Amazónia) Cri/pturus vurie- 
ijaf/us, semelhante a C. strignlosus ("I. relógio"). O 
lado dorsal, inclusive as azas, é como que escamado de pre- 
to, com as linhas divisórias amarelo-avermelhadas; o pes- 
coço em cima é castanho vivo, a cabeça cinzenta; o lado in- 
ferior é mais cinzento e a garganta branca. 

Inambú sujo ou "I. p i x u n a" ou "I. c o á" — E' 

uma espécie amazônica, C. cinereus, de côr cinzenta, uni- 
forme. 

Inambú-toró — O mesmo que "Inambú- 
guassú". 

Inchú e "I n c h u í" — Veja sob "E n c h ú". 

Indaié — Na Amazónia e em Mato Grosso designa 
uma ave de rapina, que, segundo Goeldi, é a mesma es- 
pécie também conhecida por "Gavião carijó". O 
autor de "Inocência" grafou "Inajá", referindo-se a 
uma ave de rapina, que provavelmente é esta mesma es- 
pécie. Em guarani puj'o designa os Falcnnideos em geral. 
Registrámos as duas pronúncias, pois também Barbosa 
Rodrigues grafa "Inajé" (Amazónia) como se vê na 
lenda que transcrevemos sob "Urubu". 

Inhabopê — (ou "Enapopé" como grafou Th. 
Sampaio). Alteração da palavra "I n h a m b ú - p ê", isto 
é, determinada espécie de inambú ou a "Perdiz". De 
fato, segundo Spix, o nome indígena da perdiz seria 
"e n a p u p é", o que parece ser evidente cacografia da 
"i n h a m b ú - p é" ou peba (peva) ou na pronúncia ser- 
gipana: "Inabupé". 

(Inhacurutú) — Parece ser a forma primitiva do no- 
me das corujas ; hoje pronuncia-se " J a c u r u t ú". 

Inhatium — Empregado por Alb. Rangel significan- 
do mosquito. E' vocábulo tupi, com acepção lata de 
"Pernilongo". Confronte-.se "Jateum", que é 
certamente corruptela. 

Inhaúma ou Inhuma — O mesmo que "A n h u m a"- 
Diz-se também "I n h u m a - p o c a", por "Anhuma- 
p o c a ". 



5SCÍELO 9 10 11 1 



Insetos — A Entomologia estuda somente os insetos, 
com exclusão portanto dos outx-os grupos de Artrópodes, 
que são os Crustáceos, as Centopeias e os Ai-acnoides. 
Assim é errado dizer que uma aranha ou o escorpião é um 
inseto. 

Nem será preciso aumentar, por essa forma, o nú- 
mero de espécies abrangidas neste conjunto. Shipley em 
1910 computou em 450.000 o número das espécies conhe- 
cidas e recentemente Costa Lima (Insetos do Brasil, Vol. 
I) aceitou a contagem que atinge um total de 625.000 es- 
pécies. Atribuindo 1/10 dêsse total mundial à nossa fau- 
na, caberia ao entomologista brasileiro encher um livro 
de 1.500 páginas do presente formato, para ter simples- 
mente enumerado, linha por linha, apenas os nomes de to- 
das essas espécies ! 

' Cingindo-nos às ordens estabelecidas na classe dos 
insetos, deveríamos enumerar 28 delas, pelo sistema mais 
simples do entomologista austríaco Ilandlirsch ou do 
americano Comstock, para não adotarmos o-de Krausse e 
Wolff, que nos obrigaria a decorar 69 nomes de ordens de 
insetos. 

Para uso escolar basta eiumlerar as seguintes 13 or- 
dens, como o fizemos em nosso "Atlas da Fauna do Bra- 
sil", em 1917; mas é evidente que não bastam estas 24 
divisões para diferenciar convenientemente os principais 
grupos. 

Siphonaptcros — "Pulgas". 
Corrodencios — subdivididos em: 

Termitideos — "Cupins" 

Psocideos 

Mallophagideos — "Piolho de galinha" 

Pcdiculideos — "Piolho s". 
Ephemeridos — "E f e m é r i d a s", "S i r i r u i a". 
Dipteros — "Moscas", "Mosquitos". 
Lepidopteros — "Borboletas", " M a r i p o - 

s a s", "T r a ç a s". 
Trichopteros — "C u r u b i x á". 
Thysanopteros — "Q u e i m a". 
Coleojderos — "Besouros". 
Ilymenopteros — "Abelhas", "Vespas", 

"F o r m i ga s". 
Orthoplo os — subdivididos em : 

Forficididcos — "L a c r a i n h a". 

Blattideos — "Barata s". 

Mnufidcns — "L o u v a - D e u s". 



— 396 — 

Phasmideos — *'B i c h o - p a u". 

Tettigoniideos — "Esperança". 

Locustideos — "Gafanhoto s". 

Gryllideos — "Grilos". 
Odonatos — "L i b é 1 u 1 a s". 
Neuropteros 

Rhynchotas — subdivididos em : 

Hemipteros — "Percevejo s". 
Homopteros — "Cigarras". 
Phythophthireos — "Piolhos dos vege- 
tais" ou "Coccídeos". 

Costa Lima, em sua obra "Insetos do Brasil", ado- 
tou sistema mais amplo, que abrange 30 ordens, para mui- 
tas das quais a nomenclatura popular não possue nome 
correspondente (e que por isto figuram entre parênte- 
sis na lista seguinte) ; estão assinaladas com "x" as que 
abrangem milhares de espécies. Aqui suprimimos 2 des- 
sas ordens, cujas poucas espécies não ocorrem no Brasil. 





Ordens 


Denominação popular 


1) 


Thysanura — 


"Traça dos livros", "Le- 
p i s m a". 


2) 


( Collembola) 




3) 


Ephcmerida 


— " E f e m é r i d a " S i r i - 
r u i a". 


4) 


Odonuta — ' 


' L i b é 1 u 1 a s ", "L a v a n d e i - 




r a s ". 


5) 


(Perlariae) 




6) 


(Emhiidina) 




7)x 


Orthoptera — 


- "G a f a n h 0 t o", "Esperan- 
ça", "Grilo", "Paquinha". 






8) 


Phnsniida — 


" B i c h 0 - p a u ". 


9) 


Dermaptera - 


— "L a c r a i n h a". 


10) 


Blattariae — 


"Barata". 


11) 


Mantoden — 


"Louva-Deu s". 


12) 


Isoptera — " 


C u p i n s". 


13) 


(Zornptera) 




14) 


( Corrodentia) 


15) 


MoUnphafia — 


-"Piolho de galinha" 


16) 


Anoplura — 


'Piolhos". 


17) 


Thymnoptera 


— (veja "Queima"— Thryps)- 


18)x 


Hcmiptcra — 


"Percevej os". 


19)x 


Hcnnoptera — 


- "Cigarras ". 


20) 


(Neitroptera) 




21) 


(Pmwrpatac) 





Ordens Denominatio popular 

22 ) Trichoptera — " C u r u b i x á ". 

23) Lepidoptera — "Borboletas", "Mari- 

posas", "Traças". 

24) x Diptera — "Mosca s", "Mosquito s". 

25) Siphonaptera — "Pulgas". 

26 ) x Coleoptera — "Besouros". 

27) (Strepsiptera) 

28) X Hymenoptera — "Abelha s", "Vespa s", 

"Formiga s". 

À vista do que ficou dito, compreende-se facilmente 
que não há entomologista capaz de dar a classificação, 
nem apenas o nome da respectiva família, de todos os in- 
setos de uma região, por limitada que seja. Dos grupos 
que já tenha estudado, dará prontamente o nome do gé- 
nero e talvez da espécie; dos grupos restantes, sempre em 
maior número, dará apenas a ordem, talvez a família e 
com uma boa monografia (si por feliz acaso já existir!) 
fará o respectivo estudo. Tal monografia de que necessita, 
às vezes moderna e portanto fácil de manusear, ou então 
antiga e que assim não encerra os trabalhos recentes (que 
deverão ser procurados no Zoological Record), pode ser 
em português (e bem limitado é o número destas!), em 
alemão, francês, inglês, italiano ou mesmo em latim, sue- 
co, dinamarquês ou russo. Portanto o entomologista, 
além de pi-ofundos conhecimentos gerais de zoologia ento- 
mológica, deve também ser um poliglota, sem o que es- 
tará com as mãos amarradas. 

E uma vez verificado o nome da espécie (ou si, após 
conscienciosa busca através de tôda a literatui-a indicada 
pelo Zoulogical Record, do ano da última monografia i)a- 
ra cá, verificar que a espécie é nova, isto é, que não foi 
ainda descrita e portanto lhe cabe descrevê-la) então co- 
meçará o trabalho mais interessante : o estudo da biolo- 
gia do inseto em questão. 

Antes de mais nada, leia o incipiente entomologista 
o paradigma que são os "Souvenirs Entomologiques" de 
J. H. Fabre e saberá o que tem a fazer — si para tanto 
lhe ajudarem a paciência e a habilidade, mas principal- 
mente a indispensável pachorra e o tempo necessário que 
se "perde" durante as meticulosas investigações. Nem 
todos os amadores de tais estudos podem, por êste ou 
aquele motivo, fazer a rigorosa classificação de um inse- 
to pouco comum. Não é desdouro recorrer, nestes casos, 
um especialista, enviando-lhe alguns espécimens e pe- 



^ 398 — 



dindo-lhe a determinação exata da espécie, e também a in- 
dicação da literatura já existente a respeito. Verificado 
que há questões ainda duvidosas a resolver com relação 
a particularidades intei-essantes da vida do inseto obser- 
vado, com poucos recursos técnicos o amador pode iniciar 
seus trabalhos, bastando-lhe em geral um caderno para 
os apontamentos meticulosos e uma lente. Um aparelho 
fotográfico pode prestar ótimos serviços, mas é muito 
conveniente saber desenhar, para assim fixar as posições 
mais características, o aspecto exterior do ninho ou respec- 
tiva planta interna, enfim muitos detalhes que o gráfico 
explica melhor que uma descrição. Os apontamentos de- 
vem ser feitos com a preocupação de se registrar tudo 
quanto fór observado; muitas vezes só mais tarde se con- 
segue estabelecer o nexo entre êste e aquele fato e, ten- 
do desprezado um dêles a princípio, nem sempre é pos- 
sível recordar os dados exatos não anotados. Só mais 
tarde, ao se elaborar a descrição definitiva, pode-se su- 
primir o que evidentemente é inútil esmiuçar. 

■ Apontamentos interessantes ou cm iosos a respeito da 
vida dos insetos: 

— Uma formiga, 4 ou 5 dias depois de decapitada, 
ainda dá sinais de vida, por meio de movimentos das ex- 
tremidades. 

— O peso do cérebro de um besouro corresponde a 
1/3500 do seu peso total; na abelha essa proporção é de 
1/174. (No homem o peso do cérebro corresponde a 1/40 
do peso do corpo). 

— A formiga saúva carrega, morro acima, morro a 
baixo, um grão de milho que corresponde a 20 vezes o pe- 
so do seu corpo; assim carregada, anda talvez meio qui- 
lómetro — o que, com relação ao homem, equivale a mui- 
tas e muitas léguas, si tomarmos em consideração o ta- 
manho do pequeno carregador. Um homem, no entanto, 
consegue carregar, apenas a cui'ta distância, quatro sa- 
cos de café — ou seja 4 vezes o peso do seu corpo; pai'a 
uma marcha regular, uma carga igual à metade do seu 
próprio peso já é demasiada. Um elefante pode transpor- 
tar 1.000 kilos (1/4 de seu peso), a pequena distância; 
em viagem deve se lhe carregar apenas 400 a 500 kilos 
(1/8 do seu peso). 

— Quantos dias ou anos vivem os insetos? A fase 
larval pode desenrohu--se em 1 ou 2 semanas, como pode 
demorar 17 anos. No estado adulto também acontece o 
mesmo, conforme a espécie: 24 horas, si tanto, são o pra- 



— 399 — 



zo de vida alada, concedido às Efeméridas e 8 a 10 anos 
a rainha de um formigueiro ou de um cupim preside aos 
destinos de sua prole, que cada dois ou três meses se renova 
e se substitue. Entre tais casos extremos há todas as gra- 
duações: há borboletas que vivem apenas alguns dias, ou- 
tras espécies esfrangalham a linda roupagem, velha de 
alguns meses. O mosquito da febre amarela consegue 
viver 5 meses; a pulga 18 meses, sem alimento e em 
boas condições vive até 8 anos. Uma rainha de abelha 
do reino assiste 5 vezes à matança anual dos consortes, 
que no começo de cada inverno são eliminados . . . quando 
já não valem o mel que comem. 

— E' muito variável o número de vezes que as larvas 
dos insetos mudam de roupa, que é o seu tegumento de 
quitina, antes de atingir o estado adulto. Daí por diante 
os insetos nunca mais trocam de roupagem, pelo contrá- 
rio, só perdem o brilho ou as lindas escamas. Em geral as 
larvas das moscas mudam 3 vezes de quitina; as lagartas 
das borboletas e os saltões dos gafanhotos o fazem 4 ou 
5 vezes; as larvas dos besouros 7 vezes; mas as das ci- 
garras, que vivem durante vários anos debaixo da terra, 
chegam a mudar seu revestimento externo 20 e 30 vezes. 

— As larvas das libélulas ou lavandeiras são aquá- 
ticas e respiram por meio de numerosas lamelas, que fun- 
cionam como as guelras dos peixes. O número dessas la- 
melas pode ser superior a 24.000 e o mais curioso é que 
elas se acham situadas na porção final do intestino, no re- 
to. Fazendo penetrar água pelo anus, a larva respira. 
Além disso essa mesma água pode ser expelida brusca- 
mente e então atua como foi-ça propulsora — é um meio 
de locomoção tão bom como qualquer outro, que lembra 
quasi o tipo dos navios a hélice. 

— Muitos insetos resistem durante longo tempo à as- 
fixia por submersão; há besouros estranhos à vida aquá- 
tica que só morrem após 96 horas de imersão completa. 
O fato explica-se da seguinte forma: permanecendo imó- 
vel, o inseto gasta pouco ar. Sua respiração se faz por 
ineio dos tubos de Malpighi, que, com suas mais finas ra- 
mificações recobrem os órgãos a que devem fornecer o 
oxigénio. As respectivas aberturas externas se acham ao 
longo do abdómen; são os estigmas, providos de lábios; 
ao contrário dos outros animais, os insetos apenas forçam 
^ expiração do ar, dando-se a inspiração pelo simples re- 
laxamento dos músculos. Fechados os estigmas e fingin- 
do-se de morto, o besouro continua por longo tempo a gas- 



SciELO 



10 11 12 1 



400 — 



tar o ar contido nas múltiplas ramificações cio sistema 
respiratório. 

— Os dois grandes globos oculares dos insetos são 
facetados e a cada uma destas minúsculas lentes hexago- 
nais corresponde uma célula da retina. Pois há insetos 
cujo globo ocular tem apenas algumas centenas de lentes 
hexagonais e outros há em que foram contados até 25 . 000 
desses hexágonos. Apezar disto não é tanto pela vista, co- 
mo pelo sentido do olfato, aliado a um sentido de orien- 
tação especial, que os insetos regulam sua vida. 

— A rainha de um cupim tem o corpo todo transfor- 
mado em um formidável novelo de ovários. O inseto, dis- 
forme quasi, nem se move e o alimento lhe é dado na bo- 
ca pelos operários, assim como a outros compete carre- 
gar os ovos postos pela rainha, para os diversos andares 
do cupim. Fossem assim as galinhas: cada segundo a 
rainha põe dois ovos e isto quasi sem interrupção, dia e 
noite. Por isso, o serviço também rende. Descansando 
apenas um pouco, em 24 horas são 30.000 ovos que ela 
põe. E o trabalho é contínuo, no verão e no inverno (e é 
de .supor que nem domingos nem feriados haja no calen- 
dário dos cupins). Uma rainha dessas vive talvez 10 anos. 

— A partenogênese (reprodução da espécie sem a 
presença do sexo masculino) é um fato vulgar em muitas 
espécies de insetos; muitas mariposas têm sido criadas 
de ovos não fecundados; entre os ortópteros Phasmi- 
deos ("B i c h o - p a u"), às vezes num conjunto de mil 
espécimens, só se encontra um único macho e assim 
muitas vezes as gerações se sucedem sem que haja 
indivíduos masculinos. Nos pequenos himenópteros cau- 
sadores de galhas, um naturalista durante 7 anos criou 
e examinou cuidadosamente 3.720 espécimens e nunca 
encontrou um único macho. Nos pulgões das rosei- 
ras (Aj)hideos), nos climas frios, durante o verão, as 
várias gerações se sucedem partenogeneticamente e só 
pouco antes do inverno aparecem os machos. Veja-se a 
êste respeito a ob.servação de Carlos Moreira, sob "Pul- 
gões". 

— Poucos são os insetos que nos servem de alimento. 
O mel das abelhas é aproveitado em todo o mundo. Os 
içás ainda hoje têm seus apreciadores. Os gafanhotos, nos 
tempos bíblicos formavam parte do cardápio do S. João 
e de outros ascetas e ainda hoje na África, os beduínos po- 
bres gostam de gafanhotos torrados, depois de arranca- 
das as respectivas azas e pernas. As gordas lagartas das 



— 401 — 



mariposas (veja-ae sob "B i c h o da taquara") têm 
quem lhes gabe o ótimo sabor. Muito mais vezes, porém, 
somos nós que damos nosso sangue como alimento à enor- 
me hoste dos insetos hematófagos. Diretamente úteis nos 
são apenas o bicho da seda, a cochonilha, a cantárida e 
bem poucos outros insetos mais. 

Inseticidas — Quem quizer matar insetos para guar- 
dá-los, para estudo ou para enfeite ou coleção, fá-lo-á da 
seguinte forma: Prepara-se um vidro de bôca larga com 
boa rolha e, sobre algumas pedras de cianureto de potás- 
sio deitadas no fundo, despeja-se gesso em pasta. Sêco o 
gesso, o veneno ficará bem isolado, mas ainda assim o in- 
seto preso no vidro morrerá quasi instantaneamente. Pôde 
também preencher o mesmo fim um pouco de algodão em- 
bebido com éter. 

Para os casos em que se trate de matar insetos con- 
tidos em mercadorias ou quaisquer objetos que possam 
ser levados a uma estufa, o melhor remédio é o bom sulfu- 
reto de carbono (formicida), despejado em pratos coloca- 
dos juntamente com a mercadoria na estufa. A quanti- 
dade a empregar é de 400 cc. por metro cúbico e deverá 
atuar durante 24 a 48 horas. O gás não estraga coisa 
alguma, nem diminuo a germinabilidade das sementes. Re- 
comenua-se o máximo cuidado com fogo, pois é fácil dar- 
se uma explosão. Como estufa provisória serve qualquer 
caixa ou um ambiente sem frinchas (estas devem ser ca- 
lafetadas ou coladas com tiras de papel grosso), de modo 
que o ambiente seja perfeitamente estanque e o gás não 
possa fugir. 

Como inseticida líquido recomenda-se em primeiro lu- 
gar o petróleo ou a gazolina, sempre que possa ser apli- 
cado sem prejuízo para a mercadoria. O líquido atua por 
contato, destruindo os estigmas ou órgãos respiratórios 
dos insetos, matando-os assim por asfixia. Veja-se tam- 
bém a fórmula indicada sob "Coccídeos" e que, com 
ligeiras variantes, tem largo emprego no combate às pra- 
gas dos vegetais. O decocto de fumo em corda em muitos 
■casos é de grande eficácia. O verde Paris, misturando 
com farinha de trigo e pulverizado, de madrugada, sobre 
as plantas orvalhadas, é eficaz e bem assim os demais ar- 
seniatos quando se trata de matar as lagartas que comem 
as folhas das plantas cultivadas. 

O cianureto é por certo, ótimo inseticida para de- 
terminados casos (saúva) , mas seu manejo é demasiado pe- 
rigoso para as pessoas e principalmente para as crianças. 



5SCÍELO 9 11 12 1 



402 — 



Ipecú — Na Amazónia é sinónimo de "P i c a - p a u". 

Ipecú-mirim — Na Amazónia designa os pequenos 
pica-paus do gên. Picvmvus. 

Ipcquí — O mesmo que "Pica p a r r a". 

(Ipopiara) — Assim era denominado, no litoral do 
Estado de S. Paulo, ao tempo do descobrimento, um "de- 
mónio do mar". Veja-se o que ficou dito a respeito da 
Otária, sob "Lobo do ma r". 

Ipú — Espécie de abelha (MeUponideon) dô chão, 
do interior do Estado de S. Paulo e que, segundo nos in- 
formou o dr. Barros Penteado, nidifica a 1 ou 1 14 m. de 
profundidade; o mel é bom e caracteriza-se por ser de 
cór diferente nos vários potes, aliás pequenos. Talvez 
seja sinónimo de outra denominação já registrada. 

Irá-mirim — No Rio Grande do Sul é uma espécie 
de abelha que vive em buracos no chão, fornecendo mel 
de ótima qualidade; segundo Romaguera só é conhecida 
da região das Missões. 

Irapuã ou "Arapoâ" ou "Arapuá" — Abelha 
social da fam. Meliponídeos, Tríffona vuficrKs, de 6,5 a 
7 mms. de comprimento, preta, reluzente, com colorido 
ocre escuro nas pernas; azas quasi pretas na metade ba- 
sal, com reflexos violáceos e com a metade apical mais cla- 
ra. O ninho é uma bola de meio metro de diâmetro, revesti- 
da exteriormente por algumas camadas de material frtlha- 
do, quebradiço, que envolve não só o ninho propriamente di- 
to (células e potes de mel), como ainda um anexo, às vezes 
considerável, constituído por uma massa compacta de 
bari'0 e cei'a. Esta última parte do ninho não é habitada, 
pois nem há canais que a atravessem c assim parece que 
tem unicamente a função de dar peso ao ninho, para que 
êste não balance com o vento. E' uma das ])oucas espé- 
cies dos nossos Meliponídeos que fazem ninho dependu- 
rado nas árvores (veja também "Iraxim") e não em 
cavidades. Parece que êste modo de fazer ninho livre 
coincide com um temperamento agressivo da respectiva 
abelha e, de fato, as irapuãs, percebendo que alguém lhes 
toca no ninho, precipitam-se em massa sobre o importuno 
e, ainda que não saibam ferir, em geral conseguem seu in- 
tento, usando o estratagema que caracteriza as abelhas 
"t o r c e - c a b e 1 o". O mel é pouco, de qualidade infe- 
rior e de gosto desagradável. 

A irapuã torna-se útil, contribuindo para a boa poli- 
nização de algumas flores (bananeiras), mas no pomar, 



403 — 



apezar disto, é considerada daninha, porque, para apro- 
veitar logo o pólen, abre os botões das laranjeiras muito 
antes do tempo, estragando assim a florada. E' uma das 
espécies mais comuns no Brasil. 

À sinonímia científica desta espécie A. Ducke acres- 
centou várias sub-espécies, distinguidas principalmente 
pelo colorido das azas, mais ou menos enfumaçadas, ama- 
reladas ou hialinas. Segundo A. Miranda Ribeiro em 
Mato Grosso T. ruficrns fUividiptnnis tem o nome vulgar 
"G u a X u p é"; no entanto não há certeza si essa espécie 
corresponde àquela que, pelo mesmo nome é conhecido 
em Minas Gei'ais. 

No Nordeste, à margem do rio S. Francisco, tivemos 
conhecimento de uma aplicação muito especial que os 
pescadores souberam dar ao ninho desta abelha. Tritu- 
rando e cozinhando a parte compacta do ninho, a que 
acima aludimos, põem essa massa em cestos e lavam-na 
nas águas que querem tinguijar, para matar os peixes. 
Como o verificámos, esse "T i n g u í d e ara p u á" é 
um tóxico violento para os peixes, porém inofensivo aos 
mamíferos e à maioria dos seres inferiores. 

Irara ou "Papa-mel" — Tayra barbara, de 
corpo baixo e longo (66cms.) e cauda pouco mais curta 




(compr. total 110 cms.). A côr geral é pardacenta, um 
pouco mais cinzenta na cabeça; no pescoço uma grande 
mancha amarelada caracteriza bem esta espécie. E' a 



— 404 — 



única do género em todo o Brasil e além disto extende-átí 
ainda até o México. Vive nas matas e à noite sai à caça 
de pássaros e ovos e até mamíferos do tamanho da cutia 
não lhe escapam. Além disto é ávida por mel de pau (o 
que motivou sua denominação, tanto portuguesa como in- 
dígena). Sendo possível, procura chegar ao ninho das 
abelhas, entrando ])elas raízes no ôco do pau ; mas, sí de 
outra forma não puder atingir a cavidade, mete os dentes 
na madeira e assim, arrancando lascas do tronco, muitas 
vezes consegue locupletar-se. No galinheiro é um sangui- 
nário, que mata só para sugar o sangue das vítimas, às 
vezes bem numerosas. 

Iratauá ou "Aratauá" — Na Amazónia designa 
vários pássaros da fam. Icterideos, do grupo dos "Vi- 
ras", coloridos de preto e amarelo (Agclaiua, Gymno- 
mystax). 

Iraúna — Pronúncia amazônica por "G r a ú n a". 

Iraúna de bico branco — Pássaro da mesma família 
da "G r a ú n a" e semelhante a esta, porém de bico 
branco (Amhlycercus aolitarins ) . E' do Norte, de Per- 
nambuco até a Amazónia e daí se extende para o Sul, Ma- 
to Grosso e Paraguai, sem ocorrer no litoral meridional. 

Iraxim ou "I r a t i m" e ainda "E r a t í" — Abelhas 
sociais da fam. MeUponideos, que constroem ninhos de 
bari'o, não em cavidades, mas formando grande bola, 
presa entre os galhos das árvores ou entre bromeliáceas 
(Caraguatá). São elas: Trigona ciipira e T. helleri, aliás 
de classificação ainda duvidosa, como ficou dito sob 
"C u p i r a". 

A determinação da espécie é difícil, pois há varia- 
ções que A. Ducke considera sub-espécies de Mclipona pal- 
lida. Esta, assim considerada, abrange diversos tipos de 
nidificação; além do acima descrito, há ninhos em cupins 
arbóreos, em árvores ôcas e ninhos subterrâneos ("Mel 
de s a p o"). E' um dos muitos casos a decidir na siste- 
mática dos Mclipovideos: devemos empregar classificação 
unicamente morfológica ou amplamente biológica? O mes- 
mo nome "I r a x i m" é atribuído a uma espécie tão carac- 
terística que foi considerada pelo Ur. II. Friese como tipo 
de um sub-gênero, Lestrimelitfa Umrio, em cujas obreiras 
as tíbias posteriores não têm nem vestígio de corbícula 
(expansão lateral, destinada ao transporte de pólen). O 
ninho desta Melipona (Trigona) linuio é acomodado em 
ôcos de árvores e a entrada, muito volumosa, em forma 



5SCÍELO 9 11 12 



405 



de tubo e enfeitada com protuberâncias, é feita de cera 
impura. A abelha cheira a limão, o que motivou sua de- 
nominação "L i m ã o" ou "L i m ã o ca n u d o"' no Nor- 
deste. 

Irerê ou " M a r r e c a do Par á " ou "Mar- 
reca apaí" (na Amazónia), também "Chega e 
vira" — Espécie de vasta distribuição, não apenas na 
América do Sul, mas ainda na África (Dendroci/gna vi- 
dnattt). E' antes um pequeno ganso, pois seus tarsos são 




Irerê 



altos e reticulados. A parte anterior da cabeça é branca, 
bem como a garganta ; segue-se, contrastando vivamente, 
uma grande zona preta que abrange também a parte su- 
perior do pescoço, ao passo que a parte inferior dêste é 
ruiva-castanha; as penas do dorso são brunas com orlas 
amareladas ; as azas e a cauda são pretas ; a barriga é 
preta no meio, amarela com desenho listrado, nos lados. 

Por ora o irerê ainda é apenas ave muito frequente 
nos viveiros dos amadores; porém tudo faz crer que bre- 
vemente esta espécie passará a ter divulgação tal, que a 
possamos incluir na lista das aves domésticas. Seu grito, 
que é quasi um assobio, pronuncia as três sílabas que lhe 
deram o nome. O dr. E. A. Goeldi relata um caso que de- 
monstra ser talvez relativamente fácil a domesticação 
completa desta marreca. "No interior do Estado do Rio 
de Janeiro encontrei em 1886 um bando de ii'erês mansos, 
gozando completa liberdade, da qual aliás se utilizavam 



— 400 - 



amplamente. Quando o tempo estava bom e aêco, ausen- 
tavam-se e durante algumas semanas não davam sinal de 
si ; prolongando-se, porém, as chuvas, apresentuvam-se re- 
gularmente diante da fazenda, anunciando sua chegada 
com enorme alarido e pedinchavam de comer. Também 
a outras pessoas ouvi referir casos mais ou menos seme- 
lhantes de irerês, que pareciam haver tocado as raias da 
domesticação". Goeldi compara-os, quanto à vigilância, 
aos gansos do Capitólio e de fato, arvoram-.se em guar- 
das da casa, denunciando pela insistente gritaria a apro- 
ximação de quem quer que seja. 

Iriceca — Bagre marinho da Amazónia, que também 
sobe o curso dos rios. E' Tachijsitrnti michulh, que se as- 
semelha à espécie congénere "I r i t i n g a", diferindo 
por ter 21 raios na nadadeií-a anal (e não 18 a 19). Quan- 
to à etimologia veja-se "G u r í". 

Irina — Nome de vespa amazônica (Alberto Rangel : 
"Irinas e tapiús perseguem o homem"). Há uma espécie 
de vespa, do grupo das "'Vespas tatú", cujo nome 
cientifico (Sijnoecu irina) talvez seja baseado nessa de- 
nominação tupi, o que aliás a diagnose original não men- 
ciona; como adjetivo, em latim, designa côr roxa, o que 
não condiz com o colorido desta es))écie, única do género 
Sijnncca, de côr amarelada, quando as demais são azuis, 
escuras. 

Iritataca ou "Maritataca" e "Jaritataca" 
— O mesmo que "C a n gambá". 

Iritinga — Veja-se "U r i t i n g a". 

Irrê — Veja "Pai A g o s t i n h o". 

Irussú ou "Urussú" e "Guirussú" — Abe- 
lha social da fam. Meliponideos, Trifiova subterrânea e 
qiuidripiDictuffi , que faz ninho no chão, às vezes a 3 e 4 
metros de profundidade. Têm igualmente ninho subter- 
râneo a "Abelha mulata" e o "Jataí da ter- 
ra". Os nomes "Irussú do chão" e "Irussú 
mineira" soam ao entendido, por assim dizer, como 
pleonasmos. 

Vários meladores paulistas e mineiros nos contaram 
que é preciso proceder com muita calma na excavação de 
um ninho desta espécie, porque, apressando-se muito, "can- 
çando e ventoseando, não se piiha mais o mel, porque daí o 
ninho some"! Efetivamente, é preciso muita i)achorra e 
resistência, para cavar a terra durante horas e horas, 
acompanhando o caminho tortuoso do canal, que fácil- 



— 407 



mente se entope e assim desaparece. Por fim, como re- 
compensa de tanto trabalho, colhe-se um ou apenas meio 
litro de mel. Mas, já o dissemos várias vezes, o caboclo 
é, como o índio, grande apreciador do "mel de pau" e dá 
o dia por bem empregado si, à custa de muito trabalho, 
consegue a lambarice. (Veja-se também, sob "Urus- 
s ú", como sinónimo de "T u j u b a") . 

Isca — Substância esponjosa ou semelhante a feltro, 
feita por certas formigas (será a '"t r a c u á"?), com que 
na Amazónia estancam o sangue de feridas (Bates, pag. 
350). Serve para isca de fogo, como também o documen- 
ta Bates, I, cap. V, pag. 200 "uma substância semelhante 
a feltro, manufatui-ada por uma formiga (Pohjrhachis 
bispinosus) ". 

Itã — Nome que na Amazónia e no Nordeste se dá 
às conchas dos moluscos bivalvos. J. Veríssimo, Pesca, 
pag. 85, disse: . . . "colhéres feitas de conchas de mexilhões 
it(in chamamos nós a estas conchas na Amazónia". Co- 
piando o trecho supra, devemos contudo observar que 
não se trata dos "mexilhões", propriamente ditos, que são 
espécies marinhas, mas de moluscos d'água doce, pois o 
têrmo também é usado rio acima. 

Assim o vemos confirmado por Theodoro Sampaio 
(S. Francisco e Chapada, pag. 51) o qual se refei-e a 
"Y t a n s" do Rio S. Francisco (Torrinha) "alguns dos 
quais alcançavam 12 e 18 cms. de comprimento por í) cms. 
de largura, bastante espêssas, e com a bela aparência de 
madrepérola. Informaram-nos que as há maiores e tão 
grandes que bem ]x)diam servir como ))acia de ro.sto". 
Além de certo exagero quanto ao tamanho, devemos ob- 
servar que o nome científico (Mytilus), sugerido pelo mes- 
mo autor, não confere, por se referir ás mesmas espécies 
marinhas conhecidas por "M e x i 1 h õ e s" e certamente 
.se trata das magníficas conchas, Glabaris e Castália. 

Mas o material do rio S. P^rancisco, como o conhe- 
cemos de Jabotá a Belém, não tem aceitação nas fábricas 
de botões, por ser a casca muito fina. Apenas são utili- 
zadas pela indústria caseira e a.ssim vimos, até, fazerem 
a mão os pequenos botões de camisa, com trabalho insa- 
no e que só o comércio primitivo do sertão ainda pode 
vender, longe das cidades. 

Itacurú ou "Tacurú" — No Rio Grande do 
Sul e em Mato Grosso, é o mesmo que "Cupim" dos 
campos, isto é o monte de terra, duro como pedra 
(itá). Essa denominação, bem como a equivalente, em uso 



— 408 



na Amazónia (veja "I t a p e c u i m") não são conhecidas 
nos demais Estados, aliás com prejuizo para a clareza do 
falar, pois que não se sabe desde logo si "cupim" se refere 
ao inseto ou ao seu ninho. 

Itapecuim ou "T a p e c u i m"', na Amazónia — Veja- 
se sob " 1 1 a c u r ú ". 

Itapema — O mesmo que "Tape ma"; veja "Ga- 



Itapiranga — No litoral paulista são as conchas ró- 
seas da praia. Como o diz o nome indígena, são como que 
pedrinhas vermelhas fr/a-pedra, pm/?vf/a-vermelha) e não 
há quem não as tenha juntado com prazer, nos passeios 
pelas práias arenosas. Neste particular a Praia das Con- 
chas, um pouco ao Sul de Itanhaem (Santos) é uma pe- 
quena maravilha, pois de começo a fim e em qualquer 
época do ano, esta praia sempre está de tal forma reco- 
berta de "i t a p i r a n g a s", que o mosaico, marchetado 
na areia alva, não nos permite dar um passo e assentar o 
pé, sem quebrarmos logo uma poi-ção das lindas conchas. 
O excursionivSta, encantado, a princípio regula seus pas- 
sos pelas pequenas lacunas que, aqui e acolá, descobre 
no original tapete, pois receia destruir o formoso traba- 
lho do mar; mas quem conhece a índole das marés neste 
recanto já famoso, sabe que todos os dias as vagas re- 
passam a ornamentação, enterrando as conchas reduzidas 
a fragmentos e encrustando de leve novas itapirangas, 
perfeitas e resplendentes. 

Itapú — ou "Atapú" como grafa o Contra-Almi- 
ranle Camara a denominação dada na Baía ao "B u z i o". 

Jtuí — Denominação araazónica de vários peixes da 
ííxm. Gymnotideos. Veja-se sob "Sarapó". 

Iluí cavalo — São as espécies de Gymiiotideott do 
grupo conhecido por itnifí (cauda não terminada cm pon- 
ta, mas provida de nadadeiras), cuja cabeça é alongada, 
formando focinho : género Sternarchus e semelhantes. Em 
dois destes últimos, Sternurchoi-hamphnii c Stcmarchor- 
hynchus, as proporções desses focinhos são tais, que su- 
gerem desde logo a comparação com o "tamanduá-bandei- 
ra". Veja-se sob "Pirá-tamandu á". 

luiií — Em Goiaz é o nome que "C u i ú - c u i ú", 
(peixe). 



SciELO 



10 11 12 ; 



Jabiretê — O mesmo que "Raia lixa". 

Jabiru — Só com auxílio dos nomes científicos con- 
seguiremos explicar a aplicação tão diversa que têm, no 
Norte e no Sul, os vários nomes das nossas maiores aves 
pernaltas da ordem Ardeiformcf!. 

Mycteria mycteria: "J a b i r ú" no Sul ; "T u i u i ú" 
na Amazónia. 

Euxemtra maguari: é a espécie que mais se asseme- 
lha à "Cegonha" da Europa ; entre nós também assim 
é denominada e, além disto, é conhecida no Norte por 
"C a u a u ã" ; no Sul "J a b i r ú - m o 1 e q u e". 

TaiitaliiK americanus: "Passará o" ou "Cabe- 
ça de pedra" na Amazónia; "T u i u i ú" no Sul. 

Ardea socoi: "M a g o a r í " na Amazónia ; "João 
Grande" e "Socoí" no Sul. 

"Maguari" ou "Baguarí" não tem acepção 
restrita e aplica-se, conforme a região, a qualquer das 
aves acima mencionadas. Referimo-nos, a seguir, ao " J a- 
birú" ou "Jaburu" do Sul. fam. Cicoviídeos, Mijcte- 
ria mycteria (outrora M. americana). E' pernalta de cor- 
po robusto, com cêrca de l^.lõ de altura; o bico, grosso 
na base e afilado na ponta, alcança 30 cms. de compri- 
mento; o pescoço é nú, preto, destacando-se a parte infe- 
rior do papo, também nú, pela cór encarnada; a plumagem 
é branca, ainda que não muito alva ; as pernas são pretas. 
Pe. J. Vicenzi em seu livro de viagem descreve a seguinte 
cena: "O camarada perseguiu a ave e esta, fatigada, ven- 
do que não podia fugir, voltou-se contra o perseguidor, 
enfrentando cavalo e cavaleiro. O camarada atirou-lhe 
então o laço, com a esperança de a levar viva; mas era 
tal a resistência que oferecia, que foi preciso matá-la". 

O ilustrado padre-naturalista N. Badariotti, em seu 
livro "Exploração do Norte de Mato Grosso, 1898", pag. 
41, referindo-se à grande mortandade de peixes que anual- 
mente se verifica nos rios Paraguai e Paraná, por ocasião 
do escoamento das águas das grandes planícies alagadi- 
ças, atribue ao jaburíi papel saliente como saneador dessas 
regiões. De fato, um número prodigioso dessas aves acor- 



410 — 



re desde logo e consome incrível quantidade de peixes 
mortos, eliminando assim, prontamente, esses corpos em 
putrefacção, que do contrário por longo tempo empesta- 
riam a atmosfera. Os bandos de Mycteria (lá conheci- 
dos por tuiuiú) são tão numerosos, que as praias ficam 




Jabirii (Mycteria) 



cobertas em enorme extensão; ao aproximar-se uma em- 
barcação levantam vôo, formando verdadeira nuvem. O 
ninho, construído sobre forquilhas de um grosso galho de 
árvore, é composto de ramagens entrelaçadas e de tal 
capacidade, que um homem poderia comodamente pousar 
sobre êle. O casal costuma ficar em pé sobre a beira do 
ninho, vigiando os dois ovos, do tamanho dos de ganso. 

Jabiní-molequc ou " B a g u a r í ", ou " M a g o a - 
r í" ; "T a b u i a i á" ou "T a p u c a j á" ; "C a u a u a" 
na Amazónia e "C e go n h a" — Grande ave da fam. Ci- 



— 411 — 



coniideos, Euxenura maguari. Aproxima-se mais do tipo 
da cegonha europeia do que o verdadeiro "J a b i r ú" e é 
um pouco menor e menos corpulento do que êste. A ca- 
beça e o pescoço são providos de penas; só a região ao 
redor dos olhos e a garganta são nuas, de côr encarnada, 
como as pernas. A plumagem é branca, destacando-se as 
rêmiges e as retrizes. que são pretas. Ocorre em tôda a 
América do Sul. Chamamos atenção para a confusão 
que reina a respeito dos nomes vulgares desta espécie e 
do '"J a b i r ú" (veja sob êste) em sua aplicação no Norte 
e no Sul do Brasil. 

Jabotí — ■ Réptil da ordem dos Chelonios, T estudo 
tabulata. A fêmea chama-se "Jabóta" e difere do ma- 
cho por ser maior e mais avermelhada, seu escudo ven- 
tral é convexo e não côncavo, como o do macho. Chermont 
Miranda menciona ainda "C a r u m b é" como sendo uma 
variedade de jabotí, com escamas amarelas nos pés; mas 
êste é apenas o rnacho velho, de couraça dorsal muito 
arqueada. 

O jabotí atinge excepcionalmente 70 cms. de compri- 
mento; exemplares médios regulam medir apenas 80 ou 
40 cms. O lado dorsal é preto, com um centro amarelo 
em cada escudo ; desta côr também é a face ventral. E' 
habitante das matas do Espírito Santo à Amazónia e daí 
ao Paraguai. No tempo da sêca esconde-se entre a fo- 
lhagem e o húmus; ao tempo das chuvas passeia mais, 
alimentando-se de frutas caídas. A carne é excelente e 
principalmente o fígado é muito gabado pelos entendidos. 
O Dr. Silva Maia em 1850 menciona em seu relatório que 
viu no Maranhão várias embarcações descerem o Itapi- 
curú, carregadas com milhares de cágados e jabotís, des- 
tinados ao mercado. 

No folclore indígena cabe papel proeminente ao ja- 
botí que, pela sua astúcia sempre tira melhor partido nas 
apostas que faz com os outros animais. Dizem que para 
tudo encontra solução; só receia que uma taperibazeira 
(árvore da Amazónia) lhe caia em cima do corpo. Que 
sejam outros troncos, não faz mal, pois êle esperará pa- 
cientemente até que a árvore apodreça, para depois con- 
tinuar seu passeio interrompido; mas com a taperiba 
(Spovdeas hitra) a coisa muda de figura, porque êsse 
tronco, quando cai, brota por todos os lados e assim o 
jabotí nunca mais se desvencilharia. 

Apenas em resumo, mencionaremos algumas lendas, 
em que figura o jabotí, sempre esperto, sempre vencedor. 



412 — 



— Tanto ò .iabotí como o teiú queriam casar com a 
filha da onça. O jabotí, para fazer pouco do teiú, disse 
que êste nada valia e que até lhe servia como cavalo. 
Usando de muita manha, conseguiu no outro dia que o 
teiú o levasse montado nas costas e assim envergonhou 
o lagarto diante da filha da onça. 

— Tendo o jacaré roubado a flauta do jabotí, êste, 
passados alguns dias, foi a um cortiço, engoliu muitas abe- 
lhas e foi para o lugar onde o jacaré costumava tomar 
sol. Escondeu-se nas folhas, deixando de fora só o rabo, 
todo besuntado de mel; de vez em (]uando soltava uma 




Jabotí 

abelha que saia voando: zum... O jacaré, vendo aquilo 
e supondo que aí havia mel, meteu o dedo, que o jabotí 
apertou com tôda força, até o jacaré lhe restituir a flauta. 

— O veado desafiou o jabotí para uma corrida. O 
jabotí disse: "Espera um pouco; vou ver por onde hei 
de correr". Foi para a outra banda e postou todos os 
seus parentes, de distância em distância, à margem do rio. 
Depois começaram a corrida e cada vez que o veado per- 
guntava pelo jabotí, um parente dêlc i-espondia, sempre 
pela frente. O veado correu, correu, correu e sempre um 
jabotí respondia adeante. E o veado morreu, cansado de 
tanto correr. 

— Um dia o caipora disse ao jabotí: "Vamos ver 
quem tem mais força!" e o jabotí aceitou. O caipora cortou 
um cipó, estendeu-o ao jabotí e dis.se: "Experimentemos; 
tu na água e eu em terra". O jabotí saltou na água, 
amarrou o cipó à cauda do pirarucu e voltou, escondido, 
para a terra. O caipora puxou a corda, mas o pirarucú, 
que tinha mais força, arrastou o caipora para a água. 



SciELO 



10 11 12 : 



— 413 



Quando o caipora já estava cansado, disse: "Basta ja- 
botí". Êste foi desatar a corda da cauda do pirarucu e 
voltou à terra. 

"Tu estás bem cansado, jabotí?" — "'Não! Não suei 
nada"! 

Disse então o caipora: "Agora sei que tu és mais 
valente do que cu, jâbotí. Vou-me embora". 

Não sabemos si já foi tentada a explicação desta 
curiosa simpatia do índio pelo jabotí. O biólogo, de for- 
ma alguma pode' concordar com tamanha argúcia em- 
prestada ao quelônio, tarde e mal aquinhoado. O jabotí 
das lendas será talvez algum símbolo ou a encarnação de 
um espírito arguto das florestas. 

Curioso é que em Mato Grosso esta espécie tenha a 
denominação vulgar "Cágado", ao contrário do que 
acontece no Brasil meridional. 

No Tocantins, segundo Ign. Bapt. Moura distinguem 
o "j a b o 1 1 - 1 u c u m ã", que tem pintas encarnadas no 
casco e na pele, do "j ab o t í - 1 i n g a" que as tem es- 
branquiçadas. Os zoólogos, porém, sustentam tratar-se 
de uma única espécie. 

Jabotí aperema — Quelônio da Amazónia; Nicoria 
punctidata. O colorido geral é bruno escuro, a cabeça 
é preta o tem uma orla amarela e duas linhas vermelhas 
atrás dos olhos e duas manchas de igual côr no focinho; 
o peito é preto. A casca ou couraça atinge 20 cms. de 
comprimento. Ainda que não apareça no mercado em tal 
quantidade como a "Mussuã", é contudo procurado, 
por ser a carne igualmente apreciada. Veja também 
"P i t i ú", por vezes atribuído a esta espécie. 

Jabotí-machado ou "Jabotí jurema" ou, no 
Solimões, " j a b o t í - p i r e m a" . PlatemiiH platijcepha- 
la, pequeno cágado da Amazónia, que não ultrapassa 25 
cms. de comprimento; a couraça dorsal é sulcada longitu- 
dinalmente; a côr é bruna, clara e nos lados nota-se uma 
grande mancha preta. Vive de preferência nos córregos. 

Jabú — Na Baía, segundo Castelnau, designa várias 
espécies de peixes do mar, pertencentes ao antigo gên. 
Serranas, correspondente ao grupo das "garoupas". 
Também o Almirante Camara registra o mesmo nome 
para garoupas pequenas; mas ao que parece, só é usado 
na Baía. 

Jacamacira — Denominação dada na língua indí- 
gena às aves mais geralmente conhecidas por "Cuite- 



414 — 



Ião". Essa palavra indígena deu origem aos nomes ge- 
néricos Jacamaralcyon e Jacmnerops, da fam. GalbvUdeos. 

Jacamim — Aves grandes da fam. Psophiideos, com 
o único género Psophiu, pertencente à ordem dos Gmi- 
forines, que abrange ainda o "Carão", o "Pavão 
do "P a r á" e a "S e r i e m a". Todos os Jacamins habitam 
unicamente a Amazónia e o Mato Gro.sso, sendo a espécie 
mais conhecida Ps. crepitavs de côr predominante preta 
com brilho metálico, que no doi-so passa do brônzeo ao cin- 
zento esbranquiçado. As outras, congéneres, são conhe- 
cidas por "j a c a m i m - c o p e t i n g a" de costas bran- 
cas, "j, cope juba" e "j. una". São aves da mata, 
que por vezes formam bandos até de 200 indivíduos. Seu 
grito, que deu origem à sua denominação alemã e inglesa 
"Trompeter" (corneteiro), começa por uma voz aguda e 
retumbante, seguida por um rumor surdo, sustentado du- 
rante quasi um minuto e que sôa como hú-hú-hú-hu, a 
última sílaba muito prolongada e como que ventríloqua. 
Domesticam-se facilmente, tornando-se muito amigos do 
dono; parece ser bem verdadeira a afirmação de que esta 
ave, sempre que vê uma galinha no chôco, faz o possível 
para tirá-la do ninho, afim de ela mesma tomar conta da 
ninhada. 

Na literatura européia esta ave é conhecida pelo no- 
me "agamí", que sem dúvida .se filia ao mesmo vocábulo 
tupi, também grafado " J a c a m í". 

Jaçanã — Ave da fam. Parricleos, Parra jacaria (re- 
pare-se a grafia do nome específico, sem a cedilha, sinal 
êste que não existe em latim). Esta espécie, na Amazó- 
nia, é conhecida por "p i a s s ó c a" ou "j a p i a ç o c a"; 
lá são "a ç a n ã s" as espécies da me.sma família, do gên. 
Crecincvs, que no Sul do país são conhecidas por "fran- 
gos d' água". 

A jaçanã (Parra) é uma das aves mais comuns dos 
nossos açudes e brejos; com seus enormes dedos, alonga- 
dos ainda por meio de unhas compridas e direitas, ela 
facilmente corre sobre a vegetação aquática, onde outros 
pedestres plumados afundariam. A cór geral é castanha, 
destacando-se as remiges da mão pelo colorido verde-cla- 
ro; no encontro das azas salienta-se uma forte espora ama- 
rela. A cabeça, o pescoço e o lado inferior são pretos. O 
bico é amarelo e e.xpande-se na fronte em uma sorte de 
escudo. Vivendo sempre nas regiões de brejo, aí também 
choca seus 4 ovos, de côr de barro, com numerosas linhas 
pretas, que se entrelaçam. Não lhes prepara ninho, nem 



5SCÍELO 9 11 12 



— 415 — 



mesmo uma simples cama; ao céu aberto os deita sobre 
as plantas aquáticas, quasi em contato com a água. Pa- 
rece incrível que uma ave assim relaxada e simplória con- 
siga, da mesma forma como as mais cuidadosas e astutas, 
manter sua raça proliferando, apezar de todos os perigos, 
os perseguidores e as próprias enchentes, que de um mo- 
mento a outro podem deitar a perder tais ninhadas. 

Quem quizer se dar ao trabalho de perseguir esta ave 
no ambiente em que geralmente se encontra — à beira 
dos açudes, nos campos úmidos e à margem dos rios — 




Jaçani 



verificará que a jaçanã pouco vôa. Assustada, ela prefere 
correr para o meio das plantas aquáticas, onde facilmen- 
te se esconde; sendo, porém, obrigada a voar, fá-lo um 
tanto pesadamente, com esforço e logo adiante pousa ou- 
tra vez. Em lugares apropi-iados à sua multiplicação, po- 
dem se encontrar bandos de centenas de jaçanãs, agru- 
pados, porém de forma a se poder distinguir as várias fa- 
mílias, chefiadas pelos respectivos progenitores. 

Jacaré — E' o nome brasileiro, de origem tupi, dos 
répteis da ordem Enujdosaiírios, fam. Crocodilideos, a mes- 
ma que abrange também as espécies africanas, asiáticas e 
da América do Norte, conhecidas respectivamente por cro- 
codilos, gavial e aligator. No Brasil ocorrem dois géneros, 
que se distinguem da seguinte forma: Caiman, com crista 
caudal dupla nos 12 a 14 primeiros segmentos; Jucaretin- 
ga com crista caudal dupla nos 10 ou 11 primeiros seg- 
mentos. Os jacarés levam vida quasi puramente aquática; 



416 



em terra são desageitados. incapazes de aproveitar sua 
terrível força muscular, fugindo por isso à primeira amea- 
ça. Na água, ao contrário, seu corpo abrutalhado torna- 
se ágil e não há quem no seu elemento lhes dispute a su- 
premacia. A couraça torna-os quaai invulnerável e, como 
si não lhes bastassem os dentes, que são substituídos à 
medida que se gastam, tem ainda os pés munidos de gar- 
ras formidáveis e sabem utilizar-se da cauda serrilhada 
para dar violentas chicotadas. Felizmente são entes raros 
em quasi a maior parte do nosso vasto território; só nos 
nossos dois sistemas fluviais máximos são mais abundan- 
tes e em certas lagoas aglomeram-se às vezes às centenas. 




Jacaré 



O que mais interessa o homem, é conhecer as dimen- 
sões e a ferocidade. dos seus grandes rivais no domínio da 
terra. O jacaré-assú (Caimon niger) impõe-se pelo tama- 
nho, pois é êle não apenas o maior dos nossos animais 
teri-estres ou da água doce, como ainda o gigante entre os 
crocodilos do mundo. O próprio gavial da índia fica um 
tanto aquém da medida máxima constatada por Bates na 
Amazónia, que diz ter visto um exemplar de jacaré-assú 
de 6, metros de comprimento. Outros autores admitem, 
porém, apenas 4'",50 como tamanho máximo desta espécie. 
Não é, porém, sempre, elemento perigoso da nossa 
fauna, como seria, se quizesse atacar o homem em tôdas 
as emergências; uma vez ou outra o faz e prontamente 
vence na luta quem quer que seja. Seu estratagema má- 
ximo consiste em segurar o inimigo na água e depois, 
usando da cauda como hélice, girando em torno de si, deixa 
a vítima atordoada, que logo se desconjunta. Êste fato. 
observado em um jardim zoológico, por ocasião da luta 
entre dois aligatores, confirma a cena horrivelmente im- 
pressionante descrita por José Veríssimo em seu livro: 
"Scenas da Vida Amazonica", pg. 134. Antes de têr- 



— 417 — 



mos a confirmação por parte do zoólogo — porque não di- 
zê-lo? — duvidávamos da veracidade e mesmo da possibi- 
lidade de tal façanha. 

"... Um dos jacarés que deslizava mais perto daí, 
apenas com os grandes olhos redondos fora d'água, mos- 
trou todo o negro dorso e com as enormes fauces escan- 
caradas, correu sobre êle. O infeliz, meio submerso, bra- 
cejou mais forte, raivoso por não se poder ter sobre o 




Ovo e cràneos de duas espécies de jacarés 



líquido e gritou: socorro! socorro! às canoas, que braços 
tapuios empurravam para a frente com a velocidade de 
flechas. Era tarde. O enorme réptil, grande de três 
braças, tinha já agarrado o rapaz por um dos braços e, fa- 
zendo-o girar como um molinete, arrancou-lh'o fora. O 
sangue espalhou-se rápido, tingindo um círculo vermelho 
ao redor do rapaz. À vista do sangue, as terríveis pira- 
nhas, pequenas, chatas, ferozes, de dentes apontados e cor- 
tantes como navalhas afiadas, acorreram vorazes e caí- 
ram gulozas, esfomeadas, sobre aquele corpo mutilado, dis- 
putando-o aos jacarés, com um encarniçamento medonho 
e cruento, pululando, saltando ao i'edor e por cima dêle 
aos milhares, si não aos milhões, fervilhando em cachões, 
onde as suas escamas punham cintilações de prata e o san- 
gue laivos vermelhos. 



— 418 



Quando as canoas chegaram, o Antonio Bicudo estava 
dividido em mil pedaços pelos jacarés e piranhas, que fu- 
giram à aproximação delas ..." 

Transcrevemos também o seguinte trecho de Severia- 
no da Fonseca (Viagem, etc. pag. 180), autor muito ve- 
rídico em se tratando de cenas por êle próprio presencia- 
das. "Enormes jacarés. . . sitiaram-nos em regra, apezar 
da guerra viva que lhes fizemos; vinham até a encostar- 
se ao bote donde os fazíamos fugir a pancadas de remos e 
tiros ... E' inexata a asserção de serem tão lentos os seus 
movimentos em terra como fáceis na água: sua marcha 
é tão ágil e veloz no ataque como na fuga, vencendo mui- 
tas vezes o homem na carreira". 

Os jacarés são ovíparos e uma só postura pode con- 
ter de 30 a 50 ovos oblongos e alvos; sobrepostos em ca- 
madas numa depressão na vargem, cobertos por folha- 
gem e húmus, aí se desenvolvem ao calor do sol e da fei*- 
mentação dos vegetais. A mãe raro se afasta do ninho, que 
ela vigia e defende com fúria, contra quem se aproxima. 
Também a cria nova é vigiada pela mãe e Schomburgk 
relata um episódio curioso a respeito. Tendo ouvido um 
miar estranho numa praia do rio, verificou tratar-se de 
uma ninhada de jacarézinhos de dois palmos de compri- 
mento. Trepados sobre um tronco, quasi paralelo à super- 
fície da água, porém um metro acima, fisgaram um dos 
bichinhos; imediatamente surgiu a mãe, roncando furio- 
sa, procurando, aos pulos, alcançar os inimigos. Quando 
o naturalista voltou para a margem, a bicha desesperada 
até lá o acompanhou, porém não se animou a perseguí-lo 
em terra. 

A julgar pelas observações meticulosas relativas ao 
crescimento da espécie norteaniericana, também os nossos 
jacarés só aos 15 anos talvez alcancem dimensões mais 
avantajadas; aos 4 anos de idade o "aligator" apenas atin- 
ge 1 metro; em compensação, mesmo depois de bem velho, 
também êstes répteis, como todos os animais de sangue 
frio, ainda augmentam de tamanho, cada ano, alguns cen- 
tímetros apenas. 

Nas regiões dos grandes lagos da ilha Marajó orga- 
nizam-se às vezes batidas, durante as quais são mortos 
centenas, e, como afirmam alguns escritores, milhares 
de jacarés. 

As "maçãs de jacarés" que se encontram nos campos 
habitados por êstes répteis, às vezes chegam a pesar 3 qui- 
los; são como que bolas de feltro e tem um odor especial. 



— 419 



Essas concreções esféricas são formadas no estômago, pela 
aglomeração dos pêlos das vítimas, principalmente de ca- 
pivaras e quando a "maçã" atinge dimensões tais que se 
torna incómoda, ela é expelida. 

"Jacarézada", diz o dr. Plinio Cavalcanti — (Confe- 
rência: Delmiro Gouveia, Soe. Nac. Agricult. Out., 1917), 
é iguaria preparada com carne de jacaré. Em certas zo- 
nas do rio S. Francisco, êsse delicioso quitute é prato tra- 
dicional, não só nas casas de família como nos hotéis, onde 
só depois de havê-lo comido com regalo, o viajante vem a 
saber o nome do que comeu por peixe. 

Jacaré-assú — O nome refere-se em especial ao CaU 
maii niger da Amazónia ; mas é natural que qualquer outra 
espécie seja designada "assú" (grande), desde que o 
exemplar em questão seja de dimensões acima do vulgar. 

Jacaré corôa — Jacaretinga trigovatns. Parece que 
o nome pode ser alusivo à disposição um tanto concêntri- 
ca dos tubérculos do alto da cabeça. E' espécie amazôni- 
ca, onde vive de preferência nos afluentes menores; raro 
atinge 2 metros de comprimento. Veja-se também: 

Jacaré-curuá — Talvez seja a forma original, que 
pronunciada à brasileira, redundou na corruptela acima 
registrada : " J. c o r ô a". 

Jacaré curucurú — E' mencionado por frei Prazeres 
(Poranduba Maranhense) como tendo comprimento de um 
homem; as outras espécies, enumeradas a seguir pelo cro- 
nista: "tenteré" e "jacarérana" são declarados 
menores. Ao zoólogo o autor não fornece dados suficien- 
tes para a boa identificação das espécies; mas o último 
é um lagarto, como registramos a seguir. 

Jacaré de papo amarelo — Cahnan latirostris, habita 
os rios da Prata e S. Francisco, assim como os rios inter- 
mediários da vertente do Atlântico. O outro jacaré comum 
no sul é Jacaretinga palpchrosus. Temos registrado ainda 
a denominação de "U r u r á u", porém sem saber a que 
espécie deva ser atribuída. 

Jacarérana — Lagarto da fam. Tejideos, Crocoãilu- 
rus lucertimtif, da Amazónia, que pelos seus hábitos se pa- 
rece algum tanto com os jacarés (rana cm tupi r= pareci- 
do) . Atinge meio metro de comprimento, cabendo metade 
à cauda, que é achatada, quasi quadrada e provida de du- 
pla serra. Vive à beira dos rios e faz sua tóca nas ri- 
banceiras. 



— 420 — 



Jacaré-tinga — Caimcm sclerops, da Amazónia, do 
Brasil central e do Paraguai. Jacai-é menor, medindo ape- 
nas 2 a 2,5 metros de comprimento; é chamado "t i n - 
ga" porque o peito é branco. Esta espécie é a que mais 
vezes alguns caçadores consideram caça apreciável; real- 
mente, a carne alva é boa e o melhor pedaço é o da cauda 
que, não raro, aparece à venda nos mercados de Belém. 

Caçadoi-es que não conhecem os hábitos desta espécie, 
ficam muito admirados quando em plena mata e às vezes 
a grande distância do rio, encontram êste jacaré vagando 
por terra. 

Jacarôa — O povo, no Maranhão, segundo Raymundo 
Lopes, emprega êste feminino para designar o jacaré fê- 
mea. (Torrão Maranhense, pg. 162). 

Jacassú — Goeldi i'egistra tal denominação, atribuin- 
do-a à "pomba trocaz" (Columba picazuro), o que 
porém não vimos confirmado por outro autores. Talvez 
seja apenas têrmo regional. 

Jacií — Juntamente com os "Mutuns", formam 
os jaciis o conjunto da fam. Cracideos e por sua vez esta 
família e a dos "Urús" perfazem a representação sul- 
americana da ordem GaUiformes. Mas os Cracideos, ao 
contrário das galinhas, são aves arborícolas. Confron- 
tando os jacus com os mutuns, verifica-se nestes últimos 
muito maior desenvolvimento do corpo, que é volumoso, 
ao passo que os jacus são mais esguios. Contudo, pelo seu 
número de espécies e mesmo pela sua natural abundância, 
os jacús fornecem maior oportunidade aos caçadores e 
pode se dizer, que é esta, das aves da mata, a mais tipica- 
mente venatória. Veja-se também sob "Aracuã" 
(género Ortalis). 

Os verdadeiros jacús (gên. Penélope) têm a garganta 
tôda desprovida de penas. Sob o nome de "Jacu ti n- 
g a" conhece-se a ave do género afim, Cunnina ou Pipile, 
cujas penas da aza, as rêmiges, tem a barba interna muito 
recortada. 

Transcrevemos a seguir a descrição que Goeldi nos 
faz (Aves, pag. 409), da vida dos Jacús: "São aves sel- 
váticas que, excetuada a época da incubação, vivem em 
bandos mais ou menos numerosos. Ainda não rompeu o 
dia e já os indivíduos de que se compõe o agrupamento 
estão alertas, depois de terem passado a noite sobre uma 
árvore, do meio da floresta. Espi-eguiçam-se, conversam 
baixinho, segredando em tom gorgolejante; e ao amanhe- 



— 421 



cer, mormente na estação fria, dirigem-se para os galhos 
em que primeiro bate o sol. Aí se aquecem, estendem as 
azas e gastam algum tempo em alisar as penas. Não tar- 
da, porém, o desejo de almoçar e então vôam para onde 
sabem estar a mesa servida. Correm em busca de tôda 
sorte de áí"vores frutíferas, não desdenhando mesmo se- 
mentes ou bagas amargas e duras; o coquinho do pal- 
mito constitue sua alimentação predileta. Habilmente sal- 
tam de ramo em ramo, causando admiração a rapidez com 
que se esgueiram atravez da mais compacta folhagem, sem 
que a cauda longa lhes estorve os movimentos. Também 
descem frequentemente no chão e nas picadas da mata 
virgem, cortadas por límpidos regatos, o caçador encontra 
frequentemente seus rastos. Ao meio dia interrompem sua 
atividade e, preparando-se para a sesta, escolhem sítios 
tranquilos e umbrosos. Uns pousam sobre caniços encli- 
nados, balouçando-se rente ao solo; outros 
i-evolvem-se na terra ou na areia, exata- 
mente como o fazem as galinhas e dêste 
modo deixam preguiçosamente passar as 
horas cálidas. Ao declinar o dia, começa a 
preocupação do jantar. Ao escurecer empo- 
leiram-se e a escolha do melhor pouso não 
se faz sem reiteradas rixas e altercações, 
gritos e cacarejos. Mesmo depois de noite 
fechada, os jacíis ainda se conservam vigi- cabeça de jacú 
lantes durante algum tempo, devendo, quem 
aí quizer apanhá-las, levar em conta esta circunstância, 
para não voltar de mão vazias. 

Em regiões mais afastadas, que ainda não foram mui- 
to batidas pelos caçadores, os jacus .são pouco tímidos 
e, voando apenas para um galho mais alto, não 
fogem à pontaria. Natui-almente os bandos que pas- 
saram pelo aprendizado, tornam-se bem mais desconfia- 
dos. As penas das azas, muito rijas, resistem a uma car- 
ga fraca de chumbo; mal feridas, essas aves, ainda que 
venham ao chão, estão perdidas para o caçador, pois com 
incrível rapidez e desenvoltura sabem procurar o mais in- 
trincado da mata. Quando acometidas de súbito, um 
pânico mortal se apodera dos jaciis e então suas tentativas 
de fuga, desordenadas e loucas, até provocam o riso. Meio 
pulando, meio voando e com grande algazarra, disjiersam- 
se em todas as direções; ocultam-se por ti'ás das moitas, 
nas copas das árvores e ainda continuam a mesma gri- 
taria, durante quartos de hora depois de passado o pe- 




— 422 — 



rigo. Na precipitação da fuga, ou tomam caminho er- 
rado ou pretendem esconder-se entre ramos expostos, de 
modo que ao caçador calmo se oferece ocasião de dar vá- 
rios tiros. Às vezes acontece que uma das aves, tolhida 
de susto, se acerca gritando do perseguidor, agachando- 
se, abrindo as azas, correndo para lá e para cá no mesmo 
ramo, manifestando, enfim, a mais estólida perplexidade. 
A mesma cousa se observa ao aproximar-se alguém do es- 
conderijo, onde o jacú construiu seu ninho. 

Levados para o viveiro, estas aves a princípio são 
extremamente tímidas ou então atiram-se à grade, que 
tentam atravessar e com isto se ferem e arrancam as pe- 
nas. Com o tempo, porém, acostumam-se tão bem à nova 
vida, que poderiam estar soltas com a outra criação do 
terreiro, si não fosse seu génio briguento. Nunca, porém, 
se acostumam a pousar como as galinhas e sua escolha 
recai sempre sobre o ponto mais alto que possam al- 
cançar". 

Diz Goeldi ainda que "genericamente falando, não 
se pode formar um juizo muito lisonjeiro acerca da in- 
teligência dos jacus", e por nossa parte só podemos con- 
firmar tal asserção. No Rio Grande do Sul havia em nosso 
quintal, apartados das galinhas, alguns casais de jaciis 
e nós, crianças, gostávamos de levar a comida a essa cria- 
ção. Certa vez, para variar a ração, carregámos uma gran- 
de panela de feijão cozido, a que já estavam acostumados. 
"Comam até não poderem mais", dissemos nós — e qual 
não foi nosso espanto ao vermos mais tarde, que um dos 
jacus estava com a cabeça mergulhada no feijão, morto 
e com o papo repleto!" 

Jacú-caca — Penélope jacucaca, da Baía à Amazó- 
nia. E' espécie maior que o " J a c ú - p e b a", de côr mais 
carregada e tem as aurículas salpicadas de branco. 

Jacú-guassú — Penélope obscura, do Brasil meridio- 
nal. Mede 74 cms. de comprimento; o colorido do dorso 
posterior e da barriga é bruno avermelhado; o dorso, o 
j)eito e as coberteiras das azas têm as penas orladas de 
branco, porém as do pescoço são uniformes. 

Jacú-peba — No Brasil meridional designa Penélope 
super cUiaris; na Amazónia, P. jacupeba. As denomina- 
ções "Jacu-pemba" ou "Jacupema" — são ape- 
nas variantes do mesmo nome. Distingue-se esta espécie 
das outras do gênei'o por ter as coberteiras das azas orla- 
das de castanho. As penas da cabeça, do pescoço e do pei- 



— 423 — 



to são orladas de cinzento claro. Sobre os olhos corre uma 
estria branca. 

Jacutinga — A denominação abrange várias espé- 
cies da fam. Cracideon. Só uma é do Brasil meridional, 
Cumana jacutinga; outra ocorre em Mato Grosso, C. nat- 
tereri e duas na Amazónia, onde são conhecidas pelo nome 
"C u j u b í" ou "C u j u b i m". A jacutinga do Brasil 
meridional tem a região entre o bico e os olhos azul, ao 
passo que a parte núa da garganta é vermelha, rubra. 
A plumagem é preta, com brilho azul; a cabeça em cima 
é branca e de igual côr são as orlas das penas do peito; 
brancas são também as barbas externas das coberteiras 
das azas. 

.Tacuarú — Segundo Bates, na Amazónia é êste o no- 
me do "T e j ú". Veja-se " J a c u r u a r ú". Nos boletins 
do Museu Goeldi a grafia adotada é " J a c r u a r ú", po- 
rém vários outros autores grafam " J acuar ú". 

Jacundá ou "Nhacundá" — e ainda "Joani- 
n h a" (veja esta) e "M i c h o 1 a" no Rio Grande do Sul, 
"Guensa" ou "Maria Guensa" no Mato Grosso, 
são peixes de escama, da água doce, da fam. Cichlideos, 
género Crcnicichla. O corpo é alongado; bôca ampla, com 
lábios espessos, que formam uma prega no ângulo; man- 
díbula prognata; dorsal longa com 15 a 25 acúleos, porém 
sempre só há três dêles na anal. O desenho característico é 
sempre formado por manchas redondas, orladas de bran- 
co; além disto há outros desenhos de linhas e manchas. 
Os maiores exemplares atingem um palmo de comprimento 
e assim não têm propriamente valor económico ; são porém 
dos mais lindos entre nossos peixes d'água doce e por isso 
bem conhecidos dos amadores de aquários, também no ex- 
trangeiro. Muito outro valor económico tem a espécie se- 
melhante porém maior, o "tucunar é". 

Jacurú ou " J u c u r ú" — Veja sob "João b o b o". 

Jacuruarú ou " J a c u a r ú" — Na Amazónia ou mais 
abreviadamente "Caruarú" no Maranhão, designa os 
grandes lacertílios da família Tejideos, cujo maior repre- 
sentante no Sul é conhecido por "T e i ú". Goeldi classifi- 
cou assim, no Pará, Tupinamhis nigropiinctatus, (gra- 
fando a palavra " J a c r u a r ú") . 

Jacurutú — Provavelmente má grafia, assim repro- 
duzida por alguns autores, por "Jucurutu. Piá quem 
identifique êste nome de coruja como sinónimo de "m u- 



— 424 — 



r u c u t II t ú". Contudo, tomando ao pé da letra o trecho 
da lenda, relatada no original por Barbosa Rodrigues 
(Poranduba, pág. 109) "quando a panela começou a fer- 
ver, sairam morcegos, murukututús, yakurutús e outras 
aves noturnas . . . os dois nomes evidentemente se refe- 
rem a duas espécies distintas de corujas. Em nota a ou- 
tra lenda (pág. 267) Barb. Rodr. identifica "jacurutú" 
com Strix clamutor isto é, Otus clamator, a que nos refe- 
rimos sob "Môcho orelhudo". 

Jacuruxí — Lacertílio amazônico, Dracaena guya- 
nensis de 80 cms. de comprimento; de côr azeitona, ex- 
ceto na cabeça, que é amarelo-avermelhada ; as escamas 
dorsais são grosseiramente rugadas. Gosta de viver nas 
proximidades da água. 

Jaguacinim ou "G u a x i n i m", o mesmo que "M ã o 
pelado". (Aliás "Jaguacinim" ou por extenso, "jagua- 
rá-cinim" que deve ser a forma primitiva, etimológica). 

(Jaguané) — Ayres Casal diz que é um "cão peque- 
no, refeito, com riscas"; é o mesmo que "jaguar é" ou 
"z o r r i 1 h o". Designa-se ainda hoje como jaguané o 
gado, cujo fio do lombo é branco (isto é, como o do zor- 
rilho). Devemos pois contradizer o autor do "Dialecto 
Caipira", quando êste, à pág. 160, diz que o mesmo termo 
tupi (aliás traduzido por Th. Sampaio como "fétido de 
onça") provavelmente não tem relação alguma com o co- 
lorido. O tertiiLH eomparationis , uma facha branca sobre 
a espinha dorsal, é bastante característico. 

(Jaguara-aíva) ou "J. péva" — Parece que tem 
apenas a acepção de "cachorra atôa", que não serve 
para a caça, conforme o dizer caipira. O índio emprega 
o mesmo radical para designar -Feíis e Canis (guará e 
já-giiára). 

Jaguara-pinima — E' a onça pintada, denominação 
que aliás corresponde literalmente ao nome indígena (ja- 
guára-feMno, pinima-Tpintaào, malhado). 

Jaguaracambé ou, na pronúncia caipira "Ara- 
cambe" — Há dúvidas a respeito da exata aplicação des- 
ta denominação usada no Brasil meridional. Generalizou- 
se entre os autores atribuí-la ao Procyon cancrivorns, o 
"M ã o pelado" da nomenclatura luso-brasileira e assim 
seria puro sinónimo de " J a g u a r a c i n i m" ou "G u a - 
X i ni m", como é conhecido em todo o Brasil. Parece-nos 
pois mais acertada a afirmação de outros, que conside- 



— 425 — 



rain "Jaguaracambé" como sinónimo sulino da denomina- 
ção amazônica " J a n a u í " ou " J a n a u í r a " ou seja 
Speothús. (Veja sob "Cachorro do mato")- A res- 
peito dêstes diz o autor das "Caças e Caçadas no Brasil" 
pág. 48: São peritos caçadores e exercem êsse mister em 
bandos; correm tenazmente em perseguição de pequenas 
caças: coelhos, coatís e até mesmo veados (vi um veado ca- 
tingueiro perseguido por três desses cãezinhos). Quando 
atropelam a caça, têm como que um latido soluçado, que 
sai do fundo da garganta, aspirando fortemente e que os de- 
nuncia de longe. O próprio nome científico de uma dessas 
espécies (Speothos venaticus), alude a essa sua inclinação 
venatória. 

(Jaguaré) — Nome guarani do "zor rilho". Re- 
gistrámos também "j a g u a n é", palavra que nos parece 
ser da mesma origem. 

Jaguaressá " J a g u a r i s s á " ou " J a g u a r u s - 
s á" — Peixe do mar da fam. Holocentriãeos, o Holocentrus 
ascencionis; é um peixe lindo, de colorido variegado: o 
rubro do dorso vai-se esvaecendo para o róseo esbranqui- 
çado em baixo; nos flancos há várias faixas amarelas e 
as nadadeiras são amarelo-verdoengas ou rubras. 

Entre os caracteres anatómicos salientaremos que o 
preopérculo é provido de grandes acúleos e que uma série 
longitudinal de escamas é mais desenvolvida que as de- 
mais; Dorsal XI-15; Anal IV-10. 

E' parecido com o "Fogueira". 

Jaguaretê — A onça verdadeira ou "Onça pin- 
tada". 

( Jaguaritaca) ou " J a g u a r é c<ja c a ", o mesmo 
que "Cangambá". São vocábulos usados por Gabriel 
Soares (1587) que nos fornecem passagem etimológica 
às outras denominações, hoje mais correntes: "m a r i t a - 
t a c a", "j a r i t a t a c a" ou simplesmente "T a t a c a" 
ou "Tacaca". Jiu-i é contração de jagnarí; jagiiara 
designa os felídeos; i é diminutivo; tacaca: mau cheiro 
(Veja-se sob "J a r i t a c a c a"). 

Jaguarundí ou "Gato mourisco" — Felis ija- 
giiarundi; é um gato do corpo comprido (64 cms. de cor- 
po e mais 34 cms. de cauda), de côr uniforme, pardo-cin- 
zenta. Habita a América do Sul, das Guianas até o 
norte da Argentina, evitando porém os campos; na mata 
só raramente se encontra trepado em árvores. Vai à caça 
de noite ou de preferência à tardinha ou de madrugada. 



— 426 - 



Jaguatirica ou "Gato do mato grande" ou 
"M b r a c a j á" ou "M a r a c a j á", da Baía à Amazónia 
(Chibiguassú, é seu nome no Paraguai) — Felis pardalis 
chibigonazou. Atinge 85 cms. de comprimento, com mais 
45 cms. de cauda e cêrca de 40 cms. de altura nos ombros. 
A cor é ruivo-amarelada, com numerosas manchas arre- 
dondadas, orladas de preto. As manchas pretas no meio 
do dorso são estreitas, alongadas e nos lados passam a ser 
estrias pardo-cinzentas, com orla preta e interrompidas 
de distância em distância. Na nuca há 5 ou 6 estrias 
pretas; na cabeça numerosas manchas pequenas; a metade 



inferior do rosto é brancacenta, com duas estrias pretas, 
a partir dos olhos e também na garganta uma estria de 
igual côr passa de um lado a outro. A cauda tem man- 
chas escuras e na ponta dcstacam-se 5 anéis. O lado in- 
ferior é branco com algumas manchas pretas. Êste de- 
senho não é sempre o mesmo, variando nos espécimens 
de uma mesma zona. 

Ocorre em todo o Brasil e quasi em tôda América 
meridional; mais para o norte é representada pela forma 
típica. Vive nas matas e banhados; nada bem e trepa 
em árvores, sem revelar, entretanto, a agilidade da onça 
parda. Suas presas são aves e mamíferos, chegando a 
subjugar pequenos veados. 

Jagurécaca — Veja-se sob "Ja g u a r i t a c a". 

Jaleco — No Maranhão é o nome do"Tamanduá- 
mirim". A comparação com uma jaqueta, simulada 
pelo colorido, tem perfeito cabimento. 




Jaguatirica 



— 427 



Jamanta — Raias que atingem proporções enormes, 
5 metros transversalmente, de ponta a ponta e 3 mts. de 
comprido, exclusive a cauda. São raras as duas espécies 
aqui compreendidas e caractei-izam-nas os dois palpos ou 
chifres que têm na cabeça (protuberâncias estas, que de 
fato são nadadeiras cefálicas, destacadas da nadadeira 
peitoral). Mobula olfersi tem bôca inferior e dentes nos 
dois maxilares; Manta ehrcnbergi tem bôca anterior e só 
a mandíbula tem dentes. A biologia destes bichos mons- 
truosos e raros, além de ser difícil de observar, logo pro- 
voca lendas e assim nem tudo que se conta a respeito, 
pode ser repetido em confiança. Há ilusti-ações que re- 
presentam a jamanta como que voando, porém a verdade 
é apenas que ela persegue sua caça aos pulos, caindo de 
cada vez pesadamente e com grande ruido na água. Diz- 
se que tem movimentos rápidos e por certo para qualquer 
embarcação que não tenha dimensões de navio, é um pe- 
rigo a aproximação dêsse monstro. 

Janauaíra ou "Janauí", na Amazónia — Veja-se 
sob "Cachorro do mato" do gên. Speothos. Segun- 
do Ignacio Bapt. Moura é também um ser fantástico, 
lendário, do Tocantins, muito temido, pois anda pela flo- 
resta em matilhas como os cães, embriagando as vítimas 
com forte catinga, para depois saciar sua voracidade. 

Jandaia — Periquito da família Psittacideos, Conu- 
rus jandaya, espécie característica do Nordeste do Brasil 
(Ceará a Pernambuco). Os espécimens novos têm pluma- 
gem muito mais verde do que os adultos; êstes são de côr 
amarela, com dorso verde ; as azas têm algum colorido azul 
e a cauda é verde, tornando-se para o fim azul com extre- 
midade denegrida. Há contudo espécies um tanto seme- 
lhantes de outras zonas, a favor das quais se usurpa o 
nome da ave que J. de Alencar tornou famosa. No oeste 
de S. Paulo designam como " J a n d a i a" o Coniirus 
aurevs, também conhecido por "Periquito rei". 

Vivem em bandos de até 20 cabeças e, quando podem, 
invadem o milharal, onde causam grandes estragos. Seu 
grito é um cii-cri-crí claro e retumbante, com que a miúdo 
se excitam mutuamente. No cativeiro dão-se muito bem, 
conservando sua alegre vivacidade nos movimentos e nas 
peraltagens. A pronúncia sulina é antes "N a n d a i a" ou 
"N h a n d a i a". 

Jandaíra — Abelha social Melipona interrujita, asaim 
chamada no Norte (Paraíba e Amazónia), cujo ninho aí 
frequentemente se vê instalado ao iié das casas, acomo- 



— 428 



dado em qualquer caixa. A abelha que mede 12 mms. de 
comprimento, é de côr preta, listrada de amarelo sobre o 
abdómen, à moda da mandassaia, com a qual se parece 
bastante. O mel é excelente. 

.Jandiá — Tanto J. Veríssimo, como Chermont Mi- 
randa (loc. cit. pag. 73) grafam a palavra dêste modo, 
referindo-se a peixes amazônicos; outras variantes: "Jam- 
diá" e "Nhamdiá" conduzem facilmente à pronúncia do 
Sul, que é positivamente "j u n d i á". 

Jaó ou "Juó", também "Zabelê" — Cryptii- 
rus noctivagus; ave da fam. Tiriamideos, do mesmo géne- 




ro dos "I nambus". Habita esta espécie tôda a região 
da Baía ao Rio Grande do Sul, porém só as matas. Em 
tamanho regula com o "i n a m b ú - g u a s s ú". A ca- 
beça e o dorso anterior são bruno-cinzentos, o dorso pos- 
terior e a cauda têm desenho de faxas transversais lar- 
gas; as coberteiras das azas são jjretas, com faxas ama- 
relas; o peito é castanho, a barriga amarelada; a nuca 
e o pescoço posterior têm um tom avermelhado. Seu as- 
sobio compõe-se de 4 notas, as últimas emitidas mais 
apressadamente e moduladas, de forma a terem sugerido 
aos caçadores da Serra do Mar no Est. de São Paulo e 
também do Mato Grosso a interpretação pelas seguintes 
palavras "Eu sou Jaó". 

Henrique Silva relata a respeito a seguinte lenda ser- 
taneja (Goiaz?) : No tempo em que todos os animais fa- 
lavam, o Jaó e a Perdiz eram companheiros inseparáveis. 



SciELO 



10 11 1 



— 429 — 



Um belo dia, porém, brigaram e o Jaó foi habitar os ma- 
tos, ficando a perdiz nos campos. Hoje em dia, à tardi- 
nha, ouve-se as duas aves cantarem ao mesmo tempo, per- 
guntando de dentro da mata o solitário Jaó, em voz phm- 
gente e separando distintamente as sílabas: "Vamos fa- 
zer as pazes?" Ao que a Perdiz, indignada, responde, lá 
dos campos: "Eu, nunca mais!" Acrescenta o conhecido 
caçador goiano : Exatíssima e perfeita onomatopéia ! 

Como se verifica, pelas duas interpretações, o canto 
do Jaó varia um tanto, conforme a região, 

Japacanim (ou talvez "Casaco de couro") e 
"S a b i á - g u a s s ú" — Pássaros da fam. Mimideos, Do- 
nacobius atricapUlus, do tamanho dos sabiás ; a cór em ci- 
ma é pardo-bruna, mais escura na cabeça, azas e cauda; as 
penas desta têm pontas brancas, menos as medianas e na 
aza vê-se um espelho bi-anco; o lado ventral é amarelo cla- 
ro. Gosta de viver nos juncais das margens alagadiças 
dos rios. Na Amazónia seu nome é "B a t u q u i r a". Às 
vezes sob esta mesma grafia figura o nome do gavião 
"Apacanim", que aliás em guarani é pronunciado 
" Yupacaní" . 

(Japeuçá) ou "Japegoá" — Não sabemos si as 
duas formas são correntes ou si uma delas representa ape- 
nas uma falsa grafia, devida a algum lapso tipográfico. 
Derivam da denominação indígena do escorpião e ambas 
as modalidades, etimologicamente, são possíveis, pois Mar- 
tins escreve japewa (de onde : japeuá ou japegoá) , ao passo 
que Montoya grafou yapeiiçá. Está ainda por averiguar, 
si o termo algures é de uso corrente e o mesmo vale para 
" J a p u r u ç á". 

Japiaçoca — Mais geralmente conhecido por "P i a - 
çoca", conquanto aquele vocábulo pareça ser de fato a 
forma original. Veja-se sob " J a ç a n ã", que no Sul é o 
nome mais usado para a mesma ave. 

Japiim de costa vermelha — O mesmo que "Gua- 
che", também chamado "Japim da mata", na 
1'egião amazônica. 

Japim ou " J a p i i m", " J a p í", " J a p u í" ou "C h e- 
chéu" ou "Bom-é" — Pássaro da fam. Icterideos, 
Cussiciis cela, preto com vivo colorido amarelo no dorso 
l)osterior, extendendo-se também sobre boa parte da cau- 
da, cuja parte terminal, porém, é preta; de côr amarela 
também são as penas internas da base alar e o bico. O ni- 
nho é igual ao do "J a p ú", porém mais curto, com cerca 



430 — 



de 30 cms. de comprimento. Quasi sempre encontram-se 
10 ou 20 reunidos na mesma árvore e parece que escolhem 
de preferência a vizinhança de caixas de marimbondo, pa- 
ra aproveitar o respeito que estas incutem aos importu- 
nos. Este fato é tão notório, que já foi explicado pelos ín- 
dios do Juruá na seguinte lenda, colhida por Barb. Rodri- 
gues (Poranduba, pag. 202). "Dizem que antigamente 
os pássaros eram inimigos dos japiins e quando êstes iam 
passeiar ou quando iam buscar alimento, os outros vinham 
quebrar-lhes os ovos e matar-lhes os filhos. Então os ja- 
piins foram conversar com a vespa e pediram-lhe para ser 
madrinha dos filhos. A vespa disse-lhes: Vocês façam as 
casas perto da minha, para eu velar por meus afilhados. 
Depois disso, sempre os japiins fazem os ninhos perto das 
casas da comadre". 

Relatou-nos o festejado escritor Viriato Correia: No 
Maranhão, a navegação fluvial determina frequentemente 
esta cena, que não deixa de ser perigosa: Velejando con- 
tra o vento, a embarcação cruza o rio obliquamente e as- 
sim, nas voltas sucessivas dos rios, nas engaitavas, os pa- 
nos batem na vegetação das ribanceiras. Quando os tri- 
pulantes percebem os ninhos do japi. sabem também que 
serão atacados pelas cabas assanhadas, cujos ninhos sem- 
pre se encontram junto aos das aves — o "salve-se quem 
puder" termina às vezes com um banho involuntário. 

Sua pátria é o Norte do Brasil, Baía, Goiaz e Amazó- 
nia. E' muito apreciado nos viveiros, porque tem o dom 
especial de imitar outros pássaros, assim como aprende 
a assobiar; mas é preciso suportar o cheiro desagradável 
que o caracteriza. J. Coutinho de Oliveira conta uma len- 
da muito bonita (Lendas Amazônicas, pag. 123), que ex- 
plica porque êste pássaro arremeda os outros: "Quando 
Tupan estava triste, o japim cantava para alegrá-lo e Tu- 
pan, certa vez, mandou o japim à terra, para consolar os 
aflitos com seu canto. Então êle cantou e todas as aves 
emudeceram para o escutar; mas o japim começou a en- 
cher-se de soberba e por escárneo passou a arremedar os 
outros pássaros, de modo que êstes não cantavam mais. 
Mas Tupan, que aborrece a soberba, castigou o japim, não 
permitindo mais que êle voltasse à árvore que dá flores 
de estrelas, o céu, e fê-lo esquecer as belas melodias que 
êle, Tupan, lhe havia ensinado. Por isso, cada vez que o 
japim tenta recordar o seu canto, arremeda a voz das ou- 
tras aves, que então o perseguem". 

Japira — Veja sob "Japuíra", 



— 431 — 



Japú — Pássaro grande, da fam. IcterideoSf Ostinaps 
decumaniis, de todo o Brasil e do Paraguai à América 
Central. Caracterizam-no bem o bico claro, algumas pen- 
nas finas e longas que ornam a cabeça e o colorido que 
é o seguinte: a parte anterior do corpo é preta, o dorso 
castanho e as penas da cauda são amarelas, exceto as duas 
medianas, que são pretas. Muito singulares são os seus 
ninhos, em forma de bolsa fina e alongada, às vezes de 
um metro de comprimento, dependurados não raro em 
grande número na mesma árvore ou palmeira. Há quem 
os cace para aproveitar a carne, que dizem não ser ruim. 

Japuíra — O mesmo que "Guache"; "Japira, 
registrado por Goeldi, pi-ovavelmente é apenas erro ti- 
pográfico. 

Japujul)a — Vários Icterideos do grupo Cassicus, des- 
de que tenham colorido mais ou menos amarelo. 

Japurá — Veja-se " J u p a r á". 

(Japuruca) — Êste têrmo, registrado também por J. 
S. Costa Pereira, foi primeiro consignado por Marcgra- 
ve, que o ouviu em Pernambuco, como denominação indí- 
gena das "Centopeias". E' evidente que, como em 
tantos outros casos análogos, em vez do ç da grafia ori- 
ginal de Marcgrave, o tipógrafo holandês empregou o c 
sem cedilha. Desta forma a palavra deve ser pronunciada 
"J a p u r u s s á", o que evidencia sua afinidade com " J a - 
peçoá", também aqui registrada; ambas as denomina- 
ções indígenas, ao que parece, não sobreviveram. 

Japuruchita — Na Amazónia designa-se assim, se- 
gundo nos informou o Snr. Ant. B. Amaral, "certos cara- 
cóis de concha cónica, enrolada em espiral, com cêrca de 
8 centímetros de diâmetro". Só o exame de espécimens 
autênticos permitirá sua classificação. Pode ser que se 
trate de alguns representantes maiores da fam. Helicideos. 
Mas os maiores espécimens do género Solarops-is atingem 
apenas 5 cms. de diâmetro. "J a p u r ú", em tupi, designa 
os vermes e as larvas (tapurú) ; a identificação dada por 
Th. Sampaio (Tupi na Geogr. Nac), mencionando o gé- 
nero Mm'ex, é evidentemente errónea, pois tais moluscos 
por sua vez são marinhos. Bai'bosa Rodrigues atribue a 
denominação indígena "Japuruchita" a moluscos 
palúdicos e assim talvez tenha razão identificando-os com 
Ampidlaria e caracóis do gên. Bidimus. (Veja também sob 
"Aruá"). 



— 432 — 



Japussá ou "Uapussá" — Macaquinhos da 
fum. Cebideos, gên. Callicebus, de corpo muito gi-acioso, 
quasi do tipo dos "S a g u í s" e, como êstes, também com 
cauda muito longa (o corpo mede 20 cms., a cauda 30 
cms.). C. molloch ou pensonatus tem o dorso e o ventre 
avermelhados, os membros são rajados de cinzento; mãos 
e pés são mais claros. Como espécies congéneres veja-se 
sob: "Guigó" da Baía, e "S a u i m - g u a s s ú" mais 
ao Sul; em S. Paulo lhe corresponde o "Saá". 

Japussá de coleira — Callicebus torquatus, da Ama- 
zónia, de pêlo bruno-preto, cabeça e extremidades mais 




escuras, porém mãos enluvadas de branco. O pêlo da ca- 
beça, mais eriçado, torna esta muito volumosa. Linda é 
a coleira branca, alargada em guardanapo no peito. 

Jaquirana-bóia — Na Baía pronuncia-se assim por 
" J e q u i t i r a n a - b ó i a". 

Jaraquí — Na Amazónia, ou "Jerequí" em 
Goiaz, designa vários peixes da fam. Characideos, sub- 
iam. Prochilodineos, gên. Prochilodus, ao qual também 
pertencem os "Corumbatás" do Brasil meridional; 
contudo êste último nome também é empregado na Ama- 
zónia : "C u r i m a t á". 

Jararaca — • A serpente à qual êste nome cabe em ri- 
gor, é Bothrops Jararaca; contudo é aplicado também a 
duas outras formas aliadas (B. atrox e B. juraracyssu, 
às quais aliás também se confere às vezes apenas a cate- 



— 433 — 



goria de sub-espécies) que o povo costuma distinguir co- 
mo "J a r a r a c u s s ú". O caráter anatómico, seguro, 
para distinguir a jararaca dos outros Viperídeos, consiste 




jararaca 



em verificar si a segunda escama labial superior forma 
ã margem anterior da covinha oral; nas demais espécies 
há, neste ponto, interposição de outras escamas pequenas. 
A côr geral é variável : verde-oliva escura, parda ou mes- 




Jararaca apanhada com o laço «Butantan» 



mo amarelada. O desenho consiste em triângulos ou ar- 
pos escuros, margeados de amarelo, com o vértice atingin- 
do o fio das costas. A cabeça é irregularmente desenhada. 



— 434 — 



A dimensão máxima atingida por B. jararaca é de 1",50. 
B. atrox, a "c a i s s a c a", distingue-se pelo tom pardo- 
avermelhado ou cinzento, de aspeto aveludado e a cabeça 
não tem desenho distinto. A forma jararacussú atinge 
2'",20, de comprimento e o número de escamas subven- 
trais é apenas de 170 a 176 (sendo de 195 a 200 nas for- 
mas precedentes) e o colorido geral é muito sombrio, des- 
tacando-se por isto mais francamente o desenho amarelo, 
em linhas mais oblíquas. Desta variedade o dr. Vital Bra- 
sil extraiu até 1,3 cc. de veneno, quando as outras espécies 
do género fornecem apenas 0,5 cc. Iguala assim em quan- 
tidade de veneno com a cascavel. Observam-se no homem 
os seguintes fenómenos, em consequência de um acidente 
grave: a princípio, dôres locais e, meia hora depois, náu- 
seasj perturbação visual, sonolência e hemorragia pelo 
nariz e pelos ouvidos. Aplicando a este tempo sôro anti- 
botrópico ou anti-ofídico, a cura é rápida. Do contrário a 
morte sobrevem em espaço mais ou menos breve, confor- 
me a quantidade de veneno injetado. 

Jararaca do banhado — Veja "Cobra nova". 

Jararaca de barriga vermelha — Veja-se sob " J a - 
raraquinha do campo" do gên. Liophis. 

Jararaca verde — Serpente da fam. Viperideos, Bo- 
throps hilineata, que pelo colorido verde-claro (um pouco 
azulado), se distingue facilmente das suas congéneres; 
nos flancos corre uma linha amarela e sobre o dorso, ir- 
regularmente distribuídas, pequenas manchinhas de igual 
côr, com alguns pontos pretos. A barriga é clara, ligei- 
ramente azulada e cada escama ventral tem um ti'aço 
preto próximo à linha amarela do flanco. Atinge no má- 
ximo 1 metro de comprimento. Vive nas matas do Espírito 
Santo à Amazónia, de preferência perto da água. Trepa 
em árvores e como seu colorido se confunde com o da ve- 
getação, é perigosíssimo encontrá-la assim, à altura da ca- 
beça; felizmente é rara. Dão-lhe também os nomes de 
"Sururucú patioba", "pi n doba" e "Co- 
bra papagaio". No Tocantins, Ignacio Bapt. de 
Moura registrou o nome "Paráamboia" para esta 
espécie. 

Jararacambeva — Em Minas Gerais, segundo Afrâ- 
nio do Amaral, é sinónimo de "B o i p e v a", 

Jararacussú — Veja sob " J a r a r a c a". Na Baía 
o povo distingue um "Jararacussú cabeça de 



5SCÍELO 9 11 12 



— 435 — 



patrona", denominação esta que não sabemos a que es- 
pécie atribuir. 

Jararaquinha do campo — Cabe êste nome a várias 
espécies de cobrinhas da fam. Colubrideos, quando pelo 
colorido lembram vagamente as serpentes com que o povo 
as compara; em geral tx-ata-se de Liophis poecilogyrus (de 
barriga vermelha) e outras congéneres e algumas do gên. 
Rhadinaea. São de todo inofensivas, pois não têm dentes 
que possam vulnerar e muito menos injetar veneno. 

Jariiacaca ou "Jaritataca ou "Jaguari- 
taca" — O mesmo que "Cangambá". Note-se que 
em Pernambuco, como o registrou Rod. Garcia (Dic. Bra- 
sileirismos, Pernambuco) "tacaca" se conservou na 
linguagem comum com a significação: "transpií-ação fé- 
tida, mau-cheiro do corpo humano" e, evidentemente, a 
comparação é bastante expressiva . . . 

Jataí ou "Jataí amarelo" — Abelha social da 
fam. Melioponideos, Trigona jaty, pequena de 3,75 a 4 
mms., cabeça e tói-ax pretos, abdómen bruno com o primei- 
ro segmento amarelo; pernas bruno-amareladas. Faz sua 
pequena colmeia em árvores ôcas ou nos interstícios de 
pedras, em rochas ou nos muros ; o tubo de entrada é como 
um dedo de luva, que as abelhas de noite fecham, juntan- 
do a cêra das paredes da entrada. Êste tubo, que às vezes 
tem meio palmo de comprimento, em geral é bifurcado e 
não raro termina em vários dedos. São abelhas muito tí- 
midas e, sentindo-se ameaçadas, recolhem-se e custam a 
reaparecer. O mel é muito apreciado, porém pouco. "Se- 
te p o r t a s" ou "T rês p o r t a s" é a mesma espécie, 
referindo-se tais nomes às bifurcações da entrada. 

As "meigas jataís" dos poetas não são de 
forma alguma tão fracas como seu corpinho franzino 
faria supor, nem sua índole é sempre pacífica. Conta a 
respeito o Pe. M. N. Martins dois casos bem interessantes : 
"Abrindo por acaso uma colmeia da tal jataí, romperam- 
se umas cápsulas do delicioso mel, o que foi bastante para 
atrair uma ou duas abelhas do reino. Ob.servaram-nas 
as jataí e, voando em roda, espreitaram o momento para 
darem boa paga às ladras e, tomando-as pelo seu lado 
fraco, as inutilizaram por completo. Este lado fraco das 
européias eram as azas, que as jataís prendiam e amar- 
falhavam, tornando-as assim inúteis para o vôo. Quando 
depois as Afis iam para voar, já não o podiam e ficaram 
assim, como um barco sem vela, à mercê das jataís, que 



— 436 — 



depois, já mais numerosas, oito contra uma, acabaram de 
inutilizar as duas européias e as outras, que ainda sobre- 
vieram a roubar mel. 

Relata ainda o mesmo observador um fato passado 
com a abelha urussú (aliás bem mais corpulenta que a ja- 
taí) : "Tem a urussú sempre uma sentinela de guarda à 
porta. Vão as jataís e fazem-lhe negaça e ela avança, 
saindo um pouco fora do orifício para colher alguma. E' 
então que uma jataí vai por trás e se lhe pega a uma das 
azas; e o mesmo fazem outras e dão começo à refrega, 
que aumenta com a vinda de outras de dentro a secundar 
a primeira e das de fora que acodem à pilhagem. Duram 
dias, creio, estas lutas, dias seguidos, ficando de certo 
triunfantes as jataís". 

Para não atribuir exagero ao autor acima citado, que 
tanto exalta a valentia das jataís, podemos admitir a hi- 
pótese de que a colmeia das urussús estava fraca demais 
para se defender melhor. 

Jataí mosquito ou "J. preto" — E' ainda, em 
São Paulo e no Rio de Janeiro, o nome de uma espécie 
de MeliponideoN, Trigona testnccicornis, que no Ceará é 
conhecida pelo nome "Camuengo". Veja-se também 
"A belha mosquit o". 

Jataí da terra — Melipona (Trigona) lineata, é espé- 
cie conhecida de todo o Brasil, não tendo porém maior 
importância como produtora de mel. Nidifica no solo e 
daí seu nome, mas constam também observações de ninhos 
em fendas e ôcos de pau. 

Jatcum — Tcschauer, no Novo Vocab. Nac. registra 
esta denominação, explicando designar insetos dípteros, 
que perseguem a gente com seus ferrões. Não temos do- 
cumentação nenhuma que permita a verificação zooló- 
gica. Veja também sob "I n h a t i u m". 

Jatí — Pronúncia antes nortista e abreviada por 
"Jataí". 

Jãtuarana — Peixe de escama do Amazonas, Hemio- 
dns (Aninitia) microcephcúus, do mesmo género do "U b a- 
tí", de família afim aos corumbatás. O peixe de nome 
semelhante, " J u t u b a r a n a", diverge totalmente no fei- 
tio e no modo de viver, da espécie acima mencionada e o 
mesmo vale para o nome subsequente, "Jau ara na", 
cuja etimologia aliás é clara. 



— 437 - 



Jaú — Peixe de couro Nematognatha da fam. Pimelo- 
dídeos, PauUcea lutkeni. E' difícil caracterizar esta es- 
pécie sem recorrer a dados anatómicos, de nomenclatura 
complicada. Torna-se, porém, inconfundível pelas pro- 
porções que alcança êste ban:re de corpo abrutalhado, com 
quasi 2 metros de comprimento e mais de 100 quilos de 
peso. Habita os grandes rios das bacias do Paraná e 




do Amazonas. Os indivíduos novos, conhecidos por 
"jaú-poca" são amarelos e têm corpo recoberto de 
pequenas máculas violáceas, mas em se tornando adultos, 
tomam colorido uniforme escuro. 

Sua pesca é feita à linha larga, como a dos outros 
grandes peixes, porém as proporções dos apetrechos de- 
vem corresponder ao vulto do enorme pescado. O anzol 
pode medir até 20 cms. com 8 cms. de largura entre a 
haste e a fisga; a linha deve ser grossa e o pescador dos 
mais robustos, pois c formidável a força com que o jaú 
procura se defender. Tendo a ponta da linha amarrada 
na canoa, é certo o peixe arrastar a embarcação consigo 
por longo tempo, mesmo rio acima. Conseguindo êle, po- 
rém, entocar-se, é excusado lutar com o peixe, pois nin- 



— 438 — 



guém mais lhe deitará mão, antes de se entregar, exte- 
nuado, o que pode durar longas horas. 

Como o fazem vários outros peixes, o jaú desova em 
pleno rio e por isto é natural que se perca a maior parte 
dos ovos, ou porque sejam comidos pelos lambaris ou por- 
que a correnteza os arraste para lugares impróprios para 
o subsequente desenvolvimento. 

Afim de ainda assim garantir a eficiente multipli- 
cação (veja-se o que a respeito foi explicado sob "Cascu- 
do"), o jaú procura contrabalançar essa falta de melhor 
precaução, com a elevação, ao máximo, do número de óvu- 
los. De fato, fazendo a contagem, aliás em um exemplar 
de tamanho médio (70 quilos de peso total e cujos ovários 
pesavam 4 quilos), pudemos calcular em aproximada- 
mente 3.640.000 o número de óvulos, o que, até agora, re- 
presenta a quantidade máxima verificada em nossos peixes 
d'água doce. 

Jauarana — Sinónimo da "Sa ranha", que é a 
mais desenvolvida das espécies de "P c i x e cachorro" 
da Amazónia. Aliás o vocábulo indígena parece significar 
"ja (g) uarana", isto é, "p s e u d o - j a g u a r". 

Jejá — Nome de uma formiga, registrado por Oscar 
Monte (Alm. Agric. Bras. 1926) como sendo Camponotm 
abdominaliN, formiga açucareira (no Ceará?). 

Jejú — E' o nome do peixe da fam. Characideos, sub- 
fam. Erythrinineos, HoplerijUirinus unitaeniatus, aliás 
muito parecido com a traíra comum, com a qual comparti- 
lha o modo do vida e a vasta distribuição consequente, do 
Prata à Guiana. Gosta mais das águas paradas e, duran- 
te as grandes chuvas, transporta-se facilmente de um rio 
para outro, aproveitando as zonas alagadas, que põem em 
comunicação as cabeceiras de duas vertentes. Veja-se 
"Traíra" e também sob "Morobá", espécie seme- 
lhante. 

Jcquitiranabóia ou "J a q u i r a n a b ó i a" — Esta 
última é a pronúncia original indígena; várias cor- 
ruptelas deturpam a palavra, omitindo ou transformando 
sílabas ; além disto "Cobra do a r " ou "de az a", como 
se diz no Norte. São insetos Homopteros da fam. Fulgo- 
rideos, com várias espécies pertencentes ao gên. Lanter- 
naria, as quais pouco diferem entre si. A cabeça enorme, 
entumecida, tem um tubérculo perto da base e que finge 
um grande par de olhos, quando êstes de fato se acham 
ao lado e junto dêles há um fio sobre um pequeno tubércu- 



— 439 



lo, o qual representa a antena. As azas são amarelo-sujas, 
pontilhadas de pardo e preto; a aza posterior tem um 
grande ocelo (olho de coruja). Mede ao todo 6 a 7 cms., 
com o dobro de envergadura. Quem quer que a veja pela 
primeira vez, deixa-se impressionar pela exquisita confi- 
guração, tão fora dos moldes dos insetos comuns. Ao 
povo fez tal impressão, que em todo o Brasil se tornou 
geral a crença de ser êsse um bicho venenosíssimo, que 
fulmina não só o homem e os animais, como também faz 
secar árvores, etc. De fato, porém, ti-ata-se de um in- 
seto incapaz de fazer mal a alguém — pela razão muito 
simples de não ter arma 
alguma com que possa 
ferir. Como se não bas- 
tas.sem essas lendas, tam- 
bém os i)rimeiros natu- 
ralistas que examinaram 
êste inseto, lhe atribuí- 
ram propriedades lumi- 
nosas, como bem o reve- 
lam os nomes científicos 
escolhidos. Parece que 
há um certo fundo de 
verdade nisto, conquan- 
to geralmente seja nega- 
do; mas a tal fosfores- 
cência será puramente 
acidental e deverá pro- 
vir de microorganismos Jequlllranabói» 

vegetais, que às vezes se 

desenvolvem sobre o abdómen. Éste possue uns filamentos 
brancos (como aliás o tem, com muito maior desenvolvi- 
mento, outras espécies menores da mesma família) de 
substância mais ou menos parecida com flocos de amianto. 

A espécie mais comum no Sul do Brasil é Fulgora 
lantcrnaria. Aos etimólogos lembramos que Marcgrave 
registra "I a q u i r a n a" como sendo o nome tupinambá 
das cigarras. (Confirma-o a pronúncia baiana: jaquira- 
nabóia) e como desta forma o vocábulo corresponde a 
"pseudo-cigarra-cobra", o índio demonstrou que reconhe- 
ceu a afinidade destes insetos com as cigarras; o acrés- 
cimo "b ó i a"- cobra, talvez corra por conta do temor que 
também ao selvícola inspirava o feio inseto. 

Jeraqui — Em Goiaz é o mesmo que "Jaraquí" 
na Amazónia. 





— 440 — 

Jeruva — O mesmo que "Juruva". 

Jesus-meu-Deus — Em Sergipe (segundo Cleômenes 
Campos) é o nome onomatopaico de um pássaro, que tal- 
vez seja o mesmo "Tico -tico" do Sul; pelo aspeto 
parece ser o mesmo e a entoação do canto é semelhante. 

Jia — Ver "G i a". 

Jibóia — Cofistrictor constrictor, pertencente à fam. 
Boideos. Atinge 3 e mesmo 5 metros de comprimento e 
portanto, na fauna brasileira, só a "S u c u r í" a ultrapas- 
sa em tamanho. E' de côr parda, com grandes manchas 
claras no dorso e duas linhas escuras, paralelas, unidas 
entre si por outras transversais (como degraus de esca- 
da). Habita só as regiões sêcas do sertão, onde caça ma- 
míferos pequenos e grandes, até as dimensões da jagua- 
tirica; não ataca o homem e mesmo quando provocada, 

não aceita a luta, procurando, ao 
contrário, fugir. Durante o dia 
quasi sempre dorme o ainda que 
se mova, nem por isso percebe 
logo a pessoa que se aproxima, 
tornando-se, portanto, fácil ata- 
cá-la ii pauladas. Mesmo depois 
de ter aiianhado alguma panca- 
da, sempre só procura fugir. Na 
Amazónia parece que em algu- 
mas regiões o povo favorece à 
jibóia uma boa acomodação em 
casa, pois assim desaparecem os 
ratos da dispensa ou do arma- 
zém. E' ovípara o vivípara ao 
mesmo tempo; dentro do ovo a cobrinha (!) já atinge 
50 cms. de comprimento. Habita a América do Sul, de 
S. Paulo para o Norte. ' 

As outras espécies da mesma família, dos géneros 
Boa e Epicrntes, um tanto semelhantes, atingem apenas 
2 metros de comprimento e são conhecidas pelos nomes 
"Cobra de veado" e "Salamanta". 

Jibóia vermelha — Espécie da Amazónia, perten- 
cente ao gên. Epicrdif'!^, no qual alguns escritores in- 
cluem a "Salamanta". A J. vermelha (E. cenchris) 
é realmente pardo-avermelhada, sendo que na cauda o ver- 
melho quasi predomina; além disto, ornam-na várias sé- 
ries de manchas redondas, sendo a mediana de côr clara, 
orlada de escuro, o que não se verifica nas demais; a ca- 




— 441 — 



beça mostra desenho de linhas. Em sua distribuição ex- 
tende-se do Est. de S. Paulo ii Amazónia e mais para o 
Norte. 

Jiquitaia — Veja "Giquitaia". 

Joaninha — Besourinho da fam. Coccinellideos, se- 
mi-esféricos, de cores variegadas às vezes brilhantes. Ao 
contrário das "Vaquinhas", tão nocivas, êstes peque- 
nos coleópteros pertencem ao reduzido número de be- 
souros úteis. De fato, os Coccinellideos, tanto na forma 
adulta como enquanto larvas, perseguem os pulgões e 
os Coccideos livres, de que se alimentam. Tais são entre 
as espécies nacionais Ncda sanguínea, de elitros côr de 
tijolo e tórax preto com desenho amarelo; Azya luteipes, 
azul metálico, com elitros revestidos de pêlos curtos, me- 
nos no centro de cada elitro, que tem uma área circular 
glabra; as pernas são amarelas. Pentilia egenea, verde 
negro com reflexos metálicos. Há uma espécie australia- 
na, Novius cardinalis, vermelha, com cabeça negra; cada 
elitro tem duas manchas oblongas e a comissura dos mes- 
mos bem como o seu bordo posterior são de côr negra. 
Esta "Joaninha", que persegue especialmente o Coc- 
cídeo Icerya purchasi (uma das espécies mais nocivas), 
tem sido importada nos países em que existe o coccídeo ; no 
Estado de S. Paulo e outros do Brasil também já foi in- 
troduzida, prestando ótimo serviço nos pomares. 

Joaninha — Peixe de água doce, da fam. Cicklideos, 
Crenicichla lacnstris. E' nome mais usado no Rio Grande 
do Sul. Veja " J a c u n d á". 




Joaninhn 



João barbudo — Ave da fam. Biicconideos, Malaco- 
ptila torqiíata, da Baía e Santa Catarina. O feitio do cor- 
po é bem o do seu parente "João b ô b o". A côr é bru- 
na, com estrias longitudinais amarelas na cabeça e nas 
costas; sobre o jjeito destaca-se uma faixa branca, orlada 
de preto por baixo. Alcunharam-nos de "barbudo", mas to- 
dos os representantes desta família têm, como êste, nu- 
merosas cerdas fortes na base do bico. 



— 442 — 



João de barro — ou "F orne ir o" ou "Oleiro" 
ou "Pedreiro", "Maria de barro" no Ceará e 
"Amassa barro" em Mato Grosso. Na Argentina 
igualmente é conhecido por "Hornero". Pássaros da 
fam. Dendrocolaptideos. A espécie Furnarius rufus en- 
contra-se de Minas a Mato Grosso para o Sul. E' ave um 
pouco menor que o sabiá, porém muito mais delgada, to- 
da ela côr de terra, com gai-ganta branca e cauda aver- 
melhada. Na Amazónia representa-o F. tricolor, seme- 




lhante, porém mais claro no lado inferior, com cabeça par- 
da e uma grande sobrancelha branca. 

O ninho consiste numa bola de barro com dois com- 
partimentos, isto é uma ante-sala e a alcova. E' uma obra 
sólida e muito bem acabada, mormente considerando que 
o pedreiro só pode trabalhar com o bico, ajudado pelos 
pés. Sobre o galho grosso de uma árvore isolada, um poste 
de telégrafo ou mesmo na Cumieira de uma casa, o casal 
constróe a grande bola de barro, que mede mais de 30 
cms. de comprimento na base, por metade apenas de lar- 
gura; a altura do edifício alcança 25 cms. A entrada 
acha-se sempre na face comprida e permite ao pássaro 
entrar sem se abaixar. Uma parede divisória separa a an- 
tecâmara, menor, da alcova maior; nesta está a cama, 
feita de hervas sêcas, cabelos e penas, e aí a fêmea choca, 
três vezes por ano, os 3 ou 4 ovos brancos de cada postura. 
No Rio Grande do Sul, acompanhando uma linha telegi'á- 
fica, pode-se notar, às vezes, que um poste sim, outro não, 
tem um ninho de João de barro. 



— 443 — 



E', sem duvida, um dos elementos mais populares e 
bem vistos da nossa avifauna e também os índios gosta- 
vam dêste pássaro. Citamos, entre várias, a lenda dos 
Caxiuanás, que diz o seguinte: "Os Caxiuanás não pos- 
suíam casas e dormiam no chão, nem possuíam panelas 
e comiam só carne assada. Invejando êles a panela do 
João de barro, este perguntou si êles queriam aprender 
a fazer panelas e casas. Então o pássaro lhes ensinou 
tudo isto e, daí por diante os Caxiuanás ficaram gostando 
do João de barro e não o matam". 

E' ave alegre, que gosta de conviver com o homem, 
pois, não o incomodando, chega-se ao terreiro das fazen- 
das e de preferência vai ficar perto do x-êgo d'água, que 
atravessa o pomar. Saltitando pelo chão ou voando a cur- 
tos trechos de lá para cá, o casal passa o dia alegre, sem 
se preocupar muito com as pessoas que o observem, quie- 
tas, a poucos metros de distância. Divertem-se também 
gritando em curiosos duetos, que consistem naquela interes- 
sante forma de pergunta e resposta, tão característica 
para várias espécies de nossos pássaros : o macho emite 
um grito e a fêmea imediatamente lhe responde, a meio 
tom baixo e assim se sucedem, alternadamente, os dois 
sons, sempre iguais, porém com tal rapidez e i)recisão 
de ritmo, que causa admiração a quem saiba quanto custa, 
a nós homens, ensaiarmos tal exercício de música em an- 
damento prestíssimo. Um músico profissional, que conos- 
co observava tal brincadeira do casal de João de barro, 
admirou principalmente a exatidão com que entra a se- 
gunda voz, ao que parece, independentemente de qualquer 
aviso prévio por parte do primeiro executante. Os músicos 
da nossa raça precisam primeiro ser advertidos pela ba- 
tuta do regente, ao passo que essas aves respondem como 
que automaticamente, no mesmo instante, ainda que este- 
jam a certa distância uma da outra. Não é apenas o João 
de barro que realiza com tal perfeição essa brincadeira mu- 
sical; vários outros passarinhos assim se divertem e tam- 
bém algumas aves aquáticas, do grupo dos frangos d'água, 
têm igual hábito. 

João bôbo — também "Capitão do mato", 
"Chucurú" ou "Dormião" e, na Amazónia, "Ma- 
curú" ou"Jucurú" e "Rapazinho dos ve- 
1 h o s". Aves da fam. Bucconideos, gên. Bucco, que com- 
preende uma dúzia de espécies. São avesitas relativa- 



— 444 — 



mente pequenas (20 cms. de compi-imento), mas o corpo 
é grosso ; a cabeça, volumosa, em geral se destaca do tron- 
co, não pelo feitio do pescoço, mas por terem quasi todas 
essas espécies uma coleira de côr diferente. O bico é gros- 
so com ponta do maxilar curvada para baixo. "João 
barbudo" e "Capitão de bigode" são alcunhas 
que se referem às cerdas numerosas e longas na base do 
bico. No Sul do Brasil a espécie mais conhecida é B. cha- 
curu, de côr pardo-avermelhada no dorso, com faixas pre- 
tas transversais; as faces são pretas com manchas bran- 
cas; branco também é o lado ventral e a coleira. Nidifica 
na terra, para o que excava uma galeria de um metro ou 
mais de penetração, sempre à beira de um barranco e isto 
muito premeditadamente, de forma a evitar inundação 
pelas chuvas. A galeria termina em uma câmara, onde o 
pássaro choca seus ovos brancos sobre um colchão de fo- 
lhagem. 

A denominação desta ave na Amazónia deve ser qual- 
quer coisa semelhante a " J a c u r ú" ou "J u c u r ú" ou 
"Chacurú" (como foi adotado na nomenclatura cien- 
tífica, para uma espécie de vasta distribuição: Bucco cha- 
curú) ou "Sucurú" ou "Macurú", grafia e.sta in- 
troduzida por Goeldi (Álbum, Est. 26, fig. ], porém com 
a ressalva: "índios Tembés"). Marcgrave e Wied regis- 
tram a denominação indígena do Nordeste "Tamatiá". 
Também nós registrámos aqui estas vozes indígenas, po- 
rém não temos documentação quanto ao seu uso por parte 
do nosso povo. 

João congu ou " J o n c o n g o" — O mesmo que 
"G u a c h e". Em Sergipe : "João c o n q u i n h o", se- 
gundo Cleômenes Campos. 

João corta-pau — Aves da fam. Caprhnulgideos (veja 
"Curiango") do gên. Caprimnlgiis, cujo grito parece 
pronunciar a frase que lhe dá o nome; ouve-se a primeira 
palavra pouco distintamente, as duas ou três outras se- 
guindo-se rapidameiite. O nome aplica-se em especial a 
C. ruf us, de côr parda em cima, com delicadas faixas trans- 
versais; as penas do vértice e do dorso têm no centro uma 
mancha preta alongada. O lado inferior é amarelado, com 
linhas pretas. O macho distingue-se por ter grandes man- 
chas brancas nas retrizes exteriores. A espécie, em sua 
distribuição por quasi toda a América do Sul, extende-se 
da Argentina ao Paraná. 



445 — 



João grande — ou "Socó" no Sul, ou "Ma- 
guari" na Amazónia, é a grande garça da fam. Ardei- 
deos, Arãea socoi, a maior das nossas espécies, pois mede 
120 cms. de comprimento. A côr do dorso é cinzenta; a 
cabeça é preta no alto e de igual côr é o penacho da nuca ; 
a cara, o pescoço e o lado ventral são brancos; uma linha 
de penas pretas percorre o meio do pescoço. De lindo 
efeito são as delicadas plumas que, à moda de "aigrettes" 
se sobrepõem à plumagem comum. O bico é amarelo, as 
pernas pretas. Apezar de não ter o feitio característico 
e só por ser pernalta grande, os letrados chamam esta ave 
de "cegonha", mas o povo sabe perfeitamente que "João 
grande" ou "Socó" é uma garça, pois basta reparar 
como traz o pescoço encolhido, ou antes curvado em S, o 
que as cegonhas não fazem. Só quando descobriu a preza 
— peixe, anfíbio ou réptil — rapidamente êle distende o 
longo pescoço, para fisgar o bocado com a ponta aguçada 
do bico. 

João gi-ande — No Rio de Janeiro dá-se este nome 
também à grande ave oceânica, o "Alcatraz". 

João pinto — O mesmo que "Sofrê". 

João pobre — Passarinho da fam. Tyrannideos, Ser- 
pophaga, de Minas ao Rio Grande do Sul ; assemelha-se ao 
"A 1 e g r i n h o". E' de côr cinzenta, mais escura no lado 
dorsal; no vértice nota-se uma mancha branca. Vive de 
preferência à beira dos rios e é também junto à água que 
faz seu ninho, por baixo das pontes, nas ribanceiras ex- 
cavadas, nos telheiros dos engenhos, etc. A construção 
prima, não pela boa contextura e acabamento, mas pelo 
cuidado com que o pássaro procura os materiais mais fo- 
fos e macios. À moda de um balanço, o ninho, em forma 
de cadinho fundo, pende de duas fibras ou raizcs e, en- 
tretecido com alguns fios, um punhado de musgo abriga 
um basto colchão de penas, onde são chocados os 3 ovinhos, 
brancos com ligeiro tom esverdeado. 

João tcncném — O mesmo que "Picho ror é". 

João torresmo — Veja sob "Torresmo" e "Pão 
de galinha". , 

João velho — Pica-pau, Celciis flavescens, da Baía 
ao Rio Grande do Sul. E' um dos pica-paus mais interes- 
santes i)elo seu aspeto, que realmente dá razão à escolha 
do nome vulgar. A plumagem do corpo é preta, mas a 
cabeça é como de um velho encanecido, com longa cabe- 



5SCÍELO 9 ]_0 11 12 1 



— 446 — 



leira ou, diremos mais de acordo com a realidade, com 
penas amarelo-claras, formando um vistoso topete. As 
coberteiras da cauda são amarelas e de igual côr são as 
orlas das penas das azas e do dorso. O macho distingue-se 
por ter bochechas vermelhas. Também é conhecido por 
•'Pica-pau de cabeça amarela". 

Jucurú — Veja sob "João b ô b o". 

Jucurutu — Denominação amazônica do grande 
"Mócho orelhudo", Bubo magellanicus. Veja-se 
porém, também sob "M u r u c u t u t ú". 

Judeu — Na Paraíba só se conhece hoje por êste no- 
me o peixe marinho (que o índio designava como "t e m - 
betara"?) aqui registrado como "Papa-terra" ou 
"Betara". 

Jundiá — ou na Amazónia "Jandiá"; a pronún- 
cia original indígena é antes "N h a m d i á". E' difícil de- 
finir quais sejam os peixes de couro da família Pimelodi- 
deos compreendidos sob esta denominação; talvez todos, 
com exclusão dos tipos especializados e dos "Mandís". 
Em sentido restrito designa as espécies do gên. Rhamdia 
(nome êste que não é outra coisa sinão a pronúncia in- 
dígena, com a inicial errada) que abrange cerca de 15 es- 
pécies; no Brasil meridional são mais comuns R. sapo, hi- 
lari, qtielen e sehae; há porém espécies semelhantes aos 
mandís compreendidos no mesmo género Rhamdia. Ana- 
tomicamente pode-se dizer que os jundiás se distinguem 
pela fontanela curta ou fechada posteriormente e por não 
ter ela nenhuma constrição, ao passo que os mandís tem 
fontanella aberta até o processo occipital, tendo além disso 
uma constrição posterior aos olhos. Pelo aspeto do cor- 
po, os jundiás são menos elegantes que os mandís, devido 
a ser mais volumosa a parte anterior e por ser a parte 
caudal menos delgada, com alguma semelhança, portanto, 
com os bagres (Veja êste e também sob "Chorolam- 
b r e". Na Amazónia, porém, a significação primitiva do 
vocábulo foi mantida e assim abrange muitos outros pei- 
xes de couro, inclusive, ao que parece, formas do vulto do 
sorubim (veja-se o índice da "Pesca" de José Veríssimo) 
e do jaú. A propósito dêste último narra Miranda Ribei- 
ro que em Manaus lhe identificaram tal peixe como "Jun- 
diá de 1 a g ô a". Na Amazónia a pronúncia corrente é 
"Jandiá". 



— 447 



. Juó — Ave da fam. Tinamideos, do mesmo género 
que os "Inambiis". Talvez seja a mesma palavra que 
" J a ó", pronunciada daquela forma no Brasil central, 
onde foi registrada para Crypturus scolopax. 

Jupará "J u p u r á" ou " J u r u p a r á" — Não sa- 
bemos se " J a p u r á" também é usado ou si houve apenas 
um erro tipográfico inicial, depois copiado pelos autores 
subsequentes, que assim registram o vocábulo. Também 
é chamado "m a c a c o de meia noite". E' parente 
próximo do "Mão pelado", portanto carnívoro da 
fam. Procyonideos, Potos flavus (antigamente Cercoleptes 
caudivolviãos) , da Baía, Goiaz, Amazónia e daí para o 
Norte até o México. Mede 80 centímetros de comprimen- 
to, porém mais da metade cabe à cauda. A côr é ama- 
relada, com uma faixa escura ao longo do espinhaço. 
Característica é a cauda longa, fina e além disso preen- 
sil, da qual se utilisa à moda dos macacos e daí o nome 
vulgar, que também alude aos hábitos noturnos do ani- 
mal, aliás raro. Vive de frutos e vegetais em geral; tal- 
vez também aprecie ovos e passarinhos. 

(Seja lembrado que na mitologia dos índios amazó- 
nicos figura um ente fantástico " J u r u p a r í", do mesmo 
ciclo a que pertencem o caapora e talvez o sacípererê. Às 
vezes o juruparí é identificado com o satanaz, mas Bar- 
bosa Rodrigues, o emé- 
rito conhecedor das len- 
das indígenas, descre- 
ve-o como sendo apenas 
a personificação do pe- 
sadelo, que assusta du- 
rante o sono. Vejivse 
também a interpreta- 
ção ao nos.so ver erra- 
da, dada por Graça 
Aranha em "Malazar- 
te" pag. 33. Aqui o as- 
sinalámos apenas pela 
semelhança dos dois 
vocábulos). 

Jupatí — Veja 
"Quica". Talvez se- 

já aplicado de preferência às espécies de tamanho ime- 
diatamente inferior ao "gambá", referindo-se portanto 
às espécies do género Metachirus. 




— 448 — 

Jurara — No Maranhão é o mesmo que "Mus- 
s u ã". E' aliás o nome genérico, tupi, dos quelônios. 
Jurara-assú designa a "Tartaruga da Amazô- 
n i a". 

Juritaí — Veja abaixo, sob " J u r u t a u". 

Juriti — O mesmo que " J u r u t í". 

Jurueba — O mesmo que "Papagaio do pei- 
to r o x o". 

Jurumim — Nome indígena do " T a m a n d u á 
b a n d e i r a". 

Jurupará — O mesmo que "Jupará". 

Jurupensem ou"Bôca de colher" — O mesmo 
que "J u r u p óc a". 

Jurupixuna — Macaco "de bôca preta"; veja 
sob "Macaco de cheiro". 

Jurupoca ou "Gerupoca". — Peixes de couro 
da fam. Pimelodideos, do grupo do "Sorubim"; como 
se trata de vários géneros semelhantes, de vasta distri- 
buição, tanto do sistema amazônico como do platino, o vo- 
cábulo não tem significação específica. Ficam aqui com- 
preendidos Sornhirn lima e HctriiNoriibim platyrhynchus, 
assim como ainda outras espécies parecidas, das que atin- 
gem grandes dimensões, quando têm focinho muito alon- 
gado, chato, ou, como diz o nome vulgar, "b ô ca de co- 
lher" ("Jurupensem") . 

Jururú — No Norte do Br;isil designa um sapo não 
classificado em Pernambuco, citado pelo Dr. Ad. Lutz. 

Jurutau ou "Jurutauí" — Na Amazónia pro- 
nuncia-se assim em vez de "U r u t a u" (Nyctibius). 

Jurutí ou "Juriti" — Ave da fam. Peristeri- 
deos, gên. Lcptotilu, que diferem das pombas chamadas 
"rôlas" por não terem manchas metálicas nas azas e 
além disto a primeira pena rêmige da mão é atenuada. 
São ainda "Jurutís", porém com o qualificativo "pi- 
rangas", isto é vermelhas, as espécies do gên. Gcolnj- 
gon, as quais de fato se distinguem pelo lindo colorido 
roxo-purpúreo do pescoço posterior e do dorso. Em ta- 
manho as jurutís são intermediárias entre as pombas e 
as rolas. No Brasil meridional há duas jurutís: Leptotila 
reichcnbachi, cujo colorido é o seguinte: dorso bruno aver- 
melhado, frente e garganta alvacentas, vértice cinzento, 
pescoço e peito roxos, barriga branca; L. ochroptera dife- 



— 449 



re da precedente por ter o dorso pardo-cinzento e a nuca 
e o pescoço posterior tem brilho metálico, verde furta- 
côr. Da Baía para o Norte há uma outra jurutí, L. ru- 
faxilla, aliás pouco diferente. 

Como o Benteví e a Araponga, a jurutí é também uma 
das aves mais características e conhecidas nas regiões onde 
ainda haja passaredo. De manhã cedo gosta de vagar 
pelos trilhos da capoeira, pois é aí que encontra seu al- 
moço, ora uma semente, ora um inseto ou um verme. Sua 
voz é um ru-gu-gu-gu-hu melancólico, como que soprado 
e no entanto audível a grande distância. E' considerada 
boa caça, mas para surpreendê-la é preciso andar caute- 
loso à sua procura, pois em geral ela foge logo e só se 
ouve o bater das azas por entre as moitas. 

(Jurutí pepena) — Na Amazónia designa uma pom- 
ba mística, encantada, que paraliza as suas vítimas (em 
tupi "pepena" — aquele que faz quebrar). J. Veríssi- 
mo, Cenas da Vida Amazônica, pág. 64 diz: "uma ave 
fantástica, que canta perto de vós e não a vedes, que está 
talvez à vossa cabeceira e a não sentis; ouvireis o pio lú- 
gubre da ave, sem que possais jamais descobrí-la. Lsto é 
para os índios objeto de grande terror, a ponto de não 
consentirem que se fale no Jurití-pepena com menos- 
prezo. Aqueles a quem êsse ente fabuloso acerta de es- 
colher para vítima de seus malefícios, acaba paralítico". 

Jurutí piranga " J. v e r m e 1 h a" ou " V e v u i a" — 
Do gên. Geotrygon, que difere de Leptotila, como já foi 
dito sob Jurutí, por não ter a primeira rêmige atenuada. 
G. montana é de todo o Brasil e e.stende-se também até 
o México; G. violácea, que só ocorre de S. Paulo para o 
Norte, lhe é semelhante, mas o lado ventral é mais bran- 
co e o colorido do dorso mais vivo. 

E' pomba que pouco vôa e constantemente se a vê 
catando seu alimento no chão, ao mesmo tempo que se 
distrai cantando, si assim se puder qualificar seu monó- 
tono fi-ii-ií, inteiramente nasal e um tanto prolongado; só 
o macho muda um pouco de voz, quando arrula. 

Juruva ou "Taquara" ou "Udú" (Hudu) — 
Aves da fam. Momotideos, do porte dos Anús, pouco co- 
nhecidas do povo, porque as quatro espécies compreen- 
didas sob êste nome são habitantes da mata. O colorido 
é belo, verde em cima, castanho claro em baixo, a cabeça 
ornada de azul de vários matizes, preto e vermelho quei- 
niado. A cauda é longa e em algumas espécies as duas pe- 
nas medianas que sobi-esaem tem um pequeno trecho sub- 



Lr 



Lacraia — O mesmo que "Centopeia"; veja 
"Lacrau". Em Sergipe, porém, segundo afirmação do 
Sr. Cleômenes Campos, lacraia é sinónimo de "Escor- 
pião", o que aliás concorda com a opinião do povo em 
várias outras regiões do país e a mesma confusão se 
repete nos verbetes seguintes. 

Lacrainha — Devido, certamente, à confusão a que 
acima aludimos, este diminutivo de lacraia designa os 
Forficulideos (veja "Tesoura"), que até certo ponto 
imitam oa escorpiões e com os quais vagamente se pa- 
recem, mais do que com as lacraias (Centopeias). 

Lacrau — E' propriamente sinónimo de "Escor- 
pião"; o povo, porém, estabelecendo certa confusão, 
aplica às vezes também esta denominação às "Cento- 
peias" (lacraias), devido à semelhança dos nomes e 
por serem ambos artrópodes venenosos. Aliás esta con- 
fusão da nomenclatura já nos veiu de Portugal, onde, 
(conforme o diz o prof. A. de Vasconcellos, "Museus Es- 
colares" pág. 134) os escorpiões são denominados lacraus 
e também alacraus e alacraias. Veja-sc também "Li- 
c r a n ç o". 

Lagarta — Larvas dos lepidópteros, na fase subse- 
quente ao ovo; comendo vorazmente, crescem, sofrendo 
sucessivas mudas da pele, ao todo 4 ou 6 vezes. Com 




exceçao das Traças , que 
se alimentam de substân- 
cias de origem animal, tôdas 
as lagartas comem unica- 



Lagarta mente substâncias vegetais e 

assim causam dano, às ve- 
zes considerável, à agricultura. A regra é ter cada es- 
pécie predileção por uma determinada folha vegetal; há 
porém algumas mais ecléticas. Há lagartas que vivem no 
interior dos caules ("Lépidobrocas") e outras que se de- 
senvolvem dentro dos frutos. Tendo atingido completo 
desenvolvimento, transformam-se em crisálida ou tecem 
casulos de fios de sêda, para passarem à fase de ninfa, da 
qual surgirá o lepidóptero adulto. (Veja estampa da 
pg. 398). 



— 454 — 



O corpo da lagarta é roliço, vermiforme, constituído 
pelos seguintes segmentos: cabe, 3 segmentos toracais 
provido de patas e 9 segmentos correspondentes ao abdó- 
men, dos quais 4, os intermediários e o último, têm falsas 
patas ; eis a forma normal : 

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 (segmentos) 
C-MI-lII-O-O-l- 1- 1- 1- O- O- A- (pés) 

SÓ a cabeça (C) e os segmentos assinalados por O 
não têm patas. Há porém numerosas exceções também 
nesse sentido. Nomes especiais de larvas são "Traça", 
"Me de -pai mo", "Mar ando vá", "Tatarona", 
"Curuquerê" e poucos mais. 

Lagarta-aranha ou "Sauí" — No Rio Grande do 
Sul são assim chamadas as lagartas das mariposas da 
fam. Cochlidiideos (Limacodideos), particularmente as do 
gên. Phobetron, devido ao seu feitio estranho, pela dispo- 
sição dos pêlos reunidos em feixes, que simulam as pernas 
de aranhas cabeludas. 

Lagarta de fogo — O Dr, A. Neiva registrou (Via- 
gem Científica, pág. 113) esta denominação, aplicada às 
larvas e fêmeas ápteras de besouros fosforescentes. (Ve- 
ja sob "Vagalume"). 

Como às vezes são encontradas sobre cupins, o cien- 
tista explica em parte pela presença delas a conhecida 
luminosidade daquelas habitações dos Termitídeos. (Veja 
sob "Cupim"). 

Lagarta de fogo — No Nordeste, Sergipe e Pernam- 
buco, é o mesmo que "T a t o r a n a". 

Lagarta do milharal — Esporadicamente e às vezes 
em enorme quantidade, a lagarta da mariposinha da fam. 
Noctuideos, Moeis repanda, ataca várias gramíneas, a 
cana e principalmente o milho. A lagarta crescida atin- 
ge 40 mms. de comprimento e o corpo, cilíndrico e alonga- 
do, é percorrido em sentido longitudinal por várias linhas 
pardas ou pretas, sendo a faixa mediana a mais larga. 
Para metamorfosear, tece ligeiro casulo, meio oculto entre 
as dobras das folhas c a mariposa que surge, mede 40 mms. 
de envergadura; pousa com as azas juntadas obliquamen- 
te em forma de teto. 

Para combater a praga em plantações maiores, às 
vezes convém gastar verde Paris. Si fôr possível, basta 
circunscrever a zona atacada, sulcando a terra com o ara- 
do, de modo a formar 3 ou 4 valetas paralelas e ti*açadas 



— 455 — 



de maneira que a parede vertical do sulco impeça as la- 
gartas de avançar em direção ao milharal indene. De es- 
paço em espaço cavam-se buracos mais fundos dentro do 
sulco, para que as lagartas caiam nessas armadilhas, 
onde serão esmagadas. Às vezes é preciso sacrificar al- 
gumas carreiras de milho, para impedir, por meio dos 
mencionados sulcos, que a praga avance. 

Lagarta pêlo de veado — O mesmo que "Lagarta 

sussuaran a". Veja sob "T a t o r a n a". 

Lagarta rosada ou "L. rósea" — E' nome intro- 
duzido recentemente na literatura da entomologia econó- 
mica e traduzido do inglês: "pink (boll) worm". E' a 
lagarta da pequena mariposa da fam. Tineideos, Platy- 
dera grossypiella, terrível praga dos algodoeiros, hoje cos- 
mopolita. O mal causado é conhecido no Norte por "S e- 
c a" ou "E c 1 i p s e"; as maçãs são corroídas pela lagar- 
tinha e portanto a colheita baixa consideravelmente em 
quantidade e no valor. 

A lagarta a princípio é branca; mais tarde torna-se 
branco-amarelada com manchas e pintas róseas ou côr de 
carne, sobre os anéis; a cabeça é parda, brilhante e um 
escudo sobre o primeiro anel do tórax, de côr um pouco 
mais clara que a cabeça, apresenta no meio uma linha cla- 
ra longitudinal ; atinge 10 a 12 mms. de comprimento. Fara 
passar ao estado de crisálida, a lagarta sai do capulho e 
tece um casulo muito fino, fusiforme, branco, de 8 mms. 
de comprimento. Dêle emerge a mariposa, cuja enverga- 
dura é de 15 a 19 mms. As azas são de côr bronzeada cla- 
ra, com pontas denegridas e da mesma côr são uma faixa 
antes da ponta e uma mancha arredondada no meio de 
cada aza. A única precaução, de que se pode valer o agri- 
cultor, é evitar as sementes doentes, isto é que contenham 
lagartas. Por isto é indispensável desinfetar todas as se- 
mentes, ou por meio de sulfureto de carbono ou pela apli- 
cação de ar quente, a 60° durante 5 minutos. 

Lagartinho — Qualquer lagarto pequeno, mas em es- 
pecial a "T a r a g u i r a". 

Lagartixa — Denominação que abrange diversas es- 
pécies de Lacertileos, de várias famílias, porém especial- 
mente as da fam. Iguanideos (à qual também pertencem 
o grande "Camaleão" e os "P a p a - v e n t o s") bem 
como espécies menores da família de que entre outros 
faz parte o "Tei il". 



— 45.6 



Não há caráter certo que os defina e parece que o 
têrmo é tomado geralmente na acepção de "lagarto 
pequeno". Há contudo uma lagartixa especial: a da 
fam. Geckonideos, Heviidactylus mahuia, que atinge no 
máximo 15 a 17 cms. de comprimento; a côr é terrosa, 
com numerosas faixas transversais, às vezes um tanto 
apagadas. E' muito comum e conhecida, principalmente 
nas regiões quentes do litoral e aí, à noite, vem passear 
pelas paredes das casas, à cata de insetos. Sua pátria é 
a África, de onde nos veiu nos navios negreiros. 




Há, além desta, ainda algumas espécies indígenas da 
mesma família, caracterizadas por terem dedos dilata- 
dos e providos, em baixo, de lâminas transversais, dis- 
positivo êste que lhes permite correr pelas pedreiras e 
subir pelas paredes. O ovo, minúsculo, é quasi redondo. 
No Pará essa lagartixa é conhecida pelo nome português 
"Osga". 

Lagarto — Compreende os répteis da ordem dos La- 
certilios, talvez umas 120 ou 130 espécies ; no Sul designa, 
em particular, os da fam. Teiideos, a que pertence o gran- 
de "lagarto comum" (veja "T e i ú"). 

Lagarto do mar — Peixe do mar, da fam. Synodon- 
tideos, Sunodris intermedius, que, de acordo com o nome 
vulgar, tem efetivamente cabeça semelhante à de certos 
lagartos. Não tem valor económico. Yeja-se também sob 
"Calango" (peixe). 



457 — 



(Lagarto salvador) — O Pe. Badariotti- menciona 
sob êste nome uma espécie de lagarto vermelho, do Norte 
de Mato Grosso "maior que o lagarto comum, ou "tei- 
j ú"; é animal corajoso, que às vezes avança para o via- 
jante" (naturalmente só quando por êste molestado). Pa- 
rece-nos que tal denominação seja apenas uma combina- 
ção lembrada pelo autor, que assim quiz vulgarizar o 
antigo nome genérico " Salvator" , aliás sinónimo de Tu- 
pinambw, que abrange os grandes lagartos. 

Lagosta — Crustáceos decápodes macruros, da fam. 
Palínyrideos; Pavulirus argus é o representante entre nós 
do lagostim europeu (Pa- 
Unuins vidgciris); além 
disso outras espécies da 
mesma família, como Pa- 
nuliriis Ictevica/iula, ocor- 
rem em nossa fauna, mas 
não têm tesouras nos 3 
pi"imeiros pares de patas, 
como as outras lagostas 
européias (Homarus vul- 
gariís pertence à família 
Astacideos e à qual, em 
Portugal cabe o nome es- 
pecifico "Lavagante", bem 
como Nephrops, lá deno- 
minado "Lagostim"). 
As nossas lagostas pouco 
aparecem nos mercados do 
sul do país, quando é cer- 
to serem muito apreciadas 
e muito superiores às la- 
gostas em conserva, que 
importamos em grande 
quantidade. 

Ao sul só chegam até Laeosia 
a ilha de São Sebastião, 

já não sendo mais pescadas em Santos. Em Pernambuco e 
na Paraíba há zonas em que a pesca da lagosta se faz em 
larga escala. Cada pescador dispõe de um grande número 
de cóvos, cestas pentagonais, chatas, de cêrca de 2 ms. de 
comprimento. Fundeadas no mar, são elas revistadas cada 
semana e é admirável cor^io o pescador, sem muito procu- 
rar, acerta com o lugar onde as deixou, às vezes a algu- 
mas milhas da praia. 




— 458 - 



Quando as lagostas não podem ser levadas logo para 
o mercado, afim de "melhor se conservarem são mergulha- 
das vivas em água fervente, com o que sua casca se torna 
vermelha. 

A fêmea, ao desovar, cola os ovos aos pés abdomi- 
nais, não só para ficarem os ovos assim melhor protegidos 
mas também porque o embrião atinge fase larval muito 
adiantada ; assim a multiplicação dêste crustáceo é abun- 
dente, fato êste que muito favorece a pescaria. Tateando, 
embora, a indústria do enlatamento da lagosta vai se 
aperfeiçoando e também a exportação da lagosta fresca 
provavelmente em breve será iniciada em larga escala, 
fazendo tudo isto prever um grande desenvolvimento desta 
pescaria. De acordo com tal intensificação, a fiscaliza- 
ção da pesca deverá ser mais rigorosa, para impedir o 
empobrecimento. 

Lagosta de água doce — Sob êste nome é levado 
ao mercado o grande "Camarão de água doce" 
(fam. Palaemonideos) Bithynis jamaicensis, que alcança 
20 cms. de comprimento, só o corpo (exclusive a mão muito 
desenvolvida, que principalmente nos machos possue te- 
nazes fortes e armadas de espinhos). O colorido do corpo 
é esverdeado, listrado de roxo. Figura no mercado com 
o falso nome de "lagosta", quando efetivamente, e 
também no entender da cozinheira, é um legítimo "c a - 
marão" grande. No Norte do país é o "Pitú". 

Lagosta gafanhoto — O mesmo que "Tamaru- 
taca". 

Lagostim — Crustáceo Decápode macruro, marinho, 
da fam. Scyllarideos, Scyllariis aequinoctialis, semelhante 
à nossa lagosta, mas sem as antenas longas daquela. Em 
Pernambuco é conhecido por lagosta "sapateira". Na 
Baía confunde-so, segundo A. Neiva, sob êste nome, a 
verdadeira lagosta (Pamdirus argus); no Rio de Janeiro 
"Lagostim" às vezes é .sinónimo de "lagosta 
d' água doe e", aliás devido à confusão estabelecida pe- 
ia nomenclatura de origem européia, referente ao Aíttacin^ 
fluviatilis, que não existe em nossa fauna e que vive na 
água doce. Veja-se também o que ficou dito acima, sob 
"Lagosta", quanto à confusão da nomenclatura euro- 
péia, referente a espécies da fam. Astacideos, que não 
ocorrem em nossa fauna, com a.s espécies correspondentes 
sulamericanas. 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



- 459 



(Lamanlino) — E' a denominação européia dada ao 
nosso "Peixe boi". Alguns esciitores tendem a dar- 
Ihe curso entre nós, quando evidentemente não precisa- 
mos de tal neologismo — e muito menos com acepção 
errada. (Veja-se — Apostilas de Pe. Teschauer, 1923, 
baseado em outro autor, que confunde as várias espécies 
de animais distintos: Peixe boi, foca e lôbo marinho!). 

Lambari ou, no Nordeste, "P i a b a" — Abrange 
todos os pequenos peixes de escama d'água doce, da fam. 
Characideos, sub-fam. Tetragonopterineos , caracterizados 
pelos dentes incisivos serrilhados. (Veja estampa da 
pg. 582). 

Trata-se de aproximadamente 150 espécies brasilei- 
ras, que os zoólogos antigamente reuniam quasi todos no 




género. Tetragonopter US, hoje sub-dividido em Hemigram- 
mns, Moenkhausia, Astymiax e muitos outros. 

A alimentação dos lambaris é mixta: vegetais deli- 
cados, insetos, larvas destes e mesmo algum peixinho miú- 
do lhes apetece. Em águas abertas, onde encontram ali- 
mento variado, não se pode atribuir-lhes maior eficiên- 
cia na destruição das larvas dos mosquitos. Muito ao 
contrário, pôde o "Serviço da Febre Amarela" (Rocke- 
feller) tirar grande proveito das "piabas" (Astyanax) 
no Nordeste, em se tratando de eliminar as larvas do 
mosquito domiciliar Aedes aegypti, que se criam nas 
"formas" e outros depósitos caseiros. Não encontrando 
outro alimento, a piaba gulosamente devora todas as lar- 
vas de Culicideos, que se criam na água. 

São em geral peixes de pequenas dimensões e por 
isso não têm valor no mercado; é mais a título de diver- 
são que se os pesca. Basta uma linha, das de costura e 
um alfinete recurvado, para pegá-los e é rara a água de 
riacho ou açude em que não abundem. Algumas espécies 
têm desenho preto, muitas tem nadadeiras vermelhas ou 



460 — 



amarelas ; daí os nomes vulgares : "Lambari de rabo 
vermelho", "L. listrado", "Prata", "Sar- 
di n h a", etc. com o que, porém, não é possível distinguir 
as numerosas espécies. Na Amazónia não são conhecidos 
por lambaris mas por "M a t u p i r í s" e em todo o Nor- 
deste e no litoral até o Rio de Janeiro dá-se-lhes o nome 
de "piabas". "Lambari piquira" ou sim- 
plesmente "P i q u i r a" designa as espécies menores (São 
Paulo e Minas). O "C a n i v e t e", de 5 cms. de compi'i- 
mento, não é lambari verdadeiro. "Lambari bo- 
carra" é o mesmo que "Saguirú". "Tambiú" é 
o lambari grande, de rabo amarelo. 

Os lambaris proporcionam material muito interes- 
sante a quem quizer estudar a desova dos peixes. No 
tempo da procreação, os machos dos Tetragonopterineos 
têm a nadadeira anal áspera, porque se reveste de fileiras 
de finos espinhos, que mais tarde desaparecem. As fê- 
meas permanecem ovadas durante vários meses; a desova 
faz-se parceladamente. Querendo forçar a desova em 
dado momento, basta injetar no casal a hipófise de um 
peixe maior (por exemplo de uma traíra de 30 cms.). 
Prepara-se, triturando bem a hipófise e diluindo em 
0,5 cm^ de solução fisiológica; injeta-se metade em cada 
exemplar, na região dorsal. Mantidos em aquário, cinco 
horas após a injeção observa-se que o macho persegue 
a fêmea, a qual, por fim, expele um jato de óvulos, que o 
macho rega com o liquido fecundante. A evolução dos 
ovos pode ser acompanhada ao microscópio, quando se 
os mantém em pouca água numa placa de vidro; com 
temperatura de 24° C. os peixinhos nascem após 19 horas. 
E', como se vê, o material mais interessante e adequado 
que se possa imaginar, para a demonstração da evolução 
de vertebrados, em aulas de biologia. 

Lambe-olhos — Na Amazónia e em Mato Grosso, 
ouvimos também o têrmo "lambe papo". São as me- 
nores abelhas sociais da fam. Meliponideos, principal- 
mente Trigona ãuckci, cujo tamanho é comparável a uma 
cabeça de alfinete (1 mm. 75), sendo assim a menor de 
todas as abelhas do mundo. Têm o hábito de voar para 
a vista das pessoas, provocando forte irritação, porque, 
além do mal que faz como corpo extranho, ao que parece, 
ainda desprende uma secreção ácida. 

Nidifica em ti"oncos e as células de incubação são 
isoladas. (Veja-se sob "Frecheir a") . Na Amazónia 
é esta minúscula abelha uma praga conhecida e frequen- 



— 461 — 



te, principalmente nas "várzeas", em certas épocas. Ve- 
ja-se também sob "M i r i m". 

Lamborina — No Sul de Minas Gerais é conhecida 
por êste nome uma grande vespa social. Pela descrição 
não pode deixar de ser a Polybia di- 
midiata, do porte das yrandes vespas 
"Caboclo", mas com cabeça e tó- 
rax pretos e abdómen côr de telha. 
O ninho, pelo aspeto externo, con- 
funde-se com o dos cupins arbóreos, 
mais ou menos cónicos e não raro 
atinge mais de 1 metro de altura. A 
"Lamborina" é de índole muito 
bravia e devido às suas dimensões, 
maiores que as da " C a s s u n u n - 

g a", é temida tanto como esta, o que Ninho de vespa: Umborina 

equivale dizer que ao redor de seu 

ninho, em largo círculo, se estabelece uma zona neutra, que 

todos respeitam. 

(Lapa) — Não foi adotada no Brasil esta denomina- 
ção, usada em Portugal para designar os moluscos Nudi- 
branchios e para os quais aqui não conhecemos nome vul- 
gar equivalente. 

Efetivamente estas lesmas marinhas poucas vezes 
aparecem em quantidade tal que impressionem o pesca- 
dor (ao passo que em Portugal as espécies mais abundan- 
tes do gên. Dóris são levadas para o mercado, porém as 
Siphonaria, conhecidas por "Lapa moira", por serem 
amargas, não são comestíveis). 

Segundo H. v. Ihering foram até agora identificadas 
apenas cerca de 40 espécies brasileiras, mas, proceden- 
do-se a melhores estudos oceanográficos, esta lista será 
grandemente aumentada, talvez para o dobro. Muitas 
dessas espécies atingem maiores dimensões, cêrca de 10 
cms., e seu colorido não raro rivaliza com o das mais lin- 
das medusas e outros seres marinhos de côres irisadas. 

Algumas espécies podem, como o polvo, turvar a 
água com substância colorante, para assim escapar à per- 
seguição. 

Lapa — Em Santa Catarina dá-se o mesmo nome 
"Lapa" (veja supra) aos Gasterópodes cuja concha é 
uma simples tigelinha ou tampinha, quasi sempre com 
ápice acuminado (Patella) ou perfurado (Fissurella). Es- 




— 462 



tas espécies são comestível e parece que também em Por- 
tugal se aplica igual nome às espécies correspondentes. 

Lava-bunda — O mesmo que "Lavandeira", 
isto é as Libélulas, da ordem dos Odonatos. Assim são 
chamadas porque, ao voarem sobre a água, rente com a 
superfície, de vez em vez molham a extremidade do ab- 
dómen. 

Lava-pés — Formiga da fam. Myrmecideos, Soleno- 
psis geminata, também chamada "Caga fogo" ou 
"Formiga de fogo", que ao redor do olheiro de seu 
ninho subterrâneo dispõe uma cratera de grumos de terra. 
Os nomes fazem alusão às suas ferroadas muito dolorosas ; 
veja-se o que ficou dito sob "Formiga de fogo". Tra- 
ta-se, aliás, de uma espécie comum a todas as regiões tro- 
picais e sub-tropicais, sendo curioso que em dadas circuns- 
tâncias se torne sumamente nociva, ao passo que em ou- 
tras terras faça sentir muito menos sua ação. (Veja-se 
sob "Formiga de f o g o") . 

Lavadeira ou "Lavandeira" — Pássaros da 
fam. Tyrannideos, principalmente Taenio-ptera impero 




Lavadeira 



(conhecida por "Pombinha das A 1 m a s" no Sul) , 
cinzento claro em cima, branco em baixo, aza mais escura 
com espelho branco, e Fluvicola climazura, um pouco me- 
nor, com uma lista preta em continuação ao bico, passan- 
do sobre os olhos e perdendo-se na nuca. Na Baía e em 



SciELO 



10 11 12 



— 463 — 



outros Estados do Norte, principalmente esta última es- 
pécie é tão comum nas cidades como o "t i c o - 1 i c o" no 
Brasil meridional. O nome "Lavandeira" lhes vem 
do fato de preferirem a vizinhança dos rios, em cujas mar- 
gens constroem seus ninhos, sobre arbustos. Têm ainda 
o mesmo nome vulgar Arundinicola leucocephala, cujo ma- 
cho é preto e só a cabeça e a garganta são inteiramente 
brancas, pelo que no Sul seu nome é "Viuvinha"; a 
respectiva fêmea, porém, tem o colorido das outras "1 a - 
vad eiras", isto é cinzento claro em cima e branco 
em baixo. 

No Pará Fluvicola albiventrin chama-se "Lavadei- 
ra de Nossa Senhora" e aí também cabe o mesmo 
nome à Arundinicola leucocephala. "Lavadeira 
grande" é Taenioptera velata, que é outra "Pombi- 
nha das Almas" do Sul. 

Lavandeira — ou "L a v a - b u n d a", "P i t o", "C a- 
valo de cão", ou "Cavalinho de Judeu", "Ca- 
lunga ou "Cambit o". (A denominação portuguesa, 




Libélnlas 



"Donzelo", não é usada no Brasil). Compreende todas 
as espécies de insetos da ordem Odonatas, fam. Libelluli- 
deos, também conhecidos em linguagem erudita por "L i - 
bélulas". (Ver estampa da pg. 398). 

O abdómen é muito fino e longo, a cabeça grande, 
com olhos enormes e maxilares muito desenvolvidos; os 
dois pares de azas são hialinas, abundantemente reticula- 
das e às vezes com lindo colorido purpúreo, azul ou ama- 
relo. Voam rápidas, caçando minúsculos insetos de que se 
alimentam; vivem quasi sempre junto ou sobre a água. 
Aí se criam suas larvas, puramente aquáticas, caracteri- 



— 464 — 



zadas por um curioso aparelho, a "mascara", que, do- 
brado sobre si mesmo, forma um longo queixo na parte 
inferior da cabeça. São vorazes e não deixam de ter sua 
utilidade, pois dão caça às larvas de mosquitos; além dis- 
to, por sua vez, fornecem alimento, apreciado pelos peixes 
insectívoros. 

As larvas das espécies maiores tornam-se, porém, 
prejudiciais à multiplicação dos peixes, pois devoram os 
peixinhos recém-nascidos. Referimo-nos até aqui às for- 
mas maiores, cujas azas posteriores são maiores, mais lar- 
gas que as anteriores ; sua nervatura é reforçada e de fato 
desta forma tais libélulas são capazes de vôo muito rápi- 
do, ao que aliam grande agilidade e elegância no voltear 
— que o digam os colecionadores quanto custa apanhá-las 
com a redinha de caçar borboletas! Além disto caracte- 
riza esta subordem o modo como pousam, com as quatro 
azas distendidas em plano horizontal. Estas libélulaa cons- 
tituem a subordem dos Anisopteros. 

Na subordem dos Zijfjopteros, ao contrário, as quatro 
azas são dobradas para trás, acompanhando pois, a linha 
do abdómen; além disto os dois pares de azas são de igual 
feitio e tamanho e o colorido é em geral delicado e às ve- 
zes brilhante. As larvas desta subordem têm na extremi- 
dade do abdómen três folíolos ricamente vascularizados 
por traquéias, para a respiração aquática. Ao conti-ário, 
as larvas dos Anisopteros, de corpo e principalmente ab- 
dómen mais grosso, adotaram um modo de respirar muito 
curioso. A parte final do tubo digestivo, o reto, é dila- 
tado e amplamente provido de traquéias; sugando água 
pelo anus e expelindo-a, alternadamente, o inseto conse- 
gue o mesmo efeito que o peixe com a respiração branquial. 
Mas, além disto, a larva aproveita o jato d'água, expelido 
com força, como energia propulsora e, de fato assim con- 
segue boa natação . . . e além do mais, muito original. 

Leão marinho — Veja sob "Lobo do ma r". 

(Lebre) — A verdadeira lebre europeia é substituida 
entre nós pelo "T a p i t í " (veja êste) . 

Lecheguana ou "Lixiguana". — No Rio Gran- 
de do Sul e talvez ainda mais para o Norte, designa uma 
vespa social (fam. Vespideos, Nectarina lecheguana, a 
mesma "S i s s u í r a" da Amazónia), de índole bravia e 
que constrói ninhos quasi esféricos, com favos também 
dispostos concentricamente, como si fossem esferas, su- 
cessivamente maiores, abrangidas uma pelas outras. Em 



465 — 



gei-al, principalmente durante os meses mais frios, há cer- 
ta quantidade de mel acumulado nas células (aliás as mes- 
mas nas quais se criarão depois as larvas, não havendo 
portanto diferença entre células de depósito e de criação, 
como é regra entre as abelhas). 

Êste mel tem, contudo, fama de ser às vezes venenoso 
e o célebre naturalista Saint-Hilaire descreve a respeito 
uma curiosa cena: Tendo seus companheiros de excursão 
saboreado mel de lecheguana, foram todos acometidos de 
sintomas de envenenamento; o próprio Saint-IIilaire, que 
provara apenas duas colheradas e que logo usára de um 
vomitói'io, sofi'eu ataques de riso e de chôi-o. Os camara- 
das, porém, que haviam ingerido maior quantidade, fica- 
ram como que possessos, correndo ou galopando pelo cam- 
po e despedaçando a roupa, até caírem por terra, eston- 
teados e abatidos. Cisemos, contudo, que só excepcional- 
mente o mel dessa vespa é assim venenoso, devido, prova- 
velmente, à má proveniência, de determinadas flores de 
plantas tóxicas; confirmam o fato observações mais ou 
menos idênticas, referentes, porém, ao mel de várias ou- 
tras vespas, que, contudo normalmente não produzem mel 
tóxico. 

Nem a lecheguana goza mau conceito da parte do 
povo, tanto assim que o Pe. Teschauer registra em suas 
"Apostillas" (1914) uma curiosa locução riograndense, da 
qual se depreende que êsse mel é apreciado. A locução 
"tirar lecheguana" significa "passar uma noite com muito 
frio", o que o Pe. Teschauer interpreta como alusão à ne- 
cessidade de se envolver em muita coberta, à semelhança 
da precaução que tomai'á quem irá se expôr às ferroadas da 
vespa. 

Lecre — Provavelmente "L e q u e", o mesmo que 
"Papa mosca real", cuja cabeça é enfeitada por um 
leque vistoso. 

Lêndea — E' o ovo do piolho, aderente à base do ca- 
belo; a eclosão dá-se no 6.° dia e no 18.° o respectivo pio- 
lho atinge a fase adulta. Uma fêmea pode pôr 80 a 100 
ovos durante sua vida. Tratamento: untar o couro cabe- 
ludo, à noite, com petróleo e azeite doce (partes iguais) 
e lavar de manhã com sabão e água morna. O mesmo ter- 
mo aplica-se também aos ovos dos "percevejos da cama". 

Lepisma — Nome científico, que tende a ter divul- 
gação entre nós, para designar os insetos conhecidos por 
"Traças dos livros" (Veja êste). 



— 466 



Leque — O molusco marinho da fam. Pectinideos, 
Pe.cfcn Mof/o.síf.s, cuja concha, como diz o nome vulgar, 
tem mais ou menos a forma dc um leque. 

Lesma — Moluscos gasterópodes terrestres, da sub- 
ordem Pulmonados, fam. Vagimilideos (antigo gên. Vero- 

nicella), desprovidos de con- 



Lesnia do coqueiro — E' cm Pernambuco o meiimo 
que "B a r a t a !í dos coqueiro s", isto é a forma lar- 
viil dos coleópteros do gên. Mectiitornda.s. 

Lesma do mar — Equinodermas da ordem HoJothii- 
ruidcfi, sem esqueleto, vermiformcs, com simetria radiai 
transtornada e com numerosos tentáculos ramificados ao 
redor da bôca. Vivem no fundo do mar, locomovendo-se 
à moda das lesmas. 

Libclulas — O mesmo que "Lavandeiras". 

(Liça) — Em Portugal é um dos vários sinónimos 
de "Tainha". 

Licranço — E' o que no Brasil podemos considerar 
um nome sem dono. Em Portugal designa o lacertílio 
também chamado "Cobra d c v i d r o", do gên. Anguis, 
aliás estranho à nossa fauna e impropriamente aplicam- 




cha. Há em nossa fauna vá- 
rias espécies de diversos gé- 
neros. O corpo é alongado, 
nú, com um par de tentáculos 
retráteis, sobre os quais se 
acham os olhos. Confundem- 
se geralmente sob o mesmo 
nome os vermes Platyhelmin- 
thoH, Tiirbellarios (ou Plana- 
rias) da fam. Geoplanideos, 
alguns realmente muito se- 
melhantes àqueles moluscos, 
pelo aspeto geral; mas fal- 
tam-lhes os tentáculos. Há, 
entre estes últimos, espécies 
de lindo colorido, chamalotea- 
do ou em listras longitudi- 
nais, amarelas ou vermelhas; 
Placocephulua keuwnísis, com 
linha tripla sobre o dorso e 
cabeça semilunar é espécie 
importada, aliás cosmopolita. 




(NoaltoPuImonado cem baixoTurbelarios) 



467 - 



no igualmente às AmpMsbaeiías, conhecidas aqui por "C o- 
b r a s de duas cabeças". Além disto, em consequên- 
cia a uma confusão de ideias ou de dois nomes parecidos, 
o lacrau, (escorpião) também é erradamente alcunhado 
licranço e daí o dito popular, em Portugal: "mordedura 
de licranço não tem hora nem descanço" (Prof. A. de Vas- 
concellos, "]\Iuseus Escolares" pag. 134) — ou em hespa- 
nhol: "Si te pica un arrackai, yá no comerás más pan". 
Imagine-se agora semelhante alhada zoológica transplan- 
tada para o Brasil, onde nem se quer existe o Angelis. 
Querendo de qualquer forma usar o nome, o descendente 
do português aplicou-o a outros lacertílios, em concorrên- 
cia ao termo "lagartixa", mais generalizado. Nunca, po- 
rém, deve envolver a idéia de "bicho venenoso". 

Limão ou "Limão canudo" — Nome de uma 
abelha social, Melipona (Trignna) limão, também conhe- 
cida por "I r a X i m". (Veja esta) . 

Limpa campo — Não podemos identificar ao certo 
as espécies de cobras a que se refere esta denominação. 
Tivemos informação pelas quais no Norte designa a "Co- 
bra nova" do Sul, isto é Drymobhts; outros autores 
da Amazónia identificam-na com Spilotris, que no Sul é 
conhecida por "C a n i n an a". Esta última denominação 
também é usada na Amazónia, aplicada, porém, a uma 
espécie diferente, ainda que afim, Phriinoiíax sidphureuH 
(descrita por Dum. & Bibron como "Spilotes poecilo- 
fttomn"). 

Afrânio do Amaral identifica, porém, tanto "L i m- 
D fl campo" como as fsoguintos (L. mato, L. pa.sto) com 
a "M u H s u r a n a" (O. daclia), forçando talvez com ra- 
zão a idéia da "limpeza", em que insistem os nomes vul- 
gares e que lembram, agradecidos, oa trabalhos benéficos 
da cobra devoradora de serpentes. 

Limpa mato — Nome de outra cobra do Estado do 
Espírito Santo, cuja identificação zoológica ainda depen- 
de do confronto de espécimens autênticos. Pela mesma 
razão acima aludida, talvez seja sinónimo de "Mussu-' 
r a n a". 

I.<impa pa.sto — A mesma observação como supra. 

Linguado ou "Aramaçá" — Peixes do mar do 

grupo Hctfro.soDiata, ao qual também pertencem as "So- 
lhas". Descrevemos aqui, em conjunto, o feitio caracte- 
rístico dêstes dois grupos, porque a sub-di visão em Pleuro- 



4Ó8 



nectideos e Soleideos é difícil para alguns tipos interme- 
diários. (Veja-se "Solha"). 

O corpo é achatado, de tal forma que antes parece 
uma fatia de peixe, com nadadeiras nos boi'dos; uma das 
faces, a inferior, não tem órgãos de sentido nem coloridos ; 
a face superior é pigmentada e aí se acham os dois olhos 
e as duas narinas. Os peixes novos, no estado larval, 
são simétricos, podendo-se acompanhar, durante sua evo- 
lução, a torção que sofre o corpo, até atingir essa assi- 
metria. Há no Brasil numerosas espécies, cêrca de 25, 




Linguado 



entre linguados e solhas, estas vulgarmente conhecidas, 
também por "Tapa" e todas elas muito apreciadas, 
como aliás o são em todo o mundo. O linguado que atinge 
maiores dimensões, até 1 metro, é Paralichthys hrasi- 
liensia. "Catraio", no Rio Grande do Sul, designa 
talvez essa mesma espécie, pois é aplicado a um linguado 
que alcança 1 meti'o de comprimento, pesando até 12 
quilos. (Veja estampa da pg. 182). 

"Rodovalho" é o nome usado em Portugal para 
certos Pleuroncctideos (do gên. Rhombus, de contorno 
quasi redondo) e raras vezes é empregado entre nós, apli- 
cado às espécies semelhantes de nossa fauna. 

Linguado lixa — Veja sob "Tapa". 

Linguarudo — Veja sob "P a v a c a r é". 

Lixiguana — Veja sob "Le c h e g u a n a". 

Loango — Veja sob "S o r u b i m". 



469 



(Lôbo) — Nome do Canídeo europeu Canis lúpus, im- 
propriamente dado no Brasil à nossa maior espécie do 
gên. Canis, o "Guará". 

Lôbo do mar "Leão marinho" ou "Urso do 
mar" — São os grandes mamíferos marinhos, carní- 
voros, Pinnipedios, cujos dois pares de extremidades se 
acham transformados em nadadeiras, como nas focas; es- 
tas últimas, porém, não têm orelhas, ao contrário das 




Lôbo do mar 



espécies de que aqui tratamos, pi-ovidas de pequeno pavi- 
lhão. Pertencem estas à fam. Otariidcos, mas são apenas 
de arribação em nosso litoral, onde vem ter arrastados 
pelos pampeiros, trazidos de sua pátria, que são os mares 
polares. A Ilha dos Lôbos, em frente de Torres, no Rio 
Grande do Sul, teve êsse nome provavelmente por ser 
de vez em quando visitada por esses mamíferos aquáticos. 
Só raramente chegam até Santos ou mesmo ao Rio de 
Janeiro, as duas espécies seguintes : o lôbo do mar maior, 
Otária byronia, que atinge 3 metros e tem uma sorte de 
.iuba leonina, e o lôbo do mar menor, Arctocephahis aus- 
tralis, o qual, quando bem crescido, é apenas um pouco 
menor do que o precedente e de ))ele côr de prata fosca. 
O episódio narrado por Pero Magalhães Gandavo, re- 



— 470 

fercnte à luta de um monstro desconhecido, "Ypopiá- 
r a" dos indígenas, com um oficial da antiga metrópole, 
episódio que se passou em Santos, em princípios do século 
XVII, deve referir-se a Otária bijronia. A gravura anti- 
ga, que relembra êsse singular duelo, sem dúvida denota 
bastante fantasia do desenhista, mas ainda assim os traços 
mais característicos do animal foram respeitados. 

(Longicórneos) — Sinónimo de Ccrainbycideos, fa- 
mília dos besouros, caracterizada pelas antenas muito 
longas. As espécies mais conhecidas são os "Serra- 
is a u s". A denominação, de origem erudita, só foi aceita 
pelos entomólogos. 




Lontra 



cauda). A côr geral é pardo-cinzenta, um pouco ama- 
relada em baixo. Vem à terra para comer e dormir, 
passando o resto do tempo nos rios, onde pesca e apanha 
aves aquáticas. Reunem-se às vezes em maior número e 
então gritam como gatos. 

A lontra é bem menor que a outra espécie do mesmo 
género, a "Ariranha" e tem hábitos noturnos; além 
disto sua distribuição limita-se ao Brasil meridional e 
daí para a Argentina. Mas nem sempre o povo sustenta 
tal discriminação das duas espécies e nas regiões em que 
só uma delas ocorre, o nome ariranha é substituído por 
lontra. Esta é aliás a denominação portuguesa da espécie 
européia, semelhante à nossa e apenas um pouco maior. 

Lôro — Apelido dos papagaios domesticados: "Vem 
cá, meu Lôro". Mas não designa propriamente espécies 



471 



definidas, do mato. A palavra deve ser de origem asiáti- 
ca, pois há um grupo de papagaios da índia, de cujo nome 
vulgar foi derivado o género LoriuH, da nomenclatura 
científica. Provavelmente os Portugueses de lá o trouxe- 
ram, conservando seu nome indiano. No Brasil equivale 
apenas a um apelido, ao passo que na Rep. Argentina é 
o nome genérico dos Ptíittacideos. 

Louva-Deus — Abrange todos os insetos Orthopteros 
da fam. Mantideoís, muito bem caracterizados pelo primei- 
ro par de patas, transformadas em armas de caça e muni- 
das de grandes espinhos. 
No repouso, ou quando co- \, / 

mem, juntam êsse par de 
patas, levantando-as do- 
bradas, imitando assim a 
posição das mãos postas 
para a reza. E', no entan- 
to, bem conhecida sua hi- 
pocrisia e a atitude beata 
mal disfarça os punhais 
que o "L o u V a - U e u s" 
logo em seguida vai en- 
cravar nos insetos de que 
se alimenta. Mantis reli- 
giosa é a espécie tipica Louv.->oeus 
da Europa; entre nós as 

espécies mais comuns são verdes e a aza superior tem 
uma mancha redonda, escura, com um sinal branco em for- 
ma de vírgula grossa; as azas posteriores dobram em le- 
que e em geral são de outra côr (gên. Staçj mat optem) . Há 
espécies que atingem 10 cms. de comprimento, ao passo 
que as menores apenas excedem de 1 centímetro. 

Apczar de .se alimentarem os "L o u v a - D e u s" uni- 
camente de insetos, não devemos exagerar sua importân- 
cia económica, pois que não há exemplo de uma só espécie 
que persiga de preferência os insectos-pragas. Muitas 
formas são exemplos admiráveis de mimetismo, imitando 
as azas, na forma e na côr, o aspeto de folhas verdes, car- 
comidas ou murchas e dilaceradas. Os ovos são postos em 
meio de uma espuma que, grudada aos galhos, endurece 
e tem sempre o mesmo feitio cai*acterístico. Os pequenos 
insetos, quando saem dos ovos, já têm a feição geral dos 
adultos (metamorfose incompleta) faltando-lhes, porém, 
as azas e o corpo é ainda mais grotescamente disforme que 
o dos mais crescidos. Em certas regiões de Minas, o povo 




472 



conhece êstes insetos unicamente pelo nome de "Ben- 
dito"; em Pernambuco são denominados "Põe mesa". 

Lufada — Método de pesca, usado em Mato Grosso 
e descrito por Vii-gilio Corrêa Filho em seu livro "Mato 
Grosso". Consiste, essencialmente no seguinte: A' noite 
a canoa, com um facho aceso na prôa, procura os lu- 
gares em que abundem os lambaris e piquiras. Sentindo- 
se os peixes perseguidos, impelidos para a margem e ao 
mesmo tempo encandeados pelo facho, ao menor choque 
voltam assustados em todos os sentidos e assim cáem na 
embarcação. A lufada, como nos reafirmou o autor do 
livro acima mencionado, só rende peixes miúdos, mas em 
tal quantidade, que permite seu aproveitamento para a 
provenção de ótimo azeite, muito mais apreciado do que 
o dos peixes grandes, colhidos na rêde. 

Compara-se este método de pesca com o "Promom- 
bó", com o qual tem afinidade. 

Lula — Pequenos moluscos ou propriamente polvos, 
da ordem dos Cephalopoães, sub-ordem Decapodes, fam. 
Loliginideos e outros, cujos olhos são cobertos por uma 
córnea quasi completamente fechada, restando aberto ape- 
nas um pequeno póro. "Lulas" são propriamente as es- 
pécies comestíveis, desprovidas de bolsa de sépia, que ca- 
racteriza os demais Decápodes (ve.ja "Cal amar" e 
também sob "C h ô c o") . 



Ml 

Macacaiandú — E', na Amazónia, uma grande e bela 
aranha de abdómen preto, listrado de amarelo, arborí- 
cola, saltante e peçonhenta (segundo V. Chermont Mi- 
randa, pag. 117) . "N h a n d ú" significa aranha em tupi. 

Macaco — Peixinhos miúdos do mar, da fam. Blenni- 
deos, a qual compreende numerosas espécies (também co- 
nhecidas pelo mesmo nome em Portugal) que, porém, do 
ponto de vista da pescaria, não têm valor algum. O corpo 
subclaviforme, comprimido, lembra como que em miniatu- 
ra o "D o u r a d o do ma r". Dorsal longa, extendendo- 
se da cabeça à cauda e a ventral abrange a metade poste- 
rior do corpo; nos machos de várias espécies os dois pri- 
meiros raios se acham modificados em tubérculos cutâ- 
neos. Corpo escamoso ou nú, coberto de mucosidade. Al- 
gumas espécies são vivíparas; vivem em grande número 
nas regiões de rochedos e recifes. Marcgrave descreveu 
estes peixinhos, dando-lhes o nome indígena "Punarú", 
que porém, nunca mais vimos empregado em escritos me- 
nos antigos. 

Macaco — Em São Paulo e Rio de Janeiro designa 
o "G r i 1 o toupeira", Gryllotalpa. 

Macaco — Palavra de origem asiática (em Malaca, 
Siam, Sumatra, etc, certa espécie de quadrumano tem o 
nome indígena Makaka) e, conhecida em Portugal, foi de- 
pois aplicada também às nossas espécies, sendo para nós 
sinónimo de Sim-io platyrhíno. (Veja-se sob "Símio"). 
Em acepção mais restrita, designa a fam. Cebideos e, por- 
tanto, não abrange as espécies da fam. Hapalideos ("S a- 
guís"). 

Não nos referiríamos ao provérbio, por demais co- 
nhecido: "Fulano é macaco velho, que não mete a mão 
em combuca", si Varnhagen em seu "Manual" não ex- 
plicasse detidamente o curioso modo de caçar macacos, 
dizendo a propósito o provecto "Devoto de S. Huberto" 
que — "para semelhantes bichos preferimos o uso dos 
mundéus ou antes o mais divertido, das combucas de mi- 
lho, a não ser contra alguns mais velhacos, e que se não 



474 



deixam apanhar por tais meios. O macaco, metendo a mão 
em certa vasilha de bocal estreito, e presa ao solo, cheia 
de milho, se deixa aí prender, quando, enchendo dentro 
a mão com milho e, engrossando esta, não pode sair pelo 
bocal era que coube vasia; de modo que o sôfrego macaco, 
não se lembrando de tornar a soltar o milho, para poder 
retirar a mão vasia, fica aí preso, ate que chegam os que 
lhe armaram a ratoeira". Apezar da autoridade de quem 
assim nos conta a história, aliás conhecida em todo o 
Brasil, haverá ainda assim quem a ponha em dúvida. Con- 
tudo, verídica ou inventada, não é nova, pois dizem os com- 
pêndios que os malaios se servem do mesmo ardil para 
pegar os macacos da sua terra, quando invadem as plan- 
tações. 

Encontrámos todavia uma citação (Pereira da Cos- 
ta, Folclore Pernambucano) que atribue origem tupi ao 
anexim, baseado em Couto de Magalhães, de quem foi 
ti-anscrito o texto em língua indígena. Não nos compete 
a crítica integral. 

Frei Prazeres do Maranhão, divulga uma façanha en- 
genhosa atribuída aos macacos e que temos ouvido repe- 
tir, sem sabermos si a fonte comum é unicamente a "Po- 
randuba Maranhense", na qual relata o benemerente fran- 
ciscano que: "Os macacos não go.stam de molhar os pés; 
e por isso (segundo dizem alguns) passam os rios fazendo 
desde cima de uma arvore uma cadeia, cada um pegado 
ao rabo do outro e balançando-se, até o do fundo pegar em 
algum ramo de árvore da parte oposta, para então o pri- 
meiro se desagarrar". Apezar de bem imaginada, tal gi- 
nástica tem contudo o defeito de não corresponder à rea- 
lidade e lembrar outra notícia, bem mais antiga e igual- 
mente fantasiosa: "Quando não podem se arremessar de 
um salto de uma para outra árvore, o macaco maior, as- 
sim como uma espécie de guia do bando, vergando o galho, 
que segura com a cauda e com os pés, e segurando o outro 
com as mãos, faz de si para os outros uma espécie de ponte 
e lhes dá passagem e assim facilmente todos se dirigem 
de um lado para outro". A pedir meças — ainda que seja 
do Padre Anchieta. (Cartas, 1560). 

Macaco adufciro — Em Mato Grosso, é o mesmo que 
"Macaco d a n o i t e"; não sabemos que relação possa 
ter êsse macaquinho com o adufe ou pandeiro. (Sua exi- 
bição nas ruas das cidades, amestrado pelos ciganos?) 

Macaco cabeludo — Em Mato Grosso é o mesmo que 
"P a r a u a c ú". 



— 475 



Macaco de cheiro ou "J u r u p i x u n a" ou "B ô c a 
Preta" na Amazónia — Saimiris schirea, da fam. Cebi- 
deos, caracterizado pela mancha preta ao redor da bôca; 
o pêlo é amarelo-azeitonado; a cauda, muito longa, termi- 
na em ponta preta. Alimenta-se de frutos e insetos e vive 
em bandos numerosos, que às vezes invadem as planta- 
ções. E' um macaquinho que se domestica facilmente, 
tornando-sc então muito meigo e gracioso. Além desta 
espécie mais conhecida, há ainda duas outras, também da 
Amazónia, pouco diferentes : S. cassiquiarensis e S. boli- 
viensifí. 

Barbosa Rodrigues (Poranduba, pag. 206) registrou 
u seguinte lenda, muito conceituosa, que a respeito destes 
macaquinhos, também chamados " J u r u p i c h u n a s", 
lhe relataram os índios. Assim a resumiu Brandenburger 
(Lendas dos índios) : "Os macacos bôca-preta dormem 
amontoados nas folhas das palmeiras. Nas noites de tro- 
voadas e grandes chuvas, os filhinhos choram e gritam de 
fi'io. O mesmo acontece às mães. Dizem então os pais: 
"Amanhã faremos a nossa casa". Outro responde: "Ama- 
nhã mesmo". Quando amanhece, dizem: "Vamos fazer a 
nossa casa"? Responde outro: "Vou comer um bocadi- 
nho, ainda". Outros concordam: "Nós também". 

Vão-se todos e não se lembram mais de fazer a casa. 
Quando voltu a chuva, que os suri)reende dormindo, então 
se lembram e dizem: "Havemos de fazer a nossa casa". 

Algum dia talvez a farão. Assim faz também muita 
gente. 

Macaco da meia noite — O mesmo que "Jupará". 

Macaco da noite — ou "M i r i q u i n a", "Mari- 
q u i n h a" ou "M acaco adufeir o", em Mato Gros- 
so. K' da fam. Cehiãeoa, Aotus uzarae, cuja cór varia entre 
pardo, bruno e avermelhado; na fronte nota-se uma man- 
cha preta. O comprimento da cauda corresponde ao do 
corpo; o pêlo é macio e lanoso, de modo que as orelhas 
curtas quasi que ficam encobertas; a cara é semelhante 
à dos gatos, com olhos muito grandes, o que combina com 
seus hábitos noturnos. 

De fato, só sáem do esconderijo à noite, em procura 
de alimento animal e vegetal, ouvindo-se então seus gritos 
"hu-hu". De manhã rocolhem-se à folhagem mais espessa 
ou escondem-se em ôcos de pau, onde passam o dia. Tam- 
bém são da mesma região Aotus trivirgutUH, que tem três 
linhas pretas sobre a cara, que é de cór mais clara e A. 



476 



vociferans, com círculo preto ao redor dos olhos. No Alto 
Amazonas dão-lhes o nome "E iá". Na Alemanha, Brehm 
manteve um desses macaquinhos longo tempo na gaiola, 
e assim observou-lhe os hábitos. De dia era tal sua sono- 
lência, que absolutamente nada o interessava, nem anima- 
va; à noite, ao contrário, mostrava-se lépido e brincalhão. 
Pássaros que lhe punham ao alcance, êle agarrava com 
vivacidade e prontamente lhes sugava o miolo e depois os 
intestinos, apreciando muito menos a carne. 

Macaco prego — São as espécies amazônicas do gé- 
nero Ceb}(s (que no Sul chamamos "Micos"). A espé- 
cie mais comum no Pará é Cebns apella; sua côr varia de 
amarelo-palha ao ruivo e bruno. Amazonas acima predo- 
mina C. macrocephalus. 

Vivem em bandos numerosos e são atrevidos, indo 
saquear as roças ou o cacau que está para secar. Seu grito 
é antes um assobio. Presos, familiarizam-se facilmente 
com as pessoas da casa, mas, soltos, são insuportáveis pela 
curiosidade e turbulência endiabrada. . . tal qual os nossos 
micos ! 

Macaguá ou "M a c a u á" — O mesmo que "A c a u ã". 

Maçaroca — Nome dado na Paraíba e em outros Es- 
tados do Norte, a uma pretensa variedade de "S u s s u a - 
rana". Da mesma forma como a de "lombo preto", de- 
signa os espécimens cujo colorido difere apenas ligeira- 
mente da tonalidade típica e cujo pêlo é crespo. 

Macassé — Peixe do mar, de 5.^ classe, em Recife, 
ainda não identificado. 

Machado — O mesmo que "Jabotí machad o". 

Macucau — (Substantivo feminino, segundo J. Ve- 
ríssimo). Ave da fam. Tinamideos, do mesmo género que 
os "I nambus". A espécie característica é (Jruptiirns 
adupermift, do tamanho do "I n a m b íí g u a s s ú" e de co- 
lorido bruno-azeitonado em cima, cinzento no lado inferior, 
porém bruno-aver molhado mais para trás, inclusive as 
calças. Ocorre no Oeste do Estado de S. Paulo, Goiaz, parte 
de Minas e na Amazónia. 

Macuco — Compreende 5 espécies de aves da fam. 
Tinamideos, gên. Tinamus. Na Amazónia, as aves deste 
género têm o mesmo nome "I h a m b ú", como as do gên. 
CrypturuN no sul do país. No Brasil meridional só ocorre 
uma espécie, T. soHtoriiís, de côr bruno-avermelhada em 



— 477 



cima e com faixas transversais pretas; a cabeça eni cima 
é bruna com manchinhaa mais claras ; ao longo do pescoço 
nota-se, de cada lado, uma estria amarelada. O lado 
inferior é cinzento-aniarelado, com algum desenho. Outra 
espécie, T. serratus, da Amazónia, tem a cabeça mais cas- 
tanha e o lado inferior é branco-cinzento. T, guttatus, 
também amazônico, tem a cabeça tôda desenhada com tra- 
cinhos escuros; a garganta é branca e sobre as azas no- 
tam-se numerosas manchas claras. T. tao é bem diferen- 
te no colorido geral, pois no dorso predomina a côr cin- 
zenta, quasi ardósia, toda riscada de linhas transversais 
pretas, tremidas e interrompidas; a região sub-ocular é 
escura e o lado inferior pardacento claro. Tôdas essas es- 
pécies são da Amazónia e do Mato Grosso e claro está que 
pelo seu vulto, superior ao das galinhas, representam uma 
das melhores caças da região. Os ovos são azuis, lustro- 
sos, medindo até 70 por 48 mm. e a ninhada, aliás posta 
sem mais cuidado no chão, chega a ser de 14 ovos. O pio 
do macuco, quando está no chão, consta apenas de uma 
nota, prolongada ; raras vezes êle varia, emitindo dois pios 
seguidos. 

Porém quando empoleira, seu pio repete três vezes 
a mesma nota e depois deste sinal a ave não desce mais 
e fica tão acomodada e despreocupada, que o caçador pode 
aproximar-se sem maiores cuidados. Alta hora da noite, 
às vezes, ouve-se ainda um pio isolado de macuco e dizem 
os caçadores que é em sonho que a ave assim trai seu 
pouso. (Em Portugal dá-se o nome de "Macuco" a um 
pássaro da família do "Melro"). 

Macurú — Na Amazónia é o mesmo que " J u c u r ú" ; 
veja sob "João B ô b o". 

Mãe de anhã — Peixe cascudo da fam. Loricariideos, 
Kronichthys nnbterres. O nome parece ser puramente local, 
da Ribeira de Iguapé; "A n h ã" é a denominação de vá- 
rios cascudos do gên. Plecostomus, cuja distinção especí- 
fica é difícil. 

Mãe - Joana — Veja sob "Á g u a v i v a". 

Mãe da lua — Em Pernambuco é o mesmo que 
"Urutau". 

Mãe de porco — O mesmo que "T a i a s s ú - g u i r a". 

Mãe de saúva — O mesmo que "Cobra de duas 
cabeça s". 



478 



Mãe de sol ou "Olho de sol" — Besouro da 
fam. Buprestideos, Eiichruma gigantea, de 7 cms. de com- 
primento e belíssimas córes metálicas, do co- 
bre, com reflexos verdes e purpúreos. E', en- 
tre os besouros, uma das espécies mais cita- 
das, como características da beleza de nos- 
sa fauna. Os índios também lhes dão gran- 
de apreço, pois os elitros, perfurados e en- 
fiados .sobí'e um cordel, constituem adorno 
muito usado entre várias tribus. A larva 
desenvolve-se como broca de várias espécies 
de FicvH, paineira, etc. 

Mãe de taóca — Nome dos pássaros da fam. Fonni- 
cariideos, do gên. Phlcgopsis, compreendendo várias espé- 
cies, tôdas elas amazônicas, de côr bruna, caracterizadas 
pela zona núa, de cór vermelha, ao redor dos olhos. Seu 





Aiãe tio t.ióca 



nome exprime sua associação às taócas (formigas de cor- 
reição), cuja marcha acompanham, para assim caçar os in- 
setos, espantados pelas colunas em marcha daquelas for- 
migas carnívoras, quando não preferem comer as prói)rias 
taócas, como o relata um observador. 

Maguari ou "B a g u a r í" — O mesmo que "J a b i - 
r ú m o 1 e q u e" no Sul. 

(Maipuré) — Veja sob "M a r i a n i n h a". 

Maitaca — Veja "Papagaio". Compreende as 
três espécies do gên. Píohíik, que difere do gên. Amazona 
por ser um pouco menor e por sor a região núa ao redor 
dos olhos mais ampla e as sub-caudais de côr rubra. São 
geralmente citadas, como exemplo de palradores baru- 
lhentos. Diz-se também "B a i t a c a" e esta forma apro- 
xima-.se mais da dicção original indígena, que é Mhae- 



— 479 



tác (a). Veja-se também "H u m a i t á". A espécie do Sul 
do Bi'asil e que se exlende ao Norte até a Baía, é P. ma- 
ximiliani. Seu colorido é verde; a fronte, o vértice e os lo- 
ros são denegridos; o pescoço anterior e o peito são azuis, 
o crisso e as coberteiras inferiores da cauda escarlates; as 
retrizes exteriores têm base mais escura. A espécie ama- 
zônica, P. mcnstrnus é semelhante, mas tem a cabeça, o 
pescoço e o peito azuis. 

Maiulira — No Pará designa os pequenos peixinhos 
conhecidos por "M u s s u r u n g o s" do Sul. Goeldi pai'- 
ticularizou a espécie Gobioidea bronssonveti, que aliás tam- 
bém existe no Sul do país. 

Malacara — Abelha social, da fam. Meliponideos, 
mencionada por E. Schenk no manual do "Apicultor Bi'a- 
sileiro" e a respeito da qual êsse autor riograndense diz 
o seguinte: "tem uma pinta branca, triangular ou em foi-- 
ma de coração, na testa; constrói células muito grandes, 
quasi do tamanho de um ovo de galinha". Não pudemos 
ainda identificar esta espécie, cuja denominação, eviden- 
temente de origem platina, deve corresponder a outra, 
talvez já registrada aqui, sem que lhe conheçamos a 
sinonímia. 

Mamaiacú — Pequeno "B a i a c ú" (veja êstes) do 
Amazonas, da fam. Tctraodontiãeos, Colomesiis pi^ittuciiH, 
pardo, com 6 faixas escuras transversais sobre o dorso; 
é a única espécie fluvial, do grupo. Etimologicamente não 
há propriamente diferença entre os dois nomes indígenas, 
visto como na língua geral a denominação genérica é 
"G u a m a i a c ú". 

Mamangaba — Palavra de origem tupi, que Th. Sam- 
paio interpreta como "vespa de rodeio"; tam- 
bém "M a n g a n g a b a" ou "M a n gang á". Designa 
em esi)ecial as grandes abelhas sociais, fam. Apideos, do 
gên. Bombita, de 28 milímetros de comprimento, de corpo 
grosso e peludo. B. carbonarim é inteiramente preto; B. 
caycnncnsiH, tem cintas amarelas. Fazem seu ninho es- 
condido entre touceiras do campo. O arranjo interno des- 
sas habitações é muito simples; há alguns potes em que 
é armazenado o mel, aliás pouco e de má qualidade. 

Êsses potes não são outra cousa sinão casulos ve- 
lhos, feitos pelas larvas durante a sua evolução. O fato 
mais curioso é o que se observa com relação ao início da 
criação das larvas. A fêmea depõe os ovos em uma bola, 
que é uma mistura de pólen e mel; assim as pequenas 
larvas, encontrando desde logo seu único alimento nas 



480 — 

próprias paredes do berço, se criam carcomendo a pare- 
de por dentro e as abelhas obreiras continuamente a en- 
grossam por fora. 

Com isto a bola inicial, pequena, vai crescendo e aos 
poucos tomando feições de abóbora moranga, com tantos 
gomos quantas forem as larvas, até que cada uma destas 
ocupe compartimento especial, que é a sua célula. 

Quando não se alimentam mais, revestem o ambien- 
te com fino tecido de seda e então passam ao estado de 
ninfa. Nunca encontrámos ninho com mais de 500 habi- 
tantes; há muitas rainhas na mesma colmeia e bem 
poucos machos. Êstes distinguem-se pelo maior compri- 
mento das antenas e por não terem ferrão. A picada das 
mamangabas é, talvez, a mais vigorosa de entre as de 
todos os insetos e não há vestimenta (ou dois paletós um 
sobre o outro, como o experimentámos) que impeça o 

agulhão de injetar o veneno, que 
provoca dôr violenta mas i-elativa- 
mente passageira. O mesmo nome 
cabe ainda, por analogia, a vá- 
rias outras abelhas corpulentas, de 
Apidcos solitários, que não consti- 
tuem sociedade regular, dividida 
em castas; apenas os machos e 
Mamangaba as fêmcas Coabitam em maior 

número no mesmo lugar. Tais 
são as espécies do gên. Xylocopa, que fazem ni- 
nhos em paus podres ou moles, perfurados por elas 
em várias direções. Outra espécie do mesmo género, 
mais comodamente, enche um internódio de taqua- 
ra com 8 a 10 compartimentos sobrepostos, cabendo a ca- 
da um seu ovo e o respectivo alimento, em quantidade su- 
ficiente para que a larva possa chegar até a maturação. 

O gên. Centris abrange outras abelhas solitárias, nu- 
merosas espécies, algumas do tamanho das mamangabas 
comuns, outras bem menores, em geral coloridas de ama- 
relo ou vermelho preto, sobre fundo aveludado. Fazem 
ninho no chão, cada fêmea de per si, mas em grande nú- 
mero na mesma área restrita, o que evidentemente é um 
começo de vida social, ainda não aperfeiçoada pela cons- 
tituição de castas. Cabe-lhes e também às fêmeas, a de- 
nominação "Zangão", porque simulando colmeias nun- 
ca armazenam mel. 

E' interessante a expressão "M a m a n g á u a 
c á u a" (caba, vespa) registrada por Barbosa Rodrigues 
(Poranduba, pag. 309), o que revela claramente que "C a - 




— 481 — 



b a" tem acepção tão ampla, genérica, a ponto de abran- 
ger as mamangabas. 

Isto, hoje, porém, não condiz mais com a significação 
brasileira dos dois vocábulos, pois o povo elevou ambos 
a igual categoria, de amplitude genérica. 

Mama-reis — No Rio de Janeiro designam assim al- 
guns peixinhos, cuja identificação ainda não pudemos 
obter. Talvez se trate de uma espécie afim ao "peixe- 
r e i". 

Manai ou "M a u a í" — Parece ser a forma origi- 
nal, indígena, do nome do "P e i x e b o i". Veja a seguir: 

(Manatí) — E' como geralmente se vê escrito em lín- 
guas estrangeiras, sendo apenas corruptela daquela de- 
nominação indígena do "P e i x e b o i". (Veja supra). 
Também o antigo nome genérico Ma- 
natus (hoje substituído por Triche- 
cMis), provém dessa origem. 

Manda-lua — E' como "Chora- 
1 u a" sinónimo de "U r u t a u". 

Mandaguarí — Veja "T u b u n a". 

Mandassaia — Abelha social da 
fam. Meliponidcos, Melipona anthidioi- 
des (ou sub-espécie de M. qnadrifascia- 
ta) de 10 a 11 mms. de comprimento, 
cabeça e tórax pretos, abdómen com 
faixas amarelas, interrompidas no 
meio em cada segmento; azas ferrugí- 
neas. Nídifica em árvores ócas, com 
buraco de entrada feito de barro, em 
forma de placa perfurada, com sulcos 
irradiando do centro. Os ninhos 
em geral .são grandes e não raro con- 
têm vários litros de mel, de sabor 
agradável, aromático; os potes medem 
5 por 3 cms. e chegam a ter até 15 cc. 
de capacidade. E' uma das es- Mandassaia 
pécies mais apreciadas dos nos- 
sos caipiras. Êstes, quando conseguem pór de lado a habi- 
tual displicência, herdada de seus antepassados, levam al- 
guns cortiços para junto de casa, simulando uma quasi 
cultura regular, pouco rendosa nessa feição rudimentar, 
mas pelo menos mais racional do que o sistema usual, que 
consiste em derrubar a árvore e arrancar os potes de 
mel, sacrificando assim, de cada vez, uma colmeia. Esta, 





— 482 — 



então, necessariamente se extingue, por ser a rainha inca- 
paz de dar início a um novo ninho. Esta espécie, como 
várias outras do mesmo género, seria merecedora de me- 
lhor estudo por parte de apicultores bem orientados. Vi- 
mos em Amparo, em um estabelecimento apícola, como 
aliás também o demonstram os trabalhos realizados no 
Nordeste do Brasil com a "u r u s s ú", que é fácil obter 
boa produção de mel, a preço ínfimo, quando se lida in- 
teligentemente com as abelhas da fam. Meliponideos. 

Mandas.saia do chão — A comparação com a verda- 
deii*a "M a n d a s s a i a", de fato procede, pois com ela 
muito se parece esta Melipova santhilarii; nota-se, porém, 
que só as 2 ou 3 primeiras faixas apicais, amarelas, dos 
tergitos abdominais são interrompidas no meio. Como o 
diz o nome vulgar, esta espécie nidifica em cavidades 
do solo; habita unicamente os campos, ao passo que a 
mandassaia verdadeira só é encontrada nas matas. 

Mandibé — No Maranhão é o mesmo que "M a n- 
dubé". 

Mandí — E' nome genérico, que abrange a maior 
parte das espécies pequenas e médias da fam. Pimelo- 
dideos, que tenham três ferrões rijos, aguçados e em 
geral serrilhados. Poucos são os nomes compostos que 
tenham valor específico ou que sejam aplicáveis a peque- 
nos grupos, tais como os seguintes: 

Mandí-chorão — Restringe-se às espécies do género 
Pimelodella, em geral de pequeno porte, até meio palmo 
de comprimento e que ao serem agarrados, fazem ouvir 
ruído característico, semelhante ao chôro, como o lembra 
o nome vulgar. Entre os entendidos êste peixinho só tem 
valor como isca ou quando aproveitado para fazer cús-cús. 
Apezar de pequeno, é porém temido, porque a ferroada que 
dá com o raio ósseo das nadadeiras peitorais e dorsal é 
muito doida e a ferida arruina frequentemente; a dôr agu- 
da persiste durante horas. Foi com uma espécie dêste gé- 
nero, Pimelodella lateristriga que conseguimos, juntamen- 
te com o Dr. Pedro de Azevedo, realizar pela primeira 
vez em S. Paulo a fecundação artificial dos óvulos, de- 
pois de aplicada a injeção de hipófise. A evolução dos 
ovos realiza-se em algumas horas. 

Mandí-guassú — Phneloãus do rio São Francisco, 
muito semelhante ao "M a n d í - j u b a", porém um tanto 
maior, pois atinge 4-5 kilos de peso; também sua orna- 
mentação de pintas pretas é diferente, por serem as man- 
chinhas bem menores e mais abundantes. A carne é um 



— 483 — 



tanto mais grosseira e, além disto, esta espécie não se 
recomenda à piscicultura, por ser êste mandí essencial- 
mente carnívoro, como os sorubins. 

Mandí-juba — ou "M andí-amarel o", "M a n - 
d i ú" ou "M a n d í - p i n t a d o" e no Rio Grande do 
Sul (nos rios em que não existe o grande sorubim pinta- 
do) simplesmente "P i n t a d o". E' o peixe de couro bem 
conhecido em quasi todo o Brasil, Pimelodus ciarias, se- 
melhante aos demais "mandís", porém caracterizado por 
várias séries de manchas escuras, ai-redondadas, sobre os 
flancos. Com semelhante desenho há apenas uma espé- 




Mandí-juba 



cie com que poderia ser confundido, o "m a n d í - g u a s - 
s ú" do rio S. Francisco, cujo desenho de pintas é porém 
diferente. (Veja estampa da pg. 582). 

O "M a n d í - j u b a" atinge, conforme as águas em 
que vive, 30, 40 e mesmo 50 cms. de comprimento, com 
peso que vai até 2 V-i kilos. A carne é bem saborosa, ain- 
da que um pouco flácida; preparada como ensopado é, 
para muitos apreciadores, o mais saboroso dos peixes 
d'água doce, acompanhando êste prato o clássico pirão. 
As espinhas são poucas e o "gosto de lôdo", a que sem- 
pre aludem os detratores dos peixes da água doce, poucas 
vezes se faz sentir. E' isto devido à alimentação especial 
a que êste peixe dá prefei-ência : come êle, quasi exclu- 
sivamente, as pequenas larvas de dípteros semelhantes a 
mosquitos, os Chironomideos. 

Examinando o conteúdo estomacal dos mandís, te- 
mos encontrado aí até 500 destas larvas, catadas cuidado- 
samente, sem mistura de qualquer partícula de lôdo. Al- 
gumas vezes o mandí amplia seu regime, acrescentando lar- 
vas de libélulas e os exemi)lares bem crescidos pegam, 
uma vez por outra, algum peixinho miúdo. Sua pesca é 



484 — 



fácil, de anzol ou de espinhei, principalmente de noite; co- 
mo se vê pelo género de alimentação, é peixe de fundo. 

Esta espécie não existia no Nordeste, nas bacias hi- 
di'ográficas compreendidas entre o rio S. Francisco e o 
Parnaíba. Ultimamente foi aí introduzida pela Comis- 
são Técnica de Piscicultura do Nordeste, tendo sido trans- 
portados do rio S. Francisco para mais de 26.000 exem- 
plares. Nos açudes dessa região o mandí encontra alimen- 
to abundante e assim em 6 meses exemplares de apenas 
60 gramas de peso atingii-am 600 gramas. 

Tudo indica que o "M a n d í - j u b a" está destinado 
a desempenhar importante papel na incipiente piscicultu- 
ra brasileira. 

Mandorová — O mesmo que "M a r a n d o v á". 

Mandubé, "Mandubí" ou "Mandibé" — 
Peixe de couro, cuja feição caraterística é dada pela po- 
sição muito anterior da dorsal, quasi na cabeça; além dis- 
so tem nadadeiru anal longa, multiradiada (30 a 45 raios) 
e linha lateral em zig-zag. Tanto Aiichenipterus, tipo da 
família, como Pseachigeneiosos da família Açjencio- 
sideos, atingem no máximo 30 cms. de comprimen- 
to e vivem nos dois grandes sistemas fluviais da 
Amazónia e do Paraguai. Alguns autores incluem sob 
ê.ste nome o peixe ao qual, de fato, cabe a denominação 
"M a p a r á" e que zoologicamente é inconfundível. Ve- 
ja-.se também sob "Palmito". 

Mandurim, "M a n d u r í", "M o n d o r í" ou "G u a - 
rupú do miúdo" — Abelha social da fam. Me- 
liponideos, Melipona marginata, de 6 a 7 mms. de com- 
primento, preta com penugem grizalha e abdómen com 
faixas amai-elas, interrompidas no meio como na "M a n - 
d a s s a i a", porém onduladas. Também quanto à nidifi- 
cação parece-se muito com esta última; o mel é ótimo e a 
espécie tem sido cultivada por apicultores, que assegu- 
ram ser perfeitamente viável sua cultura racional e re- 
muneradora. 

Mané-magro (por "M a n u e 1 m a g r o") — Deno- 
minação nordestina dada aos insetos conhecidos por "B i - 
c h o - p a u". Há a distinguir, como foi dito sob "Gafa- 
nhoto", duas famílias bem distintas: uma faz parte dos 
Pha.wiideos e estes em geral têm antenas longas; outra, 
com antenas muito curtas, pertence ao mesmo grupo dos 
Acridiideos (gafanhotos) e constitue a fam. Proscopiideos 
e, ao que parece, .são estas as espécies que se encontram em 
grande quantidade no sertão da Paraíba, Serra da Bor- 



— 485 — 



borema. Pousados nas extremidades dos galhos, ali per- 
manecem imóveis e mal se defendem quando se os agarra. 

Mangagá — Como o grafa João Ribeiro ou: 

Mangangá — No Norte, o mesmo que "Mamam- 
g a b a" no Sul. 

Mangangá ou "Bea tinha", "Beatriz" ou 
"N i n q u i m da pedra" (Baía) — Peixes do mar da 
fam. Scorpaenideos, curiosos e principalmente feios. O 
corpo, que atinge 60 cms. de comprimento, é provido de 
apêndices da pele, de várias côres, com os quais o peixe 
procura imitar plantas marinhas, no meio das quais se 
esconde; pode mesmo mudar de côr, para assim melhor 
se adaptar ao meio (mimetismo). 

"Os praieiros atribuem efeitos tóxicos aos ferimen- 
tos produzidos pelos acúleos do mangangá, dizendo que 
a dôr consequente dura 24 horas, sendo de violência ex- 
traordinária. E' um peixe de fundo e no Rio de Ja- 
neiro é considerado de fina qualidade. No aquário con- 
serva-se pousado sobre a areia durante horas; quando se 
move, não se afasta muito' do ponto de partida, pousan- 
do logo adiante, o que faz lembrar o 
vôo do bacurau". (Alipio M. Ribeiro). 

Mangaroeira — Peixe da Baía. 

Mangonga — Seláquio, Odontas- 
pis americanus; passa por ser um ca- 
ção manso, apezar de bem provido de 
dentes. Atinge 2'",50 de comprimen- 
to e, enquanto novo, mostra bem as 
máculas redondas, escuras, sobre fun- 
do pardo-cinéreo, e que nos indivíduos 
maiores se tornam indistintas; o lado 
ventral é claro. 




Mang^onga 



A carne é vendida em postas no mercado, mas, cO' 
iTio a de outros cações, é de qualidade inferior. 




486 



Manguriú — Em Goiaz designa os peixes de couro 
conhecidos por "P a c a m o n" e outros nomes, no Bra- 
sil meridional. 

Manhuara — Corruptela de "M a n i u a r a". 

Manimbé — O mesmo que "Tico-Tico do 
C a m p o". 

Maniuara — Denominação indígena (e também ca- 
bocla em algumas regiões do Brasil) da "S a ú v a". Sig- 
nifica: comedora de mandioca, e corresponde portanto, 
perfeitamente, à denominação nortista: "Formiga de 
mandioca" ou "Formiga da roça", porque ro- 
ça, sem mais explicação, significa "plantação de man- 
dioca", no Nordeste. 

Manjuba — Segundo A. M. Ribeiro também se dá 
êsse nome, no Norte, aos peixes da mesma família do 




Manjuba 



"Peixe r e i"; tal seria Menidia brasiliensis, de côr de 
prata, translúcida, com uma faixa sobre o meio do corpo. 
Vive juntamente com os Stolephnrus nos bandos que fre- 
quentam as praias. 

Manjuba ou "En chova" — O povo adotou, pa- 
ra os peixes da fam. Clupeideos, a mesma subdivisão co- 
mo os ictiólogos. Pela sistemática há a distinguir duas 
sub-famílias : Clupeineos, que o povo reúne todos como 
"S a r d i n h a s", e Engraulineos que pela nomenclatura 
vulgar são "Man j u b a s". Estas diferem daquelas pela 
conformação da bóca, que é terminal nas sardinhas e a 
respectiva fenda só se extende até a região ocular, ao pas- 
so que as "manjubas" têm bôca inferior, com "focinho 
de porco" e a fenda bucal se extende muito para trás 
dos olhos. Caráter menos seguro oferece a faixa pratea- 
da ao longo do meio dos flancos e que nas sardinhas, quan- 
do existe, é menos evidente. O género mais típico de nos- 
sos mares é Anchovia, com talvez 10 espécies; A. olida o a 
manjuba mais comun do Brasil meridional (e correspon- 
de à "alice" da indústria pcsqueií-a italiana). Lycengrau- 



— 487 — 



Zí's grossidens pertence ao mesmo grupo, mas os pescado- 
res preferem dar-lhe o nome de "s a r d i n h a prata". 
Aliás também as outras manjubas o povo quer que sejam 
"sardinhas de bôca tort a". 

Entre nós ainda não se desenvolveu a indústria do en- 
latamento destas espécies, como já se faz com a sardinha ; 
várias delas, porém podem fornecer bons tipos de "encho- 
vas" (como se faz na Europa com Engraulis encrasico- 
Im). Algumas espécies vivem na água dôce, no Amazonas, 
S. Francisco, rio Ribeira e no Prata. 

A origem da palavra "m a n j u b a", algarviana, cex'- 
tamente está ligada a "manjúa, cousa de comer", (Beu- 
teau). "Enchova"é perfeito sinónimo, mas há outro 
peixe totalmente diferente, ao qual se dá o mesmo nome. 
Na Baía foi registrada a denominação "C h a n g o" tal- 
vez como sinónimo puramente regional de manjuba. 

Manjubão ou "Arenque" — Como denominação 
local em Recife, refere-se à maior espécie da manjuba, 
(Anchovia) que atinge 12 cms. ou pouco mais do compri- 
mento; o dorso é azulado, a cauda amarela com orla pre- 
ta. E' espécie marinha, mas há sempre quantidade desta 
manjuba na foz dos rios e a pesca de tarrafa é rendosa, 
principalmente de Novembro a Janeiro. Os pescadores 
distinguem ainda uma outra espécie, pelo nome "A ren- 
que r o 1 i ç o". 

Manquiçapa — Espécie de macaco do gên. Ateies; 
(registrado por Goeldi, como sinónimo de "C o a t á 
branco". Ateies variegatus). Veja-se sob "C o a t á". 

Manuel de Abreu — Veja-se sob "A b r e u". Frei 
Prazeres, no Maranhão, consignou que "só esta faz mel 
semelhante ao europeu; o das outras é mais líquido". 

Manuei-magro — Veja sob "Mané-magro". 

Mão pelado ou "Guaxinim" ou "Jaguaci- 
n i m" — Carnívoro da fam. Procyonideos, Procyon can- 
crivonis, plantigrado como os ursos e os coatís. O corpo 
mede até 65 cms. e a cauda 40 cms.; o pêlo é curto e 
denso, arrepiado na nuca ; a côr é cinzento-amarelada, sal- 
picada de preto, por serem desta côr as pontas dos pêlos 
maioi'es. As pernas, principalmente nas extremidades, são 
pretas, bem como a face e as órbitas ; aí esta cór destaca- 
se bem, devido às faixas brancas, no supercílio e focinho. 
A cauda é anelada, alternando o preto com o amai-elado. 

Habita todo o Brasil, mas só junto aos brejos, in- 
clusive as regiões do mangue; graças a seu modo de an- 
dar plantigrado, assentando tôda a mão, consegue cami- 



488 — 



nhar sobre os lodaçais, onde ninguém o pode perseguir. 
Sabe também trepar em árvores. Alimenta-.se de peque- 
na caça e vegetais, apreciando muito a cana de assucar 
e tem especial predileção pelos carangueijos. Sua carne, 
por ser fétida, como também o couro, ninguém aprovei- 
ta. E' temível inimigo dos criadores de galinha ou, mais 
positivamente, apaixonado amigo das aves domésticas, 
causando assim sérios e contínuos estragos. 

Relatou-nos o sr. Aroaldo Azevedo que em Sergipe 
é conhecido o modo como êste curioso animal caça caran- 



gueijos no mangue. Fazendo penetrar a cauda no buraco 
em que mora o crustáceo, espera que êste morda com suas 
valentes tesouras, para então arrancar o carangueijo pa- 
ra fora, afim de saboreá-lo. Mas, sabendo de antemão que 
o beliscão que levará na cauda será doído, o mão-pelado, 
que assim é caçador e vítima ao mesmo tempo, espera ga- 
nindo e, agachado, se contorce como que pressentindo a 
dôr. Belo tema para devaneios filosóficos! 

Merece reparo a etimologia dos dois nomes indíge- 
nas: jaguacinim (ou guaxinim, abreviadamente) e gua- 
rachaim (ou grachaim) ; (juarâ são os carnívoros em ge- 
ral. Vários autores, não atendendo bem às subtilezas nos 
nomes, às vezes truncados, confundiram assim o "m ã o- 
pelado" com o "G r a c h a i m". 

Mapará — Peixe de couro, Nematognata, único re- 
presentante em no.ssa fauna de uma das famílias, os Hy- 
pophthalviideos; tipo assaz curioso e com caracteres in- 




MSo pelado 



— 489 — 



confundíveis. A cabeça é deprimida e imita mais ou me- 
nos o perfil dos robalos, porém, com a linha malar muito 
saliente; os olhos são laterais e situados sobre a arti- 
culação mandibular; a linha lateral emite raios colaterais, 
simétricos, para cima e para baixo, formando-se assim 
um desenho geométrico, como o não tem nenhum outro 
peixe. A única espécie, Hypophthalmiis edentatuíi, é de 
tôda a Amazónia e do rio Paraná. Em Cametá, na foz do 
Tocantins, a pesca do mapará é muito rendosa. O cêrco 
é feito antes da vasante, por numerosas canoas que ex- 
tendem as rêdes em conjunto e que depois são fechadas 
em círculo; assim apanham os pescadoi-es imensa quan- 
tidade de peixe, entre os quais avulta o mapará. 

Sua carne é bastante apreciada, conquanto não se- 
ja melhor que a de muitas outras dêste grupo de peixes 
de couro. Rivalidades locais, como as há entre muitas lo- 
calidades, fizeram circular a suspeita de que o mapará 
dá lepra . . . quando o peixe é de Cametá ! Grandes parti- 
das de peixe salgado e seco são exportadas dessa loca- 
lidade para Belém e daí para outros portos do país. 

Maquiné — ou por extenso : "Bicudo maqui- 

n é"; no Ceará é a mais famosa raça canora dos bicudos. 

Maracá — Denominam assim, na Amazónia, o guizo 
ou chocalho da "C a s c a v e 1". E' a mesma palavra pela 
qual os indígenas designam o chocalho, feito, geralmente 
de um porongo, contendo sementes ou pedrinhas. Afrânio 
do Amaral registra também "Mar acabo ia" (Brasil 
central). 

Maracajá — No Norte e na Amazónia é o mesmo que 
"G ato do m a t o" e "J a g u a t i r i c a" no Brasil 
meridional. 

Maracajá-mirim — E', na Amazónia, o "Gato do 
mato" (Felis wiedi). 

Maracajá-guassú — São as espécies de tamanho mé- 
dio, maiores que os "gatos" do mato e menores que a 
"S u s s u a r a n a". 

Maracanã — Designa as espécies de Psittacideos do 
tipo das araras, porém bem menores e de cauda menos 
longa, quando muito de comprimento igual ao resto do 
corpo: Ara severa, maracana, nobilis, de colorido predo- 
minante verde, com vivos ornatos vermelhos, amarelos ou 
azuis. 

Maracanã-guassú — Refere-se em especial à Ara se- 
vera, de fato um pouco maior que as outras espécies de 
igual nome vulgar. 



— 490 - 



Maracuaim — Na Amazónia, Pará, é o nome do pe- 
queno crustáceo, mais conhecido por "Chama-maré"; 
veja-se sob "T e s o u r a". E' o vocábulo que deu origem 
ao nome específico: maracuani, dado por Latreille, con- 
juntamente com o nome genérico Uca, aliás o "u s s a" do 
indígena. 

Marandová — Certas lagartas de borboletas ou ma- 
riposas, em geral as de porte maior, gordas e inermes (as 
cabeludas ou cobertas de espinhos são "t a t o r a n a s"). 
Amadeu Amaral registra "Mandorová" como forma 
caipira; porém "M arandová"é não só a forma indí- 
gena primitiva, como também mais generalizada no Sul 
do Brasil. Pe. Teschauer escreve "M a n d u r u v á". 

Maranhão — Não sabemos até que ponto vai o nexo 
que une a origem desta denominação, aplicada à ave per- 
nalta, mais geralmente conhecida por "Flamengo", 
com o nome do grande Estado nortista e do mar dulce. João 
Ribeiro, o erudito filólogo, em seu livro "A Lingua Nacio- 
nal" (pag. 211 a 230) discute largamente as várias e, em 
parte, bem curiosas etimologias aventadas. A essas pagi- 
nas remetemos o leitor, sem contudo, a nosso ver, lhe ter 
encaminhado a curiosidade para a solução definitiva da 
questão. 

(Em resumo: Mar? ah, não; — Marachão; — Uma 
adivinha popular: Que é o que é? Mil marinhinhos, mil 
maranhões; — Maranha; — Maranhaí). Da nossa parte 
lembraremos apenas que J. Ribeiro não aborda, infeliz- 
mente, a aplicação ornitológica do emaranhado vocábulo. 

Maria de barro — O Sr. Fr. Dias da Rocha, no Ceará, 
registra assim o nome do pássaro, que no Sul chamamos 
"João de barro". Não sabemos si tal variante tem 
de fato, aplicação generalizada. 

Maria branca — O mesmo que "Pombinhas das 
Almas". 

Maria cavaleira — Veja "Pai Agostinho". 

Maria conga — E' em Sergipe, como nos informou 
o Sr. Cleômenes Campos "uma formiga enorme, negra. In- 
sidia". 

Maria farinha — Em Pernambuco designa "ura pe- 
queno carangueijo que dizem ser semelhante ao "Chama- 
maré" ou "E s p i a - m a r é". (Informação do Sr. E. 
Avila de Tigipió) . Rodolpho Garcia, no Dic. Brasileirismos, 
diz que é um. crustáceo bastante vulgar em Pernambuco, 
talvez Ocypode albícans, provavelmente arenaria. Porém 



— 491 — 



mais adequada nos parece a informação colhida pelo Dr. 
J. Gonçalves, segundo a qual "Maria farinha" de- 
signa a fêmea do "G u a i a m ú", referindo-se "fari- 
nha" à ova branca, como que pulverulenta. (O nome, 
aliás, está consagrado pela geografia nacional, aplicado a 
uma localidade ao norte de Recife. 

Maria guensa ou "G u e n s a" — Em Mato Grosso, 
é o mesmo que " J a c u n d á". 

Maria-já-é-dia ou na Baía, "Maria-é-dia" — 
Nome onomatopaico do passarinho da fam. Tyrannideos, 
Elaenea fUivogastra, aliás do grupo das "Guará- 
c a V a s"; é bruno-cinzento no dorso, mais claro em baixo, 
com barriga amarelo-pálida. As penas da cabeça são es- 
treitas c alongadas, formando topete. Pelo que os indíge- 
nas paraenses afirmaram, êsse nome é verdadeiramente 
onomatopaico para Cyclorhis gnyanensis, pequena ave re- 
forçada, da fam. VÍ7-eonideos, de dorso verde, ventre claro 
e cabeça pardacenta. 

"E' um verdadeiro artista na construção do seu ni- 
nho e mesmo aos beija-flores não fica a dever neste sen- 
tido", diz Euler. Representa o conjunto uma linda tigeli- 
nha de 5 cms. de diâmetro e pouco menos de altura e, ape- 
zar de colocado sobre um ramo de árvore, às vezes bem 
perto das casas, nem assim é fácil descobrí-lo. E' que o 
passarinho enfeita as paredes externas de tal forma, com 
pequenos musgos e líquenes, que a mimosa construção não 
se diferencia da casca do galho, do qual parece ser ape- 
nas uma excrecência natural. 

Maria judia — O. Monte (Alm. Agr. Eras. 1926) diz 
que é êste outro nome que dão, no Norte, ao "T i c o - 
t i c o". 

Maria mole — Peixe do mar da fam. Sciaenideos (a 
que pertencem as "Pescadas" e a " C o r v i n a ") , 
Nebris microps. Distingue-se facilmente pelas dimensões 
muito pequenas dos olhos e por ter a parte superior da 
cabeça muito mole, pois o crâneo aí é cavernoso e coberto 
de escamas muito pequenas. O peixe é todo êle muito mo- 
le e, mesmo fresco, dá a impressão de estar deteriorado. 
Atinge quasi 2 palmos de comprimento. ITá também uma 
"P e s c a d a" verdadeira que merece tal nome, porque se 
deteriora facilmente. E' ainda Polyclemus brasiliensis, 
aliás género afin à "C o r v i n a", é considerado "Maria 
m o 1 e"; distingue-se esta por ter 2 séries de barbilhões 
no queixo e um apêndice na sínfise; seu colorido consiste 



— 492 — 



em 3 faixas transversais escuras e, intercaladas, ha ou- 
tras, menos definidas. 

Maria mole — O mesmo que "S o c ó z i n h o". 

Maria nagô — Denominação que se dá na Baía ao 
peixe do mar Equetus lanceolatus, da fam. Sciaenideos. 
A denominação vulgar compara o desenho do peixe à ta- 
tuagem usada pelos negros de raça nagô. 

De fato, ornam o belo peixe várias faixas pretas, bem 
destacadas do fundo pardo-amarelado, por serem guarne- 
cidas por orlas claras. A faixa maior começa no alto da 
nuca e passa obliquamente pelos flancos até a cauda; dua.s 
outras enfeitam a cabeça. A nadadeira dorsal no início é 
delgada e comprida; segue-se depois o prolongamento, bai- 
xo, que se extende até quasi à cauda. Diz Castelnau que 
o peixe não pode ser levado ao mercado, pois apodrece ra- 
pidamente. 

Maria preta — Passarinho da fam. Tyrannideos, do 
gên. Knipolerjus, preto com ornatos brunos nas azas e na 
cauda; a espécie K. comutm tem um longo topete no vér- 
tice; em K. nigerrimvs êsse topete é bem menor; ambas 
são do Brasil meridional. 

Maria preta — Por "Pássaro preto". Veja êste. 

Maria rendeira — Em Sergipe: veja sob "Ren- 
de i r a". 

Maria da Serra — Veja sob "Sarro". 

Maria da loca — Pequenos peixinhos da fam. Go- 
biideos; veja "M ussurung o". 

Marianinha — Também conhecido na Amazónia por 
"Periquito d' anta" (seg. E. A. Goeldi) ; contudo 
devemos acrescentar desde logo que êste último nome lhe 
cabe mal, pois que se trata de um Psittacideo da sub-fam. 
Pionineos, cujo corpo se compara melhor a um papagaio 
menor e não a um periquito. Ocorrem no Brasil só duas 
espécies do gên. Pionites, ambas da Amazónia: Pionites 
lencogaster, da Amazónia inferior, que é a "M a r i a n i - 
n h a" legítima, de azas e dorso verdes, lado inferior bran- 
co, que passa ao amarelo no pescoço e no baixo ventre; o 
alto da cabeça até a nuca é ocráceo. Há uma sub-espécie, 
P. Iene. xanthomeriiis, da Amazónia superior, que difere 
da espécie típica por serem também amarelas as penas das 
coxas. Do mesmo género dessas "M a r i a n i n h a s" é P. 
melanocephalus; também do alto Amazônas e que difere 
principalmente por ter cabeça negra. A essa espécie Goel- 
di atribuo o nome indígena "M ai puré". 



— 493 — 



Maribondo — Veja sob "M a r i m b o n d o". 

Muriçoca — Veja sob "M o r i ç o c a". 

Mariguí — ou "B a r i g u í" ou mais comumente 
"B i r i g u í". 

Marimbá — Peixe do mar, Diplodus argenteus, da 
fam. Sparideos (à qual pei-tencem também o "P a r g o" 
e o "P e i X e p e n a") - O corpo é robusto, porém não 
atinge mais de meio metro do comprimento. Seu peso mé- 
dio, no mercado, é de meio quilo. Caracteriza-o uma man- 
cha preta na parte superior do pedúnculo caudal e uma 
faixa amarela na orla da nadadeira caudal ; o colorido ge- 
ral é prateado, cinéreo. No mercado tem cotação ínfima. 
E' o alimento predileto dos méros (seg. J. C. Travassos). 

Marimbondo ou "Maribondo" — E' mais ou 
menos sinónimo de "V e s p a"; abrange assim todos os 
himenópteros maiores (exclusive abelhas, mamangabas e 
formigas), dotados de ferrão. A etimologia não é clara; 
mas no "Dicionário da Lingua Bunda" de frei Canneca- 
tim, vespa é Maribundu ou Aribundu, etc. Outros pre- 
ferem derivação do tupi. Em S. Paulo predomina a dicção 
marimbondo ; no Sul e, ao que parece, no Norte, maribon- 
do. Claro está que por isto não podemos taxar de errada 
a forma menos usual. 

Marimbondo caçador — O mesmo que "V e s p a ca- 
çador a" ou "V e s p ã o" (veja-se sob esta palavra). 
O caipira sabe que essas vespas são caçadoras eméritas e 
valentes, e daí a origem da "simpatia", que consiste no se- 
guinte : êste grande himenóptero, torrado e i'eduzido a pó, 
é dado a cheirar aos cachorros, para assim lhes aguçar o 
faro e torná-los bons caçadores. (Informações do Dr. Jo- 
sé Gonçalves, São Paulo). 

Marimbondo de chapéu — O mesmo que "Beijú- 
c a b a ". 

Marimbondo mangangá — Veja "M a m a n g a b a". 
Marinheiro — Veja-se sob "A r a t ú". 

Mariposa — Designa os lepidópteros Heteroceros, 
geralmente noturnos ou crepusculares, cujas antenas são 
filiformes ou pectinadas, etc, porém nunca terminadas em 
pequena clava (como o são, unicamente, as antenas dos le- 
pidópteros Rhopaloceros, isto é das verdadeiras "Bor- 
boletas", diurnas) . 

"Bruxas" são também os heteroceros maiores, fi- 
cando assim reservado o têrmo " m a r i p o s a ", no sentido 



— 494 — 



mais restrito, para os heteróceros de tamanho médio e os 
minúsculos Microlepidopteros, que às vezes medem 4 mms. 
de envergadura; porém nem todos os chamados Micros 
(abreviatura generalizada entre os especialistas, por Mi- 
crolepiclopteroti ou "m o t h s" dos ingleses, são assim 
microscópicos, havendo mesmo espécies de tamanho su- 




Mariposas 



perior ao da média das borboletas. O lepidóptero da "T r a - 
ç a" é uma mariposa, bem como o do "B i c h o da s e - 
d a". Veja-se também sob "Bruxa ". 

Um dos nossos melhores escritores, da Academia de 
Letras, ao salientar os méritos de um poeta, citou-lhe a 
poesia "A Borboleta", em que o mísero inseto acaba mor- 
rendo com as azas queimadas na vela. Certamente foi pa- 
ra não lhe diminuir o valor, que o crítico deixou de dizer, 
que a tal borboleta não podia deixar de ser mariposa, por- 
que à meia-noite não há borboletas acordadas, nem para 
os poetas . . . 



— 495 — 



E' deslise igual ao de outro escritor, que enfeitou os 
prados com pirilampos, ao descrever a madrugada! 

Para o zoólogo, o capítulo "Mariposas" (ou Lepidop- 
teros Heteroceros) é um dos mais difíceis de tôda a ento- 
mologia. Basta dizer que do "Catalogue of Moth" do Bri- 
tish Museum (Londres) o autor, Sir Hampson, publicou 
15 grossos volumes e o infatigável cientista estava longe, 
ainda, de poder dar por concluída a enorme tarefa. Muito 
menos sabemos nós em quanto orça, mesmo aproximada- 
mente apenas, o número das nossas espécies de mariposas ! 
E não se diga que tal estudo é apenas uma inocente preo- 
cupação erudita de naturalista. Há, justamente entre os 
Heteroceros, uma infinidade de espécies que muito de per- 
to interessam à entomologia económica, por serem as suas 
lagartas as responsáveis por grandes danos causados à 
agricultura. 

Em um catálogo dos insetos nocivos. Costa Lima re- 
gistrou 493 espécies de lagartas de Lepidopteros que vivem 
nas plantas e mais da metade delas faz parte do presente 
grupo. 

Daí a necessidade de conhecer-lhes a sistemática, afim 
de evitar a confusão de espécies, aparentemente iguais, po- 
rém de hábitos diversos; além disto o registro da sua 
distribuição geográfica e o estudo das particularidades 
biológicas de cada família, género e espécie, é igualmente 
tarefa da entomologia económica, a qual, só depois de bem 
enfronhada nesses detalhes, poderá cuidar eficientemen- 
te da debelação da praga. 

Mariposa-beija-f lor — Uma grande superfamília das 
mariposas, os Sphmgideos, tem feição muito característica 
e, realmente iembi-am tais espécies a conformação geral 
dos beija-flores: o corpo grosso, fusiforme, as azas delga- 
das, o vôo retiiíneo, rápido e sussurrante e, às vezes, o 
próprio colorido verdolengo — tudo isto faz com que, nu- 
ma observação pouco atenta, se confundam oa dois seres. 
Além disto, o lepidóptero, ao sugar nas flores, desenrola 
e extende para a frente a longa tromba, que assim finge o 
bico da avesita. 

A pouca luz do ocaso, hora em que começa a atividade 
dos Sphmgideos, contribuo para que a ilusão seja quasi 
completa. Não admira, pois, que até um naturalista dos 
mais provectos, como o foi Bates, tenha atirado a tais ma- 
riposas, supondo tratar-se de beija-flores, como êle pró- 
prio confessou. Assim se explica a convicção do povo, de 
que uma tal transformação de beija-flor em mariposa se 
opere realmente e parece que há lendas que o confirmam. 



49Õ - 



Simão de Vasconcellos, da Comp. de Jesus, em sua Cró- 
nica, 1. 1, pag. 112, também nos assevera: "Esta avezi- 
nha, suposto que fomente seus ovos e dêles nasce, é coi- 
sa certa que é produzida muitas vezes de borboletas. Sou 
testemunha que vi com meus olhos uma delas, meio ave e 
meio borboleta, como ia se aperfeiçoando de baixo da fo- 
lha de uma latada, até tomar vigor e voar". 

Podemos quasi asseverar que a mariposa, a que se 
refere o bom ci"onista, é a Pholus lambrnscae, cuja lagar- 
ta é praga da parreira, de cujas folhas se alimenta. 

Mariposa do café — Microlepidoptero da fam. Ti- 
neideos (traças), Leucoptera coffeella, cujas larvas vivem 
no parênquima das folhas do cafeeiro, causando assim 
algum dano, que em certas circunstâncias pode assumir 
proporções maiores. As folhas ficam manchadas ("man- 
cha de hierro" dos venezuelanos) e quando a larva está 
no tempo de se metamorfosear, ela tece um pequeno casu- 
lo recoberto por delicados fios de seda branca, em forma 
de um X largo, em geral na face inferior da folha. A ma- 
riposinha mede apenas 5 a 6 mms. com as azas distendidas ; 
a côr é branco-azulada, com franjas de pêlo pardacento 
nas azas e um desenho preto na ponta destas. Há várias 
espécies de himenópteros parasitas, de apenas 1 mm. de 
comprimento, que perseguem suas larvas. 

Mariquinhas ou "M a r i q u i n a" — Evidente de- 
turpação da denominação indígena "M u r i q u i n a" ou 
"M b u r i q u í", "B u r i q u í", símio ao qual mais co- 
mumente o povo dá o nome de "M o n o" (Eriodes ara- 
chnoides). Vimos porém a denominação "M a r i q u i- 
n h a" atribuída também a certos saguís do Sul e ao 
"M a c a c o da n o i t e" de Mato Grosso. 

Mariquita — O mesmo que "C a m b a c i c a". 

Mariquita — Peixe da fam. Serranideos, Dules auriga 
e também Callididus flaviventris, semelhante àquele. O 
primeiro tem o 3.° acúleo dorsal prolongado em comprido 
filamento. São comuns, mas crescem apenas até pouco mais 
de um palmo. 

Marisco — Tôda sorte de moluscos e outros inverte- 
brados marinhos comestíveis, que os pescadores recolhem 
do mar ou das praias. Esta acepção ampla do termo faz, 
portanto, incluir também os crustáceos (carangueijos, 
lagostas, camarões), porém nunca os peixes, que por sua 
vez constitue o "pescado". Nesta acepção sulina, o "m a- 
risco" correspondo ao que o italiano abrange sob o no- 
me "frutto di mare". No entanto diz J. Veríssimo, 



5SCÍELO 9 ;lO 11 12 



— 497 



que o ribeirinho da Amazónia vai "mariscar", quando 
cuida de "pegar peixe" para a refeição. 

Em sentido restrito, "M a r i s c o" é sinónimo de 
"Mexilhão", que é o verdadeiro nome do bivalvo das 
pedras (Mytilus). 

Maritacaca — Em Pernambuco, ou abreviadamente 
"T a c a c a" e 

Maritataca ou " J a r i t a t a c a" — E' o mesmo que 
"C a n g a m b á". 

Marreca — Há umas 16 espécies de aves indígenas 
da fam. Anatideos as quais cabe êste nome. Tais são: 
"Irerê", "A nanai", "Assobiadeira", "Can- 
cã" e "Paturi"; as formas maiores são "Mer- 
gulhador", "Marrecão" e "Pato do Ma- 
t o". Sob a designação específica "Marreca" compreen- 
de-se geralmente Nettiom hrasiliense, a que nos referi- 
mos sob "A n a n a í", por ser êste seu nome específico 
mais generalizado. 

Qual a diferença entre as marrecas e os gansos? Não 
é fácil responder em poucas palavras. 

Zoologicamente os gansos são Anserineos e as mari'e- 
cas Anatmeos e, no entanto o "Irerê", apezar de per- 
tencer ao grupo dos gansos, no Sul do Brasil é denomina- 
do "M a r r e c a do Par á". 

Cabe pois aqui uma explicação zoológica: Os Ansei-i- 
neos (ou gansos) têm pescoço comprido, a cauda tem 16 
a 18 retrizes, o tarso é mais comprido do que o dedo mé- 
dio, inclusive a unha; o bico, na base, é mais alto do que 
largo. Além disso, os sexos não diferem entre si pelo co- 
lorido, o macho auxilia a fêmea na criação dos filhos e, 
finalmente, são aves que não mergulham quando nadam. 
Os Anatineos (marrecos), ao contrário, têm pescoço não 
muito longo, a cauda consta de 14 a 16 penas, o tarso é 
mais curto do que o dedo médio; o bico, na base, é mais 
largo do que alto. Os machos distinguem-se pelo colorido 
mais rico, principalmente no período nupcial, tornando-se 
então as córes mais brilhantes; quasi todos os marrecos 
gostam de mergulhar. Os patos constituem uma sub-famí- 
lia intermediária, mais chegada à dos gansos, distinguin- 
do-se pela cauda mais comprida e pela presença de uma 
verruga na fronte. 

Há no Brasil, ao todo, umas 24 espécies da ordem 
Anseriformes e é bem curiosa a sua distribuição pelo país. 



498 



No Estado de S. Paulo ocorrem apenas 8 espécies, algu- 
mas das quais, como o "P a t o A r m i n h o" e o "M e r - 
g u 1 h ã o", só acidentalmente extendem suas migrações 
até aqui. Na Amazónia, apezar da facilidade de vida, que 
lhes deveriam proporcionar as condições hidrográficas 
da região, também não se registram sinão umas 10 espé- 
cies. No Rio Grande do Sul, ao contrário, quasi tôdas as 
espécies brasileiras se encontram e, às vezes, em tal abun- 
dância, que os caçadores voltam não só com a maior va- 
riedade, como também carregados com tal quantidade, que 
é uso guardar a deliciosa carne em conserva ou passar as 
aves preparadas na gordura. 

Couto de Magalhães descreve da seguinte forma o 
modo de "fazer os barris de patos e marrecos" (isto é gran- 
des caçadas, cujo rendimento é depois salgado e conser- 
vado em barris) : "Há um certo tempo em que êstes pal- 
mípedes perdem as penas grandes das azas, de modo a não 
poderem voar e assim ficam "broncos", no dizer dos ta- 
puios do Norte. Por esta ocasião os caçadores espreitam o 
lugar em que os grandes bandos de marrecos costumam 
pastar e, durante a noite, ali fazem um curral ou "caiça- 
ra" de talos verdes de coqueiro. Pela madrugada, ao virem 
as marrecas para a lagôa, os caçadores metem-se pela 
água a dentro, no lugar oposto ao pasto habitual e onde 
está a caiçara e vão-nas tangendo até que entram ali, on- 
de fecham e matam aos centos". 

Marreca apaí — Nome vulgar dado no Norte ao 
"I r e r ê". 

Marreca do Pará — O mesmo que "Irerê"; aquela 
designação geogx'áfica não tem fundamento, pois a espécie 
se extende não só por tôda a América do Sul e Central, 
como também existe na África tropical. 

Marreca peba — Dendrocygna fulva, portanto do mes- 
mo género que a "I r e r ê", da qual difere por não ter 
colorido branco, porém pardo na parte anterior da ca- 
beça e da garganta. Ocorre em tôda a América, da Argen- 
tina ao Texas e também na África e na índia. 

Marreca toucinho — Poecilonetta hahmnensis; ca- 
racteriza-se por ter cauda bastante longa; o colorido é 
bruno-cinzento no lado superior, escuro no alto da cabeça; 
o lado inferior é pardo-amarelado, com manchas ovala- 
das como gotas; a garganta é branca; a aza tem espelho 
verde, orlado de amarelo-avermelhado. Existe em todo o 
Brasil, de Norte a Sul. 



- 499 — 

Marrecão ou "G a n s o do m a t o", no Sul — Ave 
da fam. Anatideos, Alopochen jubahis. E' do tipo dos 
gansos; no encontro das azas há um tubérculo, que nos 
indivíduos mais velhos se transforma em esporão. A còr 
da cabeça, pescoço e peito é cinzenta; o dorso e a barriga 
são avermelhados; as azas e a cauda são pretas, com bri- 
lho verde metálico; o bico e as pernas são avermelhados. 
E' mais comum na Amazónia, mas às vezes também apa- 
recem no litoral de S. Paulo. 

Martelo — Em Pernambuco é êste o nome das larvas 
dos mosquitos; deu oi-igem a esta comparação o aspeto 
geral das ninfas, cuja cabeça é muito volumosa, presa ao 
cabo do martelo, representado pelos segmentos abdomi- 
nais. 

Martim cachá — Nome onomatopaico ou "M. c a-• 
c h a ç a", deturpação do precedente ou ainda: 

Martim grande — Nomes dados à espécie maior de 
"Martim pescador". 

Martim perêrê — Veja-se sob "M atim perêr ê". 

Martim pescador ou "Pica peixe" — Aves da 
ordem Coracii formes, fam. Alcedinideos, com o único gé- 
nero Cerijle. Na Amazónia são conhecidos por " A r i r a m - 
b a s". Há 5 espécies brasileiras; C. torquata distingue-se 
pelo tamanho (44 cms.) e pelo colorido ardósia; é o "M. 
c a c h á". A seguir, um tanto menor, com 33 cms., C. ama- 
zona. Duas outx\as, medindo ambas cêrca de 20 e poucos 
centímetros, C. americaria e C. inda, diferem pouco entre 
si pelo colorido e, finalmente, o anão do grupo é C. aenea, 
com apenas 13 cms. O belo colorido pouco difere de uma 
espécie para outra ; predomina a côr verde esmeralda, com 
traços e pontilhados brancos ; no peito e no ventre há mis- 
tura de branco e verde e algum colorido vermelho ferru- 
gíneo. O modo de vida de um é o de todos. Pousado so- 
bre um galho curvado sobre o rio, o "Martim" vigia a 
superfície das águas e, descobrindo o que lhe pareça indí- 
cio de peixe, pi'ontamente se deixa cair, desaparecendo 
por alguns momentos de baixo d'água, a dar caça ao úni- 
co alimento que lhe apetece. Naturalmente o "C a c h á", 
que é ave robusta, pode se haver com espécimens bem 
maiores do que os seus parentes mais franzinos. Entre 
nós nem vale a pena falar do pescado que vai para o seu 
bucho, em vez de se destinar ao nosso anzol. Mas na Eu- 
ropa, onde há espécies semelhantes e com os mesmos há- 
bitos, os pescadores e principalmente os criadores de pei- 



— 500 — 



xes querem mal a esta ave e, no último caso, com boa ra- 
zão. Os ninhos de todos êles são feitos nos barrancos dos 
rios, achando-se a câmara no fim de um canal mais ou 
menos comprido e que chega a medir até 2 metros, quan- 
do escavado pelo Martim grande. 

O. Monte (Alm. Agr. Bras. 1926) refere a seguinte 
observação, que transcrevemos, podendo confirmá-la por 
observação própria: "Interessante é o ardil empregado 



por esta ave, com o fim de atrair o peixe. Um dia estive 
por muito tempo apreciando seu sistema engenhosíssi- 
mo. Pousada sobre um fio telegráfico, que passava so- 
bre uma lagôa, a ave de vez em quando dava um mergulho 
e trazia no bico um peixinho. Para atrair o pescado, o 
"Martim pescador" fazia certa necessidade, que, 
caindo n'água, era logo motivo de ajuntamento, que en- 
tão era aproveitado para a pescaria. E isto por várias 
vezes". 

Maruim — ou "M e r u i m", também "M i r u i m" 
no Rio Grande do Sul; "B e m b é" na Amazónia. Veja 
sob "M os quito pólvor a". 

Massambé — Registrado pelo almirante Camara, de- 
signando na Baía uma espécie de sardinha, que, segundo 
informações do Dr. A. Neiva, é de tamanho médio, bran- 
ca com dorso pouco escuro. 

Massarico — Veja também "Batuíra". Aves da 
fam. Charadriideos. A espécie Marmella (ou Arenaria) 




Martim pescador 



501 



interpres, a que também cabe êste nome, é cosmopolita 
e assim foi de Portugal que lhe veio o nome. Porém tanto 
lá, como aqui, o nome "m a s s a r i c o" designa várias 
outras aves de géneros divei\sos, de modo que é impossí- 
vel reconhecer, pela indicação dêste nome, de que espé- 
cie se trata. Podemos considerar "M a s s a r i c o" sinó- 
nimo português de "Batuíra", de origem tupi. Veja 
também "T a r a m b o 1 a" e"Bico rasteir o". 

Massaricão — Aves da fam. Charadriiãeos, dos gên. 
Himantopus e Numenins. Ao primeiro destes géneros ca- 
be também o nome "P e r n i 1 o n g o". Numenius horealis 
caracteriza-se por ter bico curvado para baixo. O colori- 
do do lado dorsal é bruno-escuro, tendo as ijenas orlas 
pálidas; o lado inferior é branco-amarelado, com man- 
chas escuras angulares. 

Matá-matá — (Subst. masc.) Réptil da ordem dos 
Cheloníos, Cheli/s fimbriata da Amazónia. Atinge 50 cms. 




Mati malá 



de comprimento. A couraça dorsal tem dois sulcos pro- 
fundos e os escudos muito marcados e ásperos; a casca 
ventral é estreita e encanoada. O pescoço é comprido, mui- 
to rugado e, além disto, provido de várias franjas; a ca- 
beça é achatada, triangular e termina em uma espécie 
de bico. 

E' uma verdadeira caricatura de Quelônio, quando es- 
tes, fazendo-lhes apenas justiça, já não primam pela be- 
leza. Contudo, a carne do "M a t á - m a t á" é boa; Goeldi 
diz ter ela cheiro repugnante, mas isto se refere antes à 
casca do animal, porque vive de preferência nas águas 
estagnadas, nos lodaçais, onde se alimenta de peixinhos 
e sapos. 

Matim perêrê ou "M a t i n t a - P e r ê r a" e 
"M a r t i m - t a - p e r ê" — Na Amazónia é o mesmo 
que "S a c í" no Sul. Dizem vários autores que o nome é 
onomatopaico : dois assobios e logo em seguida, em voz 



502 — 



mais cantada, as demais sílabas que lhe deram o nome. 
Outros dizem que a ave emite primeiro um assobio estri- 
dente, seyuido, em voz cavernosa, dos dizeres silabados. 

"Não são pássaros, não; são bruxas, que viram em 
matinta-perêra, para cumprirem seu fadário e portanto 
são duendes, capazes de todos os malefícios. Mas avistan- 
do o "Matinta-perêra", basta dizer-lhe — Vem 
buscar tabaco amanhã — e a pessoa, que à noite fôra bru- 
xa, vem de fato buscar o prometido da véspera, no dia se- 
guinte". (J. Coutinho Oliveira, Lendas Amazônicas). 

Matirão — Na Amazónia é o nome da ave da fam. 
Ardeideos, Nijctanassa violácea. No Sul, para onde esta es- 
pécie também se extende até Santa Catarina, não lhe co- 
nhecemos nome especial. Assemelha-se à "G a r ç a r e a I", 
mas é de côr cinzenta, com manchas escuras no dorso. A 
cabeça é preta, com uma linha branca sobre o véx-tice e 
duas outras pela face; na nuca tem penas brancas, alon- 
gadas. O bico é preto, as pernas são amarelas. 

Matraca — O mesmo que "Borralha r a" (Batara 
cinerea). 

Matrinchã — Na Amazónia, é o nome de vários pei- 
xes da fam. Characideos, sub-fam. Bryconineoí^, tais como 
Brycon hrevicaudus, congéneres pois da "Piracan- 
j u b a" do Brasil meridional. 

Matupirí — Na Amazónia designa um variado nú- 
mero de peixinhos, que correspondem aos "Lambari s" 
do Brasil meridional; poucas espécies são idênticas nas 
duas regiões. 

(Matiiraque) — Não sabemos si na Amazónia ainda 
está em uso êste nome, registrado por Martius para uma 
das espécies do grupo das traíras. José Veríssimo não o 
menciona. 

Mauaí — Assim grafa Barbosa Rodrigues o nome 
indígena do "P e í x e boi" e parece-nos ser a forma 
mais etimológica. Não temos, porém, certeza e não pode- 
mos, sem mais ampla documentação, asseverar que é êste o 
radical do arraigado Munatí dos autores europeus (que 
também deu origem ao nome genérico Manatus). 

Mauarí ou "Maguari" — O mesmo que "João 
G r a n d e" no Sul. 

Mbaracajá — Pronúncia original de "M a r a c a j á" 
e igualmente em uso ; é o mesmo que "Jaguatirica". 



503 - 



Mbatará ou "Batará" — Veja-se sob "Bor ra- 
lhar a" e "Choca". 

(Mboi) — Vocábulo indígena (e por corruptela: Boi), 
que significa cobra em geral; mas é empregado só em pa- 
lavras compostas, usualmente com supressão do M inicial. 

Mboicininga ou "B o i c i n i n g a" — Significa em 
tupi: a "cobra que faz ruido" isto éa "Cascava 1". 
Mburiquí — Veja sob "B u r i q u í", isto é "M ô n o". 
Mede-léguas — Veja sob "Curiango". 

Medc-palmos — Lagarta dos lepidópteros (maripo- 
sas) da fam. Geometrideos. E' muito característico o mo- 
do de andar dessas lagartas, mo- 
do êste determinado pelo número 
reduzido de patas. Têm elas ape- 
nas 3 pares na extremidade pos- 
terior, quando as lagartas normais 
têm, ao todo, 8 pares. Os "Me- 
de - p a 1 m o s", juntando as duas 
extremidades opostas, curvam o 
corpo em arco, e logo o distendem, 
adiantando a parte anterior; pare- 
cem, assim, medir o espaço aos pal- 
mos, ao que também o nome lati- o inscto .iduuo 
no faz alusão. Várias espécies são 
nocivas à agricultura, como por exemplo o"Curuque- 
r ê" e a "Lagarta do milhará 1". 

Medusa — Denominação erudita dos Celenterados que 
o povo conhece por "Água viva". 

Meia pataca — O mesmo que "Alma de gato". 

Meio chumbo — No Oeste do Estado de S. Paulo, é 
o mesmo que "Carrapatinh o". 

Meirinho — Pequenas aranhas da fam. Salticideos, 
do grupo das "aranhas vagabunda s", que não 
. fazem teias ; em geral têm menos de um cen- 
\ IS'/ tímetro de comprimento, o corpo é grosso, 
quadrado na frente, de côr cinzenta, com al- 
gum desenho esbranquiçado. Em dias de sol 
ficam de vigia nos batentes das janelas, on- 
de dão caça a pequenos insetos; muito ágeis, 
pulam sobre a vítima incauta, mesmo que se- 
ja do tamanho da mosca comum e, sub- 
jugando-a facilmente, levam-na para um es- 
conderijo, afim de sugá-la. Uma destas espécies, a mais 
comum em S. Paulo e no Rio de Janeiro é Menemerus bi- 






504 — 



vittatus, que aliás também se encontra na África e na 
Ásia. 

Mel de anta ou "Tapieira" — Abelha social da 
fam. Meliponideoa, provavelmente Melipona flavipennis, a 
maior das espécies brasileiras da família, com 13 mms. de 
comprimento e 5,5 mms. de largura no tórax. 

Mel de cachorro — Denominação pejorativa, que cabe 
a várias abelhas sociais, cujo mel é ruim, ácido ou de mau 
aroma. Tem sido registrado, com segurança, como apli- 
cado à "C u p i r a" e à Melipona argentata, também men- 
cionada sob aquela rubrica. 

Mel de pau — Por fazerem quasi tôdas seu ninho ou 
colmeias em paus ôcos, são assim chamadas as espécies 
indígenas de abelhas que armazenam mel, tôdas elas per- 
tencentes à fam. Meliponideos, gêns. Melipona e Trigona 
(ou segundo outros autores, este último género é apenas 
um sub-gênero de Melipona, que compreende tôdas as 
espécies brasileiras). "Mel de pau" é o mel destas 
espécies, diferentes do "mel de abelha" (do reino). Mel 
(ou "mé" na pronúncia caipira) refere-se tanto ao pro- 
duto como ao inseto, ao qual, mais explicitamente chamam 
"pai de mel"; as larvas são a "fi (li) ação". (Veja sob 
"Abelhas sociais indígenas"). 

Meleta — ou "Melete" ou "Tamanduá cole- 
t e", no Norte é o mesmo que "Tamanduá m i r i m" 
no Sul, onde de fato é a menor espécie da família ; no Nor- 
te, porém, há ainda outra bem menor ("T a m a n - 
duá-i") e lá portanto "mirim" seria ambíguo. 

Melro — Em Portugal designa um pássaro canoro, fa- 
moso cantor como o nosso "S a b i á", aliás pertencente a 
mesma família. Por uma comparação muito pouco justi- 
ficável, designa-se no Brasil como "Melro" a "G r a ú - 
n a"; além disto também o "S o 1 d a d o" é conhecido por 
igual nome, bem como o "R e c h e n c h ã o". 

Mercador — Em Recife dá-se êste nome ao peixe ma- 
rinho lá também mais conhecido por "Frade". 

Merequem — Goeldi e também Snethlage atribuem 
êste nome aos Psittacideos: Commis cacforiim (congéne- 
re da "J a n d a i a") e a diversos "T i r i b a s" (gên. 
Pijrrlmra) sendo que êstes últimos são "Merenquens 
do i g a p ó". 

Mergulhador — Veja sob "M a r r e c a". 

Mergulhão — No Sul de Minas Gerais chamam assim 
os coleópteros aquáticos (Hydrophilideon, Dytincideos e 



505 " 



Gyrinideos) ; de fato muitas espécies mergulham continua- 
damente e impressiona a agilidade com que evoluem, cor- 
rendo sobre a água. 

Com mais precisão o nome designa só as espécies de 
coleópteros das mesmas famílias que repetidamente mer- 
gulham durante longo tempo, passando mesmo a maior 
parte de sua vida debaixo da água. Como, entretanto, sua 
respiração é a comum, por meio dos estigmas, êstes be- 
sourinhos levam a necessária provisão de ar consigo; ao 
mergulharem, fazem-se envolver por uma bolha de ar, que 
lhes fornece o oxigénio e, exgotado êste, voltam à tona, 
para repetir a manobi'a. 

As larvas de algumas espécies, de 3 a 4 cms. de com- 
primento, com possantes mandíbulas, são carnívoras e, 
nos tanques de piscicultura causam dano considerável. 

Mergulhão ou "Atobá" — Ave da fam. Sulideos, 
Sula lencogastra. Além desta espécie, são assim deno- 
minadas outras aves que mergulham com perfeição, tais 
como Aechmophonii; Podilymhiis e Podiceps. Na Ama- 
zónia, onde o Atobá (Sida) não ocorre, só o "B i g u á" 
é conhecido por "Mergulhão". Mas de fato, quem 
com mais justa razão merece o título de mergulhador 
emérito, é o Atobá ( ou "T o b á", como o povo já come- 
ça a abreviar o nome). Pode-se compará-lo a um ganso 
ou pato, de bico curvo na ponta e denteado nos bordos. 
O colorido é bruno, côr de café, com barriga branca; 
a garganta e os loros são mis, encarnados. Vive à beira- 
mar e, voando até regular distância da costa, espreita os 
peixes que sua vista descobre debaixo d'água. Havendo 
peixe à flor d'água, a ave vôa a pouca altura; si a caça, 
porém, nada a maior profundidade, o atobá eleva seu vôo 
a 20 ou 30 metros e dessa altura se precipita como uma 
flecha; no percurso aéreo êle ainda mantém as azas um 
pouco abertas, mas no momento de penetrar na água, êle 
as junta ao corpo. Durante alguns segundos a ave perse- 
gue o peixe e si foi feliz, vindo à tona, engole o bocado 
nadando, para depois alçar o vôo. 

Parece que é a esta espécie que nos Abrolhos dão o 
nome de "P i 1 ô t o" e a seu respeito o Sr. J. Mesquita 
relata na "Voz do Mar" (N." 31) o seguinte fato bas- 
tante curioso: "Existem nas ilhas de Abrolhos aves aquá- 
ticas relativamente grandes, semelhantes a patos domés- 
ticos, denominados "Pilotos". Mais ou menos às 17 ho- 
ras estas aves se recolhem à ilha Redonda, não mais voan- 
do; aí os pescadores atormentam-nas com a ponta de 



— 506 — 

uma vara, para obrigá-las a vomitar o peixe que come- 
ram durante o dia. (Os pescadores certamente aprende- 
ram tal ardil pela observação do hábito análogo a que 
nos referimos sob "A 1 c a t r a z"). Os peixes que ainda 
possam ser aproveitados, são cortados para isca; o resto, 
já meio digerido, é pisado com areia e assim êsse engo- 
do é lançado nos pesqueiros, tornando-se então admirá- 
vel a abundância de peixe, a ponto de as linhas não lhes 
darem vasão". 

Mergulhão caçador — Designam assim, bem como 
"P i c a - p a r r a", o interessante Poãilymbus podiceps, de 
30 cms. de comprimento e de colorido bruno-escuro em 
cima, cinzento no lado ventral, porém com a garganta 
preta. Distingue-se bem das outras espécies por ter uma 
cinta preta, como que amarrada ao redor do meio do bico. 

0 caçador, ao aproximíir-se do açude ou da lagôa e ao 
avistá-lo nadando ao largo, pensa poder matar um marre- 
quinho, mas antes que o chumbo atinja o alvo, o esperto 
mergulhão afundou. Longo tempo o atirador desapontado 
espera pelo i"eaparecimento do bichinho, mas êste tão ce- 
do não vem à tona ou, quando muito faz emergir o peris- 
cópio, para poder respirar e assim, qual submarino, des- 
percebi<lo se afasta. O Príncipe Wied afirma ter obser- 
vado o ninho desta ave, asseverando ser flutuante. Não 
encontrámos a respeito melhoi-es informações na litera- 
tura ornitológica brasileira, mas como a mesma espé- 
cie também vive nos Estados Unidos, podemos guiar-nos 
pelas observações lá registradas. De fato, o " M e r g u - 

1 h ã o - c a ç a d o r" só faz seu ninho no meio da vege- 
tação aquática, tanto das lagoas como de pequenos rios. 
Juntando o necessário material ao redor de uma touceira 
de junco, acumula tanta tabóa quanta fôr necessária pa- 
ra que os bordos do ninho fiquem alguns dedos acima do 
nível da água. Sabe Deus como a ave, em tais circuns- 
tâncias, consegue manter a temperatura no gráu neces- 
sário para que os ovos não gorem. E não é só isto. Às ve- 
zes as ondas desprendem o ninho da touceira e então o 
berço flutua à mercê da correnteza e já foi visto uma mãe 
continuar a chocar, calmamente, os ovos, enquanto o ni- 
nho, tran.sformado em bote, era arrastado para o rio cau- 
daloso. 

Mero — Peixe do mar, da fam. Serranideos, Promi- 
cropH itaiara. E' a espécie que atinge maiores dimensões 
entre todas desta família, pois chega a medir 2 Víi metros 
(ou 3'",25, segundo Theodureto Souto), com um peso má- 
ximo de 450 quilos (cf. Monografia de A. M. Ribeiro). O 



507 — 



colorido é oliváceo escuro, uniforme nos adultos, mas nos 
novos notam-se pontos negros na cabeça e 5 faixas sobre 
o corpo. Desovam na embocadura dos rios. São pescados 
à linha, sendo a melhor isca uma "raia santa", viva; 
também são pescados com o harpão e, enquanto "Me- 




rotes", nos cóvos. A carne é das melhores; não poden- 
do ser vendida fresca, vai salgada para o mercado, po- 
rém sem os ossos, porque na medula começa logo a de- 
composição. Em Portugal o mesmo nome designa a es- 
pécie européia correspondente. (Veja estampa da pg. 182). 

Meruanha — O mesmo que "Murua- 
n h a ". 

Meruim — O mesmo que "M a r u i m". 

Meuá ou "M i u á" — Chamam assim 
no Maranhão o "B i g u á - t i n g a" do 
Brasil meridional e que na Amazónia é de- 
nominado "C a r a r á". 

Mexilhão — Nome português dos mo- 
luscos Lamellibranchios marinhos, da fam. 
Mytiliãcos, que são comestíveis; a mesma 
espécie européia, Mytilus eãiãis, também 
ocorre em nossas costas, mas sob for- 
ma de uma variedade, M. edulis pia- Mexilhão 
tensÍH. Não é tão comum nem atinge as 
dimensões do "S u r u r ú" congénere, mas apenas 5,5 cms. ; 
além disto tem impressões de 2 músculos adutores (no 
Sururu há só um sinal). Os envenenamentos, ocasiona- 




508 - 



(los por êstes moluscos, ainda não têm explicação que sa- 
tisfaça bem. Talvez sejam devidos às condições locais, va- 
riáveis, da água que habitam, ou então correm por conta 
de uma toxina (talanina), que se desenvolve no próprio 
corpo dos moluscos, quando êstes se encontram na época da 
reprodução. Veja-se também sob "M a r i s c o". 

Mexilhão das pedras — O mesmo que "S u r u r ú". 

Michole ou "Micholo" — Peixes do mar da 
fam. Serranideos, gên. Diplectrum.. Diferem dos outros 
géneros da família, por terem o alto da cabeça e o foci- 
nho nús; o canto do opérculo é armado de fortes acúleos. 
Também têm êste nome alguns peixes jugulares, gên. 
Bathymaster, com a nadadeira ventral situada quasi na 
garganta e o dorso guarnecido, quasi de princípio ao fim, 
pela respectiva nadadeira. 

Em Porto Alegre dá-se o mesmo nome, "M i c h o 1 a", 
ao peixe d'água doce, da fam. Cichliãeos, gên. Cvenicichla, 
mais geralmente conhecido no Brasil meridional por 
"J o a n i n h a" ou mais para o Norte "J a c u n d á" ou 
"Guensa". Não há propriamente analogia, sinão ape- 
nas vaga semelhança e tanto bastou para determinar a 
adoção do mesmo nome para duas espécies totalmente 
diferentes. 

Mico — Palavra, ao que parece, de origem caraíbe e 
que, levada para Portugal e Ilcspanha, de lá nos foi tra- 
zida, tendo se generalizada principalmente no Brasil me- 
ridional. Êste nome abrange, às vezes, como designação 
genérica, as espécies de símios de porte médio, em oposi- 
ção ao "m a c a c o" (os maiores) e "s a g u í" (os me- 
nores). Em rigor, porém, aplica-se só às espécies do gên. 
Cehus, tais como "Mico p r e t o", C. cirrifer, preto 
com cara bi'ancacenta ; C. libidinosus, o mais comum, 
amarelado, com boné preto; C. rohuntus, bruno-ruivo, mas 
com cabeça, exti*emidades e cauda pretas. As espécies 
congéneres da Amazónia são conhecidas por "Macaco 
prego", nome que abrange tôdas as espécies do género, 
além disto "Caia r a r a", "S a i t a u á" ou "S a i t a i á", 
etc. Caracteriza a todos êles o penteado da cabeça, que 
forma um topete à guiza de boné, de aba levantada. Vi- 
vem em geral em grandes bandos, não raro mesmo às cen- 
tenas. 

São as espécies deste género que mais vezes vemos no 
cativeiro e amestrados; acostumam-se bem, tornam-se bas- 
tante dóceis e aceitam qualquer alimento adequado, fru- 
tas com predileção. 



509 - 



Os micos são o tipo perfeito do macaquinho irrequie- 
to e travesso, capaz de tôda sorte de diabruras e mole- 
cagens; não fossem estas tão ari-aigadas em sua índole 
e seria muitíssimo divertido ter um mico solto em casa... 




Mico 



mas quem já o experimentou, não torna a fazê-lo, lem- 
brando-se das cenas semelhantes às que determinaram a 
expressão: "macaco em casa de louça"! 

Micuim — ou "Mucuim" no Norte do Brasil e 
"B i c h o - c o 1 o r a d o" no Sul (esta aliás é a sua deno- 
minação argentina). Acarinos da fam. Tromlndiideos, co- 
nhecidos na literatura científica antiga por Tetranychus 
inolestissimus, extremamente pequenos, de côr amarelo- 
avermelhada, que vivem nas capoeiras e sobre o capim, 
principalmente no tempo das primeiras chuvas. Provocam 
uma coceira terrível no homem e nos mamíferos e, como 
quasi sempre se acham reunidos aos milhares, é natural que 
geralmente um grande número dêles ataque a mesma ví- 
tima. 



510 



A forma adulta tem 4 pares de patas, a larva apenas 
3 pares. O nome genérico Leptiis é empregado para desig- 
nar as formas larvais mal estudadas. A nossa espécie (tal- 
vez também sejam várias) ainda é mal conhecida e pode 
ser que tenha o mesmo modo de vida como a espécie ja- 
ponesa, que transmite a febre fluvial; nessa espécie só 
as larvas são hematófagas, ao passo que os adultos sugam 
seiva vegetal. Às vezes o povo também designa por "M i - 
c u i m" a forma larval do "C a r r a p a t o e s t r e 1 a" ou 
"C a r r a p a t i n h o" (Amblyomina cayennensis) , con- 
fundindo as duas formas, por serem ambas quasi micros- 
cópicas e incómodas. (Não confundir com o mosquitinho 
de nome parecido, o "M i r u i m") . 

Micurê — O mesmo que "G a m b á". 

Miguim — Nome riograndense do passarinho da fam. 
Tyrmmideos, Pyrocephalus nihimts. E' curioso que nem 
em S. Paulo nem na Amazónia êste companheiro das 
"Guaracavas" pelo parentesco, e rival do "T i c o - 
tico rei" pelo colorido, tenha mei-ecido nome que se 
tornasse vulgarmente conhecido. O colorido é vermelho- 
carmim no lado inferior e no alto da cabeça; a garganta 
é branca; o dorso, as azas e a cauda são brunos. A fêmea 
é uniforme pardo-cinzenta. Como bem o mostram as co- 
res vivas da plumagem, o "M i g u i m" é pássaro do sol 
e por isto foge do frio. De Maio a Outubro desaparece do 
Sul do Brasil, emigrando para a região tropical, onde não 
há inverno. Lembramo-nos com que prazer saudávamos 
no Rio Grande do Sul o reaparecimento dos pi-imeiros 
"Miguins", que nos anunciavam o têrmo final da es- 
tação dos minuanos e das geadas. 

Mija-mija — Molusco Lamellibranchio marinho, da 
fam. Cardiideos, Cardium muricatum, comestível. A con- 
cha é quasi circular, com o ápice, onde se acha a dobra- 
diça das duas valvas, um pouco saliente; não é muito 
abaulada e tôda ela sulcada de linhas, que partem do ápice 
e se vão alargando, gradativamente, para a periferia, co- 
brindo toda a superfície como raios de um leque. Quando a 
maré abandona o molusco na praia, êle procura descer 
para o mar e, andando, de vez em quando solta um pouco 
de água pelos orifícios sifonais, afim de refrescar a areia, 
costume êste que determinou o nome vulgar. Em Portu- 
gal é êste o "B e r b i g ã o". 

(Milhafre) — Apezar de haver em nossa fauna vá- 
rias espécies de falcões que correspondem àquelas que em 



— 511 — 



Portugal são conhecidas pelo nome de "Milhafre", esta de- 
nominação não logrou divulgação entre nós. 

Mineira — isto é "F o r m i g a mineira"; veja 

esta. 

Minhoca — Na acepção vulgar, esta denominação 
abrange tôda sorte de vermes terrestres ou aquáticos, com- 
preendendo pois, em sistemática zoológica, os vermes Oli- 
gochetas e jíarte dos Polychetas. Os primeiros são terres- 
tres ou da água doce, de corpo roliço, sem apêndices e ape- 
• nas com finos espinhos inconspícuos; os Polychetas são 
marinhos e os segmentos do corpo têm parapódios ou se- 
jam apêndices mais ou menos modificados, com fios longos 
ou curtos e a cabeça tem cirros ou tentáculos. 

Os Oligochetas são todos hermafroditas; é geral a fe- 
cundação cruzada. No terço anterior do corpo um conjun- 
to de 6 segmentos um pouco entumecidos forma o clitelo, 
que segrega mucilagem destinada a envolver os ovos. 

No sentido mais restrito, a minhoca é uma das muitas 
espécies do primeiro grupo, pax'ticularmente da fam. Lum- 
bricideos. Além das espécies indígenas há várias importa- 
das, cosmopolitas, como a chamada "minhoca louca" 
(Pheretima haioayana). Esta última é da fam. Megaaco- 
lecidcoíi, da qual há ainda outras espécies bem como da 
fam. GlosHoscolecideos, a qual pertence o enorme "m i - 



A diferenciação baseia-se na forma e no número dos 
espículos e portanto é impossível definir, resumidamente, 
algumas das muitas espécies. 

Certas minhocas vivem somente na terra úmida ou 
gorda; poucas dão-se bem em terra sêca ou safara. 

Foi Dai'win quem pôs em evidência o valor das mi- 
nhocas como beneficiadoi-as do solo; contou êle o número 
de exemplares que vivem num metro quadrado; verificou 
até que profundidade extendem seu trabalho e calculou, 
por fim, o volume de tei'ra que êsses vermes revolvem. 
Chegou, assim, a conclusões interessantíssimas, que de- 
monstram a utilidade das minhocas para a agricultura; 
elas não só arejam a terra, com o que se torna possível 
o trabalho dos germens aeróbios em camadas profundas, 
como também beneficiam diretamente o sub-solo, levando 
para lá detritos fertilizantes. Posteriormente, as obser- 
vações de Darwin foram controladas por outros pesqui- 
zadores e assim podemos aceitar como bem comprovados, 
para certas espécies, os seguintes dados. 

As minhocas são vermes de hábitos principalmente 
noturnos ; preferem a úmidade e por isto mantêm-se à flor 




512 



da terra de noite e quando chove, escondendo-se nas ca- 
madas mais profundas no tempo da seca. 

Para se enteri-ar, a minhoca ou estira ou adelgaça o 
corpo, enfiando-se pelos interstícios e aproveitando a po- 
rosidade, ou então vai comendo a terra e esta vai-lhe pas- 
sando pelo tubo digestivo; desta forma o verme não en- 
contra obstáculo pai-a seguir seu caminho. Conforme a 
qualidade do solo, foram contados de 300 a 700 minhocas 
por metro quadrado (e até 8.000, incluindo na contagem 
as espécies mínimas, de até 20 mms. de comprimento). 
Seu alimento consiste não só em substâncias orgânicas, 
que encontram misturadas à terra, como também levam 
folhas, sementes e outras substâncias ve- 
getais para seus túneis e lá aproveitam o 
que podem dêsse material. Para esvasiar 
o tubo digestivo, vêm à superfície e é dês- 
te modo, principalmente, que contribuem 
pai-a o revolvimento do subsolo; num al- 
queire de terra as minhocas ti-azem anual- 
mente de 20 a 40 toneladas de terra para 
a superfície. 

Inúmeras pesquizas foram feitas, afim 
de verificar até onde vão as possibilida- 
des de regeneração, que caracterizam os 
vermes Oligoquetas. 

*Corte-se uma minhoca em vários pe- 
daços e todos êles se completarão, criando 
nova cabeça e nova cauda; corte-se vinte 
vezes as duas extremidades do mesmo exemplar e sempre 
elas brotarão de novoi 

Ao contrário do que pensa muito hortelão mal infor- 
mado, raros são os casos bem comprovados de malefícios 
iniciados pelos Oligoquetas; quasi sempre o ataque ini- 
cial às raizes das plantas é devido a outros seres e só 
secundariamente os vermes se associam à destruição dos 
tecidos lesados. 

Universal é o emprego das minhocas como isca, na 
pesca; também como alimento para peixes de aquário é 
dos mais adequados. 

Em piscicultura a família dos Tubificideos tem gran- 
de importância; são aquáticos, em geral pequenos, (30 a 
40 mms.) finos, de côr vermelha e constroem pequenos 
cones de lama, na água, e, tendo a cabeça escondida no tu- 
binho, deixam de fõra a parte posterior e com ela exe- 
cutam movimentos de pêndulo. Leonardo Motta registrou 




Minhóca 



SciELO 



10 11 12 



513 — 



como provérbio cearense: "Quem foi mordido por cobra, 
tem medo de minhoca" (Gato escaldado, de água fria tem 
medo) . 

Minhoca louca — A espécie importada Pheretima 
kawayana, hoje muito comum nas nossas hortas e jardins, 
fas jus àquele nome vulgar, porque salta como louca, quan- 
do se a desenterra ou incomoda. 

Mínhucussú ou "Minhoca grande — Verme 
Oligocheta, Glossoscolex (jigaritevs, que vive nos brejos e 
atinge mais de um metro de comprimento; outra espécie 
do mesmo género, G. wiegreeni, também de dimensões 
avantajadas, prefere as matas. 

Mira — ou por extenso "B a d e j o - m i r a; veja 
êste. ^ 

Miraguaia — Peixe do mar da fam. Sciaenideos, Po- 
gonim cromis, da mesma família a que pertencem as 
"Pescadas" e " C o r v i n a s " ; cerca de 20 barbeis 
guarnecem a mandíbula. Os indivíduos novos são pratea- 
dos, com 4 faixas transversais e têm então o nome "B u r - 
r i q u e t e" (no Rio Grande do Sul) ; os adultos, que 
atingem quasi 1 l/í! metros de comprimento e 60-65 kilos 
de peso, são escuros (dali o nome "P i r á - u n a" que 
também lhe dão, principalmente no Norte). Não temos 
certeza si o peso e a medida indicados foram de fato bem 
comprovados; Jordan e Evermann nos Estados Unidos 
citam como peso máximo 146 libras (63 kilos) e isto, em 
confronto com o "M e r o" parece ser pouco. Como to- 
dos os peixes desta família, o "Miraguaia" emite 
sons bastante intensos, principalmente os machos, nos tem- 
pos da procreação. Habilita-os a essa produção de sons, 
comparados a rufos de tambores, a conformação especial 
da vesícula natatória, na qual o ar é compelido para dian- 
te e para trás o que faz vibrar a película em distensão. 

Vivem no fundo do mar e também nas regiões do 
mangue e alinientam-se de tôda sorte de pequenos seres, 
como também de moluscos, cujas conchas facilmente que- 
bram com seus dentes fortes. Diz-se que muitas vezes de- 
vastam as ostreiras. 

No mercado são estes grandes peixes retalhados em 
postas e sua carne, ainda que um tanto inferior em quali- 
dade à das "Pescadas", que pertencem à mesma fa- 
mília, é apreciada por não ter espinhas finas. O capitão 
de fragata A. R. Teixeira, em um interessante estudo so- 
bre a salga do peixe no Rio Grande do Sul (Rev. Marí- 
tima Bras. Abril 1923) considera o Miraguaia um perfeito 



— 514 — 



sucedâneo do bacalhau importado; lastima, porém, o pés- 
simo preparo que se lhe dá; das mantas, mal escamadas, 
não se eliminam as vértebras e, além disto, são mal se- 
cas (verdes) . Tudo isto influe sobre o peso, que assim é de 
3 quilos por manta, quando esta, preparada pelo proces- 
so do bacalhau, deveria pesar apenas 1 1/2 quilo. Tal "es- 
perteza" fraudulenta, além de tudo é inútil, pois, mal pre- 
paradas, alcançam apenas o preço de 3$000, quando as 
mesmas mantas, beneficiadas como deveriam ser, apezar 
da redução do peso, renderiam mais, valendo o bacalhau 
importado 3$500 por quilo. Os processos rotineiros dês- 
se preparo redundam na fácil deterioração da mercadoria, 
pelo que esta dificilmente alcança boa cotação nos merca- 
dos importadores dos outros Estados do país. A própria 
estatística da alfândega do Rio Grande o demonstra: em 
1920 o pescado nacional, preparado, com 1.800.000 qui- 
los de peso, orçou em 870 contos de i-éis (900 réis, o qui- 
lo) , ao passo que no mesmo ano foram importados 240.000 
quilos de bacalhau ao preço de 600 contos (a 2S500 réis 
o quilo) . 

Não pudemos verificar, ao certo, por que razão a 
estatística alfandegária mantém separadas duas rubri- 
cas, miraguaia e burriquete, quando se trata do mesmo 
peixe, assim denominado conforme a idade. Questão de 
tamanho das mantas? Para comprovar a abundância de 
miraguaias nas águas do Rio Grande do Sul, o Sr. R. Gliech 
registra o fato de que em Outubro de 1924, durante e de- 
pois de um forte temporal, em Tramandaí foram pesca- 
dos cêrca de 10.000 exemplares dêste peixe. 

Miriápode — Esta denominação, usada pelos letrados, 
não logrou vulgarização na nomenclatura popular. Abran- 
ge duas classes distintas 
de artrópodes : Chilopodefi, 
com um só par de pernas 
em cada segmento, miriá- 
podes estes que são vul- 
garmente conhecidos por 
"Centopeias"; Di- 
plopodes, com 2 pares de 
pernas em cada segmento 
Miridpod« e chamados pelo povo: 

em cima : ciiiiópode "Píolho de cobras", 

em baixo :Diplópode. "Gongolo" OU "E m - 

b u á". Há em nossa fauna 
cêrca de 50 espécies de Chilopodes e 210 de Diplopodes. Os 
antigos compêndios de zoologia reuniam em uma só cias- 




— 515 ^ 



se os dois tipos compreendidos por esta denominação. Ho- 
je, porém, está verificado que a analogia de formas é ape- 
nas aparente e que os Chilopodeíi têm muito maior afini- 
dade com os insetos do que com os Diplopodes. 

Mirim — Abi-ange várias espécies de abelhas sociais 
da fam. MeUponideos, gên. Trigona e, como o diz o nome 
tupi, as espécies pequenas ou mínimas, havendo delas de 
apenas 2 mms. de comprimento (Trigona muelleri), no 
Brasil meridional. Menor ainda é a espécie do Norte, Tr. 
duckei, com 1,75 mms., lá conhecida por "Lambe- 
o 1 h o s". 

Mirim preguiça — Abelha social da fam. MeUponi- 
deos, Trigona schrottkyi, que mede 3 mms. de comprimen- 
to e é de côr parda, com pêlos brancacentos e azas hiali- 
nas. Nidifica em madeira podre, postes, batentes, etc. Os 
potes de mel têm apenas 5 a 6 mms. de diâmetro e todo o 
ninho é proporcionalmente pequeno. 

De noite as abelhas fecham a entrada com cera, co- 
mo aliás é costume das Trigonas menores ; mas a presente 
espécie só muito tarde na manhã seguinte, às vezes depois 
das 10 horas, abre a porta, para recomeçar o trabalho e 
daí o seu renome de preguiçosa. Veja-se também sob 
"Abelha m i r i m". 

Mirim rendeiro — O mesmo que "T u j u v i n h a". 

Miriquina — Em Mato Grosso, é o mesmo quo "Ma- 
caco da noit e". Veja-se também "Mariqui- 
nha s", "M u r i q u í" e sob "M o n o". 

Mirocaia — Veja-se sob "M u r u c a i a". 

Miro ró — ou também '"M o r o r ó" e "Tororó", 
bem como "Mutuca pintada" são nomes dados na 
Baía às várias espécies de Muraenideos, cujo principal re- 
presentante é o "C a r a m u r ú" (veja este) ; há tam- 
bém larga variabilidade de colorido entre os exemplares 
da mesma espécie, de modo que a nomenclatura popular 
se torna de todo imprecisa. Na ilha de Itaparica diz-se 
também "M iroró caramur ú". 

A carne é pouco apreciada, pois que no mercado al- 
cança apenas um terço do preço pelo qual são vendidos o 
camorim e a tainha (em Alagoas respectivamente 300 réis 
e IÇOOO por kilo). 

Theodoro Sampaio interpreta o nome (corruptela de 
"miroiró") como significando "o despresado, repudiado". 

Miruim — O mesmo que "M a r u i m". 



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Miuá — Denominação maranhense e talvez nortista 
em geral, do "B i g u á - t i n g a". Veja sob "M e u á". 

Mixila — No sul do Piauí, é o mesmo que "M e 1 e- 
t a" na Baía, isto é o "T a m a n d u á" comum. 

Moça branca — Abelha social da fam. Meliponideos, 
Triíjona varia, da Baía e Norte do Brasil. No Ceará a mes- 
ma espécie é conhecida por "A b r o u". Nidifica em pare- 
des de taipa ou em árvores ôcas, com entrada pouco salien- 
te. Nêstes ninhos não se encontra o habitual invólucro, 
nem as células formam favos; à semelhança do que foi 
dito sob "F r e c h e i r a", as células de incubação agru- 
pam-se em cacho ou rosário. 

Mocho — São aquelas corujas que têm região au- 
ricular grande, maior que o olho, e ouvido provido de opér- 




Mocho orelhudo 



culo; uma grande corôa facial, de cada lado, abrange o 
olho no meio. Géneros Oííí.s*, Pulsatrix e Ciccaba. Pouco 
se sabe ainda com relação à nossa fauna, das particularida- 
des da vida destas aves noturnas, principalmente no que 
diz respeito à sua alimentação. Seria preciso registar, em 
longas séries, as análises do conteúdo estomacal, para se 
poder chegar a conclusões seguras, quanto ao papel que 
essas corujas desempenham na natureza. 



— 517 



Nos Estados Unidos os especialistas já realizaram 
tais investigações e de cada espécie foram examinadas al- 
gumas centenas de estômagos. Os resultados variam, de 
acordo com a índole da espécie em questão. Alguns mo- 
chos se alimentam, quasi exclusivamente, de ratos e assim 
são utilíssimos; outros acrescentam algum pássaro à lista 
de suas prezas, mas, como nêste caso muitas vezes se trata 
de pardal europeu, ainda assim o caçador noturno merece 
ser elogiado. Com tôda a imparcialidade os juizes estabe- 
leceram, para cada espécie, qual seu "débito" (destruição 
de aves úteis) . Pois só com relação a duas espécies evi- 
denciou-se um "deficit" de utilidade; mas nem assim ani- 
maram-se os juizes a decretar sua destruição, limitando- 
se a aconselhar a restrição da espécie, onde ela prolifere 
em demasia. As outras espécies foram elevadas à catego- 
ria que as recomenda como sendo "de utilidade pública", 
mau grado a aversão do povo contra essas aves, tidas co- 
mo agoureiras. Para combater êsse preconceito, o Minis- 
tério da Agricultura e as Sociedades protetoi-as das aves 
não pouparam esforços, tendentes a instruir os inimigos 
gratuitos dessas corujas, os quais, por ignorância, esta- 
vam sacrificando bons auxiliares seus. 

Mocho mateiro — Coruja grande, Pulsatrix perspi- 
cilhtta, que na Amazónia é conhecida pelo nome "M u r u - 
c u t u t ú". O lado superior é bruno, côr de café com sal- 
picos e linhas indistintas nas azas e na cauda; o lado in- 
ferior é claro, porém com uma larga coleira escura sobre 
o peito; por cima dos olhos passa uma linha superciliar, 
branca. 

Mocho orelhudo — Mocho grande, cuja cabeça é 
enfeitada com penas longas, que fingem pavilhão de ore- 
lha, Obifí clamator. A ave pode mover essas suas pseudo- 
orelhas, de forma a levantá-las, o que lhe dá um curiosís- 
simo aspeto, ou então deita as penas para trás, principal- 
mente quando enraivecida. 

Mocó — Roedor da fam. Caviidcos, Kcrodon rupestris, 
semelhante à "P r e á", porém um pouco maior, de côr 
cinzenta, com mistura de pêlos pretos e amarelos. 

Vive nas regiões pedregosas do interior do Brasil, e 
mora em tocas. No histórico da "moléstia de Chagas", 
transmitida pelos percevejos "barbeií-os", cabe papel in- 
teressante ao mocó, pois foi nas tocas dêste roedor que 
o pesquizador encontrou, de início, reunidos o vetor e o 



— 518 — 



depositário natural do tripanozoma maléfico. No Nordeste, 
pobro em boa caça, o mocó é procurado pelos caçadores. 
Subindo montes pedregosos, com tôda cautela, chega-se a 
lugares em que há muitos mocós, mais ou menos a des- 




Mocó 



coberto; mas a qualquer rumor suspeito se escondem en- 
tre as frinchas. Um assobio fino, às vezes, consegue atraí- 
los. Sua carne é apreciada. 

Mocotó — Denominação indígena de um sapo grande 
da Amazónia, (Dic. Ling. tupi de Gonçalves Dias e tam- 
bém Baena) . 

Mocura — No Maranhão é o mesmo que "M u c u r a". 

Moleiro — Na Amazónia chamam assim uma das es- 
pécies de papagaio do género Amazona, também conheci- 
da por "A j u r ú", A. farinosa. Extende sua distribuição 
até o Norte do Rio de Janeiro e, de resto, é frequente nos 
mercados como papagaio ensinado. Atinge 50 cms. de 
comprimento e seu colorido verde no dorso é como que 
polvilhado de cinzento claro ou quasi branco e daí seu ape- 
lido; o ventre é verde amarelado, a fronte bem amarela; 
só o encontro das azas é debruado de vermelho. Comem- 
no, apezar de ter carne dura; mas ninguém rejeitará o 
caldo, que é tido como muito superior ao de galinha. 

Moleque — Nome que se dá na Baía à broca do 
bulbo da bananeira, larva do Colcoptero da fam. Calan- 
drideos, Cosmojwlitcs sordidus: e ainda às duas espécies 
do gên. Metamasius, também das bananeiras e Rhyncho- 
phorn.9 do coqueiro (veja "A r a m a n d a i a"). 



519 — 



Moluscos — Si fizermos abstração das poucas es- 
pécies de moluscos que nos são de certo valor económico, 
podemos dizer que esta classe não merece, por parte do 
povo, outro interesse sinão o que desperta a feição mais 
ou menos artística da concha calcárea — o que aliás não 




Moluscos 

a-b) Amphineuro (visto de cima e de lado), c) Oasteropode 
(caramujo), d) t.amcUibrancIúo (bivalvo), e> Cephalopodes 



corresponde, de forma alguma, ao elevado númei*o ou à 
imensa variedade aqui compreendida. Dentre as várias 
espécies conhecidas, o maior número vive no mar; uma 
menor parte é fluvial e relativamente poucas são puramen- 
te terrestres. 

Só os representantes de três, das cinco ordens que 
constituem a classe dos moluscos, têm nomes vulgares: 

a) "Caramujo s", "Caracóis" e "L e s - 
m a s" são representantes da ordem dos Gasteropodes, 



— 520 - 



animais que se caracterizam por terem 1 ou 2 pares de 
tentáculos reti'ácteis na cabeça. 

b) "Conchas" são os moluscos da ordem dos La- 
inellibranchios, cujo corpo, desprovido de cabeça e por- 
tanto também sem tentáculos, é envolvido por concha bi- 
valva, com as duas metades unidas por meio de ligamento 
elástico e nesse ponto providas de sulcos e dentes, que se 
encaixam, formando a "charneira". 

c) "P o 1 v o s" e outras formas semelhantes ("1 u 1 a", 
"c a 1 a m a r", etc.) que têm 8 ou mais tentáculos na ca- 
beça, constituem a ordem dos Cephulopoãcs. 

Estas três ordens (e mais a dos Scaphopodes, con- 
chas em forma de tubinho cónico aberto dos dois lados, es- 
pécies estas que não lograram nome vulgar) constituem a 
classe dos Conchiferos. A segunda classe dos Amphineu- 
ros, de corpo achatado ou vermiforme, revestido por cutí- 
cula que em geral tom espinhos, igualmente só compi'een- 
de espécies marinhas, pouco aparentes e portanto desco- 
nhecidas do povo. 

MohiHcos comestíveis — Limitamo-nos a enumerar 
os nomes vulgares sob os quais, neste vocabulário se acham 
descritas as espécies em questão. 

Amêijoa*, bacucú*, bei-bigão*, buzo, buzinho, ca- 
lavutr, calorim (=pavacaré), chave, gurirí (= ostra), 
lapa, leque, linguarudo (=pavacaré), marisco (nome ge- 
nérico e também - mexilhão), mexilhão, mija-mija*, mu- 
çarate (= saguaritá), ostra (várias espécies), pata de ca- 
valo, pavacaré, peguaba, periguarí, polvo, rosca, rosfjui- 
nha, saguaritá, sarro de pito (= berbigão), sernambi*, 
sernambitinga*, snrurii, tarioba, tampafoli, unha de velha. 

Bem poucas destas espécies são apreciadas a ponto 
de motivarem pesca si.stematizada ; na lista sempre foram 
estas assinaladas pelo tipo grifado ; as demais espécies são 
apenas aproveitadas, eventualmente, pelos praieiros, estan- 
do marcadas com * as mais pi-ocuradas. 

Mombuca — Abelha social da fam. Meliponideos, 
Trigona capitata, de 8 mms. de comprimento, preta com 
penugem grisalha, abdómen bruno, com orlas amarelas 
nos respectivos segmentos. São abelhas mansas, que nem 
mesmo reagem ao se abrir seu ninho, o qual se acha em 
árvores ôcas e tem porta pequena e simples. 

Mondéu — Os caçadores distinguem, por êste ape- 
lido, não só o "C o a t í" que anda isolado, desligado da